3. INTERPRETIVISMO DE DENNETT: INTENCIONALIDADE
3.4. Usos diferentes e complementares para o termo
3.4.3. O que seria um meme?
Foi visto109 que, segundo Dennett, para o algoritmo evolutivo entrar em cena, é
necessário haver três elementos: variação, retenção e seleção. A questão aqui é: o que varia, é retido e é selecionado? Não é preciso haver uma unidade replicadora? Conforme Dennett (1990), os memes são “unidades memoráveis distintas”, como arco, roda, usar roupas, triângulo retângulo, movimentos artísticos... Porém, não fica claro quais são as unidades replicadoras. O problema, quando se trata de cultura, é que estamos lidando com complexos muito difusos, como poderíamos isolar uma unidade cultural e considerá-la como replicadora? No caso dos memes da internet, o meme pode ser simplesmente aquela figurinha que as pessoas replicam em suas redes sociais. Mas isso deixa de levar em consideração a grande quantidade e a complexidade das relações que esse meme replicador mantém com vários outros aspectos do entorno histórico e social sem os quais o meme da internet não poderia ser compreendido110.
Poderia-se argumentar que os organismos são extremamente complexos, especialmente se forem comparados aos genes e que ainda assim os organismos podem ser vistos (numa perspectiva do gene) como veículos de genes. Aqui, deve-se considerar que os cientistas genéticos são capazes de manipulá-los, o que sugere, mesmo para uma leiga, que há uma clareza em relação à unidade que está se reproduzindo, a tal ponto que é possível interferir artificialmente e alterar o curso das relações entre essas unidades. No mais, o gene é uma unidade estável, ao contrário do meme, pois os processos culturais mudam em uma velocidade extremamente acelerada.
Além disso, por mais complexo que seja um organismo, ele possui limites, são limites porosos, mas permitem uma separação entre os ambientes interno e externo do organismo. No caso da cultura, é muito difícil, se não impossível, encontrar esses limites. A memética tem enfrentado muitas críticas há bastante tempo. As críticas tendem a enfatizar as dissemelhanças entre os memes e os genes.
A maneira como Blackmore enfrenta essa crítica é dizendo que a analogia entre memes e genes é frouxa e que o próprio Darwin pôde construir sua teoria mesmo sem ter uma imagem da evolução baseada em genes. O aspecto importante da analogia entre genes e
109 Ver: seção 1.4.1.
110 Uma cultura globalizada permite um fundo de conhecimentos compartilhados cada vez mais amplo e capaz de envolver mais pessoas. Isso poderia ser usado como argumento pelos defensores da memética: que a globalização é obra dos memes para benefício próprio. Mas esse argumento não é muito convincente, pois parece depender da aceitação prévia dos memes, é especulativo demais.
memes, segundo ela, é que ambos carregam informações. Segundo ela, “[n]ós podemos percorrer um caminho com os princípios gerais da seleção memética sem entender os mecanismos dos quais ela depende” (BLACKMORE, 1999, p. 56, tradução nossa).
Porém, a teoria de Darwin passa a ganhar grande aceitação científica após a síntese com o trabalho de Mendel, ocorrida apenas em 1942. Mendel começa a fazer suas pesquisas com cruzamentos de ervilhas em 1856 e Darwin publica sua teoria da seleção natural em 1858. Ou seja, quase um século se passou até que houvesse a síntese. A síntese compreende os genes como elementos de herança ao longo de gerações e traz um bojo ao trabalho de Darwin por mostrar como o processo evolutivo pode se dar a partir da replicação dos genes.
Dizer que Darwin pôde desenvolver a sua teria sem ter conhecimento dos mecanismos envolvidos no processo para dizer que a memética também pode se desenvolver sem que se conheçam os mecanismos envolvidos no processo de evolução cultural parece carregar uma promessa: de que a perseverança no estudo memética permitirá compreender com detalhes os mecanismos envolvidos no processo. Ora, mas esses mecanismos envolvem a descoberta da unidade replicadora. A promessa parece otimista demais para justificar a memética como campo de pesquisa.
Mais tarde (2017b), Dennett identifica as palavras como exemplos paradigmáticos de memes. À primeira vista, isso ajudaria a uma aproximação em relação às unidades replicadoras. “Palavras, eu argumentarei, são o melhor exemplo de memes, itens culturalmente transmitidos que evoluem por replicação diferencial - isto é, por seleção natural” (DENNETT, 2017b, p. 176, tradução nossa). Dennett argumenta, aqui, que as palavras são discretas e possuem reprodução fiel. Ele faz referência a uma comparação feita por Dawkins (2004, apud DENNETT, 2017b) entre palavras e genes. De acordo com Dawkins, palavras são menores que genes, mas assim como genes, podem se combinar de diferentes maneiras em diferentes contextos. Para Dennett uma característica importante das palavras é que elas têm um tipo de digitalização: os fonemas ou os sinais gráficos que carregam seu conteúdo cultural, aproximando os memes dos genes no quesito da digitalização.
Os exemplares [“tokens”] de “gato” não são réplicas físicas de seus ancestrais, mas eles são - nós poderíamos dizer - réplicas virtuais, dependentes de um sistema finito de normas pelas quais os falantes inconscientemente corrigem suas percepções e suas enunciações, e isso - não a replicação física - é o que é requerido para transmissão de informação de alta fidelidade (DENNETT, 2017b, p. 227, tradução nossa).
Outro exemplo de Dennett é o da literatura. Segundo ele, duas impressões diferentes, mesmo que feitas em diferentes fontes, são cópias do mesmo romance, assim como diferentes traduções para um idioma ou para idiomas diferentes. O fato de a tradução envolver compreensão, segundo ele, não impede a confiabilidade da transmissão cultural. Aqui, Dennett passa da palavra para algo bem mais complexo, o romance. A transmissão do romance, segundo ele, envolve compreensão.
Aqui, a crítica à noção de meme como uma unidade replicadora pode se apresentar, contrariamente ao que Dennett pretendia com seu exemplo. Acontece que, nesse nível, já se torna muito difícil determinarmos o que está sendo reproduzido. A compreensão de um romance envolve uma série de outros aspectos culturais. Quanto mais distante um leitor estiver daquela cultura onde o romance foi construído, mais diferente será sua compreensão daquele romance em relação às pessoas que viviam no mesmo ambiente cultural do autor. Essas diferentes compreensões não impedem que pessoas das mais diversas culturas leiam o romance nas mais diversas línguas e aleguem que leram aquele mesmo romance. Porém, impedem que se determine qual a interpretação correta daquele romance, colocando-nos diante de um caso de indeterminação que, provavelmente, impossibilita a determinação da unidade replicadora.
Mas será que esse problema ainda permanece quando descemos para o nível da replicação das palavras? Sim, o problema permanece e talvez até se agrave. Uma palavra isolada depende de uma série de outras informações para que se possa ser compreendida. Seu significado não existe isoladamente de outros significados. Caso contrário, teríamos apenas ruídos ou rabiscos em um papel. O sinal de “gato” não fará qualquer sentido se eu não tiver me envolvido em relações de triangulação na infância que me ensinaram palavras por meio de ostensão. Uma palavra emitida não é uma palavra solta. Se eu não souber em que idioma estamos ambos falando, se eu não tiver como pressuposto que o emissor de “gato” possui crenças compartilhadas comigo, que ele quer se comunicar, e mais uma série de outras atribuições de atitudes proposicionais, “gato” se torna um ruído qualquer, sem nenhum sentido. Por isso, aparentemente, a palavra não é essa entidade replicadora discreta que pareceria à primeira vista.
Há duas lições provenientes das raízes interpretivistas de Dennett que são de difícil conciliação com a memética: o holismo dos termos mentais e a indeterminação da interpretação (e Dennett tem uma postura radical acerca da indeterminação). Isso ocorre porque, em uma posição como a interpretivista, nada na linguagem é concebido de modo isolado, mas sempre em relação com a mente e com o mundo. Se a perspectiva interpretivista
é levada adiante, como Dennett leva, a mente humana é sim um produto da cultura. Mas o problema da memética não é esse. Também não é conceber a cultura como um processo que segue sua evolução paralelamente e independentemente da evolução biológica, com pontos de intersecção entre elas111. Aliás, esse é provavelmente um ponto forte da memética. O
problema é a pressuposição de que haja um replicador, o meme, pois a cultura envolve complexos informacionais muito difusos, altamente conectados e emaranhados. Fica muito difícil encontrar o replicador para a memética. A memética parece carregar uma promessa muito difícil de se realizar e aparentemente incompatível com outros aspectos do pensamento de Dennett: a promessa de se descubra o aspecto discreto capaz de reprodução de alta fidelidade no meio da cultura.