4. COMO COMPREENDER OS ESTADOS MENTAIS
4.2. Dennett: a realidade que provém da utilidade
4.2.2. Dennett critica Davidson acerca da ontologia das
Dennett dedica parte do artigo Real Patterns (1991a) à apresentação da diferença - que considera sutil - entre sua perspectiva e a de Davidson acerca da ontologia das atitudes proposicionais. Ambos pensam que as atitudes proposicionais são reais a ponto de permitirem uma previsão acurada do comportamento alheio, mas Davidson tem uma postura mais realista. Considerando que ambos foram discípulos de Quine, Dennett vê como a raiz dessa diferença opiniões diversas sobre o status do princípio de indeterminação da tradução, embora o princípio seja aceito pelos dois autores. Conforme Miguens (2002, p. 172) “Para Dennett, Davidson ainda que considere acertadamente que a teoria do mental deve ser uma teoria da interpretação, leva as atitudes proposicionais mais a sério do que deveria, como quineano. Dennett reclama para si, por conseguinte, o título de verdadeiro quineano.”
Segundo Dennett (1991a, p. 46), Davidson vê esse princípio de modo quase trivial. Ele encara dois manuais de tradução que sejam diferentes e igualmente funcionais analogamente a duas escalas diferentes para medir algo, por exemplo, a medição da temperatura em graus fahrenheit ou célsius. Foi dito acima que, assim como os números podem capturar todas as relações empiricamente significativas entre pesos e temperaturas de infinitas formas possíveis, Davidson defende que a fala de uma pessoa poderia capturar todas as características significativas do pensamento de outra pessoa, sem que isso desafie a realidade das atitudes proposicionais.
Dennett, por outro lado, vê o princípio de indeterminação de outra maneira. Segundo ele, diante de duas interpretações rivais do comportamento de um indivíduo, o que estaria acontecendo é que aqueles dois intérpretes apresentam uma concordância na forma geral do conjunto de crenças atribuído. Porém, não concordam ponto a ponto porque percebem padrões diferentes - embora não discordantes - no comportamento daquele indivíduo. Para Dennett, o ponto principal da tese da indeterminação é que a interpretação não precisa ter um lastro subjacente.
A diferença, portanto, é que, em Davidson, parece haver algo fixo escondido sob as diferentes atribuições de padrões de crenças e desejos, ao passo que Dennett não está comprometido com essa ideia, e por isso rejeita a analogia dos diferentes sistemas de medição. O pensamento de Davidson acaba tendendo mais ao realismo do que o de Dennett porque a indeterminação, para o primeiro, consiste apenas em diferentes olhares sobre a mesma realidade. Já para o segundo, os olhares diferentes, por definirem padrões diferentes, descrevem também a realidade de maneiras diferentes, já que os padrões estão na realidade.
Isso tem como consequência que, pela perspectiva de Dennett, mesmo que dois sistemas de atribuição de atitudes proposicionais façam previsões diversas, se ocorrer de apenas uma se realizar, isso não definiria qual deles seria o correto, pois a realização da previsão pode ter simplesmente caído na taxa de ruído.
Como isso me faz menos realista do que Davidson? Eu vejo que poderia haver dois sistemas diferentes de atribuição de crença a um indivíduo que diferissem
substancialmente no que eles atribuíssem - mesmo permitindo predições
substancialmente diferentes do comportamento futuro do indivíduo - e ainda não haveria um fato mais profundo que pudesse estabelecer que um fosse uma descrição das crenças reais do indivíduo e o outro não. Em outras palavras, poderia haver dois padrões diferentes, mas igualmente reais discerníveis no mundo ruidoso. Os teóricos rivais não precisariam nem concordar sobre que partes do mundo seriam padrões e quais seriam ruído, e mesmo assim nada mais profundo iria resolver o problema. A escolha de um padrão iria certamente ser afinal do observador, um assunto a ser decidido sobre um solo pragmático idiossincrático. Eu mesmo não vejo qualquer característica na posição de Davidson que pudesse ser um obstáculo sério para suas analogias astuciosas e concordância comigo. Mas então ele precisaria admitir que a indeterminação não é um assunto tão trivial no fim das contas (DENNETT, 1991a, p. 49, grifos do origina, tradução nossal).
Essa diferença entre Davidson e Dennett acerca da ontologia das atitudes proposicionais não deixa de ser sutil. Os dois autores reconhecem que somos todos fiéis à psicologia de senso comum, confiamos nela e baseamos nela as nossas tomadas de decisão quotidianas. Trabalham sobre isso, reconhecendo a atribuição de crenças como o aspecto mais relevante na compreensão do mental. A psicologia de senso comum é uma ferramenta preditiva que, para eles, descreve padrões reais, ainda que haja divergência acerca da sua força ontológica.
A posição intermediária de Davidson, assim como a minha, vincula a realidade à existência bruta do padrão, mas Davidson negligenciou a possibilidade de dois ou mais padrões conflitantes serem sobrepostos aos mesmos dados - uma indeterminação da tradução mais radical do que ele supôs possível (DENNETT, 1991a, p. 51, grifo do origina, tradução nossal).
Aparentemente, isso não foi mera negligência de Davidson. Ele está empenhado em defender a existência de algo fixo circundado pelas interpretações variantes. Para Davidson, há algo fixo por trás dos diferentes padrões de atribuições de estados mentais, vale enfatizar. Por isso ele compara as diferentes atribuições de atitudes proposicionais a diferentes sistemas de medição. Também por isso ele proíbe que as interpretações variantes sejam logicamente incompatíveis entre si.
Por exemplo, Paul Churchland (1984/2004) defendeu que, embora a psicologia de senso comum tenha um papel importante, a neurologia estaria em vias de desenvolver um conjunto de padrões com poderes preditivos superiores. Dennett, por sua vez, não considera
esse padrão da neurologia atrativo por ser dispendioso demais para nossas necessidades quotidianas. Em outras palavras, ainda que tenhamos em nossas mãos um conjunto de padrões altamente poderoso proposto pela neurologia para nossas explicações e previsões do comportamento, vamos continuar utilizando a psicologia de senso comum, pois ela faz parte daquilo que nos constitui como humanos. Por mais que a neurologia se desenvolva na explicação do comportamento, portanto, ela continuará sendo irrelevante em nossas vivências diárias.
Fodor, com seu realismo intencional fortíssimo e Churchland, com seu materialismo eliminativo são representantes das posições extremas. Porém, essas posições acabam por subestimar, cada uma à sua maneira, a realidade da psicologia de senso comum. Davidson e Dennett se encontram em posições intermediárias. Quanto à pergunta sobre se sua posição é instrumentalista ou realista, Dennett prefere não apresentar uma resposta. Contudo, diante da ênfase que Dennett dá à utilidade quando trata do status da atribuição de estados mentais, podemos considerar sua posição um interpretivismo que não é genuinamente instrumentalista, pois confere força ontológica às atribuições de crenças, mas tem um aspecto instrumental. Podemos entender dessa forma porque, para Dennett, as atribuições de estados mentais são um instrumento de vital importância para nós, donde provém sua realidade. Quanto à posição de Davidson, a força ontológica das atribuições de estados mentais é ainda um pouco maior. Ele tende ao realismo quotidiano120.