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3 SOBRE A PENOSIDADE NO TRABALHO: TERRITÓRIOS,

3.1 Debate em aberto no campo da saúde ocupacional

Considerando o caráter complexo da atividade humana, o debate sobre as relações entre saúde e trabalho tem-se revelado como uma importante temática, uma vez que as consequências sobre a saúde permanecem insuficientemente conhecidas (VOLKOFF, 2005; CRESPIN; HENRY; JOUZEL, 2008). A penosidade tem suas raízes associadas ao significado do termo trabalho, cuja origem vem da palavra latina “tripalium”, que representa um instrumento para realizar tortura ou martírio, referindo-se a um “estado doloroso” (MARQUES, 2007; BLANC, 2008). Neste sentido, a palavra penosidade tem uma adjetivação que se relaciona com uma condição de trabalho dolorosa, de incômodo, de esforço físico ou mental, de desgaste ou sofrimento decorrente de situações de trabalho, que causa restrições, desequilibra ou degrada o estado de saúde do trabalhador (SATO, 1993; MAGANO, 1998; MARTINEZ, 2001; NOVAES FILHO, 2005; HÉAS, 2010; MARQUIE; AMAUGER-LATTES, 2014).

De acordo com Linhart (2011), a penosidade sempre esteve presente no mundo do trabalho, caracterizada pelas restrições impostas aos indivíduos, as quais se constituem como veículos de desacordos e se conformam em dificuldades que repercutem em todas as dimensões da existência. Constrangimentos que foram produzidos pelas transformações dos processos laborais, envoltas nas contradições dos embates das relações sociais, impostas pelos sistemas políticos, econômicos e sociais. Assim, o trabalho em sua evolução tornou-se doloroso; nele, o desconforto, o sofrimento e os riscos psicossociais sobressaem-se cada vez mais no cenário político, público e nos meios de comunicação como um novo fenômeno do trabalho “moderno” contemporâneo, apresentando questões sobre as relações entre as exigências que se colocam aos trabalhadores e também sobre o esgotamento dos recursos para se lidar com as dificuldades que emergem no mundo laboral (LINHART, 2014, p.540, tradução livre).

Nesse contexto, o debate social em torno da penosidade “tomou força e entrou em ressonância com o tema onipresente do sofrimento no trabalho” (LINHART, 2014, 2011, p.150), mas, apesar de o conceito ter se tornado de utilização comum, ele não esclarece o seu uso (VOLKOFF, 2008, p.5, tradução livre). Dadas as diferentes evoluções da dinâmica das relações entre as forças sociais em torno do debate sobre a penosidade, verifica-se uma “dificuldade de definir, qualificar, identificar as profissões penosas e os fatores de

penosidade” (FORTINO, 2014, p.1), emergindo daí algumas questões: como perceber a natureza do esforço ou sofrimento? Que práticas diagnósticas possibilitam configurar as situações caracterizadas pela penosidade? Como estabelecer as diretrizes nas legislações trabalhistas para instrumentalizar o seu reconhecimento?

A análise da complexidade da relação entre saúde e trabalho, realizada pelos modelos tradicionais da Saúde Ocupacional, mostrou-se insuficiente ao correlacionar os riscos apenas com os processos produtivos; mantendo à margem outros fatores que constrangem e dificultam os espaços de regulação dos indivíduos no trabalho. Fato que, com o decorrer da evolução histórica e social do trabalho, promoveu uma discussão e uma evolução conceitual por parte de diversos campos disciplinares pela busca da compreensão do processo saúde e doença no trabalho (MENDES; DIAS 1991; MINAYO-GOMES; THEDIM-COSTA, 1997; ASSUNÇÃO; LIMA, 2003; LACAZ, 2007). De acordo com Echternacht (2008, p.49), os limites destes modelos clássicos “referem-se à ausência de uma elaboração conceitual da atividade humana de trabalho que fundamente a compreensão das relações saúde-trabalho”. Pois investigar esta relação requer tentar compreender a complexidade dos aspectos que envolvem diferentes níveis do indivíduo no trabalho: o fisiológico, a história pessoal e a capacidade de o indivíduo funcionar em determinado ambiente e definir novas normas, estabelecendo relações com os outros (CASSOU, 1995 apud ASSUNÇÃO; LIMA, 2003, p.1768). Nesta perspectiva, a saúde é conceituada como um processo dinâmico que engloba contextos históricos, políticos, culturais, econômicos e sociais num determinado tempo e espaço situado. Portanto, a saúde é

[...] um processo dinâmico construído diariamente pelos trabalhadores que desenvolvem estratégias que visam gerir a constante contradição entre saúde e produtividade, contornando as causas de penosidade ou dificuldade, e realizar a sua actividade apesar delas (CUNHA, L.; COSTA; LACOMBLEZ, 2003, p. 53).

Considerando essas complexas dimensões para compreender a relação entre saúde e trabalho, os campos disciplinares da Ergonomia, da Psicologia do Trabalho e da Ergologia que abordam esta investigação sob o ponto de vista da atividade humana, trouxeram contribuições relevantes para estabelecer novos parâmetros para a investigação dos riscos ocupacionais, na medida em que centraram suas análises sobre o trabalhador, buscando compreender suas ações, emoções e regulações em situações reais de trabalho (GUÉRIN, et al., 1991; WISNER, 1994; LACOMBLEZ, 1997; ASSUNÇÃO & LIMA, 2003; CUNHA, D., 2006; DANIELLOU, 2004; VOLKOFF, 2005; FALZON, 2007; ECHTERNACHT, 2008;

Segundo Assunção e Lima (2003), a preocupação com os aspectos ergonômicos nas situações de trabalho levou à necessidade de cunhar o termo “penosidade” e diferenciá-lo dos riscos relativos à insalubridade (aspectos relativos à higiene ocupacional) e à periculosidade (acidentes de trabalho), nos contextos laborais. Esta diferenciação permite um novo olhar sobre os problemas de saúde ocupacional, uma vez que “um trabalho pode ser penoso, sem que chegue a ser considerado perigoso ou insalubre; ou inversamente, um trabalho considerado insalubre ou perigoso [...] pode não ser vivido como penoso por quem o realiza” (ASSUNÇÃO; LIMA, 2003 p. 1768). Desta forma, a Ergonomia contribui para estabelecer critérios mais precisos para se investigar a penosidade no trabalho, uma vez que “nesta concepção de penosidade o caráter relacional da exposição não mais se esgota na relação unívoca entre o trabalhador […] e os riscos do ambiente, sejam eles físicos ou resultantes de determinações sociais” (ASSUNÇÃO; LIMA, 2003, p. 1769, grifo nosso).

De acordo ainda com esses autores, a nocividade nos contextos laborais se instala quando as diretrizes colocadas pela organização do trabalho constrangem o trabalhador e limitam suas possibilidades de construção da saúde, estando relacionada às possibilidades de evitar, atenuar ou eliminar os riscos durante a realização das tarefas, bem como permitir o desenvolvimento das competências que sustentam as estratégias de regulação dos riscos no cotidiano do trabalho. Assim,

[...] a nocividade enquanto penosidade está relacionada à obrigação rígida para se realizar uma tarefa, ou de modo geral, a acontecimentos vividos como um desconforto na atividade ou como entrave à liberdade de ação, tendo efeitos fisiológicos, cognitivos, afetivos ou sociais para o trabalhador (ASSUNÇÃO; LIMA, 2003, p. 1769, grifo nosso).

Portanto, a penosidade está inscrita nas relações de forças sociais que envolvem o trabalho, a qual “lembra brutalmente ao trabalhador a sua condição de subordinação e dependência incluída no contrato de trabalho assalariado”; num sentido mais amplo, “as penosidades são vividas como constrangimentos e dificuldades […] que não podem ser anuladas ou minimizadas por ações, palavras ou posturas coletivas” (LINHART, 2014, p. 540, tradução livre). Assim, para compreender a penosidade, é “preciso identificar em que a intensificação atual do trabalho incide e entender as suas repercussões, a curto e longo prazo, nas condições de trabalho sobre a saúde, exigindo desenvolver uma reflexão coletiva sobre este tema e uma reflexão crítica sobre os modelos de organização do trabalho” (VOLKOFF, 2008, p.5, tradução livre). Pois as mudanças técnicas, organizacionais, das gestões, as formas de emprego e as condições de execução da atividade consistem numa variabilidade de fatores

que, associados às características dos indivíduos, produzem resultantes sobre a saúde que nem sempre se apresentam de forma visível e direta. Uma vez, que

[...] as condições de trabalho são vividas, por cada um, de forma diferente e os seus efeitos dependem não só do percurso profissional e do contexto de trabalho, mas também da percepção que cada um pode ter em função das suas especificidades físicas, psicológicas e sociais (BARROS-DUARTE; LACOMBLEZ, 2006, p.83).

Verificamos, na revisão bibliográfica realizada, que o debate mais atual em torno da penosidade no trabalho, no âmbito político, social e econômico, encontra-se na França, pela evolução das relações entre as forças sociais no esforço de construir o reconhecimento da penosidade no trabalho. Debates que constituíram duas leis19 nos anos de 2010 e 2014, incluídas no Código do Trabalho Francês, que forneceram diretrizes para garantir a rastreabilidade de informação em saúde e segurança no trabalho, para prevenir ou compensar a penosidade no trabalho (JOLIVET; VOLKOFF, 2015; AMIARD; LIBERT, 2015; AMAUGER-LATTES; DESBARATS, 2014; GAUDART, 2014; SAINT, 2014). De acordo com Volkoff (2015)20, este processo envolveu amplos debates e negociações entre governo, empresas, pesquisadores, serviços médicos, sindicatos e trabalhadores; resultando numa cooperação que permitiu encontrar alguns indicadores, embora incompletos, para estabelecer uma regulamentação para a penosidade, objetivando oferecer melhores condições de saúde e segurança no trabalho. Salientou que as discussões realizadas no âmbito da segurança social da França21 sobre a reforma das pensões de aposentadoria, foram um dos pontos importantes

que integraram uma forma de reconhecimento da penosidade, contemplando novas diretrizes para uma aposentadoria mais justa e equilibrada, viabilizando também uma maior sustentabilidade econômica para as políticas públicas na relação entre saúde e trabalho.

Segundo Volkoff (2015), as contribuições das ciências sociais nesse debate foram relevantes para suportar a discussão sobre a penosidade no trabalho, envolvendo diversas temáticas (estudos sobre o trabalho noturno, o trabalho repetitivo, o esforço mental, o envelhecimento pelo trabalho, etc.) que trouxeram reflexões na esfera das transformações das organizações produtivas e da relação entre condições de trabalho e saúde dos trabalhadores. Apresentamos aqui uma breve abordagem sobre o envelhecimento no e pelo trabalho, que foi um dos temas estruturantes para se pensar a penosidade.

19 A abordagem sobre as disposições das leis se encontra descrita no item 3.2.3, página 70.

20 Notas de um seminário científico realizado durante nossas atividades de doutorado, juntamente com a

Professora Marianne Lacomblez e com o Professor Serge Volkoff (Centre de Recherches sur l’Expérience, l’Age et les Populations au Travail – Centre d’Etudes de l’Emploi, Paris), no Ateliê de Psicologia do Trabalho, no dia 22/05/2015, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – Universidade do Porto/ Portugal.

Os estudos no campo da Ergonomia que incidem na compreensão do processo de envelhecimento no e pelo trabalho investigam a relação entre saúde, idade e trabalho. Contexto em que é analisado o impacto das condições de trabalho no percurso da história profissional dos indivíduos (atuais e anteriores) sobre a saúde e o bem-estar, possibilitando assim uma melhor compreensão da complexidade que caracteriza as relações entre a saúde e o trabalho. Nesta perspectiva, o envelhecimento dos indivíduos é analisado considerando-se as transformações biológicas, psicológicas, sociais e as interferências do trabalho. Assim, o envelhecimento de cada indivíduo é marcado pelas transformações naturais com o decorrer da idade e também pelos impactos do trabalho (LAVILLE; VOLKOFF, 2007).

A interferência do trabalho sobre essas transformações com a idade apresenta-se de duas formas: a) o envelhecimento pelo trabalho: refere-se aos efeitos do trabalho e de suas condições de execução sobre a saúde dos indivíduos, ou seja, os constrangimentos decorrentes da atividade laboral agem sobre os processos de envelhecimento, sobre o declínio de certas capacidades e sobre as modalidades de construção da experiência; e b) o envelhecimento no trabalho: resulta dos processos naturais do envelhecimento que são marcados pelas diferenças interindividuais das pessoas, configurando então um processo de envelhecimento em relação ao trabalho, produzindo efeitos negativos (menor tolerância à fadiga, necessidade de uma maior margem temporal no desempenho das tarefas, etc.) ou positivos (reorganização eficiente da maneira de trabalhar, melhor integração da experiência, etc.) na vida dos trabalhadores (TEIGER, 1989 apud LAVILLE; VOLKOFF, 2007, p.113).

Essa abordagem permite investigar os impactos decorrentes da evolução dos confrontos do percurso profissional dos indivíduos, situando em que medida o trabalho e suas condições aceleram o envelhecimento dos trabalhadores, modificando o seu estado de saúde e bem-estar, contribuindo assim para a compreensão das “penosidades” no trabalho.

Diante dos fatores multidimensionais que envolvem as relações entre saúde e trabalho, verificamos então que

a reflexão sobre a penosidade no trabalho requer uma abordagem abrangente e multidimensional, não reduzida às manifestações das doenças profissionais reconhecidas, e deve-se sempre considerar as opiniões dos trabalhadores. Pois a complexidade desta noção aparece como uma necessidade de analisar as questões de saúde, mas também sociais que ela cristaliza, seja para melhorar a prevenção no local de trabalho (em que componentes da penosidade podemos agir concretamente?) ou instruir o debate sobre os modos de compensação ou reparação que seria legítimo conceder aos trabalhadores (HÉLARDOT, 2008, p. 9, tradução livre).

Nesse contexto, a problemática do reconhecimento e da compreensão da penosidade no trabalho apresenta-se como uma demanda social de atenção às evoluções da saúde dos

trabalhadores (ECHTERNACHT, 2010). Demanda que se tem colocado evidente em diferentes territórios geográficos e vem sendo alvo de esforços para instrumentalizar o reconhecimento da penosidade no trabalho no âmbito das leis trabalhistas.

Assim sendo, realizamos uma revisão sobre o cenário dos encaminhamentos realizados na esfera jurídica em três países22 – Brasil, Portugal e França –, que abordamos a seguir.