Antes de expor os dogmas fundamentais das discussões subseqüentes, é necessário esclarecer um conceito que será de fundamental importância para as discussões subseqüentes: o conceito de dogmema. Este dogmema, retirado das profundezas de nosso procedimento arbitrário, atua como dogma-base de qualquer construção analítico-crítica, como os piparotes divinos da ponte que vai de Aristóteles ao pensamento tomista. A partir de um dogmema de eleição, tanto podemos trabalhar com outros dogmas declarados (Deus existe; logo, Deus pode realizar milagres, criar ou destruir o universo, etc.) quanto com discursos que se pretendam desmistificadores (Existe boa e má Arte; logo, podemos encontrar elementos que determinem o “bom” e o “ruim”, como a conjunção perfeita de forma e conteúdo, etc.). Contudo, uma afirmação como “esta obra de arte é boa”, ou mesmo “a Arte existe”, mostram-se tão inverificáveis quanto “Deus existe”, de modo que apenas a crença idiossincrática e incomunicável em essência pode dar conta de instaurar o dogmema de eleição inicial. Caso queiramos uma opção à nossa natureza dogmática, devemos estar dispostos a lidar com a anulação em termos absolutos, o grande Não, o supremo Vazio, o Nada.
Uma vez esclarecido o conceito de dogmema, eis os dogmas inquestionáveis que darão sustentação a este trabalho:
I - A Arte existe.
II - Existe Literatura, a arte que se faz com palavras, e ela se distingue de outras
manifestações, artísticas ou não, que eventualmente utilizem a palavra.
III - Existem categorias binomiais, opostas e equivalentes que fundamentam a
existência, tais como Bom e Mau, Certo e Errado, Belo e Feio, e tais categorias podem ser aplicadas por meio de juízos de valor.
IV - No domínio da Arte em geral (e da Literatura, em particular) pode-se fazer e
V - Existe a expansão, processo pelo qual um todo auto-sustentado pode
transcender seus limites sem alterar sua essência.
VI - EU existo.
VII - EU posso verificar as categorias binomiais opostas e equivalentes que
fundamentam a existência e agregá-las a juízos valorativos.
VIII - EU posso emitir juízos valorativos a respeito das coisas, em geral, e da Arte,
em particular, categorizando-as e promovendo sua expansão por meio da especulação dogmática.
IX - Meus juízos de valor e minhas especulações expansivas não podem ser
questionados.
X - Não se poderá dizer, das páginas que se seguem, "isto está certo" ou "isto está
errado"; poder-se-á apenas dizer: "creio" ou "não creio".
Os dogmas apresentados merecem um breve comentário capaz de esclarecê- los, pois, fundamentados em um princípio idiossincrático, trazem consigo as dificuldades de comunicabilidade de qualquer idiossincrasia. Os dogmas aqui apresentados dividem-se, por sinal, em dois grandes grupos, cabendo, aos primeiros cinco dogmas, a esfera da Arte e, aos demais, a esfera do Eu. Assim, vejamos cada um dos dogmas:
I - A Arte existe.
Esta é a condição apriorística para qualquer reflexão estética: a existência da Arte. Evidentemente, para que se possa falar em um Ser da Arte, é necessário que se pressuponha o Ser do próprio Ser, ontologia ôntica. Assim, neste fundamento essencial e existencial, assentam-se a própria Estética e a própria Poética consideradas em sentido lato. Em uma discussão sobre a Arte, este é o dogmema de eleição inicial.
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II - Existe Literatura, a arte que se faz com palavras, e ela se distingue de outras
manifestações, artísticas ou não, que eventualmente utilizem a palavra.
Uma vez possibilitada a existência da Arte, abre-se espaço para uma variação constitutiva da manifestação artística. Seja em termos de percepção sensorial, seja em termos de relação espaço-temporal, a Arte pode ramificar-se em diversos aspectos, desde que cada um deles também possa ter sua existência fundamentada no dogmema inicial.
III - Existem categorias binomiais, opostas e equivalentes que fundamentam a
existência, tais como Bom e Mau, Certo e Errado, Belo e Feio, e tais categorias podem ser aplicadas por meio de juízos de valor.
Não se trata, aqui, de um mero ato constatativo do Ser da Arte. Como se pressupõe uma atitude analítica e crítica perante o objeto estético, é necessário um fundamento ontológico de parâmetros judicativos. Daí a necessidade do embasamento categorial.
IV - No domínio da Arte em geral (e da Literatura, em particular) pode-se fazer e
emitir juízos valorativos, categorizando o todo de um objeto artístico ou suas partes.
Este dogma decorre de modo direto do precedente, pois, uma vez lançadas as bases para os atos judicativos e, destes, para o próprio julgamento de valor, deve-se afirmar a possibilidade concreta e necessária dos juízos de valor. Para tanto,a apropriação das categorias metalepticamente fundantes do Ser atuam sobre o objeto estético, fornecendo bases para sua aprensão e julgamento intelectual.
V - Existe a expansão, processo pelo qual um todo auto-sustentado pode
transcender seus limites sem alterar sua essência.
Para ampliar as possibilidades da reflexão estética, acrescenta-se, aqui, um dogma adicional que, consciente de sua própria realidade dogmática, pode justificar novas
possibilidades de interpretação transcendente da obra enfocada e do próprio ato interpretativo.
VI - EU existo.
Para a efetivação do ato judicativo e do juízo valorativo, é necessária a efetivação da realidade intelectual na qual atos e juízos se estabelecem. Disto decorre também a necessidade de um Eu cuja existência se torna, assim, um dogmema de importância equivalente ao da existência da própria Arte. Além disso, uma vez estabelecido dogmaticamente, este Eu será origem e parâmetro do juízo e do valor.
VII - EU posso verificar as categorias binomiais opostas e equivalentes que
fundamentam a existência e agregá-las a juízos valorativos.
Decorrência do dogmema anterior, este dogma garante a competência do Eu na assimilação e utilização das categorias constituintes, em termos metalépticos, do Ser do Eu, destacando sua importância. O mesmo se dá em relação aos juízos valorativos.
VIII - EU posso emitir juízos valorativos a respeito das coisas, em geral, e da Arte,
em particular, categorizando-as e promovendo sua expansão por meio da especulação dogmática.
Ao assumir sua natureza dogmática, o Eu se abre às suas possibilidades. Assim, apropriando-se dos níveis categoriais, judicativos e valorativos, o Eu pode aplicá-los ao mundo interior e ao exterior ao Eu. Com relação à Arte, essa dupla articulação interior e exterior permite que o Eu interfira no fenômeno estético, expandindo-o.
IX - Meus juízos de valor e minhas especulações expansivas não podem ser
questionados.
O mais polêmico dos dez dogmas, juntamente com o último, explica-se em função deste: o questionamento, baseado na desmistificação analítica, não tem espaço em um esfera dogmática que não a pressuponha.
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X - Não se poderá dizer, das páginas que se seguem, "isto está certo" ou "isto está
errado"; poder-se-á apenas dizer: "creio" ou "não creio".
Ligando-se intimamente ao anterior, este dogma coloca o interlocutor do discurso dogmático diante de um problema: a impossibilidade de um ato judicativo ou de um juízo valorativo que se situem fora da esfera deste decálogo. Afinal, as bases metalépticas categoriais que servem de fundamento para a construção essencial do próprio texto são construídas dogmaticamente em função do Eu e da Arte, cuja existência configura os dois dogmemas de eleição. Assim, para a utilização de tais juízos valorativos faz-se necessária a visão interna, que implica na crença no sistema dogmático idiossincrático do Eu e da Arte de eleição. E, no momento em que se apropria da possibilidade do juízo, este interlocutor já se alinhou na esfera da crença. Caso contrário, o “não creio” afasta até mesmo a possibilidade da interlocução, restando, no caso, o silêncio.
Deve-se, sem dúvida, enxergar além de uma aparente excentricidade frívola que poderia ser sentida de imediato. Caso encarados sob a ótica certa (a sua própria), esses dogmas (não se trata de "mandamentos", uma vez que nem todos têm caráter normativo no que tange ao comportamento) mostrar-se-ão essenciais para a sustentação das páginas que virão a seguir. No mais, cabe ao leitor crer ou não nestas e em todas as outras palavras deste volume, sejam anteriores, ou as que ainda virão. Conforme já reafirmei à exaustão, é tudo uma questão de fé.