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4 A TRANSFORMAÇÃO TÉCNICA DA NATUREZA E SEU CONTEXTO DE

4.3 Decisões tomadas e compromissos não assumidos

para o Desenvolvimento Sustentável, com quase 20 objetivos e mais de 100 metas relacionadas. Esta Agenda foi construída a partir dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Tal qual foi a Agenda 21.

Giddens (2010) também destaca que a crise ambiental não é um problema da direita ou da esquerda, porque os verdes não são os novos vermelhos, faz-se necessário, portanto, uma discussão e a reunião de esforços suprapartidários para pensar uma política de longo prazo. Este autor defende, portanto, novos conceitos! Giddens (2010) defende, na verdade, novos conceitos, tais como: estado assegurador, convergência política, convergência econômica.

Entretanto, ele estabelece quatro grandes alvos, dos quais três são econômicos. A tributação do carbono e o pagamento pelas práticas altamente poluidoras estão entre as soluções que Giddens (2010) propõe. E acrescenta ―todos os países serão afetados, porém nas nações mais pobres o sofrimento será maior que nas desenvolvidas. O mundo rico tem a obrigação de ajudar‖ (Giddens, 2010, p.33). Uma sentença óbvia? Ou uma grande ilusão?

Muitas soluções são pensadas e apontadas nesses grandes debates, mas o que realmente vemos na prática são outros fatos, esses países ricos e/ou em desenvolvimento transferindo seus problemas para os países pobres economicamente, mas ricos em recursos naturais.

4.3 Decisões tomadas e compromissos não assumidos

No dia três de setembro de 2016, uma cena foi notícia nos jornais do mundo inteiro: EUA e China ratificam o Acordo de Paris! A imagem que circulou foi a de Obama, presidente dos EUA e Xi Jinping, presidente da China, entregando o documento ao secretário-geral da ONU.

Os dois maiores países poluidores do planeta ratificam um acordo que representa um compromisso com o meio ambiente. Obama, por exemplo, disse que a conferência da ONU em que o acordo foi aprovado, a COP21, ―foi o momento em que decidimos salvar o planeta‖. ―Acredito que no final ficará demonstrado que esse foi o ponto de inflexão para o nosso planeta‖, disse.

A cena poderia nos causar grande alegria e os discursos poderiam nos convencer de que dessa vez poderia ser diferente, afinal EUA e China enfim assinaram. Entretanto, é impossível não voltar ao Lipietz (1997) e avaliar este ato a partir das ―artimanhas‖ da negociação mundial ou mais que tudo, se não soubéssemos de todas as articulações, principalmente da China, em transferir seus problemas para outros países. Comportamento já rotineiro para o outro país citado. EUA já faz isso há décadas!

Desde a década de 1970 que a China vem passando por radicais transformações e se tornou hoje um dos países mais agressivos economicamente. Suas estratégias para ganhar mercados, aumentar seu controle sobre suas exportações nem sempre é acompanhada de princípios éticos e quando falamos de Direitos humanos, podemos até duvidar que algum Direito ou princípio seja respeitado naquele país.

A China possui a matriz energética à base de carvão mineral, ou seja, apresenta índices econômicos invejáveis, no entanto, o preço para o meio ambiente tem sido muito caro. Manter uma dinâmica econômica com a velocidade do século XXI, mas com matriz energética semelhante à da revolução industrial, não tem equalizado em grandes avanços para o debate mundial de redução de gases poluentes no mundo. E sem adentrarmos no trabalho infantil, trabalho análogo ao escravo, trabalho sem normas trabalhistas e tantas outras barbaridades que tornam a China imbatível, em termos de competitividade e de violação aos direitos humanos.

A assinatura do Acordo de Paris deixa a China sem muitas opções para o seu processo produtivo e repete a receita dos outros países. O Japão transferiu suas industrias eletro intensivas para alguns países, em especial o Brasil. E assim está fazendo a China que já está instalando indústria na Rússia e no Brasil.

A expansão da matriz hidrelétrica no Brasil não acontece por acaso, tão pouco está relacionada com os ―apagões‖ do sudeste. É o setor produtivo que mais demanda por energia. Os números abaixo explicam a ordem de prioridade de investimentos para esse modelo:

Gráfico 1 - Investimento em infraestrutura por país (% em relação ao PIB) média – 2010 a 2015 Fonte: IBGE (2016 ).

Os autos investimentos em infraestrutura são necessários para viabilização do capital, pois ao buscarmos quais setores recebem esses altos investimentos chegamos no modelo agroexportador que o Brasil se enquadra.

O agronegócio bateu todos os recordes em 2015, a participação na balança comercial brasileira foi a maior desde o início da série histórica, respondeu por 46,2% de tudo que foi exportado. E vem de aumentos sucessivos, ano-a-ano, em 2014 alcançou 43% e, em 2013, 41,3% (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2016). É a soja que ocupa o primeiro lugar, vendendo para o exterior o montante de US$ 27,9 bilhões. A exportação de carnes vem logo depois com US$ 14,7 bilhões, cujo surpreendente percentual de 48% correspondeu à venda da carne de frango (IBGE, 2016).

Gráfico 2 - Variação Anual do abate de bovinos no Brasil – 2015-2016

Fonte: IBGE, (2016).

** Variação 2015/2016- agregado das unidades da federação com participação inferior a 1% do total nacional.

Até aqui já vislumbramos a realidade amazônica se transformando, pois, a soja precisa de extensas áreas de terra planas para o plantio eficiente de soja, os rebanhos bovinos no Brasil são percentualmente maiores em pecuária extensiva. E, para concluir o cenário de intensa pressão sobre a Fronteira amazônica, o terceiro produto em exportação foram os produtos florestais, corresponderam ao montante de US$ 10,33 bilhões em 2015, com crescimento de 5,6% relativo ao ano anterior (IBGE, 2016).

No entanto, todos os grãos historicamente exportados saem pelo Porto de Santos/SP, pois a infraestrutura logística para garantir uma saída mais rápida pelo canal do Panamá não existia, o que sempre reuniu esforços e debates para sua viabilização. O avanço da crise econômica na América Latina, as constantes altas do dólar, a desvalorização da moeda brasileira ano-a-ano, tornava a reinvindicação pelos ―sojeiros‖, pelos pecuaristas, pelos madeireiros cada vez mais prioritária, muito mais pelos números na balança comercial. E, neste sentindo, todas as obras de infraestrutura logística e de geração de energia voltam-se para o Brasil exportador de primários, volta-se para a ―vocação‖ agropecuária, mineral e extrativa.

O Brasil, portanto, renova seu papel e marca sua posição no mercado global como país agro-exportador.

Gráfico 3 - Evolução das exportações e importações 2014-2015

Fonte: AgroSat/MDIC (2016).

A China foi o principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro em 2015, somando US$ 21,28 bilhões, principalmente em soja em grãos e celulose. O país asiático foi o destino de mais de 75% da soja em grãos brasileira exportada no período. O segundo destino foram os Estados Unidos (US$ 6,47 bilhões) com destaque para café verde (US$ 1,18 bilhão), celulose (US$ 983,62 milhões) e álcool (US$ 451,03 milhões) (MDIC, 2016).

Vietnã, Bangladesh, Irã e Coreia do Sul contribuíram para amenizar a queda das exportações do agronegócio brasileiro no ano passado. Em conjunto, esses mercados registraram crescimento de US$ 1,2 bilhão em compra de produtos brasileiros no período (MDIC, 2016).

Tabela 1- exportações do agronegócio brasileiro por blocos econômicos dez/2014 a dez/2015 (em US$ mil)

Fonte: AgroSat/MDIC (2016).

Tabela 2 - exportações do agronegócio brasileiro por países dez/2014 a dez/2015 (em US$ mil)

Fonte: AgroSat/MDIC (2016)

4.4 Normas ambientais no Brasil

Na Constituição Brasileira, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (Art. 225, CF/88) é de todos. É assim descrito porque vem de uma ―interpretação oriunda da visão holística e universalista do meio ambiente, amparada nos tratados internacionais, ao longo dos anos, celebrados e ratificados.‖ (CANOTILHO; LEITE, 2008, p. 104). Entretanto, apesar de ser um bem coletivo ou de uso comum, seu desfrute é individual e geral ao mesmo tempo, ou seja, é de cada pessoa, mas não só dela. E, por isso, diz-se que é um direito difuso, não se esgotando numa só pessoa e alcançando uma coletividade indeterminada (MACHADO, 2004).

O Brasil, como muitos países, enfrenta dificuldades para efetuar a ―gestão‖ de seus recursos naturais e talvez a principal esteja associada à gestão dos conflitos socioambientais gerados e intensificados pelas leis, normas e tratados, idealizados e concretizados dentro de um processo pouco ou nada participativo, o que dificulta a conciliação de interesses diversos e muitas vezes antagônicos.

Nos suscita a questão quanto a relação entre tais definições legais e os conflitos socioambientais. Os estudos relacionados aos conflitos estão entre os mais antigos na história do homem. Ao longo da história da humanidade, diversos campos do conhecimento, tais como a Geografia, as Ciências Sociais, as Ciências