1.2 – JANEIRO DE 2010: “A PRAÇA É DE TUDO E DE TODOS – A PRAÇA É A NOSSA PRAIA!”
DECRETO Nº 13.798, DE 9 DE DEZEMBRO DE 2009.
O Prefeito de Belo Horizonte, no exercício de suas atribuições legais, em conformidade com o disposto no art. 31 da Lei Orgânica Municipal, considerando a dificuldade em limitar o número de pessoas e garantir a segurança pública decorrente da concentração e, ainda, a depredação do patrimônio público verificada em decorrência dos últimos eventos realizados na Praça da Estação, em Belo Horizonte, decreta:
Art. 1º Fica proibida a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, nesta Capital.
Art. 2º Este Decreto entra em vigor no dia 1º de janeiro de 2010. Belo Horizonte, 09 de dezembro de 2009
Marcio Araujo de Lacerda
Prefeito de Belo Horizonte (DIÁRIO OFICIAL DO MUNÍCIO DE BELO HORIZONTE, 2009)
No reforço desse imaginário, o texto redigido para delimitar e justificar a existência do decreto era, em si mesmo, indicativo das relações entre poder estatal e cidade, que vieram a caracterizar a administração Lacerda ao longo do tempo.
Nesse ínterim, chama atenção a forma com a qual sua gestão atualizava as tendências historicamente predominantes em Belo Horizonte de autoritarismo institucional, a partir desse decreto. Primeiramente, cumpre notar que, além de optar
58 pela medida drástica de interditar a Praça, este decreto foi expedido sem passar por qualquer instância institucional, consultiva ou deliberativa, existente na cidade. Em segundo lugar, destaca-se que o motivo alegado para a interdição dizia respeito diretamente ao que seriam aspectos negativos do uso autônomo e cotidiano da Praça pelos habitantes da cidade: para a Prefeitura, havia uma associação imediata entre tais usos e a depredação de seu espaço que justificava sua medida. Em si, o decreto, sua justificativa e aquilo que estipulava eram, portanto, formas diretas de expressão do antagonismo imerso na concepção que embasava a relação da institucionalidade com a cidade e seu cotidiano: reforçava sua recusa em reconhecer que o funcionamento da capital mineira detinha a participação, e a produção popular de vivências de seus espaços públicos, como um de seus componentes intrínsecos. Nesta recusa, a existência de tais vivências parecia ser entrevista de uma perspectiva de obstáculo a ser superado: a persistência de tais usos limitava diretamente o objetivo de transferência da administração daquele espaço para a iniciativa privada, assim como sua transfiguração enquanto território configurado pela ótica de sua exploração exclusivamente mercantil.
Por fim, cumpre notar que o hiato temporal de quase um mês, entre a promulgação do decreto e a reportagem que noticiava seus efeitos, aparentava ser indicativo de que, salvo entre nichos bastante específicos, a medida da Prefeitura havia passado praticamente desapercebida pela maior parte da população belo-horizontina. Em todos os casos, a notícia concernente à Praça não era a única que nesse contexto tinha objeto a cidade, e a forma com a qual seus habitantes e o poder estatal local se relacionavam com ela. Por volta de fins de janeiro de 2010, a imprensa belo-horizontina também repercutia matérias acerca de uma campanha publicitária da iniciativa privada local em parceria com os poderes estatais, concernente à imagem da capital mineira. Numa destas reportagens, lia-se:
Belo-horizontino é convocado a provar seu amor pela cidade
Divulgar Belo Horizonte e estimular a população a cuidar melhor da cidade são os objetivos da campanha "Eu amo BH radicalmente e provo" da fundação BH Convention & Visitors Bureau (BHC&VB). Criada em 2006, a novidade neste ano é o convite para os belo-horizontinos provarem o amor pela capital por meio de ações de cidadania e preservação da cidade.
A campanha, que já começou a ser veiculada em TV e rádio, terá o lançamento oficial no próximo dia 4 de fevereiro, com um show no Chevrollet Hall com o DJ Cateb, a banda Tianastácia e o cantor sertanejo Eduardo Costa.
A campanha tem apoio da Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais e do Ministério do Turismo e a participação de ilustres belo-horizontinos. Um
59 dos personagens da campanha é o vocalista Podé, do grupo Tianastácia. "BH é a melhor cidade para se morar", afirma o músico.
O presidente da BHC&VB, Noronha Filho, explica a iniciativa também como uma maneira de preparar a capital para a chegada de turistas durante a Copa do Mundo de 2012. "Quem chega de fora vê que a própria população tem amor pela cidade e começa a gostar daqui também", afirma.
A organização do evento está sorteando ingressos para o show. Basta acessar:
www.euamobhradicalmenteeprovo.com.br (RAMOS, 2010).
Voltada para a promoção da capital mineira e de seus atrativos para turistas tendo em vista a realização da Copa do Mundo de 2014, a campanha acima se objetivava a estimular em sua população demonstrações de cidadania e preservação do que seriam seus patrimônios.
Em si, essa campanha desvelava o grau aprofundado de relações entre poder estatal e iniciativa privada na regulação do cotidiano da capital mineira. No caso, tal relação se manifestava pela própria intermediação de entes privados na confecção e promoção da imagem desejável de Belo Horizonte para fins comerciais: a campanha se encontrava longe seja de contemplar a autoprodução dessa imagem por sua população no cotidiano da cidade, seja de ao menos construir canais em que suas opiniões fossem levadas em conta. Ao contrário, evidenciava uma espécie de privilégio informalmente concedido à iniciativa privada local para a delimitação daquilo que, em seu território, pudesse ser considerado atrativo e passível de divulgação não a seus habitantes, mas sim ao fluxo potencial de turistas que iriam se dirigir à capital mineira durante os megaeventos que sediaria posteriormente. Por aquilo que pretendia, pode-se dizer que essa campanha buscava mais um mapeamento de locais com potencial de exploração econômica pela via do consumo do que efetivamente valorizar os simbolismos, não de todo mercantilizados, atribuídos historicamente à cidade por seus habitantes. Em certo sentido, portanto, essa campanha era sintomática precisamente da forma com a qual, através da delegação progressiva de parcelas de regulação da cidade à iniciativa privada, se atualizava na cidade a interdição ao reconhecimento de sua população como interlocutora diretamente interessada em seus rumos: considerando sua relação para com a futura realização de megaeventos tendo Belo Horizonte como uma de suas sedes, sua existência era sintomática enquanto prenúncio da intensificação dessa dimensão de antagonismo perante os interesses de seus habitants.
Cerca de dez dias antes, um pequeno conjunto de cidadãos, certamente não ―convocados‖ ou influenciados por esta campanha, conduziu sua própria versão de ―Eu
60 amo BH radicalmente e provo‖. Sobre o que conduziram, uma notícia publicada pelo jornal O Tempo em 16 de janeiro de 2010 dava um registro sucinto:
Grupo protesta contra proibição de eventos na Praça da Estação, em BH Um grupo de pelo menos 50 pessoas se reuniu na manhã deste sábado (16) na Praça da Estação, em Belo Horizonte, para protestar contra a proibição da realização de eventos naquele espaço. A decisão, assinada pelo prefeito Márcio Lacerda, foi publicada no dia 10 de dezembro do ano passado no Diário Oficial do Município (DOM) e diz que eventos de qualquer natureza estão proibidas na Praça desde o 1º de janeiro deste ano.
Na época, a proibição pegou de surpresas os moradores, frequentadores e promotores de eventos da capital. De forma bem-humorada, o grupo usou o local como uma praia, com direito a biquini, guarda-sol e toalha estendida no chão.
De acordo com a Polícia Militar e a BHTrans, não houve tumulto no local (COSTA, 2010).
A reportagem informava sobre a realização daquela que foi a primeira Praia da Estação da história de Belo Horizonte.
Sinteticamente, destacava-se a dimensão ―bem-humorada‖ dessa manifestação, que teria transformado o vão da Praça em uma espécie momentânea e inusitada de praia por parte dos manifestantes. De certo modo, pode-se dizer que o que ali transcorreu era, à sua maneira, uma ―ação de cidadania e preservação da cidade‖: aparentemente, bastou a esse pequeno conjunto de cidadãos o decreto municipal proibindo ―eventos de qualquer natureza‖ na Praça da Estação para materializarem um protesto em favor dos usos autônomos daquele espaço pelos habitantes locais. Diante das concepções então predominantes da institucionalidade local de se relacionar com a cidade, talvez o primeiro aspecto a se notar se encontrava na radicalidade daquilo que negavam, na prática: recusavam concretamente a legitimidade tanto da municipalidade em interditar aquele espaço a seus habitantes, quanto quaisquer perspectivas de restrição e exploração de seus usos unicamente pelas forças de mercado. Ao irromperem em conflito direto com essas duas dinâmicas, iluminavam a própria contradição que as unificava mediante aquele decreto: a concretude de um ideário de uma cidade cujos habitantes não tivessem qualquer papel a desempenhar na elaboração de suas condições de acesso e vivência cotidiana. Também é importante ressaltar um ponto que marcou a cobertura da imprensa belo-horizontina ao longo das primeiras Praias da Estação, decorridas durante o verão de 2010: afora a ênfase no inusitado daquele protesto, tais reportagens praticamente nada diziam sobre a confluência de encontros e mútuos reconhecimentos de diversas
61 coletividades a partir de sua existência, que marcariam essa movimentação enquanto
acontecimento constituinte.
No contexto estudado, pode-se dizer que o que originou tal confluência se encontrava numa proposta de protesto, inicialmente disparada por meios virtuais, intitulada de Vá de Branco. De acordo com o antropólogo e produtor cultural Rafael Barros, a primeira manifestação concernente à polêmica da Praça se formou a partir de
um e-mail com o link dum blog - Vá de Branco - em dezembro: estava compartilhando a publicação do decreto, denunciando a arbitrariedade do ato do prefeito e convocando um ato pra Praça dia 7 de janeiro, com o objetivo de se posicionar e pensar numa forma de construção de resistência coletiva ao decreto.
Eu não lembro quem mandou esse e-mail: lembro que recebi o e-mail. [...] Nós éramos, sei lá, umas trinta pessoas, no máximo - tipo, não foi ninguém: aquele povo lá, um e-mail que ninguém sabe quem mandou, um blog que ninguém sabe quem inventou. A gente fez uma roda, deu um abraço simbólico na Praça e sentamos pra discutir o que podia fazer.
O Paulo Rocha, do Conjunto Vazio7, estava; o Dedé, porque tinha uma galera do Ystilingue8. A gente encontrou com umas figuras lá que tinham ido: Bizoca, com uma moçada do Instituto Helena Greco9 - os meninos do COMPA10, estavam o Peá, o Thomaz, Luiz, Sávio Leite, Arthur Senra -, Bruno Vieira, se eu não me engano, que era da Comunicação - o Bruno, jornalista negro. Eu não lembro se Fidélis estava nesse dia já. Tinha uns meninos, num sei se era da UBES11, da AMES12. Acho que Ed já foi nesse
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O Conjunto Vazio é um coletivo artístico-político belo-horizontino de influência situacionista e autonomista. Em seu site, o mesmo se descreve enquanto ―um coletivo anticapitalista e não hierárquico/horizontal de anti-arte, intervenção urbana, performance, negação prática, masturbação teórica e experimentos de estratégias para charlatanismo crítico.‖ Para saber mais:
https://comjuntovazio.wordpress.com/sobre/. Acesso em 22 de dez. 2018.
8 O Ystilingue era um espaço de sociabilidade e encontro gerido por anarquistas e autonomistas
pertencentes à cena ativista belo-horizontina que funcionava numa sobreloja da galeria comercial do Conjunto Arcângelo Maletta, situado na região central de Belo Horizonte. Funcionou entre a segunda metade da década de 2000 e primeira metade da década seguinte.
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O Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania é um espaço que se auto-intitula enquanto ―autogestionário, autônomo, livre e independente.‖ Concentra sua atuação tanto na defesa da memória dos mortos e desaparecidos da Ditadura Civil-Militar de 1964-1985 quanto na confecção de reuniões abertas e formação de grupos de estudos atinentes em temáticas voltadas para diversas correntes de pensamento das esquerdas. Para saber mais: https://institutohelenagreco.blogspot.com/. Acesso em: 22 de dez. 2018.
10 O Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA) é uma organização anarquista atuante na região
metropolitana de Belo Horizonte fundada no ano de 2012. Afora a confecção de reuniões abertas, grupos de estudos e eventos voltados à disseminação do anarquismo em Belo Horizonte, seus militantes atuam em diversos movimentos sociais existentes na capital mineira. Na referência acima de Barros à organização, o mesmo faz menção a integrantes e ex-integrantes que vieram a fundar o coletivo em momento posterior aos acontecimentos que narra. Para saber mais: https://compa.noblogs.org/quem- somos/. Acesso em: 22 de dez. 2018.
11 A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) é uma organização estudantil fundada em
1948 cujo principal foco de atuação se concentra na representação nacional de demandas e interesses dos estudantes de Ensino Médio. Para saber mais: https://ubes.org.br/. Acesso em: 22 de dez. 2018.
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A Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas (AMES-BH) é uma organização estudantil que busca representar os estudantes de Ensino Médio de Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. Quando da realização desta pesquisa, seu site se encontrava desativado, restando apenas a página da organização na rede social Facebook. Para saber mais: https://www.facebook.com/AmesBH/. Acesso em: 22 de dez. 2018.
62 dia também: o Ed Marte, que não chamava Ed Marte - posso te contar, o nome Ed Marte surge na Praia, eu que dei o nome pra Ed. Não sei se Erikinha já estava nesse dia, acho que o Igor também estava nesse dia. A gente sentou e falou:
- Então, o que é que nos vamos fazer?
A narrativa de Barros sobre este protesto simbólico, ocorrido no início de janeiro de 2010, discorre detalhadamente sobre como ali se formou um mosaico de confluências de grande importância para o entendimento das dinâmicas desencadeadas pelas Praias.
Numa primeira dimensão, chama atenção o próprio caráter anônimo e apócrifo de sua convocação por meios virtuais: até então, sabia-se do decreto e de que o mesmo gerara repercussão restrita na cidade, e parece ter sido intenção de quem o propôs, com o uso do anonimato, conferir um caráter eminentemente coletivo para o ato simbólico Vá de Branco. Um segundo plano dizia respeito aos próprios participantes mencionados por Barros: a manifestação acabou por interconectar, ainda que de maneira incipiente, integrantes de diversas cenas então existentes em Belo Horizonte, indo daqueles inseridos nas movimentações culturais a aqueles com experiências em movimentos sociais e no ativismo autonomista local.
63 Do que se depreende tanto da leitura da bibliografia que estudou a Praia da Estação (OLIVEIRA, 2012; ALBUQUERQUE, 2013; MELO, 2014; GONZAGA, 2017) quanto dos registros coletados para esta pesquisa, o que havia em comum entre essas distintas coletividades se situava em dois pontos de convergência: a presença de uma espécie de experiência associativa prévia, sob a forma de coletivos mais ou menos informais; iniciativas que estas coletividades produziram, tendo por eixo o uso da espacialidade pública de ruas e praças de Belo Horizonte, num contexto anterior à este protesto simbólico. Entre aqueles pertencentes à cena cultural da cidade, a engenheira e produtora cultural Janaína Macruz traz recordações pertinentes para sua caracterização:
Nesse mesmo ano de 2008, os meninos do Cinza, da MONO13 – esqueci o nome das outras bandas -, se juntaram pra fazer um festival de rock. O Arthemius trabalhava na Prefeitura, na Fundação14 na época, e a gente fez uma reunião geral de várias bandas pra fazer um festival de rock na rua. Foi na Praça Floriano Peixoto15, nem era reformada ainda: era uma praça super abandonada, inclusive. A gente conseguiu palco e som com a Prefeitura, e criou-se essa rede: foram doze bandas independentes de rock lá. Fizemos esse festival mais dois anos – um foi na Savassi -: aí teve um ano que ficou meio parado.
Antes o Outro Rock era um festival: a partir desse ponto, desse ataque público ao Transmissor, sem pensar muito, a gente virou um movimento. Foi muito legal esse processo: a gente começou a reunir toda segunda-feira! A TV Queijo Elétrico - super forte na época -, entrou, porque não era só um movimento de banda: era um movimento da cena da música, e a TV Queijo Elétrico16 era muito importante pras bandas autorais. Começou a reunir e discutir várias coisas: foi um momento muito bonito, pra gente se politizar também, pra discutir várias políticas públicas da música.
A narrativa de Macruz se refere diretamente a experiências associativas pessoais pregressas anteriormente à eclosão das Praias. Do que ela coloca, pode-se dizer que, desde a segunda metade da década de 2000, ao menos parte da cena cultural de Belo Horizonte já se estruturava em formas associativas, para finalidades relacionadas à promoção de apresentações, gravações e divulgação, particularmente nos setores relativos à música autoral independente. Ao menos de maneira indireta, sua fala também permite situar que tais associações atuavam em um sentido politizado, principalmente no que tange a demandas concernentes às políticas públicas culturais locais.
13 Cinza e MONO eram bandas da cena de rock independente de Belo Horizonte.
14 Trata-se da Fundação Municipal de Cultura: criada em 2008 durante a administração de Fernando
Pimentel, sua existência tinha por objetivo substituir a existência de uma Secretaria Municipal de Cultura.
15 Trata-se da Praça Floriano Peixoto, situada no bairro de Santa Efigência, na região Centro-Sul de Belo
Horizonte. A existência de um coreto na Praça era aproveitada para a realização de festivais musicais à época dos acontecimentos narrados por Macruz.
16 A TV Queijo Elétrico era um coletivo voltado à divulgação audiovisual e virtual da cena cultural
independente belo-horizontina entre fins da década de 2000 e início da década de 2010. Para saber mais:
64 A menção à confecção de apresentações de rua a partir desse período, por meio de iniciativas como festivais de rock, possibilita situar não só uma experiência prévia de territorialização de usos da cidade para tais fins, como igualmente referenciar seu interesse na questão da Praça: para estes, havia o temor de que a Prefeitura interpusesse medidas similares em outros espaços públicos que eram utilizados para tais apresentações. Ainda que a própria Macruz não estivesse presente quando a manifestação Vá de Branco decorreu, o fato de à época Rafael Barros ser produtor de uma banda inserida nesse nicho permite dizer que esse conjunto de experiências também se fazia representar na Praça de Estação, no dia 7 de janeiro de 2010.
Outra espécie de coletividade ligada à cena cultural da cidade que se inseriu não diretamente em Vá de Branco, mas a partir da existência das Praias, situava suas origens no carnaval de 2009: integrantes de então incipientes blocos carnavalescos, que desfilaram nas ruas de Belo Horizonte no feriado daquele ano. Sobre a experiência destes blocos em 2009, as recordações do historiador e professor Augusto Borges sobre o cortejo de um deles - o Bloco Tico Tico Serra Copo17 – igualmente trazem elementos pertinentes para a caracterização dessa coletividade:
O Tico Tico, em 2009, é curioso também - tem uns vídeos na internet, é muito engraçado, porque é uma descoberta mesmo, em todos os níveis -: estava falando de conhecer melhor a cidade, fazia parte dessa revisão do papel como músico, como atuante na cena pública, cultural da cidade, também com o sentido do que tocar. O primeiro carnaval eu fui com um banjo, que tenho até hoje: tocando um banjo, que vinha um pouco dessa referência minha - a nossa banda tocava uma coisa meio country, meio folk -, e existe o banjo no samba também, com a mesma afinação. Fui com um banjo num território18: foi o que eu encontrei de interseção entre esses dois mundos. Tem alguns vídeos muito engraçados da gente cantando - todo carnaval é um pouco isso -, tirando do fundo da memória as letras, as músicas, tentando fazer aquilo funcionar, ainda descobrindo como tocava as coisas.
[...] Eu lembro muito do primeiro momento desses blocos: a tentativa era de diálogo, a gente saiu na rua tentando conversar com as pessoas que estavam nas janelas, e isso desde então é um exercício - esse é um território aonde a gente caminha desde então em Belo Horizonte. Eu não tenho uma formação, e o que aprendi [...], aprendi fazendo na rua: aprendi na lida, aprendi nesse improviso, nesse diálogo, um reconhecimento.
[...] É uma história que a princípio desenrolou nesse contexto: chamei algumas pessoas, vizinhos, amigos que trabalhava ali e tal, ativei uma redezinha assim de músicos.
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Tico Tico Serra Copo foi um dos primeiros blocos fundados em Belo Horizonte no período de