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tes e Acidentes

De acordo com Berstein [52], o termo risco é uma derivação do italiano antigo riscare,

que, por sua vez, deriva do baixo latim risicu, riscu, que significa ousar.

Na percepção de Cohen [53], risco consiste simplesmente no potencial existente em termos de complicações e problemas relacionados à conclusão de uma tarefa ou à realização de uma meta em um projeto. Uma vez que o risco é inerente a todas as atividades de uma iniciativa (ou projeto) e, como tal, nunca pode ser totalmente eliminado, seus impactos podem ser mitigados para efeito de consecução dos objetivos.

Assaf Neto [54] entende o risco como sendo esse a associação direta das probabilidades do alcance de determinados resultados, em relação a uma determinada expectativa. De forma similar, Vaughan [55] conceitua risco como sendo uma condição na qual existe possibilidade de desvios adversos em relação aos resultados esperados.

Ao propor uma Metodologia para Gerenciamento de Risco tendo como foco a segurança e a continuidade, Calil [56] expõe a dificuldade de consenso quanto à uma definição de risco e aos elementos que o compõem, apresentando um comparativo entre as definições de risco elaboradas por diversos autores, conforme Tabela 2.1.

2Conforme registro da Defesa Civil de Minas Gerais, atualizado em 08/06/2019. Disponí-

vel para consulta em: http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/servicos-para-comunidade/minas- gerais/atualizacoesbrumadinho/Documents/P DF s/080620191150.pdf

Tabela 2.1: Comparativo entre algumas definições de risco e os elementos que o compõem

Fontes Definição de risco proposta pelos autores Elementos que se po-

dem destacar Holton

(2004)

Definição geral: É a exposição a algo, o qual é incerto. Algo; exposição e in- certeza.

Saldanha (2000)

Definição geral: É a probabilidade de se concretizar um evento. Evento e incerteza. ABNT (2009) – ISO/IEC Guia 73

Definição geral: Combinação da probabilidade de um evento e de suas consequências. Evento, consequências e incerteza. Kumamoto & Henley (1996)

Definição geral: É a combinação de cinco fatores: o resultado; a chance; a significância (ou a utilidade, que é seu oposto); o cenário causal (como aconteceu); e a população afetada.

Resultado; significân- cia; cenário causal; população e incerteza. PMI

(2000) – PMBOK

Para projetos: É um evento ou uma condição incerta, que, se ocorrer, tem efeito positivo ou negativo nos objetivos do projeto.

– Evento (ou condi- ção); consequências e incerteza.

NPR 7120.5

Para projetos: É a combinação de (1) a probabilidade de um projeto (ou programa) ser atingido por um evento inde- sejado, como sobrecustos, deslizes no cronograma, etc.; (2) as consequências, impacto, ou severidade do evento indesejado, quando ele ocorrer.

– Evento (ou condi- ção); consequências e incerteza NASA (1997) – STD- 8719.13A.

Para segurança: É a exposição à probabilidade de ferimento ou perdas. É uma função da possível frequência do evento indesejado ocorrer; da potencial severidade das consequências; e da incerteza associada com a frequência e a severidade.

Evento; consequên- cias; incerteza e metaincerteza (ince- reza na avaliação da incerteza). Brasil (2004) – NR 10

Para segurança humana: É “a capacidade de uma grandeza com potencial para causar lesões ou danos à saúde das pes- soas” Brasil (2004, p. 15).

Capacidade; con-

sequências e incerteza. Bühlmann

(1970)

Para questões de seguro: É uma relação entre a probabilidade de um determinado prêmio, num intervalo de tempo, e a soma da quantia que pode ser reivindicada, isto é: o que se poderá receber (num período de tempo) relativo ao que se poderá ter que pagar.

Duas variáveis esto- cásticas: – Pt (Prê-

mio, num intervalo de tempo) e St (Soma da

quantia reivindicada). DRJ / DRI

(2005) – Glossário

Para recuperação de desastres: Potencial para exposição a perdas. O potencial é usualmente medido pela probabilidade – em anos Consequências; expo- sição e incerteza. Castro et al.(2005) – Manual de defesa Civil do Ministério da Inte- gração Nacional

Para recuperação de desastres: É a “medida de danos e pre- juízos potenciais, expressa em termos de: (1) probabilidade estatística de ocorrência; (2) intensidade ou grandeza das con- sequências possíveis. Relação existente entre: (1) a probabi- lidade estatística de que uma ameaça de evento adverso ou de acidente determinado se concretize com uma magnitude definida; (2) o grau de vulnerabilidade do sistema receptor e seus efeitos.”

Evento (ameaça);

vulnerabilidade; con- sequências e incerteza.

Fonte: Adaptado de Calil, 2009 [56].

como “uma barreira para o sucesso” [57], às mais específicas do tipo “a exposição à pos-

sibilidade de perda ou ganho econômico ou financeiro, dano físico ou prejuízo, ou atraso, como consequência da incerteza associada à busca de um determinado curso de ação ”[58].

Depreende-se que o conceito de risco está associado à incerteza de um resultado e, como visto, a depender do enfoque é possível conferir a esse diferentes abordagens. É oportuno

observar, conforme entendimento de Morand (2005 apud CALIL, 2009) [56], que o risco

é inerente a qualquer iniciativa, e nossa cultura aceita o risco como o motor propulsor do progresso. O risco, portanto, deve ser reconhecido como onipresente e considerado um parâmetro do cotidiano em qualquer atividade humana.

No que concerne à segurança de barragens, estamos a tratar de um risco de ordem ope-

racional3, tecnológica, usualmente atribuído como as consequências esperadas associadas

à ocorrência de um evento adverso.

O risco operacional está associado ao risco resultante da execução dos processos de negócio de uma empresa. Trata-se de um conceito amplo, que pode incluir muitos ris- cos diferentes que colocam em causa a normal execução do negócio. Sua administração concentra-se na prevenção, controle e mitigação de eventos que impliquem perdas.

A exemplo do conceito de risco, não existe uma definição única para risco operacional.

Uma que se ajusta aos nossos propósitos é fornecida pelo Deutsch Bank [60]. Na percep-

ção da organização, risco operacional é explicado como: "(...) a potencial ocorrência de

falhas relacionadas a pessoas, a especificações contratuais e documentações, à tecnologia, à infraestrutura e desastres, a projetos, a influências externas e relações com clientes".

Em Segurança de Barragens os termos “incidente” e “acidente” são utilizados de modo recorrente e basicamente diferenciam-se pela magnitude do problema, o que, a exemplo dos conceitos discutidos anteriormente, de certa forma tem caráter subjetivo, causando certa confusão.

Vieira [61] desmembra estes conceitos de forma mais conveniente definindo acidente como um evento de grande porte correspondente à ruptura parcial ou total de obra e/ou a sua completa disfuncionalidade, com graves consequências econômicas e sociais e incidente é um "evento físico indesejável, de pequeno porte, que prejudica funcionalidade e/ou a

inteireza da obra, podendo vir a gerar eventuais acidentes, se não corrigido a tempo".

A ICOLD utiliza o termo “deterioração"(deterioration) para expressar tanto acidentes

como incidentes. Muitos autores por considerarem este um termo de caráter restritivo, 3Na Lei nº 12.334/2010, não há uma definição formal de risco, assim como na Resolução 143/2012 -

CNRH e na REN 696/2015 - ANEEL. No entanto a grandeza do risco pode ser inferida partindo-se do pressuposto que os dois fatores CRI e DPA, de certa forma, traduzem o par de valores probabilidade e consequência. Contudo, essa é uma visão que se apoia em deduções e hipóteses que surgem da ausência de uma clara definição de risco. Esse aspecto demonstra uma fragilidade da classificação por categoria de risco, já que o resultado do risco emitido pela classificação (Baixo, Médio ou Alto) não se fundamenta na dimensão das consequências [59].

voltado apenas para o registro de aspectos estruturais, preferem ignorá-lo e, quando pos-

sível, adotam a palavra “anomalia”, a qual entendem ser aplicável não somente a aspectos

estruturais, mas também a fatores não estruturais e abstratos.

A expressão anomalia também é adotada pela REN 696/2015 - ANEEL, sendo defi-

nida, em seu artigo V, como: "deficiência, irregularidade, anormalidade ou deformação

que possa a vir a afetar a segurança da barragem".

Seguindo a linha e técnicas da norma legislativa, a Resolução CNRH nº 144/2012 [62] inicia com as seguintes definições de acidente e incidente:

a. Acidente: comprometimento da integridade estrutural com liberação incontrolável do conteúdo de um reservatório ocasionado pelo colapso parcial ou total da barragem ou estrutura anexa;

b. Incidente: qualquer ocorrência que afete o comportamento da barragem ou estrutura anexa que, se não for controlada, pode causar um acidente.

Uma vez delimitados esses conceitos, a próxima seção discute os riscos aos quais estão expostas as barragens.