Capítulo 1: Canções e Poemas de Bob Dylan
1.19 Depois do acidente
Em 29 de julho de 1966, Bob Dylan sofreu um acidente quando a roda traseira de sua motocicleta travou. A princípio, notícias desencontradas sobre o fato começaram a circular, e alguns chegaram a pensar que ele tinha morrido. Dylan teve “vertebras cervicais quebradas, uma possível concussão e ferimentos na cabeça” (SHELTON, 2011, p. 518). Todos os shows que ainda estavam marcados foram cancelados, e Dylan passou alguns anos sem realizar turnês, o que contribuiu para que diversos boatos a respeito de seu estado fossem criados. Em agosto de 1966, Donn Alan Pennebaker visitou Dylan em Woodstock para mostrar a ele o filme Don’t Look Back (HEYLIN, 1988, p. 104). Allen Ginsberg visitou-o em setembro e levou livros de Emily Dickinson e Bertolt Brecht (SHELTON, 2011, p. 518).
Vários fatos aconteceram durante o seu “retiro”. Nesse período de isolamento do grande público e da mídia, Bob Dylan gravou a maior parte dos chamados “Basement Tapes” (HEYLIN, 1988, p. 105), que só foram lançados em disco pela primeira vez em 1975. Não conseguiu ter a privacidade que desejava. Em maio de 1967, falou à Michael Iachetta, do
Daily News de Nova York:
[Disse que estava] “vendo apenas alguns amigos próximos, lendo um pouco sobre o mundo lá fora, debruçando-me sobre livre [sic] de autores que você nunca ouviu falar, pensando em para onde estou indo, em por que estou correndo e em por que me confundi tanto, o que estou sabendo, o que estou dando e o que estou recebendo. E, principalmente, o que tenho feito é tentar melhorar e fazer música melhor, que é no que a minha vida se resume”. (SHELTON, 2011, p. 519)
Apesar da atividade artística de Bob Dylan ter sido produtiva durante seu período de afastamento, alguns problemas aconteceram. O lançamento de seu livro Tarântula teve de ser adiado para o ano seguinte. Em 1967, teve seu contrato com a Columbia renovado, mas não antes de um período de discussões e propostas de outras gravadoras. Anos mais tarde, Dylan acabou se mudando de Woodstock, buscando um novo refúgio para compor e criar depois que sua residência foi descoberta por curiosos e fãs (SHELTON, 2011, p. 529).
Em janeiro de 1968, Bob Dylan fez as primeiras aparições públicas depois do acidente. Ele tocou em dois shows em tributo a Woody Guthrie, que tinha falecido em 3 de outubro de 1967, após quinze anos de sofrimento constante devido à Coreia de Huntington (HEYLIN, 1998, p. 106). Em janeiro de 1968, foram produzidos dois shows no Carnegie Hall (um deles à tarde), e outros dois foram produzidos. A ideia foi de Bob Dylan, que colaborou na produção e cantou nos dois shows, que teriam renda revertida ao combate da Coreia de
Huntington ou à criação de uma biblioteca na cidade de Okemah, onde Woody Guthrie nascera. A expectativa em torno da presença de Dylan foi grande, e também a cobertura da imprensa, apesar de ele não querer que fotos ou filmagens suas fossem feitas. Os atores Will Geer e Robert Ryan, e os músicos Jack Elliott, Richie Havens, Judie Collins, Odetta, Tom Paxton e Pete Seeger, além de Arlo Guthrie, filho de Woody (e também músico e compositor) estão entre os que participaram desse tributo (SHELTON, 2011, p. 543). Outro tributo foi realizado em setembro de 1970, no Hollywood Bowl, com Joan Baez e diversos músicos, além dos atores Will Geer e Peter Fonda. Dois discos com gravações desses eventos foram lançados em 1972, com renda revertida a fundos de tratamento para a doença de Huntington e para a biblioteca de Woody Guthrie (SHELTON, 2011, p. 547).
Em janeiro de 1968, Dylan lançou John Wesley Harding. Nesse álbum, ele parece buscar um tipo de equilíbrio para si mesmo e para sua arte. Após os anos de grande sucesso e turnês exaustivas, o tempo que passou afastado do público após o acidente ajudou-o a se reconstruir-se e reinventar-se; o que, aliás, é uma de suas características, pois em termos de expressão artística, Bob Dylan é quase sempre imprevisível. “Alusões à Bíblia, estilo e sintaxe misturada com linguagem popular e folclore são encontradas em todo o álbum” (SHELTON, 2011, p. 534). O álbum traz influências da música country, que vão estar mais presentes no álbum seguinte, Nashville Skyline. Como em outros álbuns de Bob Dylan, há textos na contracapa. Desta vez, um texto em estilo de parábola, uma parábola sobre três reis. Alguns viram no texto semelhança com a prosa poética de Tarântula (SHELTON, 2011). Entre as canções do álbum destacamos “I Dreamed I Saw St. Augustine” e “All Along the Watchtower”. Nas letras de ambas encontramos o aspecto filosófico. Em “I Dreamed I Saw St. Augustine”, é evidente a questão da culpa, de um “eu” que se coloca entre os que “teriam condenado Santo Agostinho”. A letra de “All Along the Watchtower” é um poema sobre a decadência da sociedade, descrevendo uma cena em que um palhaço (ou bobo da corte) e um ladrão trocam impressões sobre o mundo ao redor (pois estão observando de uma torre); e o poema termina sugerindo a aproximação de cavaleiros, que podem ser compreendidos como os cavaleiros do apocalipse. Essa canção foi regravada por Jimmy Hendrix e pelo grupo U2. Uma das grandes canções de Dylan.
Figura 9: capa do álbum John Wesley Harding
Disponível em: <http://dylanesco.com/o-melhor-disco-de-dylan-pt-3-para-a-minha-historia/>.Acesso em:26.dez.2019.
Figura 10: contracapa do álbum John Wesley Harding
Disponível em: <http://dylanesco.com/o-melhor-disco-de-dylan-pt-3-para-a-minha-historia/>.Acesso em:26.dez.2019.
do pai, Abraham Zimmerman, causada por um ataque cardíaco; e o nascimento do filho Samuel Dylan (HEYLIN,1988, p. 108).
O álbum Nashville Skyline, lançado em 1969, reforçou os laços de Bob Dylan com a musica country, que haviam sido iniciados no disco anterior. Shelton comenta a gravação desse álbum que “um quieto jovem do interior foi até o bairro Music Row, em Nashville, escolheu alguns músicos, entrou em um estúdio e, em poucos dias, gravou um álbum de canções country de amor com um vocal suave que nunca usara antes” (SHELTON, 2011, p. 538). A participação do cantor e compositor country Johnny Cash nesse álbum mostrou mais uma vez a disposição de Dylan em realizar parcerias musicais em gravações, shows e composições. A lista de colaborações que Dylan fez, tem feito e recebido ao longo de sua carreira é tão extensa que ainda não foi documentada em uma única publicação, encontra-se registrada nas diversas obras sobre sua trajetória. Sobre a colaboração com Cash, Shelton destaca que “O relacionamento de Dylan e Cash chegou ao apogeu em 1969 com a faixa de abertura de Skyline e com participação de Dylan no programa de TV de Cash, no sábado 7 de junho” (SHELTON, 2011, p. 551). Além da canção “Girl From The North Country”, gravada com Johnny Cash, Nashville Skyline tem como destaques as canções “Tell me that it isn’t true” e “Lay Lady, Lay”, que se tornou uma das canções mais conhecidas de Dylan. Sobre a importância do álbum, Shelton ressalta que
A influência de Nashville Skyline foi inimaginável. No fim dos anos 1960, o pop e o
rock procuravam novas direções, e fortes elementos do country sempre existiram no pop anglo-americano. Ainda assim, Dylan forneceu o arreio que aproximou o pop do country, e Skyline foi a fivela. Boa parte do pop e do rock da década de 1970
explorou a musica country. Logo, os estúdios de Nashville estavam atulhados de artistas que antes desdenhavam o country, que o consideravam brega. (SHELTON, 2011, p. 555)
Figura 11: capa do álbum Nashville Skyline Disponível em:
<http://obviousmag.org/archives/2013/02/nashville_skyline__uma_viagem_ao_redor_do_country.html>.Acesso em:26.dez.2019.
Em 1969, aconteceu o grande inesquecível Festival de Woodstock, mas Bob Dylan não tocou nele, e sim no Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra. Infelizmente, subiu ao palco com bastante atraso devido a problemas de organização do festival. Numa apresentação contida, acompanhado da The Band, Dylan estava voltando à estrada (SHELTON, 2011, p. 561).