3. A(S) IDEOLOGIA(S) E SUA(S) CRÍTICA(S)
5.2 Os afetos e a forma vida
5.2.3 Desamparo: o afeto de Bartleby
Safatle (2015, p. 49), sobre a dimensão política dos afetos, escreve que “a superação tanto dos conflitos psíquicos, quanto a possibilidade de experiências políticas de emancipação pedem a consolidação de um impulso em direção à mutação dos afetos, impulso em direção à capacidade de ser afetado de outra maneira.”.
A experiência de administração da felicidade pela sociedade industrial avançada, de administração do medo pelo Estado de exceção e da administração da angústia pela sociedade de consumo, nos coloca diante do problema dinâmico entre excesso de experiências improdutivas de determinação e déficit de experiências produtivas de indeterminação. A síntese dessa dinâmica parece apontar para um excesso de experiências improdutivas de indeterminação que é a experiência da lei do gozo. Estamos sempre às vias com a regra das formas de vida (experiências determinadas) e o imperativo do supereu (experiências indeterminadas).
Os afetos centrais, segundo um ponto de vista psicanalítico, estão sempre preenchidos por suturas políticas. Na economia libidinal, a libido sempre tem um objeto a qual se identificar. Os afetos sempre nos movem para os objetos oferecidos pelo Outro do capitalismo.
Porém, desde Freud (1996/1926 [1925], p.136), parece haver um afeto não administrável: o desamparo. Assim escreve ele sobre o tema “verifica-se que a ansiedade é um produto do desamparo mental da criança, o qual é um símile natural de seu desamparo biológico.” O pai da psicanálise acreditava que o desamparo constitui a mais original experiência do psiquismo por ser produto filogenético da evolução humana. Para Safatle (2015), Freud entende o desamparo como o afeto fundamental para abertura dos vínculos sociais. Os laços sociais humanos somente são possíveis porque a primeira experiência social que temos com o mundo é a experiência do nada.
Por nascer e permanecer durante muito tempo na incapacidade de prover suas próprias exigências de satisfação, incapacidade de saber o que fazer para provê-las, o bebê estaria sempre às voltas com uma situação de desamparo que marca a abertura a relação com os pais e sua profunda dependência para com os mesmos. Como a vida humana desconhece normatividades imanentes, a afecção originária só pode ser ao menos para Freud, a expressão da vulnerabilidade do sujeito no interior da relação com o outro e da ausência de resposta articulada diante das exigências
posta pela necessidade. No entanto, o desamparo não será produzido apenas pela consciência de vulnerabilidade do sujeito na sua relação ao Outro, mas também pela própria ausência de resposta adequada as excitações pulsionais internas. Ou seja, há uma dupla articulação entre fontes internas e externas. (SAFATLE, 2015, p. 69)
Está em situação de desamparo é está diante da inadequação fundamental entre sujeito e cultura. Não há uma resposta possível nem para o sujeito em relação ao seu corpo, nem para essa relação externa com o mundo social. Adorno (2009), também percebera isso quando faz uso da não-identidade. É impossível reconciliar sujeito e cultura. Para este filósofo alemão a farsa fundamental do capitalismo é a mentira da reconciliação.
A experiência de desamparo é, desta maneira, a experiência primeira de sociabilidade. A “socialidade”27 é fundamentalmente o desamparo. Queremos apresentar duas
consequências que, segundo Safatle (2015), podem ser extraídas dessa hipótese freudiana. A primeira pode ser extraída, segundo este autor, da leitura de “O mal-estar na civilização”. Detenhamos-nos sobre a experiência do mal-estar.
Dunker (2015) aponta que o mal-estar é a experiência de uma condição de externalidade frente ao aparato simbólico. Nesse sentido Freud (1996/ 1930 [1929-1930]) nos apresenta pelo menos três nomes do mal-estar: 1) a falibilidade do corpo; 2) a impossibilidade de responder precisamente às demandas da sociedade e 3) a pequenez humana frente à natureza.
Os dois primeiros casos nos interessam para análise. Para Dunker (2015) o primeiro caso nos coloca de ante da produção dos sintomas e o segundo diante do sofrimento enquanto categoria social. Desta maneira, a sociabilidade humana é marcada pela articulação desses dois fenômenos. Essa articulação abre espaço para o seguinte ponto: sendo estruturais essas condições, ou seja, elas pertencem ao campo da socialidade, o mal-estar é inescapável. Estar no mundo é está sujeito ao mal-estar.
As duas condições, entretanto, são marcas do fracasso da experiência linguística de nomeação, por esse motivo, são externalidades do aparato simbólico. É a experiência de que a linguagem é incapaz de abarcar todos os processos de socialidade. As duas respostas possíveis são respostas sujeitas ao significante. Não há uma palavra que responda a demanda do corpo, assim como não há uma palavra que responda a demanda da sociedade. A partir disso Dunker (2015) infere o mal-estar como um déficit de percepção da angústia.
27 Lembremos que esse termo é usado por Marx (2004) em seus “Manuscritos econômicos filosóficos” para dizer que a experiência que funda o gênero humano é a atividade do trabalho de transformação volitiva da natureza.
Dissemos, pois que a angústia nasce da incapacidade de perceber a falta, pois esta é, na sociedade de consumo, sempre suturada. O mal-estar é um tipo de experiência de desamparo, assim como a angústia, no dizer de Safatle (2015), uma insegurança ontológica. Isso o coloca em uma condição peculiar descrita por Dunker (2015, p. 198) onde este se torna “a impossibilidade e a possibilidade da arte”.
No campo da impossibilidade, o mal-estar é uma experiência de imobilização. Safatle (2008) sugere que o capitalismo age melancolizando os sujeitos. Freud (1996/ 1917[1915], p. 254), em celebre passagem, escreve que melancolia ocorre quando “a sombra do objeto caiu sobre o ego”. Uma perca objetal na melancolia é sentida como a própria experiência de perda do “eu”. O sujeito da sociedade de consumo não consegue lidar com a possibilidade de não gozar ao mesmo tempo em que o gozo é a lei.
Em nossa interpretação, este é o significado da afirmação de que o mal-estar impossibilita a arte. O mal-estar, na sociedade capitalista, produz formas de afetação rígidas em que o circuito dos afetos é mobilizado em direção a objetos fixos oferecidos como respostas contra o medo, a angústia e como promessa de felicidade. Essa leitura nos apresentaria o porquê da necessidade das figuras de autoridades como fontes de onde emana a segurança.
Todavia, queremos apresentar outra leitura. O desamparo como potentia absoluta e, para isso, devemos evocar novamente a figura de Batlerby o escrevente. Seguindo a leitura de Safatle (2008), o capitalismo da insatisfação administrada opera sob a lógica da melancolização. Uma das consequências dessa, para nós, seria a despotencialização do desamparo.
Isso significa que esta experiência fundamental torna-se submetida à lógica da administração dos afetos, mas isso não significa dizer que é possível administrar o desamparo. Medo, angústia e felicidade são constantemente evocados contra a experiência de desamparo capaz de causar curto nos circuitos administrativos. Se Safatle (2015) estiver correto, e entendemos que sim, o desamparo pode se apresentar como a possibilidade de outras formas de afecção. Seguindo o pensamento freudiano isso ocorre, pois ele é o primeiro afeto dirigido ao mundo.
Essa condição contingente coloca o desamparo como uma categoria especial de afeto: poderíamos dizer que ele é o grau zero da estrutura pulsional do psiquismo. É sobre ele que se erigem as organizações psíquicas posteriores a vida infantil, mesmo que estas sejam reguladas pelas estruturas normativas das formas de vida pautadas em figuras de autoridade.
Essa condição especial, para nós, o colocaria como possibilidade de negação das formas de vida existentes. Aqui devemos, de maneira ensaística, pensar para além da dialética negativa e é para isso que precisamos de Bartleby, mas agora lido pelos olhos de Zizek (2008, p.498, grifo do autor) quando escreve que “Ao recusar a ordem do mestre, Bartleby não nega o predicado; antes, afirma um não predicado: ele não diz que não quer fazer, diz que prefere não (não quer) fazer isso.”.
É necessário evocar aqui o conceito de paralaxe apresentada na introdução desse texto. Para Zizek (2008) a paralaxe é o espaço vazio existente entre a mudança aparente do objeto causado pela mudança real do observador. Ao preferir não, Bartleby coloca em jogo um tipo de desamparo que não pode ser administrado pelo simples motivo de que a negação dele é uma afirmação.
Não se trata da reposição constante do não. Negar uma forma de vida que afirme outra para depois nega-la novamente. Trata-se de um elogio a formas de vidas que já são em si a negação de sua própria forma. Bartleby, aceita o desamparo quando na sua afirmação negativa aparece como desprovida de uma demanda. Bartleby não demanda ele deseja. O desejo, na tese hegelian-lacaniana, é a negação pura. O desejo não deseja objetos. Ele deseja o ato de desejar. Ou seja, deseja o desejo do outro.
O curto na administração dos afetos reside em não demandar um objeto que responda ao medo, a angústia e a felicidade. Mas, Zizek (2008) sabe da dificuldade de pensar para além da sociedade de consumo, pois a questão não é o fim das figuras de autoridade. O que afirma o filósofo esloveno é o lugar de Bartleby como esta figura. Na fantasia revolucionária de Zizek ocorreria a passagem de uma lei do supereu para a lei de Bartleby. Portanto, a lógica da mudança da paralaxe do superego para a paralaxe de Bartleby é muito precisa: é a mudança de algo para nada, da lacuna entre dois “algos” para a lacuna que separa algo de nada, do vazio de seu próprio lugar. (ZIZEK, 2008).
Zizek (2008) parece encontrar na potência do não, evocada pela figura do escrevente, a contraposição maior ao cinismo contemporâneo. Bartleby, ao preferir não, a tudo, também o prefere as formas cínicas da vida. O escrevente não quer um maior salário, não quer gerenciar suas dívidas (fantasia que marca a sociedade de consumo), não quer o brinquedo do kinder ovo e nem matar sua sede com Coca-Cola. Bartleby prefere não a qualquer obejeto oferecido pela sociedade de consumo. Ele não é se quer uma figura possível para a confecção do “Inimigo” que evoque a exceção do Estado. “Bartleby não conseguiria
fazer mal a uma mosca - é isso que torna sua presença tão insuportável” (ZIZEK, 2008, p.502).