3. A POSSIBILIDADE DE REABERTURA DAS INVESTIGAÇÕES E OS EFEITOS
3.1 Desarquivamento e oferecimento da denúncia
O Código de Processo Penal prevê a possibilidade de reabertura das investigações preliminares na hipótese de a autoridade policial receber notícia de provas novas. Dispõe o art. 18 do referido diploma processual que, “depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a
novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia.”.136
Da previsão legal, verifica-se que, mesmo com o arquivamento do inquérito policial, o prosseguimento das investigações não fica obstado, podendo ter continuidade caso
surjam novos elementos informativos sobre o caso.137 Isso porque, nada impede que, arquivado
o inquérito por ausência de suporte probatório, surjam novas provas aptas a modificarem a
matéria de fato, podendo dar ensejo ao procedimento penal.138 O arquivamento se justifica,
136 BRASIL. Decreto-lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Rio de Janeiro,
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 18 mai. 2018.
137 BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 128. 138 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. 18. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2006, p. 84.
portanto, no propósito de evitar a impunidade das condutas delituosas, e é consequência do
princípio da obrigatoriedade da ação penal de iniciativa pública.139
Nesse sentido, Jardim discorre:
o desarquivamento do inquérito policial nada mais significa do que uma decisão administrativa persecutória no sentido de modificar os efeitos do arquivamento. Enquanto este tem como consequência a cessação das investigações, aquele tem como efeito a retomada das investigações inicialmente paralisadas pela decisão de arquivamento.140
Por meio do desarquivamento do inquérito policial, é autorizado que as investigações, que tinham sido cessadas pela decisão de arquivamento, sejam retomadas. No entanto, para que isso ocorra, a lei exige que tenha sido noticiada à autoridade policial a existência de provas novas. Ou seja, é necessário que a autoridade policial, ou até mesmo o órgão do Ministério Público, tenha ciência de determinado elemento informativo que, se investigado, possa suscitar a produção de uma prova nova.
Tomando conhecimento da perspectiva de obtenção de provas novas, poderá a autoridade policial retomar as investigações acerca do fato objeto do inquérito arquivado, mediante a realização de diligências que visem à obtenção dos elementos probatórios que lhe foram noticiados, a fim de consubstanciar a eventual propositura da ação penal.
De acordo com Capez, enquanto não extinta a punibilidade pela prescrição, é autorizado à autoridade policial “proceder a novas pesquisas desde que surjam outras provas, isto é, novas provas, que alterem o ‘panorama probatório dentro do qual foi concebido e
acolhido o pedido de arquivamento do inquérito’.”.141
Logo, obtendo notícia de provas novas, o entendimento dominante é que a autoridade policial deverá representar ao Ministério Público, a fim de que este, avaliando a situação, promova o desarquivamento. Fala-se em entendimento dominante, pois o Código de Processo Penal não tratou especificamente do procedimento do desarquivamento do inquérito
policial, acarretando uma incerteza acerca da titularidade para a sua promoção.142
Segundo Rangel, em razão de não haver a autoridade policial, de fato, obtido novas provas, mas apenas ter sido noticiada da sua existência, deverá, a fim de que possam ser
produzidas, requerer ao Ministério Público o desarquivamento do inquérito.143
139 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 202.
140 JARDIM, Afrânio Silva. Direito Processual Penal. 11. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 174. 141 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. São Paulo: Atlas [19--?], p. 58 apud CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. 13.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 103.
142 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 201. 143 Ibidem, p. 202.
Apesar de o procedimento de arquivamento dever ser necessariamente submetido à apreciação pelo órgão jurisdicional, a doutrina majoritária entende que, no caso de desarquivamento, ao juiz não compete qualquer atribuição de caráter decisório. Caberia, portanto, exclusivamente ao Ministério Público a promoção do desarquivamento do inquérito.
Nessa perspectiva, Polastri esclarece:
o fato de a decisão de arquivamento ser judicial não permite o entendimento de que o requerimento de desarquivamento deva ser submetido ao Judiciário, pois, com já visto, é o Ministério Público que sempre dará a última palavra quanto à pertinência ou não do arquivamento, e consequentemente, ao mesmo cabe decidir sobre o desarquivamento. Ao Ministério Público cabe, privativamente, a promoção da ação penal pública, e o Judiciário não pode obrigar à Instituição ou seus membros a tal promoção, ou seja, a desarquivar procedimentos e oferecer denúncia, como também,
segundo o mesmo raciocínio, não pode impedir o desarquivamento do inquérito.144 (grifo do autor)
Afrânio Jardim igualmente afirma que a decisão pelo desarquivamento deve ser de atribuição exclusiva do Ministério Público. Ao magistrado caberá um controle posterior, visto eventual denúncia será por ele analisada, quando do seu oferecimento, oportunidade em que
poderá recebê-la ou rejeitá-la, se ela não estiver arrimada em provas novas.145
Dessa forma, a partir do momento que a autoridade policial tiver notícia de novas provas, deverá oficiar ao órgão do Ministério Público atuante, requerendo o desarquivamento da peça de informação. O Parquet, como exclusivo titular da ação penal de iniciativa pública, será competente para promover o desarquivamento, mediante a solicitação à autoridade judicial da retirada física dos autos do inquérito do arquivo, visto que, na prática, estes permanecem
arquivados perante o Poder Judiciário.146
Ademais, como consequência da ausência de indicação da titularidade para a promoção do desarquivamento, questiona-se qual seria o órgão no âmbito interno do Ministério Público com atribuição para efetivá-lo.
Segundo Jardim, a problemática deve ser resolvida através das leis orgânicas estaduais de cada órgão, tal como a Lei Orgânica 106/2003 do Ministério Público do Estado do
Rio de Janeiro147, que confere ao Procurador-Geral de Justiça a atribuição para o
144 LIMA, Marcellus Polastri. Curso de processo penal. 7. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p .142. 145 JARDIM, Afrânio Silva. Direito Processual Penal. 11. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 176. 146 LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal. 3. ed., rev., ampl. e atual. Salvador: Juspodivm, 2015,
p. 161.
147BRASIL (Estado). Lei Complementar nº 106, de 03 de janeiro de 2003. Institui a Lei Orgânica do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências. Rio de Janeiro, RJ. Disponível em:
<http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/CONTLEI.NSF/1dd40aed4fced2c5032564ff0062e425/1f29578c748b110883256cc 90049373b?OpenDocument>. Acesso em: 25 abr. 2018. “Art. 39 - Além das atribuições previstas nas Constituições Federal e Estadual, nesta e em outras leis, compete ao Procurador-Geral de Justiça: [...] XV
desarquivamento. Na hipótese da ausência de disposição sobre o assunto, defende o referido autor que, terão atribuição para promover o desarquivamento das peças de informação tanto os promotores de justiça como o Procurador-Geral. A exceção, por sua vez, ocorrerá na hipótese de o arquivamento ter decorrido de manifestação do Procurador-Geral, em observância ao princípio da devolutividade, situação na qual somente lhe caberá a determinação da retomada
das investigações, por questões de hierarquia institucional.148
Em contrapartida, Polastri, seguindo a doutrina mais moderna, defende que terá atribuição para a promoção do desarquivamento, tanto o Procurador-Geral como o promotor natural, exceto nas hipóteses de ação penal de iniciativa originária daquele. Para o autor, o fato de as leis orgânicas estaduais estabelecerem como função do Procurador-Geral de Justiça a promoção do desarquivamento do inquérito policial “não retira a atribuição para este ato do promotor responsável por aquele feito, em vista dos princípios do promotor natural, da
independência funcional e, sobretudo, da obrigatoriedade da ação penal pública.”.149
Destarte, como eventual consequência da reabertura das investigações, é possível que a autoridade policial, logrando êxito na realização de novas diligências, consiga obter a produção das provas que lhe foram noticiadas. Não se trata de uma consequência obrigatória, visto que a reabertura das investigações poderá ou não acarretar o oferecimento da denúncia, “a depender da existência efetiva, nos novos elementos alcançados, de justa causa, vale dizer,
de suporte probatório suficiente para o exercício da ação penal”.150
Logo, havendo-se obtido novas provas, poderá o Ministério Público proceder a propositura da ação penal. É o que se infere do enunciado da Súmula nº 524 do Supremo
Tribunal Federal, segundo a qual, “arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a
requerimento do promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem novas provas.”.151
Deve ser destacado que a proposição do art. 18 do Código de Processo Penal e o enunciado da Súmula nº 524 do STF tratam de situações diferentes, que não devem ser confundidas na prática. Isso porque, o dispositivo legal versa sobre o desarquivamento do inquérito policial e a consequente reabertura das investigações. Para tanto, é demandada a mera notícia da existência de provas novas, não sendo necessário que estas, de fato, já existam naquele momento. Diferentemente, a súmula retromencionada refere-se ao oferecimento
promover seu desarquivamento e, se for o caso, oferecer denúncia ou representação, ou designar outro órgão do Ministério Público para fazê-lo; [...]”.
148 JARDIM, Afrânio Silva. Direito Processual Penal. 11. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 176. 149 LIMA, Marcellus Polastri. Curso de processo penal. 7. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p .142-143. 150 REBOUÇAS, Sérgio. Curso de direito processual penal. Salvador: Juspodivm, 2017, p. 201.
151 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula nº 524. Diário da Justiça. Brasília, 12 dez. 1969. Disponível em:
ulterior da denúncia, cujos fatos foram objeto de inquérito policial anteriormente arquivado. Nesse caso, exige-se a presença efetiva de novas provas, isto é, que estas já tenham sido
produzidas.152
Nesse contexto, Rangel faz a seguinte diferenciação:
Na hipótese da Súmula, o que não se admite é a propositura da ação penal sem novas provas. Ou seja, as provas (para a Súmula) devem existir no momento da propositura da ação. Nesse caso, não se fala em desarquivamento do inquérito policial, mas, sim, em propositura de ação penal.153 (grifo do autor)
O referido autor afirma, ainda, que, podem ocorrer situações em que, estando o inquérito arquivado, surjam novas provas aptas a fundamentar o oferecimento da ação penal. Na hipótese, defende que não se trataria de reabertura das investigações, mas sim o caso da propositura da ação penal, que ocorreria independentemente do desarquivamento do inquérito.154
Teria a exigência de existência de prova nova natureza de condição específica de procedibilidade. Isso porque, sem a existência de novas provas a ação penal, contra fato que
fora objeto de inquérito anteriormente arquivado, não pode ser proposta.155
Por conseguinte, cabe finalmente distinguir quais as provas que autorizam a reabertura das investigações. Isso porque, conforme explica Mirabete, “essas novas provas, capazes de autorizar o início da ação penal, são somente aquelas que produzem alteração no panorama probatório dentro do qual foi concebido e acolhido o pedido de arquivamento do inquérito”.156
Rangel esclarece que, devem compreender o conceito de provas novas tanto “aquelas que já existiam e não foram produzidas no momento oportuno, ou as provas que surgiram após o encerramento do inquérito policial.”. Para o autor, a prova que autoriza o desarquivamento é aquela substancialmente nova, entendida como aquela que possui aptidão de mudar o quadro probatório, aduzindo informações novas, sendo capazes de fundamentar a propositura da ação penal. Difere, portanto, da prova formalmente nova, que não tem competência de mudar o contexto probatório, pois não agrega nenhum elemento novo ao inquérito.157
152 LIMA, Marcellus Polastri. Curso de processo penal. 7. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013, p. 140. 153 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 202. 154 Ibidem, p. 203.
155 Ibidem, p. 203.
156 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. 18. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2006, p. 84. 157 Ibidem, p. 202-203.
Segundo Rebouças, são elementos essenciais para a caracterização de uma prova
nova o ineditismo das informações – mas não necessariamente da fonte – e a eficácia
modificativa da prova sobre os fatos abrangidos pelo arquivamento. Para o referido autor entende-se por prova nova:
aquela que modifica a matéria de fato, inovando a realidade empírica pouco importando se as fontes probatórias já existiam ao tempo do inquérito arquivado ou se apenas surgiram depois, desde que revelados inéditos os dados empíricos por elas fornecidos. Não basta, assim, a mera revaloração de provas já produzidas, exigindo- se a modificação empírica, propiciada por elementos inéditos.158 (grifo do autor) Com efeito, o conceito de prova nova abrange tanto aquela originalmente nova, isto é, a desconhecida quando do arquivamento do inquérito, bem como a supervenientemente nova, que já era conhecida naquele momento, mas que “assumiu em momento posterior nova versão fática (e não apenas jurídica)”.159
No âmbito jurisprudencial, os Tribunais Superiores têm apresentado entendimento bastante semelhante. Nesse aspecto, tem-se como importante referência a decisão do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº 18.561/ES, por meio da qual foram indicados os requisitos necessários para a caracterização de uma prova
nova, capaz de autorizar o desarquivamento do inquérito.160 São eles:
a) que seja formalmente nova, isto é, sejam apresentados novos fatos, anteriormente desconhecidos; b) que seja substancialmente nova, isto é, tenha idoneidade para alterar o juízo anteriormente proferido sobre a desnecessidade da persecução penal; c) seja apta a produzir alteração no panorama probatório dentro do qual foi concebido e acolhido o pedido de arquivamento [...].161
Desse modo, o desarquivamento do inquérito policial será autorizado quando surgirem notícias de novas provas, sendo imprescindível que elas sejam aptas a alterarem substancialmente o panorama probatório existente na época do arquivamento da peça de informação.