CAPÍTULO IV. O MODELO DA IDENTIDADE ENDOGRUPAL COMUM __________57
3. Resultados
2.2 Procedimento experimental
2.3.1 Descrição do protocolo de medidas
O protocolo com as medidas dependentes foi aplicado imediatamente após a
apresentação da solução encontrada pelos participantes aos investigadores, com as crianças
sentadas nas posições em que resolveram a tarefa experimental.
A primeira página do protocolo das medidas dependentes (cf. Anexo 1E) referia-se à
verificação da manipulação experimental, ou seja, à identificação da representação cognitiva
do agregado durante a interacção, a qual possuía quatro hipóteses de resposta,
designadamente:
1) Nós os(as) seis escolhemos em conjunto as coisas que queríamos levar no barco
(condição recategorização);
2) Nós os(as) três explicámos aos(às) outros(as) três quais as coisas que queríamos
levar no barco (condição categorização);
3) Eu escolhi as coisas que queria levar no barco (condição descategorização);
4) O nosso grupo de três meninos(as), em conjunto com o outro grupo de três
meninos(as), escolheu as coisas que a nossa equipa de seis meninos(as) queria levar no barco
(condição dupla identidade).
Nesta primeira parte, era pedido aos participantes que escolhessem a frase que
melhor descrevia a última situação de interacção sob a qual tinham resolvido a tarefa, o que
implicava a escolha de uma e apenas uma das opções apresentadas.
argumentos. Por um lado, acompanhando o trabalho seminal de Gaertner e colegas (1989),
as medidas dependentes deveriam ser centradas na resolução do problema experimental que
estava na base da interacção directa entre os grupos e, por outro, deveriam acompanhar a
literatura empírica sobre produção de enviesamento intergrupal.
De acordo com Brewer (1979), a distinção entre favoritismo endogrupal e
desvalorização do exogrupo (outgroup derogation) nem sempre está presente na
investigação com o paradigma dos grupos mínimos, na medida em que não se esclarece se o
enviesamento intergrupal se traduz numa valorização do endogrupo, ou numa diminuição do
valor dado ao exogrupo, ou ambas. Na revisão que a autora faz sobre estudos com grupos
mínimos (idem, 1979), concluiu que neste paradigma os membros dos grupos estão mais
preocupados com o favorecimento do seu próprio grupo do que com uma ameaça directa ao
exogrupo. A investigação sobre a discriminação intergrupal, ou seja, sobre favoritismo
endogrupal/discriminação exogrupal tem-se centrado sobretudo no benefício que os
membros dos grupos atribuem ao seu próprio grupo na distribuição ou na avaliação de
características positivas (Amiot & Bourhis, 2003).
Face ao exposto, integrámos dois atributos de natureza avaliativa – a competência e o
egoísmo – e uma medida comportamental – a atribuição de recursos.
A escolha do atributo negativo ficou a dever-se ao que a literatura sobre o efeito da
assimetria positivo-negativo na discriminação intergrupal tem evidenciado (Mummendey &
Otten, 1998; Mummendey, Simon, Dietze, Gruenert, Haeger, Kessler, Lettgen, &
Schaeferhoff, 1992; Marinho, 2005). De forma sintética, esta linha de investigação tem
demonstrado que a categorização conduz a menores comportamentos de discriminação
intergrupal quando o que existe para distribuir entre os grupos são conteúdos negativos
(mais horas de trabalho) do que quando são positivos (dinheiro). Para além disso, é
necessário que se cumpram condições como a saliência da categorização na interacção entre
os grupos e a pertença a grupos minoritários e/ou de baixo estatuto para que se verifique a
existência de discriminação intergrupal quando o conteúdo da medida é negativo. Nestes
casos, as condições acima referidas servem para manter a discriminação negativa, na medida
em que elas implicitamente legitimam comportamentos de discriminação socialmente
indesejáveis (Amiot & Bourhis, 2003).
Considerando que os estudos que compõem este trabalho convocam grupos de
diferente estatuto étnico na interacção, e em um deles a categorização étnica encontra-se
saliente durante a interacção (estudo 3), considerámos importante testar o comportamento
dos três modelos na redução do enviesamento intergrupal quando um dos atributos
avaliativos é negativo.
Assim, cada participante avaliou os restantes cinco nos atributos de Competência e de
Egoísmo, segundo uma escala de Likert de 4 pontos (4 = muito; 3 = assim, assim; 2 = pouco;
1 = nada) (cf. Anexo 1E).
A terceira medida dependente consistiu na atribuição de recursos em resposta à
pergunta “Imagina que havia um prémio para dar aos(às) meninos(as) que estiveram a jogar
este jogo e que esse prémio eram lápis de cor especiais”. Nesta medida, as crianças tinham de
escrever na folha do protocolo quantos lápis de cor queriam oferecer a cada um dos 5
participantes. De forma a não dificultar a atribuição de valores a cada participante a medida
não apresentava valores limite (mínimo e máximo) para o nº de recursos atribuíveis (cf.
Anexo 1E).
2.3.1.1 Organização dos protocolos de medidas dependentes
A apresentação das medidas dependentes foi efectuada consoante as quatro condições
experimentais.
As medidas de avaliação social (atributos Competente e Egoísta) eram precedidas, em
todas as condições, pela seguinte instrução “Pensa no que se passou nesta sala enquanto
estiveram a fazer o jogo e diz agora como é que são os(as) outros(as) meninos(as)”. Em
seguida, os participantes liam diferentes instruções, consoante a condição para a qual tinham
sido aleatoriamente seleccionados.
eram apresentados em dois grupos: dois participantes para o endogrupo e três participantes
para o exogrupo. Antes da avaliação de cada um dos subgrupos, os participantes liam a
seguinte instrução: “Pensa no grupo X (nome do endogrupo). Pensa agora na(o) [nome de
cada criança]. Até que ponto é que achas que ela(ele) jogou bem e foi egoísta”. A instrução
apresentada antes da avaliação do exogrupo era a mesma que a anterior, diferindo apenas no
número de elementos que constituíam o grupo (3 crianças).
No protocolo respeitante à condição de recategorização eram apresentados os nomes
dos 5 participantes e as medidas eram precedidas do estímulo “Pensa no grupo X (nome do
grupo único). Pensa agora no(a) [nome de cada criança]. Até que ponto é que achas que
ela(ele) ….. jogou bem e é egoísta. Esta última instrução era repetida mais quatro vezes, de
modo a que cada criança avaliasse os restantes membros do grupo único (membros do endo-
e do exogrupo) de forma alternada.
No protocolo referente à condição de descategorização os participantes avaliavam os 5
elementos nos dois atributos sem que lhes fosse apresentada qualquer indicação referente
aos anteriores subgrupos. O estímulo apresentado era o seguinte: “Pensa agora no(a) [nome
de cada criança]. Até que ponto é que achas que ela(ele) ….. jogou bem e foi egoísta”.
Finalmente, no que se refere ao protocolo respeitante à condição de dupla identidade
eram simultaneamente apresentados os nomes da equipa de 6 elementos e os nomes dos
subgrupos [“Pensa na equipa X (nome do grupo único) e no grupo Y (nome do subgrupo). Até
que ponto é que achas que ela(ele) ….. jogou bem e é egoísta]. Esta instrução era apresentada
mais uma vez de forma às crianças poderem avaliar os membros do outro subgrupo.
A medida de atribuição de recursos teve um formato semelhante ao da apresentação
dos atributos. Desta forma, era precedida em todos os protocolos pela instrução: “Imagina
que havia um prémio para dar aos(às) meninos(as) que estiveram a jogar este jogo e que esse
prémio eram lápis de cores especiais. Quantos lápis de cor é que queres dar aos(às)
meninos(as) que estiveram aqui a fazer o jogo?”. Em seguida apresentavam-se os nomes dos
participantes previamente organizados de acordo com a condição experimental em que se
encontravam.
2.3.1.2 Criação de medidas síntese para as avaliações do endogrupo e do exogrupo
Para efeitos de apresentação de resultados, foram calculadas variáveis referentes à
avaliação do endogrupo e do exogrupo em todas as medidas dependentes consideradas.
Assim, nos atributos Competente e Egoísta e na medida de atribuição de recursos (nº
de lápis), a avaliação do endogrupo e a avaliação do exogrupo foram calculadas a partir das
fórmulas apresentadas abaixo, considerando a natureza quantitativa das medidas:
Endogrupo = ∑ (membro A + membro B)/2
Exogrupo = ∑ (membro A + membro B + membro C)/3
De acordo com as fórmulas apresentadas, criaram-se três variáveis referentes à
avaliação do endogrupo, designadamente, avaliação do endogrupo no atributo Competente,
no atributo de Egoísta e na atribuição de recursos, em que as duas primeiras variaram entre 1
e 4 (correspondendo ao número de pontos da escala de Likert sobre a qual se obtiveram as
respostas) e a terceira – atribuição de recursos – variou entre o mínimo valor médio e o
máximo valor médio de recursos atribuídos ao endogrupo. A avaliação do exogrupo recebeu
um tratamento semelhante ao apresentado em relação ao endogrupo, apenas diferindo no
número de participantes que integrava a fórmula específica para este cálculo (3 elementos ao
invés de 2).
No documento
ESTUDOS EM BRANCO E NEGRO: Modelos de redução do preconceito inter-étnico na infância
(páginas 125-129)