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CAPÍTULO IV. O MODELO DA IDENTIDADE ENDOGRUPAL COMUM __________57

2. FUNDAMENTOS DO MODELO DA DUPLA IDENTIDADE

Considerando quer as vantagens quer as restrições das propostas apresentadas

anteriormente, a Dupla Identidade surge como uma estratégia alternativa à Recategorização

na redução do enviesamento intergrupal. O cerne desta representação sugere que a

manutenção simultânea das distinções entre endogrupo-exogrupo e uma categoria ou

identidade supraordenada num encontro cooperativo entre os grupos pode, não só

constituir-se como estratégia eficaz a reduzir o enviesamento durante a interacção, como

seria particularmente eficaz a generalizar essa redução para outros contextos e ao longo do

tempo.

Mas antes de entrarmos na descrição do modelo da Dupla Identidade propriamente

dito, importa fazer uma distinção entre este e o modelo da diferenciação intergrupal mútua

(Hewstone & Brown, 1986; Hewstone, 1996; Brown & Hewstone, 2005).

A distinção básica entre estes dois modelos é a presença de uma categoria

supraordenada no primeiro e a ausência da mesma no segundo, tomando como comum a

ambos a saliência das identidade e fronteiras subgrupais, independentemente do estatuto dos

grupos e da valorização das dimensões das tarefas dos grupos durante o contacto.

No entanto, a literatura sobre a dupla identidade tem vindo a demonstrar de forma

recorrente e sistemática que a representação cognitiva de dupla identidade é particularmente

eficaz quando os grupos possuem diferentes estatutos, sejam eles induzidos ou reais (étnicos

por exemplo) e, quando as tarefas envolvidas na situação de contacto cooperativo são

distintas mas interdependentes, ou seja, complementares, na concretização de objectivos

e/ou destinos comuns aos grupos.

De acordo com Gaertner e Dovidio (2000), a Dupla Identidade consiste numa

estratégia de redução do preconceito compatível com o proposto pelo modelo da

Diferenciação Intergrupal Mútua (Hewstone & Brown, 1986; Hewstone, 1996), na medida em

que defende que a introdução de uma relação de cooperação entre os grupos, sem degradar

as categorizações originais em endogrupo-exogrupo, é uma forma eficaz de mudar as atitudes

intergrupais e de generalizar essas atitudes a outros membros do exogrupo.

Esta nova forma de recategorização (não esquecendo que a categoria supraordenada é

uma constante entre a Dupla Identidade e a Identidade Endogrupal Comum), em que se

mantêm salientes as pertenças subgrupais ao mesmo tempo que se estabelece a pertença a

uma categoria mais inclusiva, pode ser particularmente eficaz na medida em que permite que

os benefícios de uma identidade endogrupal comum operem, sem que as motivações para a

obtenção de uma distintividade positiva sejam activadas (Dovidio, Gaertner, Niemman, &

Snider, 2001). Neste sentido, a dupla identidade envolve simultaneamente o reconhecimento

de uma conexão – em relação à identidade supraordenada do grupo – e uma diferença –

identidade aos grupos originais. A identidade supraordenada activa e redirecciona o

favoritismo endogrupal de forma a melhorar as atitudes para com os membros dos exogrupos

originais presentes no contacto, enquanto que a saliência dos identidades subgrupais

fornecem os links associativos para que essas atitudes se generalizem a outros membros do

exogrupo não presentes na interacção (Gaertner & Dovidio, 2000).

Para além disso, a Dupla Identidade pode ser particularmente eficaz quando os

indivíduos possuem fortes ligações aos seus grupos originais, ou quando as identidades

subgrupais e os valores culturais a elas associados são fundamentais para o adequado

funcionamento dos seus membros. Nestes casos, a estratégia da dupla identidade seria

particularmente eficaz no entendimento das relações intergrupais marcadas por pertenças

étnicas ou raciais diferentes e, em particular, em grupos étnicos minoritários, dado que o

desenvolvimento de uma dupla identidade, poderia ser traduzida numa identidade bi- ou

multicultural, o que ajudaria a melhorar não só as relações entre os grupos e a reduzir o

enviesamento mas também poderia contribuir para o ajustamento social, adaptação

psicológica e, acima de tudo, para o bem-estar dos grupos (LaFromboise, Coleman, & Gerton,

1993; Dovidio et al., 2001).

A hipótese “trade-off” (Gaertner et al., 1993; Gaertner & Dovidio, 2000) destaca, na

sua análise, a relação entre as representações categorizadas dos grupos (representação em

“dois grupos”) e a representação em “grupo único”. Neste sentido, a proposta dos seus

autores é a de que os indivíduos desenvolveriam atitudes mais favoráveis relativamente a

outros grupos como um todo quando reconhecessem simultaneamente a pertença ao grupo

comum (recategorização - grupo único) e a pertença a grupos específicos originais

(categorização – dois grupos) e que este reconhecimento seria mais favorável à redução do

preconceito do que apenas reconhecerem-se como membros de uma categoria

supraordenada ou apenas reconhecerem as suas pertenças subgrupais. Assim, e como

referem Gaertner e Dovidio (2000) “we hypothesize a trade-off in wich attitudes toward

outgroup members present during contact would be less favorable with a dual identity than

with a purely one group identity” (p. 147), assumindo, no entanto, que a alteração de atitudes

em relação aos membros do exogrupo presentes na interacção seja mais modesta do que a

produzida pela recategorização em grupo único, sem tornar saliente as pertenças originais. O

mesmo será dizer, que a hipótese “trade-off” defende que, enquanto as atitudes face a

membros do exogrupo produzidas pela Dupla Identidade durante a interacção são menos

favoráveis comparativamente às produzidas pela Recategorização (grupo único), a sua

capacidade de generalização seria melhor que a da recategorização, na medida em que a

Dupla Identidade deixaria intacta a ligação associativa à identidade do grupo, o mesmo já

não se passando na recategorização dado que essa ligação desapareceria através da criação de

uma identidade supraordenada.

Por estas razões, o modelo da Dupla Identidade, veio essencialmente propor uma

nova constelação das relações entre os grupos mais preocupada em estender os efeitos da

redução da discriminação e do enviesamento intergrupal, ou seja, em potenciar os efeitos de

generalização (quer a outros membros do exogrupo, quer a outros exogrupos, quer ao longo

do tempo), ao mesmo tempo que integra as já comprovadas vantagens da representação em

grupo único produzida pela Identidade Endogrupal Comum.