CAPÍTULO IV. O MODELO DA IDENTIDADE ENDOGRUPAL COMUM __________57
2. TESTES EMPÍRICOS AO MODELO DA IDENTIDADE ENDOGRUPAL COMUM
2.2 Efeitos de generalização do modelo da Identidade Endogrupal Comum
O conjunto de estudos que se segue tiveram como objectivo testar a capacidade do
modelo da Identidade Endogrupal Comum na extensão dos benefícios positivos do contacto a
outros membros do exogrupo e ao longo do tempo.
Um outro estudo importante neste domínio foi o conduzido por Gaertner, Dovidio e
Rust em 1997 e descrito por Gaertner e Dovidio em 2000. Neste estudo, grupos com filiações
partidárias distintas (Republicanos e Democratas) interagiram segundo quatro diferentes
representações do agregado (recategorização, dupla identidade, descategorização e
categorização). Tal como esperado, os níveis de enviesamento intergrupal obtidos foram
menores nas condições de Grupo Único quando comparados com os níveis obtidos na
condição Dois Grupos (controlo). Para além disso, o enviesamento relativamente a membros
do exogrupo presentes na interacção e a membros do exogrupo em geral correlacionaram-se
positivamente quando as pertenças dos participantes tinham sido manipuladas de forma a
enfatizar mais as fronteiras grupais do que as identidades individuais. Assim, e segundo os
autores, os efeitos da Recategorização reduziram o enviesamento intergrupal na situação de
contacto e generalizaram-se ao exogrupo como um todo.
O estudo realizado por González e Brown (2003 testou simultaneamente a capacidade
de redução do enviesamento intergrupal e a extensão dos benefícios do contacto ao exogrupo
como um todo (generalização) das estratégias de recategorização, descategorização e dupla
identidade. Os resultados obtidos mostraram que, durante a situação de contacto, os
participantes sob as representações de recategorização (um grupo), descategorização
(indivíduos) e dupla identidade (dois grupos num grupo) apresentavam baixos níveis de
ansiedade intergrupal, enquanto só foi possível generalizar esses benefícios ao exogrupo
como um todo nas condições de recategorização e de dupla identidade.
Eller e Abrams (2004), através de dois estudos longitudinais com dois pontos de
avaliação temporal, testaram a capacidade de redução e de generalização da redução do
enviesamento intergrupal operado pelas representações de Dupla Identidade, de
Recategorização e de Descategorização. Enquanto que os resultados do primeiro estudo
apenas evidenciam os benefícios da descategorização, os referentes ao segundo estudo
mostraram a capacidade dos modelos da Identidade Endogrupal Comum e da Dupla
Identidade. Assim, ambas as representações cognitivas produziram níveis mais baixos de
enviesamento intergrupal nos participantes mexicanos na situação de contacto, a
Recategorização não conseguir estender os benefícios obtidos no contacto (enviesamento
intergrupal reduzido) ao longo do tempo.
Num estudo realizado com estudantes universitários, González e Brown (in press)
testaram o impacto das representações cognitivas inerentes aos modelos da Recategorização,
Descategorização e Dupla Identidade na produção de baixos níveis de enviesamento e na
generalização do enviesamento intergrupal reduzido em grupos de diferente estatuto
(elevado e baixo) e entre grupos maioritários e minoritários de elevado e de baixo estatuto,
tendo estas características dos grupos sido experimentalmente induzidas. No que diz respeito
ao impacto do modelo da Identidade Endogrupal Comum, e independentemente da
dimensão e do estatuto dos grupos, a estratégia de recategorização mostrou-se eficaz a
reduzir o enviesamento intergrupal na situação de contacto. Na generalização do exogrupo
como um todo (não presente na interacção), os resultados mostraram que os participantes de
grupos minoritários e de elevado estatuto sob a representação de recategorização
apresentavam maior nível de enviesamento intergrupal. No que se refere aos grupos
maioritários, e independentemente do estatuto dos grupos, os resultados não se mostraram
significativos. Assim, e os autores concluem que a estratégia de recategorização apesar de ter
sido eficaz a reduzir o enviesamento na situação de contacto directo, não se mostrou eficaz e
estender esses benefícios ao exogrupo como um todo.
Como vimos, os resultados obtidos ao longo de vários estudos (Eller & Abrams, 2004,
2006; Dovidio et al., 1995, 1997, 1998; Gaertner et al., 1989, 1990, 1993, 1994, 1996, 1999;
González & Brown, 2003, in press; Hornsey & Hogg, 2000), efectuados em diversos
contextos e sobre diferentes tópicos, constituem um suporte empírico particularmente
significativo na demonstração da utilidade do modelo da identidade endogrupal comum no
entendimento dos processos que reduzem o enviesamento intergrupal e favorecem relações
intergrupais mais harmoniosas.
Os estudos claramente evidenciaram que a representação do agregado como grupo
único está directamente relacionada com sentimentos mais positivos face aos membros do
exogrupo e que as condições propostas pela hipótese do contacto para o sucesso das relações
intergrupais harmoniosas, como por exemplo a cooperação, produzem efectivamente efeitos
positivos. No entanto, vemos que a capacidade de generalização dos benefícios do contacto
subjacente a este modelo parece ser mais desafiante, facto que também esteve na base da
formulação teórica, e respectiva averiguação empírica, do modelo da Dupla Identidade.
Capítulo V
O Modelo da Dupla Identidade
Antes de apresentarmos o modelo da Dupla Identidade (Gaertner et al., 1993;
Gaertner & Dovidio, 2000), importa conhecer as razões inerentes à sua formulação, ou seja,
importa conhecer os desafios que outros autores colocaram aos modelos da descategorização
e da identidade endogrupal comum, os quais decidiram a criação deste modelo no âmbito da
redução do enviesamento intergrupal e/ou favoritismo endogrupal.
Muito embora as representações cognitivas inerentes aos grupos na situação de
contacto defendidas pelos modelos da Descategorização e da Recategorização sejam distintas,
estas duas abordagens comungam da necessidade de se reduzir a diferenciação baseada em
categorias e processos associados (enviesamento/discriminação intergrupal). Porque ambos
os modelos assentam na premissa da redução ou eliminação da saliência da diferenciação
intergrupal, eles envolvem uma estruturação do contacto que pode constituir um desafio, ou
até uma ameaça, à identidade social dos grupos. Os factores cognitivos e motivacionais
inerentes a estes modelos remetem para a criação de uma resistência à dissolução das
fronteiras das categorias ou grupos (descategorização) ou para o reestabelecimento de novos
contornos (recategorização). Embora a saliência de uma categoria supraordenada ou
representações personalizadas dos membros dos grupos possam ser condições suficientes
para a redução do enviesamento intergrupal a curto prazo (situação de contacto), podem ser
difíceis de manter ao longo do tempo e através de contextos diferenciados nos quais a
interacção não está efectivamente a acontecer.
1. Desafios aos Modelos da Personalização e da Identidade Endogrupal Comum
No documento
ESTUDOS EM BRANCO E NEGRO: Modelos de redução do preconceito inter-étnico na infância
(páginas 88-92)