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Reuniu Pinharanda Gomes num só volume alguns opúsculos e artigos de Teixeira de Pascoaes, subordinados ao tema da sau- dade, a que deu o título de A Saudade e o Saudosismo (Assírio & Alvim, 1988). Trata -se de um livro importante, organizado por ocasião do 75.o aniversário da fundação da Renascença Portuguesa,

e que reú ne grande parte dos textos doutrinários de Pascoaes. É a partir do seu título, A Saudade e o Saudosismo, que ensaiaremos algumas notas que poderão ser vistas como um balanço de ideias do saudosismo.

Antes de mais, note -se que a saudade está para o saudosismo como a essência está para a existência. A saudade constitui como que a natureza do saudosismo, a sua natureza apriorística e ideal. A saudade é uma potencialidade, enquanto que o saudosismo é uma factualidade. A saudade existe como juízo prévio a toda a experiência, ao passo que o saudosismo existe como fenómeno exclusivo da existência e da História. Esta distinção metodológica entre a saudade e o saudosismo é da maior importância, pois só ela nos permite perceber que a saudade é um modelo universal, uma virtualidade potencial, mas não uma realidade histórica. Tentar perceber os valores hermenêuticos ou constitutivos da sua essência equivale a dizer que fora deste modelo não pode haver saudosismo, pois o saudosismo nada mais é do que a concretização factual de um protótipo potencial. A saudade antecede o saudosismo como o modelo pode anteceder a experiência. Antes de falarmos do saudosismo falemos então da saudade.

A saudade é, de forma esquemática e ideal, a capacidade paradoxal de viver como presentes seres ou situações que estão ausentes. Diz Joaquim de Carvalho: «A saudade, com efeito, nasce do contraste que a consciência estabelece entre duas realidades: a que é dada pela percepção actual e a que é dada pela evocação retrospectiva. A percepção actual dá a realidade que se vive, e a evocação, a realidade que se viveu, cuja projecção sobre a realidade actual estabelece como que a medida da perda que se sofreu e se desejaria recuperar.» (Cf. Joaquim de Carvalho, Obra Completa, vol. v, Gulbenkian, p. 120.) Se partirmos agora de um ponto de

vista filológico vamos encontrar na raiz da palavra «saudade» a noção de solidão. É ainda Joaquim de Carvalho que nos diz que a palavra «saudade» tem por étimo longínquo o adjectivo e ad- vérbio latino solu, que deu em português «só». Contudo, e reside aí a especificidade da palavra galaico ‑portuguesa, a solidão da saudade é solidária. Ela traslada consigo significados universais que se prendem com a própria materialização das coisas que estão ausentes. O sujeito saudoso, mesmo que continue isolado, não está na verdade só. Ele tem dentro de si o universo inteiro.

Deste modo, o significado da saudade está intimamente ligado à sua forma, ou seja, ao aparecimento do vocábulo no Noroeste da Península. A saudade é, dentro da romanização cristã, uma indi- viduação, tanto linguística como psíquica, dos povos do Ocidente. A saudade, como princípio orientador ou modelo universal, é o resultado de um momento preciso em que se chocam no Noro- este da Península duas tendências diferentes. A saudade aparece então como uma vontade de síntese entre o que ficava ausente e o que estava presente, entre o passado e o futuro, entre o novo e o antigo.

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Das origens da saudade, entendida esta como momento uni- versal, às origens do saudosismo mediará contudo um largo arco de tempo. Se as origens da saudade se prendem à consolidação do falar galaico -português, as origens do saudosismo só parecem remontar ao primeiro quartel do século xx. É preciso esperar por

1910 e pela implantação da República para assistir ao nascimento do saudosismo. O saudosismo, como devir histórico da saudade, como manifestação concreta de um modelo, nasce na noite de 23 de Maio de 1912, no Ateneu Comercial do Porto, com a leitura feita

por Teixeira de Pascoaes da conferência O Espírito Lusitano ou o

Saudosismo, verdadeiro manifesto publicado depois nesse ano em

opúsculo, e reeditado agora no volume organizado por Pinharanda Gomes (pp. 43 -58). A conferência era promovida pela Renascença Portuguesa, sociedade de iniciativas culturais e pedagógicas, onde se devem procurar alguns dos antecedentes próximos do nasci- mento do saudosismo. Este, porém, não deve ser confundido nem com a Renascença Portuguesa nem tão-pouco com a revis ta cultural editada por esta mesma sociedade, A Águia.

A Renascença Portuguesa tinha nascido em 1911, depois de reuniões havidas em Coimbra e em Lisboa, e A Águia fora fundada por Álvaro Pinto em 1910. O objectivo da Renascença Portuguesa não era o saudosismo, mas sim renovar Portugal aproveitando para isso as condições ideais da implantação da República. Dentro da Renascença encontram -se tendências diferentes. Em termos gerais, e deixando de lado os casos de Mário de Sá ‑Carneiro e de Fernando Pessoa, ambos colaboradores de A Águia e sócios da Renascença, podemos dizer que dentro da sociedade coexistem, desde a sua formação, duas tendências que só progressivamente se demarcarão uma da outra: a dos saudosistas e a dos seareiros. A primeira é representada modelarmente por Teixeira de Pas- coaes e Leonardo Coimbra, enquanto que a segunda o é por Raul Proen ça e António Sérgio. Todavia, antes da noite de 23 de Maio de 1912 o saudosismo não existe como tal, tal como a Seara Nova não existirá antes de 1920. Todos os textos de Pascoaes publicados no período que medeia entre a formação da sociedade e a leitura no Ateneu Comercial do Porto nunca falam em saudosismo, ainda que possam falar em saudade. Mesmo um texto como «A Renas- cença Lusitana», recolhido por Pinharanda Gomes no livro agora editado (pp. 31 -33), escrito em Agosto de 1911, e que desagradou a Raul Proença, não refere uma única vez a palavra «saudosismo». Também o editorial, assinado por Pascoaes, que abre o primeiro número da nova série da revista A Águia, não fala em saudosismo. É preciso esperar pela noite de 23 de Maio de 1912 para encontrar, creio que pela primeira vez, a palavra. O saudosismo nascia como movimento ou como tendência, e com ele nasciam as discordâncias que levariam à violenta polémica de Sérgio, também ela recolhida neste livro de dispersos.

Pergunta ‑se, com benefício, o porquê da enorme disparidade cronológica que existe entre o nascimento da saudade e o nasci- mento do movimento saudosista. Para além disso, não deixa de

surpreender a também enorme disparidade que existe entre a perti- nente «essência» da saudade e a sua meteórica existência. Nascido como vimos em 1912, o saudosismo desaparecerá, por assim dizer, pouco depois da longa polémica havida em 1913-1914 com António Sérgio. O movimento saudosista define ‑se ao longo de três textos capitais (O Espírito Lusitano ou o Saudosismo; O Génio Português, 1913; e A Era Lusíada, 1914), todos eles de Teixeira de Pascoaes e todos agora recolhidos por Pinharanda Gomes. Todos os três resultam de conferências havidas no âmbito da Renascença Portuguesa entre 1912 e 1914. Depois disso o saudosismo, como expressão que serve para designar um dado movimento poético ou cívico, tenderá a desaparecer e o próprio Pascoaes deixará progressivamente de lado o vocábulo, sem todavia abdicar inteiramente dele.

A tão meteórica passagem do saudosismo pela história, por pouco mais que dois anos, deve -se contudo à sua duplicidade ontológica: ele é por um lado um movimento histórico concreto e por outro um movimento contra a própria História. Terá sido este último aspecto, o seu teor eminentemente idealístico, que desencadeou a polémica de Sérgio. Mas a meu ver é esta dupli- cidade que lhe assegura continuidade, ao menos no domínio das abstracções modelares, porque o seu cariz não se esgota na História. Ao contrário do modernismo, que parece ser essencialmente um movimento situado, sem abstracções prévias, o saudosismo surgiu, se não no domínio cívico pelo menos no domínio literário, onde a sua afirmação é da máxima importância, não como necessidade mas como liberdade. Se o modernismo é uma resposta, uma resposta que tendeu e tende a desaparecer à medida que desaparecem as condições históricas que lhe deram origem, o saudosismo não é em si uma resposta a nada, mas apenas uma volição livremente determinada. Há uma intemporalidade no saudosismo poético que resistirá talvez melhor ao tempo do que os lugares, mesmo mais esclarecidos, do modernismo histórico. O modernismo não tem por detrás nenhum modelo ideal, pois o moderno não é uma categoria apriorística exclusiva do modernismo. O modernismo é um efeito, enquanto que o saudosismo é sobretudo uma causa.

Por outro lado, o facto de haver uma disparidade cronológica entre o nascimento da saudade e o nascimento do saudosismo como movimento, e antes de mais como movimento de intenção cívica, não deve constituir uma surpresa. A saudade revelada, como Pascoaes chamou ao saudosismo, só podia encarnar a partir do momento em que Portugal oferecesse as condições necessárias à

concretização de um modelo saudoso. Só a República, com a ideia de ser uma segunda fundação da nacionalidade, ou seja, 1910 era a repetição ideal e saudosa do esforço voluntarioso de 1143, estava em condições de proporcionar o advento do saudosismo como movimento. A saudade é uma retrospecção que se afirma de forma prospectiva ou progressiva, um arqué tipo que age de forma dinâmica. E a República aparecia exactamente como uma forma de retrospecção progressiva, uma forma de conciliação entre o passado e o futuro, uma forma de regeneração futura em função de um passado modelar. As esperanças de uma tal República foram como se sabe infrutíferas e talvez devido a isso o saudosismo tenha sido como movimento cívico tão fugaz. À medida que a República se desviava por outros caminhos, mais populares mas também mais descaracterizados, o saudosismo, como consciência ideal do novo regime, ficava naturalmente isolado, perdendo pouco a pouco a sua própria razão de existir.

A incontinência do seu sujeito de afirmação, a sua intempora- lidade própria de saudade revelada, permite porém acreditar que o saudosismo possa, em condições idênticas, voltar à arena da história cívica. A caracterização do homem português no mundo continua a fazer‑se através da saudade, porque o modelo de afir- mação do homem português é exemplarmente saudoso; é então possível que o modo de afirmação de Portugal possa ser, em con- dições especiais mas talvez necessárias, saudosista. Não deixa de ser curioso atentar nas palavras com que Pinharanda Gomes fecha a sua «Nota proemial»: «A polémica do Saudosismo ainda nem sequer começou.» Afirmação esta que parece conter a ideia de que o movimento saudosista, tal como o encarámos na sua espessura material, encenou apenas de 1912 a 1914 uma pequeníssima parte da sua projecção histórica.

NOS QUARENTA ANOS DA MORTE