Organizou Mário Cesariny, por pura afinidade e preito desinte- ressado, duas antologias de Teixeira de Pascoaes, ambas de 1972, a primeira Aforismos, numa edição leve do organizador, e a segunda
Poesia de Teixeira de Pascoaes (Lisboa, Estúdios Cor, 300 pp.), obra
magna, pesada como laje, percorrendo todos os sentidos do itine- rário de Pascoaes, incluindo o pictural, e que revela, no exórdio, a disposição de Cesariny afastar delicadamente para margens de menor importância os versos de Fernando Pessoa, substituindo -os pelos de Pascoaes, que considera, para permanente interrogação nossa, o verbo da suprema maioridade poética.
Poucos meses depois, no cerimonário «Para uma cronologia do surrealismo em português», publicado em 1973, Paris, na revista
Phases (n.o 4), e republicado em As Mãos na Água a Cabeça no Mar
(1985), Cesariny levará a irreverência ao limite, afirmando aquilo que hoje é o dito mais destabilizador das modernas certezas da história literária portuguesa: «Teixeira de Pascoaes, poeta bem mais importante, quanto a nós, do que Fernando Pessoa.»
Aforismos foi entretanto reeditado, sem alterações de espécie
ou de conteúdo, vinte e seis anos depois, em 1998, na Assírio & Alvim (Lisboa, colecção «Gato Maltês», n.o 36) 1. Poesia de Teixeira
1 Recenseei o livro no Jornal de Letras, «Pascoaes e Cesariny. Os vasos comunicantes», in JL, Lisboa, ano xvii, n.o 727, 26 de Agosto de 1998, p. 23. Texto incluído no presente volume.
de Pascoaes, a segunda antologia, o mais completo e perfeito traba-
lho do seu género, não foi até hoje reeditada; chegada a hora de o ser, quis o organizador agregar -lhe a anterior, soldando assim os dois trabalhos.
A fixação do texto desta segunda edição regeu ‑se pelo zeloso respeito da primeira, mas não pude deixar de introduzir altera- ções, justificadas por casos de adequação ou de fidelidade aos originais de Pascoaes. Assim, em primeiro lugar, do subtítulo do livro desapareceu o artigo «Pintura», por razões que se prendem com a intenção de os actuais editores apenas reproduzirem o texto, deixando para outra ocasião, e volume, a edição dos desenhos e pinturas de Pascoaes, que acompanharam a tiragem de 1972. Relativize -se pois à primeira edição a referência à pintura no texto introdutório de Cesariny.
Sobre as fontes dos escritos seleccionados, diz o organizador que recorreu à excelente edição crítica das Obras Completas de Tei-
xeira de Pascoaes (org. de Jacinto do Prado Coelho, 1965 -1975), então
em curso de publicação. A compilação de Cesariny apareceu em Dezembro de 1972, altura em que estavam publicados das OCTP os seis volumes de versos, quer dizer, a obra completa neste domínio, e o primeiro da prosa, Livro de Memórias, publicado nesse ano. Se para o verso o antologiador pôde assim usar, quase em exclusivo, a edição maior de Prado Coelho, já no campo da prosa acabou, na totalidade, com a excepção de Livro de Memórias, por recorrer à última edição do livro em vida do autor, que é muitas vezes a primeira (assim acontece com São Paulo, com Os Poetas Lusíadas, com O Bailado, com Duplo Passeio e com A Nossa Fome). Daí alguns desacordos, no que diz respeito ao Bailado e a Duplo Passeio, entre as páginas seleccionadas por Cesariny e as edições que Prado Coelho fará, em 1973 e 1975, desses livros.
Assinalem ‑se agora as alterações que introduzi e as razões que as justificam. No Livro de Memórias, no São Paulo e no Duplo
Passeio acrescentei, por motivos de melhor localização no con-
junto do livro, o número dos capítulos, ou das partes quando as havia, aos trechos seleccionados por Cesariny. Rectifiquei o título da conferência de 1950, que em 1972 apareceu como «Em defesa da Paz», mas cujo nome original é «Pro Paz», texto integrado no livro Duas Conferências em Defesa da Paz (Porto, 1950). O escrito foi reeditado recentemente por Pinharanda Gomes, com o título original, «Pro Paz», no livro O Homem Universal e Outros Escritos (Assírio & Alvim, 1993). Corrigi, no Livro de Memórias (cap. ii, p. 253
desta edição), uma gralha ominosa («papá» por «pápa»), que en- trou na edição de Prado Coelho, e daí saltou para a miscelânea de Cesariny e, mais grave, para a terceira edição do livro (Assírio & Alvim, 2001); de futuro, deve ser cuidadosamente erradicada.
Quanto aos livros em verso da edição de Jacinto do Prado Coelho pela qual Cesariny se guiou confrontei -os todos com a última edição publicada em vida de Pascoaes, em geral a das
Obras Completas publicadas pelo poeta na Bertrand, entre 1929 e
1932. Aceitei algumas das modificações introduzidas pelo Mestre da Faculdade de Letras de Lisboa, como acontece no título de
Marânus, que, em vida do autor, e ao longo de três edições (1911;
1920; 1930), se chamou sempre Marános, e contemporizei com as correcções introduzidas no D. Carlos (acto iv, cena i), quarta fala do
Buíça e décima do Costa. Assim como assim, no caso do pontuar gráfico, preferi muitas vezes a pontuação dos últimos originais de Pascoaes à da responsabilidade de Prado Coelho.
Apontem -se ainda três disparidades. A legenda do trecho de
Os Poetas Lusíadas, «Gil Vicente e Camões», é do antologiador (no
original: «Período henriquino ou marítimo»). A versão em verso de
O Pobre Tolo é de 1930 e não de 1924, data indicada (que mantive)
por Cesariny e que corresponde, isso sim, à versão em prosa do livro. A última estrofe de Belo (1896 -1897) não existe na edição de Jacinto do Prado Coelho, nem na lição da primeira e única editada em vida do Poeta; corresponde porventura a anotação manuscrita encontrada nos papéis de São João de Gatão por Cesariny, o que aponta para o vasto conhecimento que este teve e tem dos textos pascoaesianos. O interesse do autor de Pena Capital por Pascoaes é muito mais antigo e profundo do que se possa à primeira vista alcançar e tem evidentes implicações no seu surrealismo, que não calha por ora esclarecer, e até no seu aspecto físico. A semelhança (facial) de Cesariny e Pascoaes é um caso alarmante de coincidên- cia, ou, na expressão de Breton, de hasard objectif. Logo em 1950, quando ainda vivia na sua infância poética, Cesariny deslocou -se a Amarante para ouvir Pascoaes proferir, no Teatro Amarantino (19 de Março), uma conferência sobre «O drama junqueiriano». Desse encontro ficou autógrafo do mais velho ao mais novo, no exemplar impresso da palestra (ed. da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Amarante). A primeira referência escrita de Cesariny a Pascoaes que conheço (por indicação generosa do poeta Alípio Carvalho Neto) é de 1957 (in O Volante, n.o 996, Lisboa,
Finalmente, tendo em atenção o prefácio de Mário Cesariny, aponte ‑se a reedição (Assírio & Alvim, 1997) da por ele citada, em nota de rodapé, A Intervenção Surrealista. Sobre a alegada exclusão de todos os saudosistas de escola de Os Poetas Lusíadas (volume também entretanto reeditado pela Assírio, 1987), numa espécie de arrependimento final, peço apenas, sem mais, que se considere o longo e magnífico texto com que ele, Pascoaes, sentiu necessidade de, a poucos meses da morte, brindar João Lúcio.