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NOS QUARENTA ANOS DA MORTE DE TEIXEIRA DE PASCOAES

Teixeira de Pascoaes morreu há quarenta anos na noite de 14 de Dezembro de 1952. Esse dia, decerto frio e retraído, evoca‑ -me sempre versos seus de Vida Etérea, um dos livros mais altos do poeta: «O Outono, esse desgosto das paisagens, / O claro céu defuma. / Surgem mortas e lívidas imagens / Boiando, à flor da bruma.» E ainda do mesmo livro estes outros: «Ó silêncio do Ou- tono! Ó folhas amarelas / Que o vento, ao pôr ‑do ‑sol, rouba do meu jardim! / Quando se ouve cair o orvalho das estrelas, / Na escuridão que paira, à noite, sobre mim.»

O estado de saúde de Teixeira de Pascoaes inquietava desde o princípio de Outubro os seus familiares. A 2 de Novembro, dia do seu aniversário, o poeta disse a pessoa amiga que lhe falou num médico: — Não me fale nisso. A morte leva -nos, mas não diz quando. O médico marca logo o dia e põe ‑nos de oratório. (Maria José, «Os últimos dias de Pascoaes», in Vértice, n.o 115,

Março de 1953.) Acabou porém por aceder em ser visto por um médico e mesmo em partir para o Porto de modo a ser tratado no hospital da Ordem do Carmo. A tosse, uma tosse constante que o obrigara a estar quinze dias sem dormir, prostrara -o por completo: «Há mais de trinta anos que sofria de uma bronquite de fumador, a que nunca ligara a menor importância. Agora, porém, a tosse incomodava -o e cansava -o. Recusou o café e o cigarro. A tosse redobrou de intensidade e nunca mais lhe consentiu que fumasse um único cigarro.» (Idem, pp. 141 -142.)

Tudo foi, apesar de ligeiras melhoras, inútil e o poeta acabou por regressar a São João de Gatão desejoso de passar os últimos dias entre os seus e sobretudo de ver da sua «santa janela», a «bendita janela, entre as janelas», sempre aberta como ele diz em comovente verso de As Sombras, a paisagem em que há muito se diluíra já e onde ainda hoje, pairando nela, sobrevive, tão eterno como o luar ou os pinhais. Pascoaes queria que a terra que fora o seu berço fosse agora a sua mortalha.

Na segunda semana de Dezembro o seu estado piorou e os cuidados redobraram. «Os amigos vieram de longe, comovidos e aflitos. O Padre Magalhães e o Eduardo Oliveira quiseram chorar connosco. De Lisboa vieram o Mário Beirão, o Henrique Paço d’Arcos e o António Duarte.» (Idem, pp. 143 -144.) O último, que havia depois de moldar a máscara mortuária do poeta, cheio de optimismo e de confiança, queria levá ‑lo à Suíça, onde Pascoaes na senda de Albert Talhoff tinha muitos leitores, mas ele ter -se -á limitado a responder que ia viajar sim, mas para muito mais longe.

Faleceu já sem voz, parece que segredando palavras apagadas, vitimado por um cancro do pulmão e desfalecido como a paisa- gem, que fora afinal a forma como o poeta desejara desde sempre morrer. Recordemos alguns dos versos finais de Terra Proibida, esse céu de morte, sua deusa tutelar e inspiradora: «Aí vem a noite... Sente ‑se crescer... / E um silêncio de estrelas aparece. / Quem é, quem é, meu Deus, que empalidece / E se cobre de cinzas, no meu ser? // Alma que se desprende numa prece... / Que suave e divino entardecer! / Como seria bom assim morrer... / Morrer, como a paisagem desfalece.»

Quer pelos testemunhos que dele deixaram os familiares, quer pelos textos que sobre ele escreveu o seu tradutor alemão e discí- pulo Albert Vigoleis Thelen, Teixeira de Pascoaes era um grande fumador. Thelen, que se deixou impressionar por muitas coisas portuguesas quando se refugiou do nazismo na casa de Pascoaes, acabou por escrever um delicioso texto, «Pânico tabágico», sobre a relação do poeta com o tabaco, que começa desta forma: «O poeta Teixeira de Pascoaes era um homenzinho franzino, que conseguia sobreviver com umas garfadas de vegetais. Trama de pele e osso, por assim dizer, que a teia cintilante dos nervos sublimava, porém, em toga preciosa. Só no fumar é que não conhecia a sobriedade; nisso era incomensurável, tal como na sua obra.» (Olívio Caeiro,

Albert Vigoleis Thelen no Solar de Pascoaes, 1989, p. 188.) Parece que

centena de cigarros, que ele próprio confeccionava às dezenas; ainda recentemente em cima da sua velha mesa de trabalho havia cigarros preparados pelas mãos do poeta, que Thelen dizia serem da grossura de um lápis e que alguém, com espírito imaginativo, me segredou serem os únicos que valeria a pena fumar. Os cigarros de Pascoaes, pese embora a doença do poeta, se sobreviverem, bem podem um dia tomar o lugar das águas de Hipocrene.

Pascoaes morreu há quarenta anos e aquilo que nos ficou dele, seja na poesia em verso ou na poesia sem verso, é tão extraordi- nário que dificilmente se tem dado por isso. As coisas mais extra- ordinárias, por certa invisibilidade própria, são as mais difíceis de atender, já que a sua força é puramente interior e a sua altura faz vertigens. Com mais prontidão, mais facilidade e até mais vanta- gem se têm pois atendido, com fervor crítico e favor editorial, obras sabidamente mais pequenas, mais fáceis e menos vertiginosas.

Teixeira de Pascoaes escreveu uma poesia em verso que é das mais inclassificáveis da nossa literatura de sempre — e tão inclassificável ela é que o seu autor acabou por criar para ela uma designação inteiramente nova, a de saudosismo —, e reactualizou, ao lado de Raul Brandão, com quem de resto co -assinou um livro, a prosa portuguesa, libertando ‑a da disciplina rígida do realismo, sem contudo lhe retirar clareza. Outros poetas e outros prosadores imitaram melhor do que ele modelos estranhos, porém nenhum como ele foi capaz, dentro dos recursos próprios da língua, de inovar tanto, libertando ‑se por um originalíssimo processo formal e ideativo dos modelos tradicionais do nosso metro, da nossa frase e da nossa sensibilidade, que ele inteiramente recriou.

Além disso, Teixeira de Pascoaes é o autor de uma obra didáctica com características únicas na nossa moderna literatura de ideias, elaborada no contexto doutrinário e republicano da Renascença Portuguesa, e que tem sido erradamente qualificada de nacionalista e até mesmo de integralista, quando afinal aquilo que ela visa e propõe, em última instância, que é aquela que nos interessa para aferir da sua qualidade, é um novo tipo de universa- lismo, próximo afinal daquele que Jaime Cortesão perfilhou e que é ainda hoje a ideia que, pela ampla visão de uma humanidade realizada por meio de cuidada atenção às iniciativas das partes, mais adequada se mostra a ser transmitida e ensinada.

Hoje, quarenta anos após a morte de Pascoaes, é da mais elementar justiça lembrar com admiração, mas também com o fundo sentido de heresia da sua mensagem, autor de obra tão sen-

tidamente original, inovadora e heterodoxa, obra essa que Mário Cesariny, um dos mais importantes poetas da segunda metade do século xx, considerou superior à de Fernando Pessoa, juízo que foi

também subscrito por Joaquim de Carvalho, rigoroso estudioso das nossas ideias poético ‑filosóficas.