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JOSÉ GOMES FERREIRA E TEIXEIRA DE PASCOAES

Camilo Castelo Branco quando deu em escrever Carlota Ângela (1858) arranjou ‑lhe seis inícios e teve o desplante de os imprimir de seguida a todos. O leitor que escolhesse o que mais lhe conviesse, dizia ele. A mim, pedem -me para escrever três páginas sobre José Gomes Ferreira e eu não sei por onde começar.

Para entreter o tempo ponho -me a reler a obra deste escritor e dou com o capítulo em que ele se refere às suas relações com Teixeira de Pascoaes. Ora aí está um assunto que, se não dá seis inícios, dá trezentas páginas. Há nesse encontro segredos bastantes para nos alimentarem o espírito, já que se trata de um trabalho da memória e, como em todas as memórias, há nela alguma coisa de privado, de indevassável, mas também de vivo.

Pascoaes é o mais velho e os seus versos entram na vida de José Gomes Ferreira, pela mão de Leonardo Coimbra, aos 16 ou 17 anos. A persuasão é o que mais toca neste encontro, e é tão forte que chega a produzir em nós comoção. Pascoaes visto por José Gomes Ferreira é uma espécie de Sócrates tão desinquietante como o outro, mas também tão incom preendido como ele.

Esta versão pedagógica de Pascoaes é afinal a prova definitiva da operacionalidade da sua literatura. Diz José Gomes Ferreira: «Eu dei o salto para adulto, a embalar o Sempre e As Sombras e quase todos os livros do Poeta Teixeira de Pascoaes. E descobri que havia um não-sei-quê de fantástico que unia e separava os homens e as coisas [...]» («Liceu», in Calçada do Sol.)

Mais tarde, no início da década de 30, o poeta de Sempre atravessou ‑se ‑lhe em carne e osso na vida e o convívio foi tão intenso que nos fica a impressão, lendo o relato, de que houve confidências muito miúdas entre os dois, que só se admitem e validam numa relação espirituosa de mestre a discípulo. Há uma fotografia de ambos desse tempo em que Pascoaes usa um casaco de fazenda escura com aba de grilo e José Gomes Ferreira uma camisola axadrezada de lã. Pascoaes começa a envelhecer com o ar fleumático de uma genialidade solitária (que alguns diziam da má‑ ‑língua), e José Gomes Ferreira solta finamente, com uma elegância plebeia, a primeira nota da sua canção de trevas.

O período resistente desse convívio cara a cara está rodeado por um isolamento em desfalque em qualquer lance; todos os pro- gressos são feitos no desfavor de um meio indiferente, quando não contra um meio hostil, de que só se salva Manuel Mendes. Lendo as revistas literárias da época — sobretudo a Presença coimbrã — percebe -se bem a pressão que apertava essa relação onde nunca entrou a moda. Mas a solidão em que ambos então mergulham se os isola, vedando -os quase à nossa curiosidade, torna -os também, à distância de tantos anos, muito mais convincentes nos corredores de um século que ficou saturado do esteticismo das coisas fixas.

O último encontro entre Pascoaes e José Gomes Ferreira, já na década de 40, no fim da guerra, numa altura em que Pascoaes esconde em Amarante um desertor alemão e vem muito pouco a Lisboa, tem em torno de si um mundo de circunstâncias felizes. Disse -se que nenhum deles se deu conta disso, mas a modéstia tem aqui uma parcela forte de sabedoria. A forma como Gomes Ferreira relatou depois o evento tem muito de axioma filosófico e apresenta uma relação insubstituível por qualquer outra.

Mas nada disto teria o heroísmo comovente que tem se o próprio José Gomes Ferreira não insistisse, muitos anos depois, em regressar à sua relação de versos com Pascoaes, elegendo -a como a única que lhe foi definitiva e proveitosa no período de formação e deixando no ar algumas amabilidades frias para com Fernando Pessoa.

Não sei se este crédito é inteligência ou se só coragem, mas com ele não me sobram dúvidas sobre a filiação doutrinal e poética de José Gomes Ferreira. As tertúlias por onde andou com Carlos de Oliveira são, na República portuguesa das letras dessa época, uma espécie de jardim de academos onde Gomes Ferreira fazia as vezes de um Platão desse Sócrates português do século xx que foi

Teixeira de Pascoaes, mesmo que os pares da altura respeitassem mais o discípulo que o mestre.

O relevo a dar ao discipulato fiel e obstinado de um homem como este é imenso. Como não, quando se trata de alguém que, recusando todas as definições que não sejam as do esquerdismo político e social, acaba a puxar para si a legenda do saudosismo, crismando -se (a metáfora baptismal é dele) de «saudosista do futuro», quando isso podia ser mais um aperto, se não uma hu- milhação, que uma glória («Quase um relatório do convívio com Teixeira de Pascoaes em Lisboa nos anos 30», in A Memória das

Palavras II)?

Mas que saudade é esta do futuro, que foi entranhadamente a fé de toda a vida poética e doutrinária de José Gomes Ferreira e é hoje a chave da sua compreensão? Isso são contos largos, em que precisávamos miudamente de falar de Camões, de Francisco Manuel de Melo, de Camilo Castelo Branco, de Guerra Junqueiro e de Teixeira de Pascoaes (sobretudo na leitura progressiva de

Regresso ao Paraíso).

Por agora, fico ‑me com a impressão forte do encontro de Pas- coaes e Gomes Ferreira. Nenhum deles precisou de ser calculista para interessar o outro, o que é uma garantia da criação de ambos. A saudade ama e por isso o encontro destes dois poetas foi desde o princípio um encontro de almas. Daí a sua distância do tempo e a sua insistência na clausura de isolamento.

Os dois poetas têm a saudade estampada nos versos e no rosto. Viveram um arrátel de afinidades e penso comigo que o que deles ficou há ‑de ainda servir para muita coisa. A saudade que ambos cultivaram é que justifica o estilo de uma permanência — quer da vida, quer da literatura — e redime até a falha hoje tão vulgar de estímulo.

CARTA SOBRE A SAUDADE