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QUINTO CAPÍTULO — OS DELÍRIOS DO SAUDOSISMO

O primeiro capítulo desta História é o de Al ‑Mu’tamid bor- dando as letras de Itimad a sangue e luz negra, noutra língua e numa página inimaginável. Passam ‑se depois os três capítulos seguintes e chega -se ao saudosismo de Pascoaes. Logo de entrada, que o capítulo é extenso, longe ainda das palavras e muito perto do olhar, encontra ‑se, como uma ilha secreta, o delírio do Amor, tendo por fulcro votivo a contemplação da Mulher.

O primeiro parágrafo do saudosismo de Pascoaes, que está colado à sua adolescência, entre 1895 e 1900, abre com uma teoria do Amor, cuja enunciação pode ser a seguinte: o Amor favorece o calor do corpo, activa o sangue, apura a imaginação, limpa o campo da percepção exterior do lixo acumulado pela rotina, transforma os sentimentos, renova a vida. O Amor é a via de aperfeiçoa- mento do Homem, polindo -lhe diamantinamente os sentimentos e lubrificando ‑lhe a vida mental, que passa a ser brilhante como um relâmpago. O Amor é a actividade física e mental capaz de dar ao Homem um superior equilíbrio saudável de formas e pensamen- tos. Condensada em três frases, eis a teoria do Amor do pri meiro saudosismo.

Para que o Amor seja assim tão alta inspiração de aperfeiçoa- mento é necessária, porém, para o Pascoaes acabado de sair de uma enfadonha meninice, uma condição: que a Mulher — com as suas formas e fluidos — ocupe o centro dos pensamentos mentais e visuais do Amante. As formas da Mulher, semelhantes à Aurora, inspiram a embriaguez da alegria, tornando pleno maximamente

o sentimento da vida, e os fluidos, líquidos e etéreos, transmitidos pelos olhos ou por outros órgãos similares, fazem aparecer mental- mente uma forma de piedade, exactamente a mesma que se sente ante o influxo misteriosamente oceânico da luz da Lua. A alegria e a piedade, as formas e os fluidos, constituem o supremo processo do Amor, que é a Graça experimentada pelo Amante. A Amada é um nó carnal irradiante, um Sol brilhante de luz, que inspira ao Amante a combustão, a fusão e a purificação, formas emotivas do aperfeiçoamento sentimental e imaginativo. Como se pode ver nos livros iniciais de Pascoaes, sobretudo nas duas primeiras grandes colectâneas, Sempre e Terra Proibida, a Amada desta época, capaz de injectar os influxos catalisadores, é a Mulher ‑criança, pedindo perdão, nua e silenciosa, no meio do descampado, depois do da- divoso orgasmo de oiro do seu olhar.

No segundo parágrafo do saudosismo, o que lá se encontra é a Saudade, forma desconhecida de Amor que calhou a Pascoaes revelar, dando assim origem ao saudosismo. Pascoaes, para levar os exercícios do Amor mais longe, ajudando a condensar uma forma até aí desconhecida de ligação amorosa, beneficiou de uma circunstância exterior, a do afastamento, por morte ou separação, de todas as mulheres que amou. Pascoaes dá -se conta, decerto maravilhado, mesmo que o papel de cenário onde isso acontece seja uma tormenta intensíssima de dor, borrada de lágrimas, que quem perde a Amada, por afastamento ou morte, pode, se para tanto usar os poderes conferidos pela lembrança e pelo desejo, beneficiar de uma agudização da actividade imaginativa amorosa. A separação amorosa, diminuindo talvez os espíritos que actuam no sangue — quer dizer, empurrando -os para o fundo da perspec- tiva —, faz subir muito, se a memória trabalhar velozmente e o desejo ferver, a lucidez da actividade mental, que passa a ocupar o primeiro plano, comandando as operações. Qualquer separação amorosa, seja por luto ou por melancolia, favorece a intensificação da vida mental, através da representação espontânea e obsessiva da Amada, que passa a funcionar, na vida interior, como um nó central, irradiante e estruturador, capaz de contribuir para o apu- ramento da imaginação e a limpeza do aparelho perceptivo.

Quase sempre, este estado luminoso, devido à borrasca sen- timental que o acompanha, é voluntariamente ultrapassado pelo esquecimento, regredindo as faculdades mentais a estádios muito mais pardos. O que singulariza a experiência amorosa de Pas- coaes é a insistência em conservar a nova agilidade da sua vida

mental, persistindo assim, mesmo com o granizo sentimental, em coar conscientemente uma vida imaginária cada vez mais nítida e real. Há dois momentos a reter na via imaginativa do Amor saudoso de Pascoaes: a representação mental da Mulher perdida, numa inefável aura de luz, que o mundo luminoso ajuda a polir e a tornar transparente, e a sua alucinação exterior, onde se dá a manifestação saudosa. O primeiro momento, incapaz só por si de fazer Saudade, é, através de intensíssimos delírios sexuais inte- riores, a composição da tela, enquanto o segundo se mostra, na realidade imprevista do exterior, a manifestação de um encontro que res ponde às representações interiores.

A saudade é inconfundível com a melancolia ou o luto amo- rosos, que são apenas estados intermédios, momentos de saída ou de entrada, entre o Amor e a Saudade. O que distingue a Saudade dos seus serviçais intermediários, das suas portas de passagem, é conseguir, através de uma percepção renovada e limpa por um grão de tinta, a visualização alucinatória da Amada. Esta visua- lização é a capacidade de dar à interiorização delirante da nossa vida mental, primeiro momento da melancolia amorosa que se segue à separação, uma exteriorização tão sensível que se torne alucinação. É ela, a alucinação, a que chamo também de encontro

saudoso, que funciona como a maravilhosa recompensa de Saudade

daquele que persiste, mesmo paralisado pelos braços gelados da Morte, a imaginar o seu Amor. A primeira técnica do saudosismo é a do encontro saudoso. Pode aconselhar -se o seguinte a um prin- cipiante da Saudade: apaixone ‑se violentamente por uma Mulher muito bela e boa; no momento mais alto da paixão, que deve ser correspondida para ser mais intensa, tenha a coragem de se afastar voluntariamente por um período largo de tempo deixando tudo em suspenso; experimente então, no meio do dilúvio das suas lágrimas, das suas convulsões melancólicas e dos seus delírios sexuais fantasmáticos, a pacificação da alucinação sistemática e feliz do encontro saudoso. Quem se submeter à experiência verá que a verdadeira alucinação saudosa não resulta de se tomar a realidade exclusivamente interior como real e sensível, ao modo do que acontece com a tela do sonho, em que reagimos emotiva e sentimentalmente ante situações imaginadas, mas da transfiguração de dados da realidade exterior, dando ‑lhes a nossa configuração interior — quer dizer, modelando -os segundo a forma e a inten- sidade do nosso desejo mental. A técnica magistral do encontro saudoso está exposta em tercetos de Belo, em quadras de À Minha

Alma e em poemas de Sempre e de Terra Proibida: «Conforme vai

crescendo / A noite sobre mim, / Mais próxima e real / É a tua aparição... / Os teus olhos de sombra / Em rosto de marfim, / Tua voz, num murmúrio de oração. // Ó Virgem da Tristeza / Ouço -te os passos… Vejo / Impresso, na minh’alma, / O talhe dos teus pés... / Vens, de longe... lá vens, / Sorrindo, dar ‑me um beijo, / Com uns lábios que a terra já desfez.» Numa situação de luto amoroso, o encontro saudoso alucinatório coincide com um luxuoso delírio sexual, de tipo necrófilo.

Atendendo à velocidade e à elevação condensadora da ima- ginação no poema, a que se acrescenta uma intensidade represen- tativa que ajuda a dar ainda mais nitidez à alucinação, é possível dizer, como se diria num axioma, que não há fora da expressão verbal encontro saudoso completo. Só através da expressão verbal, que funciona como uma pilha de energia capaz de activar dinami- camente um aparelho passivo, a imaginação atinge a sua máxima concentração e poder, tecendo de forma integral a tapeçaria aluci- natória do encontro saudoso.

A História que aqui se conta — a da Mulher-criança, a do Amor‑ausência, a da Paixão elevada ao Sublime, a do Delírio sexual requintado, a da Imaginação, a do Poema como bateria de energia — segue no capítulo seguinte, parágrafo único dedicado ao Surrealismo português, com epígrafe da célebre obra ‑prima de Rûzbeham, O Jasmim dos Fiéis do Amor.