A poesia em Pascoaes é, enquanto imagem da realidade, indi- visível. Ela constitui uma unidade que não é possível cindir e onde tudo, mesmo com aspectos diferentes, é o mesmo. As oposições irredutíveis (como por exemplo entre poesia e prosa) desaparecem, dando lugar a uma ambivalência que se traduz pela ideia de que tudo é e não é ao mesmo tempo. Quer isto dizer que todas as deter- minações que actuam sobre uma coisa são anuladas a favor de uma conversão no seu próprio contrário. A poesia pode então tornar -se prosa, tal como a prosa pode, pela unidade sempre actuante dos contrários, tornar ‑se poesia. Não há validade objectiva de juízos, pelo menos no sentido aristotélico da identidade. Para Pascoaes, as afirmações opostas coincidem e esse tipo de coincidência é afinal uma das chaves mais importantes para se aceder não só ao seu pensamento como à sua poesia.
A poesia é do domínio da preexistência, da esfera das repre- sentações, e o verso é um, apenas um, dos corpos ou uma das concretizações possíveis da poesia. A encarnação da poesia não é obrigatória, podendo ela permanecer numa esfera de silêncio e de idealidade apenas pressentida. Mas a tentativa de materializar a poesia não se faz apenas em função do verso clássico ou mo- derno, e pode assumir, dentro de uma dada língua, o modelo da prosa. Há, com efeito, prosas apropriadas pela poesia, tal como há poemas onde é evidente a condensação do espírito da prosa. No primeiro caso está Teixeira de Pascoaes. Toda a sua obra em prosa, incluindo aquela que se tem por hábito chamar de doutrinária
(e que corresponde sobretudo aos anos que vão de 1912 a 1915), é poética, advindo daí aquilo que é a indivisibilidade natural de toda a sua obra. Lembre -se o que, a dada altura, ele disse em Os Poetas
Lusíadas: «Há poetas que escrevem em prosa por um excesso de
inspiração. O cálix enche -se e transborda.»
Em vez de um conceito de poesia degradada, a prosa aparece a Pascoaes como o terreno onde a poesia deixa os apertados li- mites do verso clássico, que parece incomodar a etérea dispersão das ideias, a favor de um modelo mais de acordo com a poesia. No fundo, a prosa em Pascoaes pode aparecer -nos como um tipo extremo de versilibrismo em que o verso não obedece a nenhuma medida ou obrigação, a não ser aquela que advém da natural actividade da imaginação, participando o poeta, por espontâneo impulso do seu estro, e muito mais do que geralmente se crê, na libertação do verso moderno.
A indivisibilidade da acção de Pascoaes é pois aquilo que cons- titui o primeiro (e último) degrau de uma abordagem que tenha por centro a sua obra. Há mesmo, através dessa indivisibilidade, uma correspondência entre o que Pascoaes disse (ele que só falou da unidade de tudo o que existe) e aquilo que fez. A sua obra aparece -nos hoje como uma paisagem em que o próximo (neste caso o verso) e o afastado (a prosa) se projectam exactamente no mesmo plano. Tudo, por via disso, participa da mesma presença, ou seja, independentemente das diferenças de categoria que exis- tem, tudo é o mesmo. Mas, se a obra é um facto, quer dizer, uma expressão do fazer, ela tem também em si um plano de significados ou de conteúdos que se prendem não com o fazer, mas sim com o dizer. E aquilo que está dito em Pascoaes é sempre, através da imagem que as coisas apresentam de si mesmas, a repercussão de uma experiência sensível, que é, afinal, o próprio facto da sua obra. Numa paisagem sem profundidade, ou seja, sem perspectiva, e onde a distância se anula, não se pode compreender a deslocação dos corpos. Tudo está imóvel, apesar do movimento. Ou seja, tudo coincide, apesar das diferenças e até, por vezes, dos antagonismos. É isso mesmo o que nos dizem estes versos de «A sombra do luar» (in As Sombras, 1907):
Porque aos olhos do Espírito, uma ervinha E um grande roble são da mesma altura... Que distância a dum astro a uma andorinha? Dum ramo em flor a um nobre pensamento?
Da noite ao dia? Do sorriso à lágrima? De uma pedrinha nua a um sentimento Despido, como a sombra e como a luz?
Trata -se, como se vê, de um ponto de vista único, a que se acede em determinada região do espírito e do mundo, em que deixam de fazer sentido as contradições. Aquilo que é legítimo interrogar são os processos desta demanda, que levaram Pascoaes a estabelecer -se no centro de um território que parece apenas não estar vedado na sua mais periférica cercania. Aquilo que me pa- rece a resposta satisfatória a esta pergunta não é senão aquilo que o próprio poeta afirmou sempre como sendo a chave de todos os seus segredos: a saudade. Com efeito, a vivência activa da saudade, que Pascoaes elaborou numa ordem directamente inversa da ordem mais comum (a de António Sérgio, por exemplo), elevou o poeta a uma profundidade ímpar, que se fez no contacto constante com a imaginação simbólica ou propulsora. Não esqueçamos que a saudade é sempre a presença de uma ausência, uma concretização (fictícia) do inconcreto, que tem, como antecâmara, a desmateria- lização do objecto ou do sujeito em causa. Foi através da saudade que Pascoaes se instalou no mundo das representações em que as coisas, apesar de óbvias, aparecem espiritualizadas. Elas dei- xam de ser coisas para passarem a ser essências, imagens ou, na terminologia maronesca do poeta, sombras. Não se trata aqui de uma oposição irredutível entre corpo e espírito, coisa e imagem, mas sim de uma coincidentia oppositorium em que a matéria é si- multaneamente espírito e a coisa imagem. Esta espiritualidade das coisas da Terra, muito própria da poética de Pascoaes, supõe, no entanto, a concretização dos astros celestes. Tanto o Sol como a Lua encarnam, humanizando -se, na Terra, ao mesmo tempo que o homem e as coisas terrenas que o rodeiam se desmaterializam em luz celeste. Tudo tem saudade de tudo.
A ascensão do corpo para a alma pela porta da saudade não supõe, porém, um evolucionismo de tipo fisiológico ou mesmo metafísico, já que tal ascensão é acompanhada por um movimento inverso: a humanização do céu. Não creio que em Pascoaes se possa falar de evolucionismo ou de transformismo, porque frente à sua poesia aquilo que nos impressiona é o movimento estático, a imobilidade móvel. Num mundo pintado, num mundo onde as representações substituem as coisas, não há, como vimos, possi‑ bilidade de evolução. Toda a evolução pressupõe movimento
e toda ela é, em si própria, fenómeno. A evolução participa de um domínio onde as coisas predominam sobre as sombras. Pelo contrário, num mundo pintado, onde a imaginação acabou por fixar a matéria, tudo aquilo que se pode fazer é viajar, viajar no mesmo ponto do mais alto para o mais baixo, mas não evoluir. Por isso, as diferenças não existem na poesia de Pascoaes senão como contrastes. A ascensão é simultaneamente declínio, enquanto toda a descida é também subida. Daí que nos versos da «Elegia do amor» (in Vida Etérea, 1906) os movimentos da alma não acompanhem os movimentos da natureza senão como contraste e inversão. Se a folha tomba, a alma sobe.
A eternização do tempo é outra das sequências a que se acede, na poesia de Pascoaes, pela saudade. Não é por acaso que o primeiro movimento que leva o homem a aspirar de novo ao Paraíso é o da memória. Pode ‑se mesmo dizer, como o disse Leonardo Coimbra, que o despertar da memória é o regresso ao Paraíso. Com efeito, em Pascoaes o conhecimento é sempre
anamnese, ou seja, recordação. Acede -se às imagens, aos modelos
originários, pela lembrança; à medida que a memória se liberta, o tempo eterniza -se. À actualização do passado corresponde uma eternização do tempo, em que o passado acaba por coincidir com o presente que, outrora, foi o futuro. E é por isso que as coisas espiritualizadas pela memória não morrem, não evoluem. Na poesia de Pascoaes estamos frente a concretizações fixas e não móveis, concretizações que são mais da esfera da representação ou da imagem que do domínio da matéria. Mas, o facto de elas estarem fixas não quer dizer que não sejam reais ou que não es- tejam dentro do tempo. Veja ‑se, neste sentido, o poema «Idílio» (in Terra Proibida, 1900):
Conforme vai crescendo A noite sobre mim, Mais próxima e real É a tua aparição... Os teus olhos de sombra Em rosto de marfim,
Tua voz, um murmúrio de oração. Ó virgem da Tristeza,
Ouço -te os passos... Vejo Impressos, na minha alma,
O talhe dos teus pés... Vens, de longe... lá vens, Sorrindo, dar -me um beijo
Com uns lábios que a terra já desfez. Teu contacto espectral
De sombra enamorada Afoga -me em silêncio E lívido palor... E a minha vida fica Extática e abismada
Numa fundura lúgubre de amor.
Aquilo que mais surpreende neste poema é o papel da ima- ginação e o da memória. Existe no poema uma reactualização do passado ainda mais viva e mais sentida do que se fosse presente. O passado parece ter potencialidades criativas ou imaginativas que o tornam uma memória do futuro. A imagem (a aparição) tem uma dupla realidade: a do espírito e a da matéria. O poema estabelece dois níveis de existência (realidade e imaginação), que, apesar da sua aparente irredutibilidade, se solucionam como momentos dialécticos um do outro: o real é imaginário (o que justifica a morte), enquanto a imaginação é real (o que justifica o beijo, a aparição e a vida). É através de um poema como este que percebemos como o mundo aparecia a Pascoaes como uma criação autónoma do seu espírito, a ponto de se poder dizer que em Pascoaes só a imaginação é a garantia de existência do mundo que o rodeia.
Mas aquilo que podemos também perceber através de um poema como este é que lembrar é já esperar. A saudade, como sentimento -limite, aparece -nos como a chave esotérica de todo o poema e até, tendo em conta que Marános (1911) é a transposição desta relação, de toda a sua poesia. A saudade aparece como uma espiritualização do amor (um amor lúgubre), uma desmateriali- zação sombria, que em vez de o desmultiplicar o potencia ao qua- drado. Se o amor é o lugar onde tudo se unifica, então a saudade é o lugar onde a unidade se excede. A saudade excede o amor no amor, como o Espírito Santo excede Deus em Deus. O amor chama ‑se em Pascoaes saudade; a unificação dos seres, própria do amor, faz -se na sua ausência, e não na sua presença concreta e física. É preciso ter em conta que em Pascoaes há, como ele
afirmou várias vezes, distâncias que aproximam: «Sempre que estou só, encontro -me contigo!» (In À Minha Alma, 1898.)
Pascoaes pôde assim abraçar toda a Vida num abraço panteísta, que tanto cinge o presente como abarca o ausente. Este mira culoso abraço, que constitui o motivo central da poesia portuguesa con- temporânea, não contradita em nada a diversidade do mundo, tal como a diversidade do mundo não parece contradizer a unidade do mundo sensível a que Pascoaes chegou. Em Pascoaes a diversidade é irradiação, ou se quisermos a face do uno. Se tudo é uma imagem sem movimento, uma imagem fixa dos corpos, uma analogia da vida, então o mundo sensível faz também parte daquela preexis- tência original onde estão os arcanos, que são afinal o uno e o seu segredo. As ideias, e não se esqueça que a palavra «ideia» (eidos) procede de raiz id que significa «ver», são o mundo verdadeiro, porque o único que existe. As ideias são afinal os arcanos, ou na linguagem pascoaesiana, as sombras a que é possível aceder não pelos sentidos físicos, nem tão‑pouco pelo pensamento, mas pela imaginação. No fundo, pelo poder da saudade, as coisas são já (ou são sempre) ideias, deixando de fazer sentido as diferenças que se estabelecem entre estes dois mundos. Vejam -se estes dois versos de
Sempre (1898), que situam a saudade em relação ao espaço que nos
rodeia: «Deus vive na Saudade, como outrora, / Antes de conceber a noite e a luz da aurora...»
A potenciação do amor como saudade faz com que, de forma esperada, Pascoaes atribua a Portugal, lugar onde a saudade se in- dividualizou e materializou, uma focalização imanente. Isso levou -o a conceber uma progressiva desmaterialização de Portugal, a que chamou era lusíada, e em que a sombra de Portugal seria como que uma constelação universal coroada de estrelas, a viver mais no céu como essência ausente do que como pátria terrestre com existência presente. É com a poesia de Pascoaes que, pela primeira vez na idade contemporânea, nós deixamos de pensar Portugal para de novo reactualizarmos o seu ser, imaginando -o. Pensar Portugal é o papel dos pensadores, que tanto o pensam pela negativa como pela positiva. Um Portugal pensado é ainda um Portugal -objecto, sendo por isso legítimo aquilo que dele disseram tanto os da Geração de 70, como os que, noutro quadrante, tomaram Alberto d’Oliveira ou Álvaro Ribeiro como paradigmas. Com Pascoaes, porém, Portugal deixa de ser pensado e até de ser vivido, para passar a ser imagi- nado. Deixamos de estar frente a um Portugal que exige de nós a objectivação crítica, para passarmos a estar ante um Portugal que,
como eidos, é tão legítimo como todos os outros que o poeta ideou. Não vejo por isso que o saudosismo de escola, o saudosismo pro- gramático da Renascença Portuguesa, tenha tolhido ao poeta, como alguns avaliam, os largos movimentos respiratórios. Os processos com que ele pensou Portugal são ainda os mesmos com que ele pensou (melhor, imaginou) o Tâmega, o Marão, o Sol, a Noite ou o Homem. A indivisibilidade da sua obra é abrangente.
A poética de Teixeira de Pascoaes parte da contemplação das coisas físicas para aceder a um mundo, já intrínseco a essas mesmas coisas, de puras energias libertárias. Os movimentos da alma acompanham os movimentos da natureza, na medida em que são a sua inversão ou o seu mais óbvio contraste. Isto é: as coisas contempladas provocam reacções psíquicas, que actuam como transmutação espiritual de tudo, incluindo do próprio homem. O homem não se torna assim Deus (luz e oiro), pela simples razão que já o é, pelo eidos do seu corpo (carne e chumbo). Leiam -se estes exaltantes versos do poeta (in «A sombra da vida», As Sombras, 1907):
Homem, exulta e canta! Foste a origem De Deus, tu que és Satã! Tu que és o Imundo Concebeste a Pureza! E, sendo o Crime, Foste a fonte do Bem! Tu, que és um mundo De morte, imperfeição e maldição,