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3 MARIAS DO POVO: VINCOS

3.5 Difunta Correa: santa madre falecida

3.5.2 Difunta em contratextos

Ao articular narrativa mítica e história, a Difunta Correa consiste num mistério da mística popular argentina. Como símbolo de um poderoso arquétipo, o materno, é responsável pela origem da vida e por sua manutenção. A mulher que se esgota de sede e cansaço no deserto transmite vida para o filho, garantindo sua sobrevivência e lançando-o para o futuro. Dona da vida e da morte, esta mulher estendida no chão, se confunde, ela mesma, com a terra, ambivalentemente fonte de alimento e sepultura. O enlace entre narrativa mítica e historicidade ganha outros contornos numa questão que paira no imaginário argentino: onde está o filho da Difunta Correa?

Muito embora sua história seja crível do ponto de vista da paisagem histórica e cultural em que surgiu (o país em guerra, pessoas em fuga atravessando o deserto, mulheres acossadas pelos saques e invasões) e ainda que tenha nome e sobrenome e mesmo, em algumas versões, uma extensa genealogia, não há sequer um dado documental que possa comprovar sua existência. Obviamente, isso não é um dado que possa inferir maior ou menor credibilidade, do ponto de vista do fenômeno, posto que a Difunta Correa é resultado da soma de um conjunto de textos, orais e impressos, e visualidades que se combinam em eixos, de modo a formar uma grande narrativa inclusiva. A questão histórica do destino do filho da Difunta, filho que consistiria em prova viva daquele primeiro e fundante milagre, ocupa uma importância secundária, mas sempre presente nos vários relatos. Aqui serão analisados dois textos contemporâneos em torno dessa criança misteriosa: “¿Y qué pasó con el hijo de la Difunta Correa?”, crônica humorística de Jorge Alvarez Pieroni, veiculada no periódico La Gaceta, e “El hijo perdido”, conto de Maria Rosa Lojo, que abre o volume Cuerpos Resplandecientes, livro de ficção dedicado aos santos populares argentinos.

                                                                                                               

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A relação entre a água e o sucesso milagroso é antiga. Se, por um lado, o surgimento de fontes de água indica o aparecimento milagroso de uma divindade a um ser humano, por outro o suplício de morrer de sede (ou com sede) é matéria determinante de canonização popular como exemplificam os casos dos santos brasileiros Motorista Gregório e João Baracho, ambos mortos em condições em que a água lhes faltou e cuja ausência foi componente circunstancial ou determinante do falecimento.

O texto de Pieroni oferece, em primeiro lugar, alguns dados que situam a história da Difunta Correa, para, em seguida, por meio de perguntas, questionar o paradeiro da criança. Esses questionamentos ultrapassam, em certa medida, a lógica temporal, posto que lançam possibilidades que atravessam a ordem cronológica. Seu fundamento é simultaneamente historicista e maravilhoso. Fincado num discurso que preza pelo riso, questiona múltiplas verdades estabelecidas em torno do mito. O tom do texto é iconoclasta e esse embate, ao que parece, só se trava por conta mesmo desse perfeito desajuste entre mito/história. O autor adverte: “Para muitos é quase um sacrilégio levantar a hipótese de que a Difunta Correa jamais tenha existido. No entanto, existe essa possibilidade” (La Gaceta, 01/09/2006, disponível em http://www.lagaceta.com.ar/nota/172858/lectores-periodistas/y-paso-hijo- difunta-correa.html). Ao falar em sacrilégio, palavra cara ao léxico católico, o autor, embora abra a espaço para a negação do caráter real da personagem, desconstruindo-a pelo risível de expectativas deslocadas, por outro lado a coloca ainda na conta do sagrado. Mas logo desvia-se dela (e do seu caráter sobrenatural) para indagar à história sobre as testemunhas do milagre. Em cerca de uma centena de perguntas, o cronista lança alternativas narrativas ficcionais sobre o desenrolar dessa trama.

Não se sabe nada desse menino por que, por acaso, os tropeiros eram pedófilos? [...] Uma assistente social foi ver o filho de Deolinda? [...] Quem o adotou? [...] Sofreu esse anjinho um prematuro desmame aos quatro dias de nascido? [...] Optou por ser um unitário ou um federal? [...] Se salvou de Facundo Quiroga? Ou talvez foi amigo do avô dos Menem ou do avô dos Rodríguez Saa? Teve filhos ou a alimentação à base de leite o deixou estéril para sempre? Nada. Tudo é um grande mistério. A figura do menino se dilui numa cortina de fumaça. (La Gaceta, 01/09/2006,em http://www.lagaceta.com.ar/nota/172858/lectores-periodistas/y- paso-hijo- difunta-correa.html).

Ao abrir variadas possibilidades, este texto (ou contratexto) estabelece um jogo entre passado e presente, tradição e continuidade, verdade e invenção. A respeito da potência desse tipo de vínculo entre contratextos e matrizes geradoras, Ferreira (2014), ao analisar o papel do folheto popular, percebe essa força como capaz de inserir na memória e na história um vigor recriativo. Esses textos, que dialogam por inúmeras afinidades, relacionam o tema com as várias linguagens, de modo não excludente. São textos atuantes:

Responsável pela preservação de certos temas e pelo modo de ser das linguagens que a recriam, abre-se a possibilidade contínua de criação de textos impressos que esta memória, longa e durável, traz ao estímulo de um imaginário presente. Assim compatibilizam-se, à sua medida, temas e formas. Por sua vez, a memória se organiza em certos eixos que apontam para muitos tipos e diferentes razões de preservação e transformação, garantindo critérios que se alternam como num jogo, envolvendo diversos

tipos de códigos verbais, visuais, gestuais ou o entrosamento de todos eles. (FERREIRA, 2014, p.14)

É nessa perspectiva que também se pode ler o conto “El hijo perdido”, de Maria Rosa Lojo. Publicado em 2007 no portal Los Andes, e só depois em livro, o conto oferece uma alternativa de futuro ao filho de Deolinda Correa. Como que respondendo às perguntas formuladas pelo texto de Pieroni, o contratexto de Lojo assinala a entrada de uma personagem ficcional “misia”31 Pilar, uma mulher que se acerca do túmulo da Difunta Correa vinte anos depois de sua morte. No texto ficiconal se dá corpo a algumas ideias subjacentes ao mito da Difunta, as quais se difundem nos relatos, pedidos, ex-votos e orações dos fiéis:

Agora a Difunta é uma abençoada. Está com Deus e a Virgem mata sua sede numa vertente. Não passa fome nem sede e tem a alma molhada. Está sempre fresca como as flores do regadio e não há sol escaldante e nem vento de cordilheira que a maltratem [...] Em realidade, a Difunta, é mais mãe que todas as mães, depois da Santíssima, a mulher entre as mulheres, a que usou seu corpo como o fazem os varões. Se meteu nele e se lançou à ferocidade da intempérie e correu todos os riscos da pior guerra sem mais recursos que a pura valentia. (LOJO, 2007, p. 43-44, [tradução nossa]) Se por um lado a comunhão divina de Deolinda é atestada no “grande texto Difunta Correa” e repetida nos textos afiliados, por outro não deixa de ser interessante que na voz ficcional de Lojo o valor da santa seja medido por parâmetros do universo masculino. Não deixa de fazer sentido, posto que há uma certa correspondência entre a Difunta Correa e os gaúchos milagrosos, homens em geral à margem da lei, que nas agruras dos pampas, agiam como protetores dos mais fracos, espécie de Robin Hood criollo do qual o mais famoso é o Gauchito Gil.

O texto de Lojo esboça também uma teoria, ou mais que isso, constata o pertencimento de qualquer conjectura ao domínio do imutável. O “grande texto Difunta Correa” adquire o status de uma escritura sagrada:

Que fim haveria levado Correa, o velho, o pai de Deolinda? E Bustos, o marido arrastado para a montonera? A tranquilizava de algum modo pensar que todos estarão mortos, que desapareceram com a moça, que o passado acaba como ela, imóvel e perfeito, aureolado nas bordas como uma estampa piedosa. (op. cit., p. 47)

Para além das bordas aureoladas, um outro discurso (ou discursos) de bordas se compõe, e o mito chega à contemporaneidade atravessado por questões que entrelaçam arte, cultura pop, traduções culturais em vários níveis.

                                                                                                               

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3.5.3 Gilda e a mídia. Difunta Correa e boneca Barbie: apelos pop das santificações