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Direito comercial

No documento FLÁVIA MARIA DE MORAIS GERAIGIRE CLÁPIS (páginas 138-145)

4. A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO

4.2. Aspectos da teoria da desconsideração no direito brasileiro

4.2.4. Direito comercial

Podemos afirmar que a aplicação da doutrina da desconsideração no direito brasileiro, ocorrida há tempos, deu-se em virtude de questões envolvendo o direito societário, o que levou Rubens Requião a proferir importante conferência sobre o tema.

Tanto na Lei das Sociedades Anônimas quanto no Código Civil, existem diversas previsões de responsabilização de sócios e administradores, decorrentes de atos pessoalmente praticados que, no nosso entender e no da maioria dos doutrinadores, não tratam de casos de desconsideração da personalidade jurídica.

Haveria a hipótese de aplicação da desconsideração nos casos em que sócios e/ou administradores se utilizarem da pessoa jurídica com a intenção de prejudicar

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Bernardes. A desconsideração da personalidade jurídica e sua aplicabilidade no direito tributário – uma análise comparativa com o instituto da responsabilidade tributária. In: Desconsideração da personalidade jurídica em matéria tributária, 2005, p. 465.

terceiros, demais sócios e a própria sociedade, o que não vislumbramos nas hipóteses a seguir estudadas. O que nos parece claro é que a aplicação da doutrina da desconsideração não está descartada pelo fato de os artigos da Lei das S/A e da Sociedade Limitada, que veremos a seguir, tratarem de típicos casos de responsabilidade civil. Toda vez que a pessoa jurídica for utilizada para causar prejuízos e não se tratar de casos típicos de imputação direta da responsabilidade, a teoria da desconsideração deve ser aplicada, prescindida da análise do específico caso concreto.

Na Lei de Sociedades por Ações, os arts. 116, 117, 246 e 158, dentre outros, versam sobre a responsabilidade do sócio controlador, da sociedade controlada e de seus administradores, porém, repita-se, não se pode afirmar que referidos dispositivos guardam correlação com a teoria da desconsideração.

Segundo Luciano Amaro:

“a lei das Sociedades Anônimas, com o objetivo de evitar prejuízos para minoritários ou para terceiros, credores da companhia, contempla situações de responsabilidade pessoal, subsidiária ou solidária de terceiros, a fim de evitar abusos que pudessem ser praticados com a utilização da pessoa jurídica. Confiram-se, por exemplo, as disposições sobre abuso do direito de voto e conflito de interesses constantes dos arts. 115 a 117; veja-se, ainda, exemplo de responsabilidade solidária no art. 233, que protege o interesse de credores da sociedade cindida; exemplo de responsabilidade subsidiária (da controladora por obrigações da controlada) encontra-se no art. 242”368.

E continua, ao preceituar que:

“quando a lei cuida de responsabilidade solidária, ou subsidiária, ou pessoal dos sócios, por obrigação da pessoa jurídica, ou quando ela proíbe que certas operações, vedadas aos sócios, sejam praticadas pela pessoa jurídica, não é preciso desconsiderar a empresa, para imputar as obrigações aos sócios, pois, mesmo considerada a pessoa jurídica, a implicação ou responsabilidade do sócio já decorre do preceito legal. O mesmo se diga se a extensão de responsabilidade é contratual. De igual modo, quando se põe a questão da responsabilidade do acionista controlador, por abuso de poder (Lei n 6.404/76, art. 117), não se deve cogitar de nenhuma desconsideração da pessoa jurídica; o problema é de

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responsabilidade civil do acionista que, agindo ilicitamente, responde pelos danos que causar”369.

Já Marçal Justen Filho, ao contrário de Amaro, entende que o art. 117, alínea f, prevê a hipótese de desconsideração. Segundo ele:

“o art. 117, alínea ‘f’, prevê a desconsideração da personalidade jurídica societária, ao dispor caracterizar-se o abuso de poder por parte do acionista controlador quando pratica as condutas vedadas através de uma sociedade ‘na qual tenha interesse’. Haverá a desconsideração máxima, para atribuir-se ao acionista controlador as condutas praticadas por intermédio da sociedade instrumental. Fora essas regras (e outras) que prevêem diretamente a desconsideração, podemos extrair o cabimento da aplicação da teoria em inúmeros outros casos. Pode-se afirmar que todas as regras da Lei das Sociedades Anônimas que imponham a obrigatoriedade da realização de um determinado resultado ou determinem a impossibilidade da ocorrência de um certo evento (ou seja, quando se tratar de regras imperativas ou proibitivas), autorizam e exigem a desconsideração se a frustração de seu comando decorrer da aplicação do regime da personificação societária”370.

Entendemos que considerar os arts. 116, 117 e 246 como casos típicos de desconsideração é um grande equívoco. Seria, inclusive, desvirtuar o princípio da desconsideração da personalidade jurídica que não pode ser aplicado quando é cristalina, como nos dispositivos em apreço, a hipótese de imputação direta de responsabilidade ao sócio controlador e à sociedade controlada.

O art. 158 da Lei das Sociedades Anônimas dispõe sobre a responsabilidade do administrador da sociedade. Podemos inferir as seguintes regras no tocante à responsabilidade dos sócios e administradores: i) é sempre presumida a responsabilidade dos diretores quando houver violação da lei ou dos estatutos; ii) responderá civilmente o administrador pelos danos que causar quando agir, dentro de suas atribuições e poderes, com dolo ou culpa ou com violação da lei ou do estatuto; iii) somente estará isento o administrador que, discordando da prática de determinado ato, consignar referida divergência em ata de reunião ou, impedido/impossibilitado de participar, cientificar por

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Amaro, 1993, p. 74.

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escrito aos órgãos de administração; iv) o administrador não será responsável por atos ilícitos praticados por outros administradores, salvo se for conivente; e v) responderá solidária e subsidiariamente o administrador que, ciente de irregularidades praticadas por seu antecessor, não comunicar a assembléia.

Referido dispositivo também não consagra a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, mas sim trata de imputação direta do administrador. O administrador, dentre outros deveres, precisa obedecer ao disposto em lei e no estatuto, devendo agir no limite de seu objeto social, sob pena de responder pelos atos praticados ultra vires (art. 158, II). Façamos aqui, uma breve consideração sobre os atos ultra vires. Ato ultra vires é aquele praticado pelo administrador em desacordo com a atividade-fim da empresa371.

“Assim, a prática de um ato, que não tenha qualquer relação com o objeto social e que esteja vedada pelo estatuto, não é simplesmente um abuso da razão social, mas uma prática ultra vires (...). Portanto, a nosso ver, um ato será classificado como ultra vires quando, de qualquer forma, exceder os limites estatutários, seja por ser estranho ao objeto social, seja por não estar expressamente autorizado pelo estatuto, ou seja, por estar vedado pelo mesmo”372.

Segundo Fábio Ulhoa Coelho:

“a teoria ultra vires postula a nulidade dos atos praticados em nome da sociedade, mas estranhos ao objeto social. No direito brasileiro, a Lei das Limitadas, desde 1919, contempla dispositivo que afasta a adoção dessa teoria. Entre nós, a sociedade limitada responde por todos os atos praticados em seu nome, ainda que extravagantes ao objeto social. Não se pode dizer que o direito brasileiro tenha adotado a ultra vires doctrine, nem mesmo quando ela gozava de prestígio nos países em que se criou e difundiu. (...) de modo geral, os problemas relacionados à extrapolação dos limites do objeto social têm sido examinado à luz da teoria da aparência, com vistas à proteção dos interesses dos terceiros de boa-fé que contratam com sociedades”373.

371

Barbi Filho. Apontamentos sobre a teoria “ultra vires” no direito societário brasileiro. Revista Forense, ano 85, v. 305, fev./mar. 1989, p. 24.

372

Barbi Filho, 1989, p. 25

373

Em razão da proteção aos terceiros de boa-fé, não se pode afirmar de forma categórica que são nulos os atos praticados além do objeto social e do estatuto, pois a adoção sem qualquer restrição de referida teoria traria extrema insegurança para aqueles que de boa-fé contrataram com as sociedades comerciais, já que ficariam sem qualquer garantia aos direitos adquiridos na transação realizada por aqueles que extrapolaram os poderes previamente estabelecidos374.

Por fim, não podemos confundir a teoria da desconsideração com a teoria ultra vires. A pessoa jurídica age por intermédio de atos que se exteriorizam através daqueles praticados pelos diretores e administradores, que são sujeitos de direitos e obrigações, com capacidade de agir em nome próprio pela sociedade. Já a teoria ultra vires é pautada no objeto social, formado pela atividade e pelo fim da empresa, sendo que serão considerados ultra vires os atos que estiverem em desacordo com a atividade ou finalidade da empresa quando violarem estatutos ou contratos sociais375.

Na Sociedade Limitada existem dispositivos legais que prevêem a responsabilidade do administrador e da sociedade. Por exemplo, dentre outros, (1) o art. 1.016, que prevê a responsabilidade dos administradores perante a sociedade por culpa no desempenho de suas funções; (2) o art. 1.036, que prevê a responsabilidade do administrador em caso de dissolução da sociedade; (3) o art. 1.015, que prevê a responsabilidade dos administradores e da sociedade pela prática de atos excedentes ao objeto social; (4) o art. 1.070 c/c 1.016, que prevê a responsabilidade dos integrantes do Conselho Fiscal; e (5) as hipóteses que prevêem a responsabilidade do administrador e da sociedade perante terceiros.

Ocorre que em todos esses casos, também não se vislumbra o desvirtuamento da pessoa jurídica ou seu uso abusivo, a fim de ensejar a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Nessas situações, o que realmente acontece é o comportamento do sócio ou do administrador em desacordo com a lei ou o contrato, o que gera sua responsabilidade pessoal pelo ato cometido.

Mas os entendimentos não são unânimes. Existem doutrinadores que defendem que os casos de imputação de responsabilidade dos sócios são casos de aplicação da teoria da desconsideração. 374 Barbi Filho, 1989, p. 26. 375 Silva, 1999, p. 147.

Adalberto Pasqualotto enumera hipóteses às quais entende ser aplicável a teoria da desconsideração e, dentre elas, enquadra o art. 158 da Lei das Sociedades Anônimas376. Da mesma forma, Clóvis Ramalhete cita dispositivos legais de aplicação da desconsideração como, por exemplo, o art. 10 da antiga Lei das Limitadas. Menciona, ainda, o art. 2º da CLT como desconsideração da personalidade jurídica377.

Irineu Mariani também entende que o art. 158 da Lei de Sociedades Anônimas é uma hipótese legal de desconsideração e não de imputação direta da responsabilidade aos administradores. Segundo ele:

“foram recolhidas algumas hipóteses legais de desconsideração da personalidade jurídica. O Dec. 3.708/19, que rege as sociedades por cotas, declara que os sócios-gerentes respondem solidária e ilimitadamente com a sociedade, perante terceiros, pelo excesso de mandato e pelos atos praticados com violação do contrato ou da lei (art. 10), princípio que também encontramos na Lei 6.404/76, que regula as sociedades anônimas (art. 158), e na CLT, quando a empresa ou várias delas se encontram sob o controle ou administração de outra (art. 2º, § 2º)”378.

Como tratamos no início da abordagem deste tema, hipóteses de aplicação da teoria da desconsideração no ramo do direito comercial podem existir desde que não se trate de casos de imputação direta da responsabilidade de sócios e/ou administradores, mas sim da utilização da pessoa jurídica como mecanismo para prejudicar terceiros.

Importante abordarmos, por fim, que a Lei de Falência não contém dispositivo que se relacione com a teoria da desconsideração. Porém, antes da positivação dessa teoria em nosso ordenamento jurídico, seja no Código de Defesa do Consumidor, na Lei do Meio Ambiente, ou no próprio Código Civil, a desconsideração, há muito tempo, já era aplicada por nossos tribunais. Da mesma forma, isso acontece na falência, ou seja, em determinadas situações aplica-se a desconsideração, ainda que sem previsão expressa,

376

Pasqualotto. Desvio da pessoa jurídica. Revista da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, v. 47, nov. 1989, p. 208.

377

Ramalhete, 1986, p. 81.

378

Mariani. A desconsideração da pessoa jurídica – Contribuição para seu estudo. Revista dos Tribunais, ano 76, v. 622, ago. 1987, p. 52.

afastando-se a personalidade jurídica da sociedade falida para alcançar o patrimônio de seus sócios ou de outra sociedade, como demonstram os precedentes a respeito do tema379.

Pelas jurisprudências estudadas, podemos observar que a desconsideração tem sido decidida incidentalmente no processo de falência. Ocorre que, com a nova Lei de Recuperação Judicial e Falência, Lei 11.101 de 09/02/2005, será necessário, de acordo com o art. 82, que seja ajuizada ação de responsabilização dos sócios através do procedimento ordinário, cuja competência será do juízo universal da falência. O prazo prescricional para o ajuizamento dessa ação será de dois anos, a partir do trânsito em julgado da sentença de encerramento da falência.

A defesa do sócio deverá acontecer, com a promulgação da Lei 11.101 de 09/02/2005, nos autos da ação de responsabilização dos sócios que deverá ser intentada pelo credor, aplicando-se as regras próprias do procedimento previstas nos arts. 297 e ss do Código de Processo Civil.

379

STJ – ROMS nº 16.105/GO, 3ª T., Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 18.08.2003; TJSP – Ag. In. nº 237.168- 4/4, 3ª Câm., Rel. Des. Ênio Santarelli Zuliani, j. 08.10.2002, DOJSP de 05.12.2002 (Repertório de Jurisprudência IOB – Civil, Processual, Penal e Comercial, nº 09/2003, v. III, p. 212); TJSP – Ag. In. nº 237.168-4/4, 3ª Câm., Rel. Des. Ênio Santarelli Zuliani, j. 08.10.2002, DOJSP de 05.12.2002 (Repertório de Jurisprudência IOB – Civil, Processual, Penal e Comercial, nº 09/2003, v. III, p. 212).

5. PRESSUPOSTOS PARA APLICAÇÃO DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA

No documento FLÁVIA MARIA DE MORAIS GERAIGIRE CLÁPIS (páginas 138-145)