A superação do Estado liberal e formalista coincide com a formação inicial do direito do trabalho. Mas este vem a se desenvolver plenamente pela consolidação do Estado social no pós-guerra.
No contexto do atual a situação do direito do trabalho é bem diferente e suas características se vinculam diretamente ao novo modelo de Estado e as condições sociais, econômicas e políticas que o cercam.
Estamos falando de um Estado caracterizado por uma sociedade de massas, de ideias pluralistas, envolvido em uma política mundial de tons nitidamente neoliberais. Isso significa que há a tendência de se desregulamentar as normas trabalhistas, de abertura econômica e de mundialização do capital. Também ocorre a multiplicação de direitos e de conflitos de massa. Por isso a jurisdição deve buscar se adequar a essa nova realidade, principalmente em virtude do desprestígio pelo qual vem passando o direito do trabalho em fase de neoliberalismo.
Ainda que a sociedade seja de massas e esteja passando por uma séria e importante reestruturação produtiva, o direito do trabalho não perde sua importância, como quer fazer pensar a corrente ultraliberal do pensamento. Pelo contrário, ele cresce em necessidade na medida em que limita e moraliza o capitalismo.
A terceira revolução tecnológica muda as bases da produção de bens e serviços. Isso tem o aspecto positivo de mostrar que a sociedade é dinâmica e está em inexorável desenvolvimento.
Quando o capitalismo deixa de ser industrial, o trabalho imaterial ganha relevo. A sociedade muda e, com ela, as relações de trabalho e os direitos trabalhistas. Enfim, muda o direito do trabalho, mas isso não significa seu fim.
Márcio Porchman alerta que acreditar na assertiva de que parece intransplantável o fato de que ou se precariza ou se aceita o desemprego é acreditar numa falsa disjuntiva. É plenamente possível que todos trabalhem, pois a centralidade do trabalho permanece evidente como um elemento de organização da vida humana, porém com uma temporalidade muito menor nos dias atuais. Afirma esse autor:
Entretanto, continuamos discutindo as condições de trabalho ainda como herdeiros do capitalismo do século XX. É preciso considerar que estamos diante de uma nova possibilidade técnica de organização do trabalho, com jornadas diárias de quatro horas por três dias por semana, com ingresso no mercado de trabalho somente a partir dos 25 anos de idade. Antes disso, a pessoa deve ser totalmente integrada a uma educação que deve ser recebida ao longo de toda sua vida, diante da complexidade da sociedade contemporânea. Ademais, estamos próximos também de chegar a uma longevidade que vai bater ao redor dos 100 anos de idade, não mais nos 70 anos atuais ou – como era há um século - de 40 anos264.
Portanto, é possível que o Estado se adapte à nova sociedade sem que isso signifique o sacrifício dos direitos de seus principais atores, os trabalhadores.
Como viver num mundo sem trabalho? Porque continuar acreditando nessa falsa ideologia? É simples imaginar que o mundo não sobrevive sem seus homens, cidadãos. Há possibilidade de um mundo tão-somente do capital?
Atualmente, o Estado está diante de um novo contexto de abertura de mercados, de capital especulativo, de mobilidade do capital em tempo real e em escala mundial, de fraco crescimento econômico e de concorrência acirrada. A par disso, as empresas e a direita política colocam em execução um plano de flexibilização e precarização do trabalho em nome do crescimento econômico e de melhores condições para a livre concorrência. Isso faz com que “governos, sindicatos e cidadãos se sintam cada dia mais impotentes e submissos ao que
264 PORCHMANN, Márcio; ANTUNES, Ricardo. O novo mundo do trabalho. O trabalho no novo mundo. Entrevista conferida ao jornal da Unicamp, em 04 de abril de 2007. Jornal da Unicamp, Campinas, Edição 354, de 9 a 15 de abril.
parece ser a lógica do sistema”. Nessa nova ordem a classe trabalhadora se vê envolvida por um ambiente de flexibilização do trabalho, redução da formalidade e constante ameaça de desemprego265.
Para Ricardo Antunes a reestruturação produtiva faz com que as empresas se organizem em redes, enxuguem a produção e reduzam os custos. Elas buscam desorganizar a classe dos trabalhadores como principal mecanismo para participarem da concorrência empresarial. No entanto, ainda que ocorra uma retração do proletariado industrial taylorista e fordista, há a ampliação das múltiplas formas de assalariados. Ou seja, falar no fim do trabalho é, no limite, insustentável. Para esse autor:
Basta conceber de forma ampliada a noção de trabalho, como sinônimo de atividade humana vital, para perceber que todas as formas de sociabilidade humana, desde o passado mais remoto até as projeções mais longínquas, estão a ele associadas. Num plano ontológico, a humanidade não pode reproduzir-se sem trabalho, aqui entendido como atividade vital que produza bens socialmente úteis266.
Ressalte-se que não se busca negar a debilidade que vem sofrendo o trabalho, tampouco mascarar os altos níveis de desemprego vivenciados pelos países. De fato, eles existem e são resultado direto da dinâmica do sistema capitalista. O capitalismo sem amarras não encontra limites no ser humano e tenta se desenvolver sem se preocupar em gerar benefícios paralelamente aos trabalhadores.
O capitalismo que se desenvolve sem uma contrapartida benéfica aos trabalhadores tem consequencias naturais. Ou seja, as modernas tecnologias, a abundância material e o
265 ALMEIDA, Adriana Sousa de. Desemprego e precarização das condições de trabalho nos países avançados. Dissertação (Mestrado em Economia Social e do Trabalho)-Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003, p. 2.
266 ANTUNES, Ricardo; PORCHMANN, Márcio. O novo mundo do trabalho. O trabalho no novo mundo. Entrevista conferida ao jornal da Unicamp, em 04 de abril de 2007. Jornal da Unicamp, Campinas, Edição 354, de 9 a 15 de abril.
desenvolvimento científico naturalmente vêm acompanhados de desigualdade, exclusão social e desemprego267.
Inclusive vários autores preconizam a descentralidade do trabalho no Estado atual. Dentre eles, destacam-se Claus Offe, André Gorz e Jeremy Rifkin.
André Gorz é um sociólogo francês e seu principal livro chama-se Adeus ao
Proletariado. O livro foi publicado em 1980 e já anuncia sua posição frente à questão da centralidade do emprego na sociedade de hoje.
Gorz prega a impossibilidade de reconstrução da era do pleno emprego vivenciado no Estado keynesiano e fala em uma sociedade do desemprego e do tempo liberado. Ele acredita que a sociedade de tempo liberado só seria alcançada pela redução do tempo de trabalho. Para Gorz, na concepção antropológica o trabalho nunca foi fator de integração social. Pelo contrário, era um fator de exclusão, pois nas sociedades pré- modernas o trabalho era indigno e destinado às pessoas “inferiores”, na medida em que este era a garantia de sua sobrevivência268.
Porém, ainda que defenda a diminuição do tempo de trabalho e veja o desemprego como algo favorável, Gorz não encara tais fatores sob a ótica do neoliberalismo.
Pelo contrário, Gorz tem uma visão humanista do trabalho. Para ele a diminuição do tempo de trabalha tornaria a sociedade mais humana. Para tanto, afirma que a diminuição do tempo de trabalho não pode implicar a perda nos rendimentos. Sua intenção é fazer com que o trabalhador utilize o tempo economizado no trabalho, em atividades intelectuais, artísticas e/ou assistenciais, mas sem fins econômicos269
267 ALMEIDA, Adriana Sousa de. Desemprego e precarização das condições de trabalho nos países avançados. Dissertação (Mestrado em Economia Social e do Trabalho)-Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003, p. 2.
268 GORZ, André. Metamorfoses do trabalho: crítica da razão econômica. Tradução de: Ana Montoia. São Paulo: Annablume, 2003, p. 25.
As ideias do sociólogo alemão Claus Offe podem ser conhecidas através de seu texto
Trabalho: a categoria chave da Sociologia?, publicado em 1989. Para Offe, o trabalho estaria perdendo seu status de fato da vida e sendo privado de seu papel de força subjetiva motivadora central da atividade dos indivíduos. Por isso, nega a centralidade e postula a “implosão da categoria trabalho” na constituição da identidade dos trabalhadores, baseando-se nos seguintes argumentos:
I. O trabalho deixa de ser tratado como o mais importante princípio organizador das estruturas sociais, dado que as pesquisas voltam-se para a vida cotidiana, fora da esfera do trabalho;
II. A vasta heterogeneidade empírica do trabalhador, a partir do qual o fato de ser um empregado, ou da dependência em relação ao salário, não mais constituiria foco da identidade coletiva e divisão social e política;
III. O declínio da ética do trabalho, à medida que, no nível da integração social, o trabalho como um dever humano ético está provavelmente se desintegrando; e
IV. O trabalho vem perdendo sua característica de se colocar com uma necessidade, ao nível da integração do sistema270.
Por fim, na recente década de 1990 o norte-americano Jeremy Rifkin escreve O fim
dos empregos. O livro foi publicado em 1995 e nele Rifkin afirma que o Estado atual vivencia a “Era da Informação” e da “revolução da alta tecnologia”, delineando um “mundo sem trabalhadores”. Ele preconiza o fim massivo do trabalho formal e a formação do novo proletariado de máquinas. Termina dizendo que, ao contrário do que aconteceu nas últimas duas revoluções tecnológicas, em que a extinção de determinados postos de trabalho acontecia paralelamente ao surgimento de outras colocações entre setores diversos, atualmente a revolução tecnológica atinge todos os setores indistintamente271.
270 TONI, Míriam. Visões sobre o trabalho em transformação. Sociologias, Porto Alegre, ano 5, n. 9, jan./jun. 2003, p. 255.
271 RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos: o contínuo crescimento do desemprego em todo o mundo. São Paulo: M. Books, 2004, p. 3-30. A respeito, consultar também: TONI, Míriam. Visões sobre o trabalho em transformação. Sociologias, Porto Alegre, ano 5, n. 9, jan./jun. 2003, p. 257.
Fazendo o contraponto aos posicionamentos acima, há autores que afirmam a centralidade do trabalho e sua importância para a própria sobrevivência do capitalismo. Eles enxergam a importância que o trabalho, desde sua origem, tem de gerar a consciência política dos trabalhadores. Por isso concebem o direito do trabalho como limite ao avanço capitalista, na medida em que confere sentido ao sistema econômico e proporciona dignidade humana ao trabalhador.
Manuel Castells publicou seu livro A sociedade em Rede em 1999. Para ele, a sociedade está sofrendo a mudança de paradigma da sociedade industrial para a sociedade informacional. Essa mudança faz surgir o trabalho em redes globais. Nessas redes a mão-de- obra aparece em escala global, desagregada em seu desempenho, fragmentada em sua organização, diversificada em sua existência e dividida em sua ação coletiva. Porém, Castells atribui às organizações e instituições sociais a possibilidade e a capacidade de desempenharem importante papel na reversão das condições desfavoráveis à grande parcela de trabalhadores272.
Já o estudioso francês Robert Castel tem em sua obra As metamorfoses da questão
social, publicada em 1998, a preocupação em utilizar o termo desfiliação do trabalhador no lugar de exclusão. A preferência pelo termo é porque a desfiliação expressa um erro de percurso que pode ser corrigido, demonstra uma ruptura, uma dissociação e uma desqualificação, ao passo que a exclusão leva ao estado de privação273.
Nesse sentido, Castel afirma que a nova questão social não se resume à retração do crescimento, tampouco ao fim da era do pleno emprego. A questão social consiste no papel integrador que o trabalho desempenha na sociedade e no fato de vir sofrendo vulnerabilidades fundadas no enfraquecimento das suas proteções historicamente tecidas274. De acordo com esse autor:
272 TONI, Míriam. Visões sobre o trabalho em transformação. Sociologias, Porto Alegre, ano 5, n. 9, jan./jun. 2003, p. 265.
273 CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 25-26.
Analisando o contexto atual, de internacionalização do mercado em meio a exigências crescentes impostas pela concorrência e competitividade, Castel identifica que o trabalho vem sendo alvo de dois tipos de redução de custos face aos requisitos da flexibilização: de um lado trata-se de minimizar o preço da força de trabalho, de outro, de maximizar sua força produtiva. Os desdobramentos dessa dinâmica da modernização incidem sobre a problemática do emprego através de três manifestações principais: o desemprego, a precarização do trabalho e a individualização... O paradoxo é que essa situação se eclode após um processo secular de construções de relações entre os indivíduos e o trabalho que, através de lutas, sofrimentos e coerções, conformou uma civilização do trabalho. Face aos primórdios da industrialização, se configura uma vulnerabilidade de após proteções275. Boaventura Santos é um sociólogo português que analisa a metamorfose do contrato social no Estado atual. Para tanto, examina a realidade das duas últimas décadas do século XX.
Segundo Boaventura Santos, a contratualidade na sociedade atual vem passando por uma crise que apresenta dois processos nítidos de exclusão do trabalhador. O primeiro diz respeito ao “pós-contratualismo” que leva à exclusão de grupos e interesses sociais até então inseridos no contrato social, sem perspectiva de retorno, levando o cidadão à condição similar à de servo. O segundo é o do “pré-contratualismo” que bloqueia o acesso de grupos sociais, antes com boas expectativas, à cidadania.
Por isso Boaventura Santos propõe uma nova contratualidade social baseada na redescoberta democrática do trabalho. Um novo contrato social que “não se assente em distinções rígidas entre Estado e sociedade civil, entre economia política e cultura, entre público e privado”276. A redescoberta democrática é condição inarredável para a reconstrução
275 TONI, Míriam. Visões sobre o trabalho em transformação. Sociologias, Porto Alegre, ano 5, n. 9, jan./jun. 2003, p. 269.
276 SANTOS, Boaventura de Sousa. Reinventar a democracia: entre o pré contratualismo e o pós contratualismo. In: HELLER, A. et. al. A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999, p. 64-66.
da economia como forma de sociabilidade democrática e não reduz o trabalho a um mero fator de produção277.
Enfim, ficou demonstrado o contraponto entre duas correntes do pensamento acerca da centralidade do trabalho na sociedade de hoje.
Ambas as correntes se aproximam no que se refere aos efeitos prejudiciais que a reestruturação produtiva e o fenômeno da globalização causam ao trabalho. Porém, os teóricos do fim do trabalho equivocam-se ao dizer que o trabalho está desaparecendo. Para mostrar o equívoco cabal dessa tese, o país que mais cresce hoje em termos capitalistas, em escala global, é a China. Justamente por contar com algo em torno de 800 milhões de pessoas é que é possível o rebaixamento da remuneração da força de trabalho a um nível antes inimaginável278.
É possível fazer a opção pela valorização do trabalho. A sua permanência é necessária à própria manutenção do sistema capitalista, pois não há como imaginar o mundo sem trabalho.