6. RECURSOS DIDÁTICOS DISTRIBUÍDOS PELO MINISTÉRIO DE
6.1 O uso do livro didático
6.1.2 Direito: reconhecer e nomear as letras do alfabeto
Como podemos observar no quadro 06, esse direito foi contemplado em três aulas da professora A e cinco aulas da professora B.
Na prática da professora A, observamos que nas aulas 02 (dois), 05 (cinco) e 09 (nove) a docente explorou o direito reconhecer e nomear as letras do alfabeto a partir de perguntas realizadas aos alunos sobre quais eram as letras que formavam as sílabas de palavras presentes nas atividades do livro didático. Nessas situações de ensino, a docente fez a mediação das atividades e registrou no quadro as respostas dos estudantes. Em todos esses momentos, os alunos estavam organizados em duplas. A seguir, detalharemos a aula 02 (dois) para compreendermos como a docente mobilizou esse direito com os alunos.
Nessa atividade do livro didático os alunos precisavam refletir sobre as letras que formavam as palavras jipe, janela, caju e caramujo e escrever uma letra em cada quadradinho. Através desse recurso, os estudantes podem ser levados a estabelecer relação letra-som, refletir sobre as letras que formavam os nomes dos desenhos e escrever esses nomes, tendo o quantitativo de quadradinhos como auxílio para o processo de escrita.
No fragmento da aula abaixo podemos observar como a professora mediou essa atividade e contemplou o direito de aprendizagem discutido nesse tópico.
P – Todo mundo já fez o nome ―JIPE‖? Como é JI? Alunos – J e I!
P – Como é ―PE‖? A – P e E!
A – Como é que faz ―P‖?
P – ―P‖ de pato, sabe como é não?! Eu vou de banca em banca para ver... Esse último é caramujo.
A – Caramujo?
P – Olha, tem gente que está fazendo errado. Jipe é assim, JI-PE. Tem gente que está colocando o ―B‖ no lugar do ―PE‖. Agora janela, janela é fácil, fácil. Vamos lá? Como é ―JA‖?
A – G e A! A – J e A!
P: J e A! Botem aí, ―JA‖ de janela. Como é ―NE‖? Alunos – N e E!
P – N e E! Botem aí, ―JA-NE‖. N e E! ―N‖ de navio! A – E agora, tia?! Está faltando qual letra?
P – Pense! A – Bota um ―E‖.
P – Nossa amiga aqui já disse, olha. JA-NE... A – Ja-ne-la.
A – L e A.
P – Pronto, botem aí. Agora vamos para ―CAJU‖. A – Eu já sei!
P – Como é ―ca‖? A – C e A!
P – Vamos lá, JA-NE-LA. Escreveu janela? Agora ―CAJU‖ como é ―CA‖? A – C e A.
P – Coloquem aí, C e A. Como é ―JU‖ de caju? A – G e U!
A – J e U.
P – Não é com ―G‖! Alunos – J e U!
P –J e U, ca-ju. Vamos para CA-RA-MU-JO? Vocês vão me dizer. Como é ―CA‖? A – C e A. P – Como é ―RA‖? Alunos – R e A! P – Como é ―MU‖? Alunos –M e U! P – CA-RA-MU... A – JO! P – Como é ―JO‖?
A – G e O! P – Nada é... Alunos – J e O!
P – Nada é com ―G‖ aí! Então, escrevam aí, olha. CA-RA-MU-JO! De novo, eu vou repetir para quem não conseguiu pegar. Como é ―CA‖?
Alunos – ―C e A!‖. P – Como é ―RA‖? A – R e A.
P – CA-RA-MU… Como é ―MU‖? A – ―M e U‖.
P – CA-RA-MU-JO! Como é ―JO‖? Alunos – J e O!
(Aula 02, professora A)
Como podemos observar no extrato da aula 02 (dois), a docente segmentou oralmente as sílabas das palavras presente na atividade e perguntou aos alunos o nome das letras que formavam as sílabas. Em alguns momentos, percebemos que a resposta dos alunos foi baseada no nome da letra, por isso responderam G e A para representar a sílaba JA, G e U para a sílaba JU e G e O para sílaba JO, conforme podemos observar em JANELA, CAJU e CARAMUJO.
De acordo com Cardoso-Martins e Batista (2005, p. 331) isso acontece porque os nomes das letras podem ser ―ouvidos‖, com certa frequência, na pronúncia das palavras. Segundo essas autoras, ―esse é o caso, por exemplo, da palavra bola, em que tanto o nome da letra ―o‖ como o nome da letra ―a‖ são claramente escutados na pronúncia da palavra‖.
No que se refere à exploração do direito de aprendizagem discutido nesse tópico, consideramos que, através dessa atividade, os alunos refletiram e nomearam as letras que formavam as palavras. Além de reconhecermos que a docente promoveu uma situação didática em que as crianças foram levadas a nomear as letras do alfabeto, percebemos, em alguns momentos, a partir das respostas das mesmas, que elas compreendiam o princípio de que as letras representam ou notam a pauta sonora das palavras que falamos e, por isso, estabeleceram relação letra-som, colocando uma letra para cada fonema com o objetivo de escrever os nomes das figuras presentes na atividade (MORAIS, 2012). Ou seja, identificamos que os alunos dominavam conhecimentos relacionados aos aspectos conceituais do sistema alfabético, mas destacamos que eles ainda apresentavam conflitos por estabelecer uma relação direta do nome da letra com o som representado pela sílaba, trocando o ―J‖ pelo ―G‖.
Morais (2012) afirma que esses conflitos ocorrem com os aprendizes que estão em processo de alfabetização, pois, apesar de dominarem vários princípios do sistema
de escrita, ainda não compreendem as convenções som-grafia e, por isso, cometem erros ortográficos.
As situações didáticas promovidas pela professora B com foco no reconhecimento e nomeação das letras do alfabeto ocorreram em cinco das dez aulas observadas através do uso do livro didático de Letramento e Alfabetização. Na aula 01 (um) a docente solicitou que os alunos identificassem a letra inicial e final nas palavras da atividade, na aula 02 (dois) os estudantes foram levados a refletir e nomear as letras que formavam as sílabas das palavras, nas aulas 06 (seis) e 07 (sete) os discentes identificaram e retiraram algumas letras nas palavras com objetivo de formar novas palavras e na aula 10 (dez) os estudantes nomearam as letras das palavras que representavam as respostas das adivinhas presentes na atividade do livro didático.
Das cinco aulas em que esse direito foi contemplado, escolhemos a atividade do livro didático realizada na aula 01 (um), conforme podemos visualizar na Figura 21.
Figura 21– Atividade no livro didático de Letramento e Alfabetização
Como podemos observar, essa atividade é formada por duas orientações. Na primeira orientação os alunos precisavam ler as palavras e desenhar o nome das frutas que faltam. No segundo momento, de acordo com a legenda da atividade, os estudantes deveriam circular a primeira letra do nome das frutas com a cor vermelha e a última letra com a cor azul. Nesta atividade, os aprendizes têm acesso à figura e o nome das frutas manga, cacau e banana. Com a figura e o nome das frutas os discentes podem visualizar como essas palavras são grafadas. Nas frutas caju, coco e jaca, que não tem
figuras, os alunos vão precisar ler essas palavras para descobrir a fruta que precisa ser desenhada. O segundo momento da atividade pode auxiliar os aprendizes que estão nos níveis mais iniciais de compreensão do sistema de escrita alfabética a identificar e nomear as letras iniciais e finais das palavras que correspondem ao nome das frutas.
No momento que a professora B realizou essa atividade os alunos estavam organizados individualmente e cada um estava com o seu livro didático. No início dessa atividade a docente perguntou aos alunos o nome das frutas, solicitando a leitura coletiva das palavras que não tinham a ilustração e os estudantes que já conseguiam ler responderam o nome das frutas. Nesse momento, a docente copiou o nome das frutas no quadro e voltou a ler as palavras registradas. Com essa ação, a educadora favoreceu os alunos que não conseguiam ler, pois chamou a atenção dos mesmos para a percepção da palavra escrita, de modo a relacionar com a palavra falada.
Após a leitura do nome das frutas em voz alta com o auxílio da docente, os aprendizes fizeram o desenho das frutas que faltavam. Na sequência, a educadora explicou aos estudantes como localizar a letra inicial e final das palavras e, em seguida, a partir da leitura das palavras, fez perguntas aos alunos, levando em consideração o reconhecimento e nomeação das letras iniciais e finais dos nomes das frutas.
Para ilustrar como a professora B contemplou o direito de aprendizagem discutido nesse subtópico apresentamos o fragmento da aula 01 (um) abaixo:
P – Na primeira letra, na primeira que começa. O nome manga! Qual é a primeira letra da manga? A – M! A – M! P – Circula o M, circula o M. A – Já circulei já. (...)
P – O primeiro com o nome caju... A primeira letra do nome caju. Circula! A primeira letra do nome caju!
A – C!
P – A primeira! Circula! A – C!
P – E a primeira letra do nome ―CACAU‖? A – C!
P – Circula a primeira letra do ―cacau‖! A – J! O outro é J!
P – Psiu, silêncio! Um momentinho. Qual a primeira letra do nome coco? Circula! A – C!
A – Eu já terminei tudinho.
A – B!
P – Muito bem! A primeira letra do nome... A – J!
P – Jaca! J! A – Eu já circulei. A – Circulei.
P – Na última vai ser um ―X‖. Aí é para marcar um ―X‖ na última letra da palavra manga! Qual é a palavra qual é?
A – A!
(Aula 01, Professora B)
No extrato de aula acima, podemos perceber que a docente realizou várias perguntas em torno da letra inicial e final do nome das frutas, promovendo, dessa forma, situações de didáticas em que os alunos foram solicitados a nomear algumas letras do alfabeto.
A partir do fragmento dessa aula, também observamos que a professora não seguiu fielmente a legenda proposta pelo livro didático, pois solicitou que os alunos circulassem com lápis a primeira letra e marcassem um ―X‖ na última letra das palavras.
A partir desses dados, consideramos que as duas docentes promoveram situações didáticas favoráveis para construção do conhecimento em torno das letras do alfabeto.
Sobre esse aspecto, Albuquerque e Leite (2010) pontuam que reconhecer e nomear as letras do alfabeto é uma habilidade que pode ser dominada pelos aprendizes independente de estarem alfabetizados. Por outro lado, as autoras pontuam que:
O conhecimento das letras se não é um fator determinante no processo de apropriação da escrita, com certeza pode contribuir na medida em que os alunos, ao interagirem em diferentes situações de escrita e uso das letras, começam a perceber as propriedades do nosso sistema de escrita alfabética no que se refere ao uso das letras para representar a sequência sonora das palavras com as quais convivem. (p.97)
Assim como as autoras, concordamos que o conhecimento em torno das letras pode auxiliar os alunos no processo de reflexão das propriedades que envolvem o sistema de escrita, por isso cabe ao docente planejar situações didáticas que explorem essa habilidade, tendo em vista que, a partir delas, os educandos podem avançar na aquisição da língua materna.
A seguir, analisaremos situações de ensino em que o direito de reconhecer diferentes tipos de letras em textos de diferentes gêneros e suportes textuais foi explorado.
6.1.3 Direito: reconhecer diferentes tipos de letras em textos de diferentes gêneros e