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3 DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DOS POVOS DE CULTURAS

3.2 A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E MUNDIAL FRENTE AO PROBLEMA DO

3.2.2 Direitos Humanos e inclusão dos diferentes

A questão da diferença, da diversidade étnico-racial, ou seja, do próprio sujeito considerado como diferente deve ser tratada de forma diferente dos conceitos abordados no cristianismo, tais como todos serem irmãos, serem iguais e serem passíveis de amar. Quando abordamos a humanidade, ou melhor, as sociedades humanas como iguais, acabamos por violentar suas identidades negando sua existência, sua cultura e, por fim, sua tradição. Este também é o entendimento de Sandra Castro (2013) quando nos fala sobre a contradição do pensamento cristão ao tentar evitar o preconceito com a preconização de todos serem iguais:

Na tentativa de entender essa concepção, atenta-se para a ideia de igualdade formal e do Cristianismo. Aquela, já abordada (igualdade perante a Lei); esta,

crença de que todos são iguais, de que todos são irmãos, de que se deve amar e ser solidários uns para com os outros. Partindo desse último princípio, permitir-se enxergar a(s) diferença(s) seria desrespeitar um dogma religioso. Outra possibilidade para se pensar assim, seria para se evitar o preconceito, a discriminação. Afinal, vendo o diferente, levar-se-ia, inevitavelmente à classificação, possivelmente à hierarquização do ser humano. E isso não seria aceitável. (CASTRO. 2013. p.201).

O fato é que os indivíduos são diferentes, e se reconhecem como tal no dialogo com outros, o que torna a luta por reconhecimento uma verdadeira batalha de inclusão de diferentes. Um ponto relevante que esta discussão nos mostra é a luta pelo reconhecimento de grupos, que visam ter sua identidade social, ideológica, étnica e cultural reconhecidas, para que possam usufruir de um status histórico na construção da sociedade brasileira, bem como de continuidade com sua herança cultural, transmitida oralmente de geração em geração, e que devido a fatores motivados por forte inclinação religiosa do começo da idade moderna, foram obrigados ao afastamento, o que acabou por gerar um deslocamento de uma grande massa social, que atualmente ainda se encontra em um verdadeiro limbo cultural, pois não conseguem fortalecer o vínculo com a grande comunidade étnica na qual descendem, e em contrapartida não sentem-se conectados ideologicamente com a cultura na qual seus antepassados foram obrigados a aceitar, devido as imposições despóticas sofridas ainda nos reinos espanhóis pré-cabralinos.

Reconhecer e afirmar direitos pertinentes a diferença jamais é o mesmo que reivindicar ou lutar pela implantação de direitos iguais para toda uma população. O direito à diferença determina, por si só, uma gama de especificidades, mas que não proporcionem a desvalorização dos mesmos, ou seja, o reconhecimento sem discriminação requer a exigência da aplicação indispensável do direito a ser igual principalmente quando o conceito de diferença nos coloca em lugar de inferioridade, por isso temos o legítimo direito de sermos diferentes, principalmente quando o conceito de igualdade acaba por nos descaracterizar.

Sendo assim, não se pode afirmar que não existem diferentes, pois seria um discurso alheio a realidade, sem nenhuma vinculação com os fatos do cotidiano e da própria história da humanidade, em outras palavras, seria negar a própria humanidade considerar todos como iguais, não levando em consideração suas peculiaridades, sua diversidade. Neste interim, Castro (2013) propõe um caminho que torna-se fundamental a esta discussão, ao afirmar que:

Todos os seres humanos são diferentes, fato incontestável, diversidade como sinônimo de diferença, diferenças físicas, étnicas, culturais, de gênero, etárias. A questão é a percepção, a reflexão, e consequente atuação sobre os mecanismos sociais que transformam as diferenças em desigualdade, em supressão de oportunidades ao diferente. Urge trabalhar esses mecanismos, corrigindo as distorções. Conscientes de sua incompletude, o ser humano deve perceber a diversidade como valor, condição que viabiliza o surgimento do novo, uma vez que todos ganham com a convivência e a participação dos diferentes, num ambiente de reconhecimento e respeito ao outro. (CASTRO. 2013. p.201).

Castro nos coloca como um fato inquestionável a diversidade cultural dos povos, e por isso é necessário que se trabalhe a questão da própria percepção das diferenças, mas não como se considera na atualidade como uma forma de exclusão deste considerado diferente, mas que se deve criar mecanismos sociais que venham trabalhar estes conceitos de desigualdade, atuando no diferente para que o mesmo possa se incluir, de forma a criar uma cultura de convivência, reconhecimento e respeito mútuo.

Em um primeiro momento, o trabalho com o conceito de diferença vai de encontro ao reconhecimento da diversidade, e seguindo este caminho, potencializa- se a diferença para que se possa construir o sentido intercultural, através do diálogo. Tudo isso nos fornece o entendimento de que identidade e diferença são os resultados de um processo de construção simbólica dialética, que envolvem, de certa forma, relações de poder, ou seja, a relação entre dominantes e dominados: neste caso podemos dizer que os dominantes são os judeus tidos como oficiais, vindos de comunidades do leste europeu, migrantes oficiais para o território brasileiro, e de outro lado os dominados, judeus de origem ibérica, mas que no passado foram forçados a aceitar uma crença e uma tradição que não as suas, e devido ao rompimento dos laços com as comunidades oficiais, acabaram relegados a marginalidade e ao obscurantismo, a uma cultura subterrânea.

Para então que se consiga criar mecanismos de inclusão dos indivíduos considerados diferentes, neste caso a cultura judaica anussita ou simplesmente anussim, há a necessidade de se entender a relação entre o conceito de identidade e de diferença, como nos argumenta Castro.

Ou seja, não existe a identidade sem a diferença, e vice-versa, dependem uma da outra, uma existe em face da outra. A diferença depende de declarações negativas sobre (outras) identidades. Por se dar a definição de ambas por meio da linguagem, tal fato confere-lhes as características de

indeterminação e instabilidade. São criaturas do mundo cultural e social. (CASTRO. 2013. p.202).

De acordo com este, existe uma dependência da identidade com a diferença, onde nos leva a reflexão de que, só existe identidade devido a relação em que nos colocamos ao diálogo com o diferente. A identidade e a diferença, são conceitos dependentes entre si, mas produtos de construções sociais e culturais. Sendo assim, não podemos deixar de pontuar um destes mecanismos de afirmação de identidade e diferença como a escola, pois a mesma como foco convergente da sociedade em formação, é o ambiente onde estes debates acerca do outro, do diferente e de identidade devem ter começo. Levando este debate para a sala de aula, estar-se-ia agindo como canais de propagação de ideias, fortalecendo o conhecimento deste diferente – anussim – e relendo e reescrevendo a própria história do Brasil, onde se colocaria em pauta a história dos até então sem história, fazendo com que a própria escola não fosse apenas a reprodutora da cultura dominante.

A escola é, enquanto instituição, um constructo histórico e de certa forma mantém viva suas crenças, como a fé na educação, mas em contrapartida, devido ao fato de ter sido construída sobre um modelo mecanicista, eurocentrista, acaba por se tornar um ambiente de propagação de violência ao invés de dialogo entre diferentes.

Em posição à cultura hegemônica, a uma escola reprodutora de uma cultura dominante que mantém e até gera cultura da violência, colonizadora ainda, compartilha-se da possibilidade alternativa de uma escola intercultural, que valorize a cultura do aluno, incentive a ação dialógica, como forma de respeitar a sua dignidade e de promovê-lo como ser humano que é, preparando-o para o efetivo exercício da cidadania [...](CASTRO. 2013. p.202).

Quando falamos em violência, logo pensamos em agressões físicas, como socos, chutes, pancadas utilizando objetos rígidos, etc., e esquecemos que o termo “violência” representa muito mais do que apenas a exposição física a maus tratos e ferimentos corporais. A partir do momento em que o homem se reconhece através do contato com o Outro, este outro passa a ser conhecido como diferente, e neste embate de diferentes surgem as ações de violência, que com o passar o tempo e da evolução das sociedades, estas ações de violência acabam por acompanhar o próprio desenvolvimento da linguagem, vindo a se refinar, assumindo varias formas, muitas delas tão sutis que dificilmente percebemos que um simples ato corriqueiro, como

responder simplesmente “graças a Deus” a uma pergunta qualquer de alguém, não demonstraria ser um ato de violência ideológica contra alguém que religiosamente se considera “Ateu”.

O modelo atual de ciência, baseado, sobretudo nos modelos positivistas e evolucionistas, formou-se na ideologia de uma razão que supõe poder descrever de forma clara e objetiva a realidade, identificando assim uma realidade universal e absoluta na visão do cientista. Esta visão favoreceu, entre os mais diversos fatores, os fundamentos para a aniquilação do “Outro”, pois começa a mostrar este outro como um “ser” marginalizado, diferente, estranho, fora do contexto da civilidade, civilidade esta tomada por molde os padrões europeus, em outras palavras, este outro é o elemento não europeu e que por isso não se encaixa nos padrões defendidos pelas teorias vigentes. Neste momento podemos verificar a existência de um paradigma, gerando diretamente os conflitos de tolerância, ou melhor, de intolerância, devido ao fato de ser utilizada uma “razão” um tanto quanto dura, fria e mecânica, que foi empregada para a busca destas verdades, que passam a ser tomadas por verdades universais, absolutas, e que acabam por criar enormes barreiras sociais e culturais que levam a vários fatores, como por exemplo, a exclusão, a marginalidade (de forma pejorativa) e a violência contra minorias.

Quando falamos em minorias, devemos ter a clara ideia de que não se trata apenas de números, mas sim de força politica, ideológica, social, etc., como por exemplo, afirmar que no Brasil, um país multiétnico, mulheres sejam consideradas minoria, ou pessoas afrodescendentes sejam consideradas minorias. Usando um pensamento crítico, iremos averiguar que quando falamos que as mulheres representam uma minoria, falamos baseados não na quantidade de mulheres existentes no país, mas sim que o mesmo conjunto (mulheres) não possui a mesma força politica e social a qual é atribuída aos homens. Da mesma forma, se levarmos em consideração dados do IBGE, veremos facilmente que as pessoas de origem “afro” não teriam como representar uma minoria no tocante a sua quantidade demográfica, mas são consideradas minorias devido aos mesmos fatores citados anteriormente para as mulheres, aliado a um grande contexto histórico da construção de nossa “nação” que não iremos abordar neste trabalho.

Sendo assim, a intolerância com os considerados diferentes, ou seja, aqueles que não se encaixam nos padrões eurocentristas, tanto no tocante ao elemento étnico,

quando ao elemento cultural, torna-se marcante nos mais diversos círculos de nossa sociedade. Aliada a intolerância, conseguimos destacar as mais variadas formas de violência contra os “outros” tidos como “estranhos”, apenas por não serem considerados cultos, ou participantes da mesma cultura do circulo dominante. Mas para podermos alimentar a discussão, salientamos o conceito de cultura definido por Edward Taylor:

“la cultura o civilización, en su sentido etnográfico, es aquel todo complejo que incluye el conocimiento, las creencias, el arte, la moral, las leyes, las costumbres y cualesqueira otros hábitos y capacidades adquiridos por el hombre en cuanto membro de una sociedad". (Taylor: in Pérez de la Fuente. 2003).

Taylor nos define cultura como uma série de conhecimentos, e não apenas o sentido étnico, sendo assim, pode-se analisar que não existe apenas “uma” cultura sobre a face da terra, mas que existem culturas, e desta forma, começamos a analisar a situação da diferença e não da igualdade para que possamos chegar a um entendimento. Taylor ainda ressalta em sua definição de cultura, que enquanto faz parte o homem de uma sociedade, e não destaca que seja esta sociedade nos padrões fundados na Europa, mas sim apenas “una sociedade” (Taylor: in de la Fuente. 2003), todas as capacidades adquiridas por ele, fazem parte deste imensurável conceito chamado de Cultura.

Trazida esta discussão para a escola e uma vez identificadas todas as dissonâncias presentes no próprio ambiente escolar, e tendo em mente que é justamente a escola o primeiro momento de socialização com novos círculos sociais que não a família, onde se entra em contato com a heterogeneidade do mundo, os questionamentos para a implantação e principalmente de efetivação de politicas de tolerância e respeito são inúmeros. Novamente deve ser analisado a questão da unilateralidade com que é tratada a situação aqui trabalhada, ou seja, o tratar o Brasil como sendo um Estado onde exista apenas uma única religião, ou uma religião tida como oficial, não se levando em conta, como já abordado neste trabalho, a multiplicidade cultural, religiosa e étnica do Brasil. Para isso, novamente pontuamos, tendo como base o que argumenta Sacavino

“[...] A perspectiva intercultural reconhece os diferentes movimentos sociais que vêm se organizando, afirmando e visibilizando em torno de questões identitárias, defende a articulação entre políticas de reconhecimento e de

redistribuição, não desvinculando as questões socioeconômicas das culturais e apoiam processos de construção democrática que atravessem todas as relações sociais, do micro ao macro, na perspectiva de uma democracia radial.” (SACAVINO. 2012).

Compreende-se que para a autora, somente através de uma abordagem interculturalista, levando-se em conta o espaço público, é que as várias culturas presentes em um mesmo espaço de convivência social serão devidamente trabalhadas, e com esta atitude impede-se situações que venham a ocasionar insultos, violências, práticas de intolerância das mais diversas.

Desta forma, fica claro que para que se possa ter mecanismos de inclusão do diferente é necessário que esta discussão comece nas bases da sociedade, ou seja, na escola. Mas para que isso possa acontecer, a própria escola deve estar abertas a discussões como violência, tornando-se imparcial ao debate intercultural, e cultivando uma cultura de respeito e reconhecimento.

4 A DIVERSIDADE DOS POVOS DE CULTURAS TRADICIONAIS E SUAS