3. Os líderes espirituais devem atuar como dirigentes e pastores, não apenas como administradores e tomadores de decisões. '
Infelizmente, muitos líderes nas igrejas do século x x têm sobre posto uma definição moderna de administração ao conceito bíblico de ser um dirigente do povo de Deus. Conforme,observamos ao estudar a liderança do Novo Testamento num dos capítulos anteriores, a “administração do presbítero” é, sob os aspectos funcionais, idêntica ao conceito de “pastorado”. Dessa maneira, um homem que atua como presbítero deve ser pastor.
O maior exemplo de pastor é o próprio Senhor Jesus Cristo. Em certa ocasião ele disse:
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado com as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas (Jo 10.11-15).
Que exemplo de alguém com verdadeiro coração de pastor! Ele está disposto a dar a própria vida aos membros do corpo de Cristo que
fazem parte de seu aprisco. Ele fica junto a elas, não importa o preço. Ele conhece suas ovelhas. Ele as chama pelo nome! E as ovelhas o conhecem; conhecem sua voz.
Não há como escapar das implicações do que significa ser um verdadeiro presbítero. Ele deve estar com o seu povo — não distante dele. Ele deve conhecer pessoalmente as ovelhas — suas necessidades, suas preocupações, seus problemas! Deve estar disposto a deixar as 99 no aprisco e sair nas trevas da noite para encontrar a ovelha perdida que se distanciou da segurança do rebanho e ficou enroscada na moita da desilusão e do pecado (Mt 18.12, 13).
Sua porta deve estar aberta para o rebanho. Nenhum bom pastor exclui uma única ovelha do aprisco. Ele deve estar à disposição — não apenas da boca para fora, mas realmente disposto!^ Sua personalidade deve dizer, de forma firme e segura: “Eu amo vocês, eu me importo com vocês e estou aqui ao lado de vocês; vocês podem conversar comigo a qualquer hora, em qualquer lugar e sobre qualquer assunto que queiram. Não vou condenar vocês! Não vou machucar vocês! Eu vou ajudar vocês a se tornar as pessoas que realmente desejam ser — membros maduros do corpo de Cristo” .
Esse conceito de pastorado é válido tanto para presbíteros remunerados quanto para presbíteros não remunerados. Pois os presbíteros “merecedores de dobrados honorários” — isto é, os presbíteros “que se afadigam na palavra e no ensino” e recebem remuneração ( lT m 5 .1 7 , 18) — não devem de modo algum evitar as pessoas. A mesa de estudo não deve tornar-se uma barreira entre o pastor e o rebanho. Jamais deve tornar-se um esconderijo, um lugar para defesa das fraquezas pessoais, uma posição vantajosa de onde descarregar uma barragem de munição bíblica e depois uma trincheira para que não seja visto e não corra o risco de ser atingido pelo revide.
Os presbíteros não remunerados também devem ser pastores. Para agirem biblicamente, não devem ser meros membros de uma junta que se reúna para tomar decisões administrativas. E verdade que isso faz parte do comando sobre o povo de Deus. Mas é apenas um aspecto do que significa ser um bom pastor. Na verdade, os presbíteros que são apenas “administradores” e simplesmente “tomam decisões” , não decidem acertadamente, pois não estão em contato com as neces sidades do povo. Na realidade, não “conhecem as ovelhas” .
Dirigir e pastorear também importa em ensinar (3.2; Tt 1.9). Isso significa que um presbítero deve conhecer a Palavra de Deus e ser leal a ela. Deve ser capaz de compartilhar sua verdade dinâmica com os membros do corpo de Cristo. Essa é uma responsabilidade tanto dos presbíteros remunerados quanto dos não-remunerados.
Obviamente, o pastor de tempo integral terá um ministério mais público do que o presbítero de tempo parcial. É ele quem está-se afadigando na pregação e no ensino (1 Tm 5.17). Mas as Escrituras ensinam que todos os presbíteros devem estar envolvidos no processo de ensino. Infelizmente, temos deixado prevalecer as nossas idéias pessoais sobre o que significam o ensino e a pregação. Para com preendermos o processo bíblico, precisamos voltar um pouco e examinar os exemplos bíblicos. Obviamente, Jesus Cristo é o exemplo supremo de desenvolvimento desse processo.
Quando viajamos pelos evangelhos seguindo o Homem da Galiléia, enxergamos um Mestre que refletia muitas características diferentes. Ele ensinou indivíduos, pequenos grupos, grandes grupos — e.até grupos diferentes ao mesmo tempo (Lc 15.1—7.11). Não estava limitado a uma sala de aula; mas ensinava em todo lugar em que encontrasse pessoas necessitadas — numa colina, num cenáculo, na sinagoga, junto a um poço, num telhado, num barco num lago, no cume de uma montanha e até mesmo quando estava pendurado numa cruz, entre dois ladrões. Algumas vezes as pessoas vinham a ele; outras vezes ele ia a elas. As vezes ele fazia um discurso e outras vezes fazia perguntas. Algumas vezes, contava histórias. Com freqüência, ilustrava suas palavras mencionando as aves, a água do poço, o semeador ou mesmo as próprias pessoas. Nunca foi estereo tipado; nunca foi inflexível; nunca deixou de ter as palavras certas. Estava sempre atendendo às necessidades dos ouvintes, fazendo-os envolver-se intelectual e emocionalmente, e sempre penetrando nos recônditos mais profundos de suas personalidades. Ele realmente foi
o Mestre dos mestres! ' " - ..
Como isso é diferente do modo estereotipado de encararmos o ensino na igreja de hoje, especialmente entre nós que somos pastores remunerados. Muitas vezes subimos aos nossos púlpitos e entregamos nossos pacotes, esperando que sejam homileticamente perfeitos. Raramente vamos até as pessoas; elas vêm até nós, ao lugar de cos-
tume, onde se ajeitam em seus bancos confortáveis e esperam ser despertadas. Raramente há oportunidades para o povo reagir, há bem pouca variação no processo, e raramente se utiliza uma visualização. Além disso, com essa definição limitada de ensino, eliminamos aquelas oportunidades de ensino pessoais, de um a um — que podem ser desenvolvidas com eficácia pelos presbíteros de tempo parcial.
Não entenda mal. Não estou levando a supor que só conseguiremos ser eficazes seguindo exatamente o padrão didático exemplificado por Jesus. Vivemos numa cultura diferente, num mundo diferente. Mas eu gostaria de dizer que em muitos casos nem mesmo chegamos perto de uma aplicação dos princípios do Novo Testamento. Presumimos que nossas formas e estruturas atuais são adequadas para criar uma experiência dinâmica de aprendizado. Quase adoramos o aspecto transmissivo da comunicação — especialmente a “pregação” .2 Glo rificamos o estudioso que conhece o conteúdo da Bíblia, ao passo que desprezamos o corpo de Cristo e seus muitos membros que também têm algo a contribuir para o ministério e a edificação do corpo.
Desejamos uma igreja dinâmica? Um ministério dinâmico? Sugiro, então, que desenvolvamos uma filosofia de liderança que brote das Escrituras. Precisamos de líderes espirituais que sejam pastores — homens que ensinem o povo de Deus de maneira íntima e pessoal. Além disso, precisamos de estruturas que deixem esses homens ser e fazer o que Deus planejou que fossem e fizessem.