1. TEMPO DE MUDANÇAS
1.5 Discurso multimídia e afastamento das ruas
A emergência da internet e de novas ferramentas de comunicação também foi responsável por outra mudança significativa nas práticas profissionais: o afastamento dos jornalistas das ruas. Ao mesmo tempo em que proporcionam maior mobilidade ao
repórter – ele pode transmitir informações, fotos e vídeos de qualquer lugar a partir de dispositivos móveis com acesso à internet – as novas tecnologias, contraditoriamente, tendem a deixá-lo preso à redação, apurando as notícias por telefone, e-mail, sites e, mais recentemente, nas redes sociais.
Em Repórter ao Volante (2013), pesquisa sobre a importância dos motoristas de redação no jornalismo, Sylvia Moretzsohn destaca a redução cada vez maior das saídas para apuração e produção de reportagens, retirando o sentido de expressões até então tradicionalmente definidoras da profissão, como 'lugar de repórter é na rua'" ou "jornalista se conhece pela sola de sapato".
No caso do Rio de Janeiro, duas alterações importantes comuns à estrutura das grandes empresas jornalísticas do país: a terceirização do quadro de motoristas e a progressiva redução de saídas dos repórteres, dado o crescente avanço na utilização das ferramentas proporcionadas pela internet para a apuração de informações (...) As transformações no modo de produzir jornalismo compõem um quadro de incertezas sobre o futuro dessa atividade, mas já indicam o esvaziamento da concepção de que ‘lugar de repórter é na rua’. Quando era assim, sem dúvida, o motorista era uma peça-chave: sem um bom motorista, não haveria reportagem. Porém, no dizer do editor-executivo do Globo, Orivaldo Perin, “a internet é o motorista de hoje” (MORETZSOHN, 2013, p.176- 177)
A imagem do repórter que sai à rua, em busca de informação exclusiva ou no calor do acontecimento, está em franco processo de extinção e sobrevive com mais força nos mitos a respeito da profissão. A realidade da profissão hoje sugere que a imagem do jornalista pós-internet é a do jornalista sentado diante de uma tela de computador (PEREIRA, 2004).
No discurso patronal, o perfil desejado de um repórter hoje é aquele que domina as tecnologias e ferramentas da internet e é capaz de realizar diversas tarefas simultaneamente. Ele deve possuir polivalência temática, grande disponibilidade para o trabalho e, claro, bagagem intelectual e cultural. Portanto, além das atribuições necessárias para que um profissional de imprensa se desenvolva, o repórter do futuro terá que conjugar habilidades comunicacionais para adaptar seu trabalho a diversas plataformas com características distintas, com habilidades como por exemplo filmar e editar vídeos ou fotos, dominar as ferramentas para edição de homepages e ter noções de infografia e, em alguns casos, de design.
O textode divulgação do programa de estágio de 2012 promovido pela Infoglobo é exemplar no que tange ao novo perfil desejado de repórter, não apenas pelas habilidades relacionadas a novas plataformas de mídia, mas também por revelar um deslocamento da percepção sobre a atividade, vista agora mais como empresa do que como jornal17. No texto, a então coordenadora de Recrutamento e Seleção da Infoglobo, Letícia Helena, explica que os estagiários “seguem um plano de desenvolvimento para aprimorar competências e sua visão do negócio. O processo conta ainda com avaliações de desempenho semestrais, cursos e palestras sobre assuntos importantes para o mercado, como as redes sociais e gestão de projetos”18
Em seguida, Letícia Helena complementa que “o profissional que a empresa procura deve ter sólida formação intelectual e entender que, hoje, ser jornalista significa produzir conteúdo de qualidade, independentemente da plataforma em que será publicado. É alguém que poderá tanto fazer uma reportagem para o impresso, como um texto para o iPad ou mesmo um vídeo para o on-line”.
Cobra-se deste novo jornalista qualidades que, pelo menos em tese, ele só deve acumular ao longo da carreira, como bagagem intelectual e vivência cultural. Curiosamente, a capacidade de observação – ingrediente indispensável a uma boa apuração – fica em segundo plano.
Apesar das alardeadas oportunidades que as novas tecnologias de fato representam, os jornalistas enfrentam um contexto de desvalorização profissional e acúmulo de funções que, em muitos casos, assume contornos dramáticos, como demonstrou Heloani (2013). A pesquisa do psicólogo alerta para níveis alarmantes de estresse, depressão e dependência química entre jornalistas brasileiros. Segundo a investigação, nos últimos 10 anos aumentou a pressão a que esses profissionais se submetem, gerando o que Heloani chama de “naturalização do assédio” e desequilíbrios emocionais.
17 Sobre esse aspecto do discurso patronal, Thiago de Melo observa: “A redação, responsável pela execução da atividade-fim da empresa, não é mais vivida como o centro de poder absoluto. Este, na verdade, encontra- se diluído na noção do Globo como uma corporação de mídia. Para os jornalistas das novas gerações, com um perfil mais profissional e pragmático (...) tal percepção é menos problemática do que para aqueles outros, da geração boêmia e heroica, que veem essas interferências como a invasão de interesses alheios no processo de trabalho da redação” (THIAGO DE MELLO, P.P, 2009, p.81).
18 Infoglobo seleciona estagiários. Disponível em: http://oglobo.globo.com/emprego/infoglobo-seleciona-
O autor cita como aspecto agravante do quadro de estresse o fato de os profissionais de imprensa terem que enfrentar, progressivamente, mais desafios e complexidades, como a exigência de desenvolver habilidades multifocais e simultâneas, o que agrava a situação de cobrança de desempenho.
O esforço para que as notícias se tornem atraentes a um público já habituado às novas ferramentas de internet é indiscutivelmente necessário. Entretanto, é preciso destacar que isso não implica necessariamente a execução dessas tarefas pelo mesmo profissional.