6 O SONHO DA ESTABILIDADE FINANCEIRA E A IDEALIZAÇÃO
6.4 DISPOSIÇÃO PROTAGONISTA E INTELECTUALISTA NO CURSO DE DIREITO
De um modo similar a FDR, na UNICAP também se constatou uma tendência ao desencanto do ideal protagonista e intelectualista na medida em que os alunos passavam para os períodos reconhecidos como mais “profissionalizantes” do curso, tal como o decurso do quinto período até o décimo: constatou-se uma queda na tendência de os alunos se posicionarem como futuros ou potenciais transformadores sociais ou intelectuais.
A tabela abaixo indica o número de estudantes de graduação da UNICAP que demonstrou, nas respostas a pergunta sobre o que os alunos almejam com o curso, ao mesmo tempo uma disposição para se representar como futuros transformadores sociais e como intelectuais com capacidade de um conhecimento diferenciado sobre a sociedade.
Tabela com número de alunos com disposição protagonista-intelectualista Disposição protagonista-intelectualista
Período Número de alunos
Primeiro 5 Segundo 17 Terceiro 3 Quarto 1 Quinto 1 Sexto 0 Sétimo 0
Oitavo 1
Nono 1
Décimo 0
Fonte: acervo do autor
Observa-se a ordem decrescente do quadro. O número de estudantes de graduação em direito da UNICAP que demonstraram uma disposição tanto para se pensarem como futuros transformadores sociais quanto para se projetarem como intelectuais. Neste caso, trata-se de estudantes que se representam como futuros intelectuais com alguma influência sobre os processos transformacionais da sociedade.
É digno de nota o fato de, diante da significativa discrepância numérica de estudantes entrevistados por período, a constatação de decrescência poder ser consideravelmente questionável. Entretanto, é significativo o fato de essa disposição está muito mais concentrada nos três primeiros períodos.
Dos 42 alunos do quarto período, apenas 1 demonstrou essa disposição, dos 56 do quinto, apenas 1 demonstrou essa disposição; enquanto que dos 77 do terceiro, 3 demonstraram a referida disposição. Observa-se uma maior concentração dessa dupla disposição (protagonista e intelectualista) nos três primeiros períodos na medida em que mesmo com números consideráveis, os quarto e quinto períodos obtiveram apenas um para cada. O quinto período totaliza um número de entrevistados que equivale a mais de 50% do número representado pelo terceiro, e mesmo assim, ou seja, totalizando mais da metade da quantidade que representa o terceiro período, no quinto período apenas um estudante de graduação demonstrou a dupla disposição.
Nessa lógica, seria preciso, para se totalizar o número de três alunos que demonstraram a referida disposição uma quantidade que equivaleria a três vezes um número que por si só já ultrapassa 50% da quantidade representativa do terceiro período. Neste caso, para que o quinto período chegasse a uma quantidade de três alunos que demonstram a disposição dupla, seria preciso que 168 alunos se submetessem ao questionário da sondagem.
É claro que essa conclusão ignora uma variável importante (além de representar os agentes como entidades intercambiáveis), qual seja, o fato de haver a possibilidade da existência de turmas do quinto período que possam abarcar uma quantidade significativa de alunos que podem demonstrar essa dupla disposição e que não se submeteram a sondagem.
Entretanto, diante das condições de pesquisa e de seus limites, representados também por obstáculos sociais, a constatação estritamente numérica da concentração da disposição protagonista e intelectualista nos três primeiros períodos não poderia deixar de ser, ao menos, esboçada. Trata-se de um indício da significativa concentração da referida disposição nos alunos “novatos”.
Esse indício pode ser retomado por uma pesquisa futura, onde, juntamente com o trabalho de observação de comportamento por um tempo prolongado das práticas acadêmicas dos “novatos”, se pudesse auferir um número mais representativo de estudantes e que não fosse tão numericamente discrepante em relação aos outros períodos do curso de direito da UNICAP. Sem dúvidas, um trabalho coletivo de pesquisa poderia propiciar condições de pesquisa mais favoráveis para o desenvolvimento dessa proposta em um nível mais rigoroso e robusto. O caráter coletivo do trabalho de investigação, neste caso, corresponde a uma condição relevante. “Neste ponto torna-se necessário (...) que os homens se unam para saber compreender, para tocar nos pontos donde parte o movimento do saber.”276
Pode-se apontar como um caso exemplar dessa dupla disposição a seguinte resposta dada por um aluno à pergunta sobre o que ele almeja em relação ao curso de graduação em direito: “Adquirir conhecimento. Contribuir e perceber percepções entre o conteúdo e minhas habilidades. Usá-lo como instrumento de modificação social” (Estudante do segundo período do curso de direito da UNICAP. Primeiro semestre de 2016). O emprego de expressões como “perceber percepções” corresponde a algo raro de se encontrar no modo de expressão verbal dos alunos “veteranos” do curso (o que abarca do sétimo ao décimo períodos). Isso deve-se, em grande parte, ao processo de crescente formalização da linguagem pelo qual os alunos de graduação passam no cursus. Trata-se de um indicador forte a ausência de uma significativa formalização da linguagem, caracterizada pelo emprego de termos protocolares e de conceitos jurídicos, por parte dos alunos de direito dos três primeiros períodos. Neste caso, não se trata de algo inusitado que estudantes “novatos” acabem empregando uma terminologia mais flácida e menos rígida se comparada a terminologia empregada pelos “veteranos”.
A representação do curso de direito como um processo ao final do qual estudante de graduação obterá um conhecimento diferenciado não apenas sobre o direito, mas sobre a política e a “sociedade”, corresponde a algo consideravelmente distribuído entre os alunos recém-chegados ao mundo universitário. Mas a junção desse conhecimento com a disposição para transformar a sociedade, para melhora-la, é algo que, se se levar apenas a questão
numérica, está significativamente concentrada nos três primeiros períodos. Observa-se que a representação intelectualista sintetizada em afirmações do tipo “obter conhecimentos” ou “ampliar os horizontes”, por exemplo, e a representação de protagonista da modificação social baseiam-se na tomada do conhecimento como um tipo de “instrumento de modificação social”, tal como fala o estudante citado acima. A dupla disposição baseia-se na ideia de que o “conhecimento amplo,” sobre a sociedade que, por ventura, o curso de graduação em direito irá propiciar, poderá ser utilizada como instrumento de transformação ou mudança na sociedade.
Em suma, o “conhecimento” que se adquire no curso, ainda visto pelos recém- chegados como algo que lhes abrirá os horizontes sobre a sociedade, é tomado como uma ferramenta para a compreensão social e para ajudar os “menos favorecidos”. É interessante o modo como esse estudante responde ao questionário: “eu pretendo com o curso adquirir um conhecimento mais amplo do direito, para tanto ajudar as pessoas que não tem as mesmas oportunidades que eu tive, crescendo na vida e ser admirado pelo meu conhecimento.” (Estudante do segundo período do curso de direito da UNICAP. Primeiro semestre de 2016).
A representação do curso de direito como algo que vai propiciar um conhecimento mais amplo, seja sobre o direito ou sobre a sociedade em geral, é mesclada a representação de profissional do direito como um agente transformador e que está sempre disposto a ajudar os mais pobres.
A representação do conhecimento como algo cuja posse pode render reconhecimento e admiração, corresponde a uma variável da eficácia simbólica desse capital ao mesmo tempo cultural e simbólico que é o conhecimento jurídico. A importância dada ao julgamento social da posse e o nível de posse dos bens simbólicos é algo considerado por grande parte dos alunos entrevistados. A preservação e a consagração da autoimagem correspondem a práticas reconhecidas, ainda que tacitamente, como relevantes. O desejo de se sentir reconhecido e admirado pela sociedade corresponde a um dos resultados almejados por parte considerável, senão por todos, dos alunos que se submeteram ao questionário.
A luta em torno da aquisição do conhecimento propriamente jurídico pode ser também uma luta em prol de um reconhecimento social que aqueles que lutam por mudança e transformação social acabam adquirindo frente aos seus pares e até mesmo para além deles.
O reconhecimento das causas sociais pelas quais estes estudantes pretendem ou alegam lutar são, não raras vezes, identificadas como a “justiça.” Posse de um “conhecimento ampliado” e “lutar por justiça” constituem as duas características básicas da dupla disposição em análise. Tudo indica, a partir das respostas dadas pelos alunos recém chegados, que o
estudo e a leitura dos textos indicados na graduação em direito poderão ampliar as perspectivas e alternativas de atuação dos estudantes que se representam como militantes ou futuros militantes.
Entretanto, sem dúvidas, seria preciso se realizar uma observação de comportamento por um tempo consideravelmente prolongado com vários alunos que expressaram essa dupla disposição. Como foi lembrado acima, essa observação não foi possível tendo em vista o curto tempo e os obstáculos sociais já aqui esboçados.
Uma observação de comportamento e das práticas dos alunos entrevistados também seria significativamente favorecida se, em uma tese de doutorado, o ideal da pesquisa sociológica como um trabalho coletivo, em contraposição ao ideal da tese como fruto de um intelecto solitário e autossuficiente, ganhasse corpo não apenas em uma equipe, mas também se objetivasse e se institucionalizasse.
Quando se chama a atenção para o fato de que essa dupla disposição está significativamente mais concentrada nos três primeiros períodos do que as outras disposições que ainda serão aqui analisadas, é preciso observar o quanto as relações estruturais nas quais os alunos atuam no cursus podem contribuir para moldar as disposições. Estas são, neste caso, consideravelmente estruturadas. São tributárias, em grade medida, de uma determinada condição de existência na estrutura do curso de graduação em direito da UNICAP.
Observa-se o quanto essa constatação, ainda que questionável tendo em vista as limitações da pesquisa, contribui para demarcar o quanto as disposições dos alunos entrevistados não são frutos de uma livre consciência completamente autônoma a uma estrutura social determinada do e no cursus.
Não apenas as ideias e o modo como tendem a se representar são variáveis conforme as posições que vão ocupando no decorrer do cursus, mais o próprio modo de empregar a linguagem, o próprio modo de se expressar. Neste sentido, pode-se sustentar que essa variação no modo de expressão, visível nas respostas dos alunos dos primeiro ao décimo períodos do curso de graduação em direito da UNICAP, corresponde a uma variável importante para a explicação do processo ao final do qual determinados agentes podem se reconhecer e serem reconhecidos como competentes nas lutas no interior do campo jurídico.
Em outras palavras, ao se ter acesso as modificações e ao processo de formalização crescente no modo de expressão escrita dos alunos de graduação em direito da UNICAP, pode-se argumentar no sentido de que a constatação dessas modificações paulatinas na escrita dos alunos corresponde a um caso exemplar de como a aquisição de uma das propriedades constitutivas do habitus jurídico só se adquire em um processo paulatino e constante.
O constante contato com os livros doutrinários das mais diferentes disciplinas, com seus conceitos próprios que constituem a linguagem jurídica tipicamente acadêmica, juntamente com a linguagem e a postura profissionalizante (o que abarca inclusive o modo de se vestir e de se apresentar que implica em processos de disciplina corporal) que eles acabam conhecendo nos períodos de estágios fora do mundo acadêmico, contribuem para o processo de reconfiguração e de formação do habitus jurídico.
É preciso considerar que a linguagem jurídica e os seus efeitos apontados por Bourdieu277 correspondem a produtos do habitus jurídico adquirido por meio de um processo, em grande parte, aquém de uma consciência considerável por parte dos agentes envolvidos por este aprendizado prolongado, paulatino e permanente. Os contatos com os livros, artigos e com a linguagem dos professores de direito podem ser tomados como casos exemplares de primeiros contatos com a linguagem jurídica e com a postura com ela reconhecida como adequada; é claro que esse processo de aprendizado ao mesmo tempo corporal e linguístico se aprofunda significativamente na e por meio da labuta diária do trabalho forense.