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1.1 A REPÚBLICA E O REPUBLICANISMO NO BRASIL

1.1.3 Ditadura (1964 1985): centralização e autoritarismo

Depois de quase duas décadas de experimento democrático, o Brasil volta a vivenciar período ditatorial. Esse será mais longo, quase vinte e um anos. O historiador Daniel Aarão Reis Filho (2014) destaca que os momentos autoritários do país no século XX, o Estado Novo e a Ditadura, têm similitudes e diferenças. Em relação às primeiras, aponta o fato de que em relação a ambas tendemos a não analisar as bases para o surgimento e desenvolvimento desses regimes, encarando silenciosamente o passado. Já no que se refere às diferenças, tendemos, de modo geral, a demonizar a Ditadura, o que não acontece em relação ao Estado Novo.

De forma mais voltada para seus aspectos constituintes, Carvalho (2001) também aponta similaridades e disparidades entre os dois momentos. Aponta para o fato de que ambos se constituíram como um repúdio ao incremento da ação política crescente dos cidadãos. Levando a perda de direitos civis e políticos, além de terem ampliado os direitos sociais e

uma ativa presença estatal no campo econômico. No entanto, se o Estado Novo fechou o Legislativo, cancelou as eleições e proibiu os partidos políticos, a Ditadura – de modo geral – manteve o Congresso Nacional44 funcionando, realizou as eleições45 e manteve

dois partidos em atividade46. Como afirma Carvalho (2001, p. 191), “Os custos interno e

externo [de suprimir a democracia em seus aspectos formais] eram tão altos que os militares mantiveram uma fachada de democracia e permitiram o funcionamento dos partidos e do Congresso”.

O período da Ditadura, em consonância com o que vinha acontecendo anteriormente, vai marcar um processo de modernização do Brasil. Como destaca o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva (1990), o Brasil passou por imensas transformações sociais, políticas e econômicas ao longo do período que vai de 1950 a 1980. Mudanças que alteraram de forma significativa a estrutura geoeconômica, com a predominância passando do campo para a cidade, mas que, em outros aspectos, reafirmaram características existentes como a desigualdade socioeconômica e o processo de integração ao mundo capitalista dominante.

Ao longo do seu período de poder, a Ditadura utilizou-se, desde o seu início, de inúmeros expedientes para a sua afirmação. Desde os Atos Institucionais (AIs)47, regulamentados

por Atos Complementares (ACs)48, decretos-leis (DLs)49, mas também a repressão do

44 O Congresso Nacional foi fechado, em 20 de outubro de 1966, por período de um mês, em decisão do

presidente Humberto de Alencar Castelo Branco (1964 - 1967), novamente, e, dessa feita, juntamente com todas as assembleias legislativas, exceto a de São Paulo, por cerca de 10 meses em 1968-1969 (1967 - 1969), resultado do Ato Institucional número 5 (AI-5), de 13 de dezembro de 1968, em decisão do presidente Artur Costa e Silva, e durante quinze dias no mês de abril de 1977, por determinação do presidente Ernesto Beckmann Geisel (1974 - 1979). A partir de 1979, com o fim do AI-5, o Congresso Nacional não pode mais ser fechado (CARVALHO, 2001).

45 As eleições para os cargos de Presidente e vice presidente da República, em 1964, e para os

governadores de estado, em 1966, foram transformadas em indiretas, só sendo retomadas de forma direta, para o cargo de governador, durante o período ditatorial, em 1982. Os prefeitos das capitais, em decisão imposta pelo Ato Institucional número 3 (AI-3), de 5 de fevereiro de 1966, e dos municípios declarados de segurança nacional pela lei número 5.449/68, de 4 de junho de 1968, eram indicados pelos governadores. Vale destacar, ainda, que centenas de parlamentares, de vereadores até senadores, tiveram seus mandatos cassados ao longo do período da Ditadura (LOPEZ; MOTA, 2012).

46 Com o Ato Institucional número 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, o pluripartidarismo foi extinto e

criaram-se dois partidos: o governista Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

47 Ao longo da Ditadura foram decretados dezessete atos institucionais, de 9 de abril de 1964, data do

primeiro, até 14 de outubro de 1969, data do último (BRASIL, acesso em 17 jul. 2017).

48 Esses atos regulamentavam os atos institucionais e foram em número de cento e três. Foram decretados

de 27 de outubro de 1965 até 14 de abril de 1977 (BRASIL, acesso em 17 jul. 2017).

49 Esses decretos serviam a propósitos administrativos, mas também políticos. Foram mantidos até 1988,

aparato policial-militar, a tortura, a espionagem, a propaganda política e a censura, que a partir de 1970 se tornou prévia, além da cassação de mandatos e de direitos políticos, aposentadoria compulsória de servidores públicos civis e militares, intervenção em sindicatos, fechamento de entidades (CARVALHO, 2001; FERREIRA, 2003; FICO, 2003).

Em contraste, o número de eleitores, ao longo do período, irá crescer substancialmente. Foram 12,5 milhões nas eleições presidenciais de 1960, a última antes do início da Ditadura, e já eram 65,6 milhões nas eleições parlamentares federais e estaduais e para os executivos estaduais em 1986, a primeira no momento pós ditatorial (CARVALHO, 2001).

O Brasil mudou, por certo. Os números possíveis para demonstrar isso são variados e eloquentes. A população cresceu, de 70 milhões de habitantes em 1960 para cerca de 136 milhões em 1985, e urbanizou-se, passando de 44,7% de habitantes nas cidades em 1960 para 67,6% no ano de 1980. O setor de serviços assumiu a dianteira no percentual de empregos, indo de 33% em 1960 para 46% em 1980, nos mesmos anos o setor industrial foi de 13% para 24% e o setor agrícola caiu de 54% para 30%. A mortalidade infantil, em crianças com menos de um ano para cada mil nascidos vivos, caiu de 109 para 62 em 1985, Na educação, apesar de incrementos nas matrículas dos níveis secundário e superior de ensino, as mudanças foram mais lentas. Se em 1960 cerca de 40% da população com 15 anos ou mais era analfabeta, esse número ainda estava no patamar de 25% em 1980 (CARVALHO, 2001; PRADO, EARP, 2003; KLEIN, LUNA, 2014).

No entanto, essas mudanças não significaram uma melhora geral no padrão socioeconômico da sociedade brasileira. A concentração de renda aumentou. Enquanto os 20% mais pobres tinham 3,9% da renda nacional em 1960, esse número caiu para 2,8% em 1980, ao mesmo tempo que os 10% mais ricos passavam de 39,6% para 50,9% no mesmo indicador. O que, eventualmente, mantinha a situação estabilizada, mesmo com a diminuição do valor real do salário mínimo sendo também uma constante no período, era o aumento do trabalho feminino, que cresceu 187% no período. Particularmente danosos para a renda, dos mais pobres e dos setores médios, foram os

novembro de 1965 até 14 de março de 1985, deste ano até 1988 foram outros 209 (BRASIL, acesso em 17 jul. 2017).

anos da chamada “Estagflação”, com aumento continuado da inflação e queda do Produto Interno Bruto (PIB), de 1979 a 1983. Em todo o período da Ditadura, destaque-se, ainda, a dívida externa também teve crescimento exponencial, passando de algo em torno de US$ 4 bilhões para cerca de US$ 100 bilhões (SILVA, 1990; CARVALHO, 2001; LOPEZ; MOTA, 2012; SINGER, 2014).

Como destaca Silva (1990), embora a política econômica tenha conseguido promover o crescimento econômico e reduzir a inflação, que sofreu queda expressiva entre 1964 e 1969, a pobreza aumentara e a violência do poder autoritário era evidente.

A partir de 1974, com a posse do presidente Ernesto Geisel, o regime começa, com avanços e recuos, a promover o processo de “abertura lenta, gradual e segura”. Já nas eleições parlamentares – federais e estaduais – daquele ano, o partido de oposição, o MDB, conseguirá significativa vitória, com a eleição de 16 (dezesseis) senadores, das 22 (vinte e duas) posições em disputa, e 161 (cento e sessenta e uma) das 364 (trezentas e sessenta e quatro) cadeiras da Câmara Federal. Os assassinatos do jornalista Vladimir Herzog, em fins de 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, no início de 1976, colocarão maior pressão popular sobre a Ditadura, como resultado de mobilização de entidades da sociedade civil, tais como a Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Conferência Nacional de Bispos do Brasil e Comissão de Justiça e Paz (CJP), entre outras (CARVALHO, 2001; LOPEZ; MOTA, 2012; REIS FILHO, 2014).

Em 8 de agosto de 1977, com a leitura e divulgação da Carta aos Brasileiros, do jurista e professor Goffredo Carlos da Silva Telles, assinada por centenas de juristas, professores e políticos do país, novo âmbito de atuação contra o regime autoritário se abre. O movimento contestatório se ampliará nos anos seguintes. As pautas da anistia para os perseguidos políticos, eleições diretas para presidente, governadores e prefeitos, bem como pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, ganham força. As greves da região do ABC, entre 1978 e 1980, a reestruturação da União Nacional dos Estudantes, em 1979, a reconstrução da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), em 1981, e a realização da Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (CONCLAT), também em 1981, são alguns exemplos desse novo momento de contestação do poder ditatorial (SILVA, 1990; CARVALHO, 2001; LOPEZ; MOTA, 2012; REIS FILHO, 2014).

As eleições de 1982, depois da reforma partidária de 198050 que reinstituiu o

pluripartidarismo no país, foram marcadas por novos avanços da oposição. Dos 22 (vinte e dois) estados do país, o PMDB conseguiu a vitória para as eleições dos governos estaduais e do senado em nove, destaque-se os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, e o PDT em um, o Rio de Janeiro, ficando o PDS com os doze restantes, destacando-se o Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco. Além disso, o governo perdeu a maioria absoluta da Câmara dos Deputados, elegendo o PDS 235 deputados federais, o PMDB 200, o PDT 23, o PTB 13 e o PT 8. Já para os cargos de deputados estaduais o PDS elegeu 476, o PMDB 404, o PDT 36, o PTB 18 e o PT 13. Saía, ainda, majoritário o partido governista, mas, era claro que o regime estava perdendo as suas bases de apoio político e eleitoral (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, acesso em 22 jul. 2017).

Já em 1983, mas especialmente no ano de 1984, a sustentação política do regime entra em acentuado processo de declínio. Sinal evidente disto é a campanha das Diretas Já, pelo reestabelecimento de eleições diretas para o cargo de presidente da República, que irá galvanizar o país com a criação de comitês e a realização de inúmeros e grandiosos comícios em diversas cidades do país, como os de cerca de 500 mil na cidade do Rio de Janeiro e de mais de 1 milhão em São Paulo. Apesar de derrotada, a Emenda Dante de Oliveira, deputado federal pelo PMDB do Mato Grosso, marcou o ocaso do regime. Nas eleições indiretas de janeiro de 1985 o candidato de oposição em aliança com setores saídos do governismo, na chapa Tancredo Neves – José Sarney, derrotava os candidatos do PDS, Paulo Maluf – Flávio Marcílio, por 480 votos contra 180 e 26 abstenções (SILVA, 1990; CARVALHO, 2001; LOPEZ; MOTA, 2012; REIS FILHO, 2014).

Mais importante, no entanto, do que, tão somente, demonstrar o declínio político eleitoral do governo ditatorial e de suas forças de sustentação, aqui importa apontar a movimentação, a mobilização, por parte da sociedade brasileira, em busca de espaços de liberdade, de participação política e de preocupação com o interesse público, que, como 50 Com a reforma foram extintos os dois partidos existentes e criados seis partidos no país: Partido

Democrático Social (PDS), substituindo a antiga ARENA, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que ficou com a maior parte do antigo MDB, liderado por Ulisses Guimarães, o Partido Popular (PP), liderado por Tancredo de Almeida Neves, que ainda em 1981 irá se fundir ao PMDB, diante das mudanças estabelecidas pelo governo para as eleições de 1982, o Partido dos Trabalhadores (PT), liderado pelo então sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, líder das greves do ABC daquele período, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), liderado por Leonel de Moura Brizola, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), liderado pela jornalista e política Ivete Vargas (LOPEZ; MOTA, 2012).

temos insistido em apontar, são as chaves conceituais que marcam o republicanismo moderno.

Em linhas gerais, o período de redemocratização irá, mais uma vez em nossa história, criar inúmeras expectativas, nem sempre confirmadas, mas, apesar de dificuldades, carências e eventuais retrocessos, o país avançou na cidadania nesse período. Como destaca Carvalho (2001), em que pese a trágica morte de Tancredo Neves, a passagem do poder ao controle civil, se deu de forma relativamente organizada. Em 1988, foi aprovada a Constituição denominada Cidadã e, no ano seguinte, foram realizadas as primeiras eleições presidenciais diretas em quase trinta anos, temos, então, um ambiente de crescentes direitos políticos. No entanto, a democracia não se mostrou capaz de solucionar inúmeros entraves sociais, especialmente a desigualdade e a carência em quantidade e/ou qualidade na prestação de serviços sociais de educação, saúde e saneamento, além da evidente piora no quadro da segurança pública.

Como sabido, existem diferentes análises sobre o desenvolvimento político da sociedade brasileira nesse momento que se inicia a partir de 1985. De todo modo, cumpre-nos destacar que esses elementos das relações de poder, de participação, de luta e defesa pelos espaços de liberdade, por parte dos cidadãos e do sistema político de modo geral, no que se refere ao período pós-ditatorial, serão discutidos no capítulo 3, quando, efetivamente, se dá a estruturação do Sistema de Integridade Nacional no Brasil, que é o objeto central de análise deste trabalho.