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A “DOMA Y CASTRACIÓN” DE GALIZA

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 74-80)

Depois de um período de florescimento social e econômico, os últimos séculos da Idade Média seriam testemunhas de não poucas crises e convulsões. Com efeito, fomes, pestes e guerras assolam as nações do Ocidente. Todavia, ainda que uma burguesia mercantil tenha assomado, trazendo um novo dinamismo social, as velhas estruturas medievais, não obstante alguns sinais de desgaste, continuam firmes. Mas o cenário geral é de mudança,

167 PEDRAYO, Ensaio histórico..., p. 144.

168 CASTELAO, Alfonso Daniel. Sempre en Galiza. Vigo: Galaxia, 2004 (1. ed. 1944), p. 419 (livro III, XX). O grifo é do autor.

169 VILLARES, Ramón. Portugal, Galicia e o iberismo, p. 25. In: ROMERO, Maria Xosé Agra; RIAL, Nel Rodríguez (ed.). Galiza e Portugal: identidades e fronteiras: actas do IV Simposio Internacional Luso-galaico de Filosofía. Compostela: Imprenta Universitaria, 2003. p. 13-28.

mudança que se adivinha no horizonte e gera temor e ansiedade materializados em toda sorte de seitas e correntes milenaristas.

Na península, a Galiza não ficaria incólume a todos esses abalos. A Peste Negra de 1348, embora com intensidade menor que no Mediterrâneo, produz um significativo decréscimo na população rural, acarretando uma diminuição da produção agrária e afetando duramente a nobreza eclesiástica, já por si em conflito com a nobreza laica. Nas cidades, cuja população não chegou a diminuir, a crise se faz sentir através dos choques entre artesãos e mercadores cada vez mais afluentes e os seus senhorios, geralmente bispos.

No entanto, o maior sinal da crise que sacode a sociedade galega são as chamadas guerras irmandinhas, conflitos generalizados que envolvem boa parte da nobreza, clero e campesinato. O próprio nome, derivado de irmandade, já dá a ideia do caráter coletivo dessas sublevações. Em geral, os historiadores distinguem duas guerras irmandinhas. A primeira, de 1431, denominada Irmandade Fusquenlla (de fusquenllos, “loucos”), aconteceu nos domínios dos Andrades, próximo da Corunha, e chegou às portas de Compostela. Roi Xordo, um dos líderes do movimento, membro da pequena nobreza local, chegou a arregimentar cerca de dez mil homens armados. Derrotados, sofreram violenta repressão, na qual Xordo, inclusive, veio a falecer. A segunda revolta, conhecida como a Grande Guerra Irmandinha – provavelmente a maior rebelião popular europeia do século XV –, ocorreu entre 1466 e 1469, embora os antecedentes e preparativos remontem em uma década. O descontentamento social é ainda mais agudo. À frente dos revoltosos está um número maior de representantes da pequena nobreza e sua estratégia militar é mais apurada. Além disso, os irmandinhos invocam a proteção de Henrique IV, rei de Castela, e seus direitos de homens livres. Animados por uma massiva participação popular, escorraçam os grandes senhores, destroem cerca de 130 fortalezas e castelos, governando a Galiza por mais de dois anos. Todavia, a nobreza logra se reagrupar e agora, com o apoio de Henrique IV, que hesitou em se pôr ao lado dos irmandinhos, e de Afonso V, o monarca de Portugal, restaura a ordem e recupera o controle dos seus antigos domínios.

Não obstante a euforia que se seguiu, foi uma vitória de Pirro para a nobiliarquia galega. Uma guerra sucessória na Coroa de Castela poria termo às suas pretensões senhoriais.

De um lado, os partidários de Joana, apelidada a Beltraneja, filha de Henrique IV e Joana de Portugal. De outro, os partidários de Isabel, meia-irmã de Joana. A nobreza galega põe-se majoritariamente ao lado da primeira, temerosa dos projetos políticos da futura Rainha Católica, já casada com Fernando, herdeiro do trono aragonês. Com a vitória do partido isabelino em 1479, os novos monarcas enviam à Galiza a Santa Hermandad, uma espécie de

força de ocupação, encarregada de submeter a nobreza e garantir a ordem social no reino. A frente dela está Fernando de Acunha, como Capitán General da Galiza. Em 1483 ele manda executar em praça pública a Pardo de Cela, um nobre que havia três anos vinha resistindo em sua fortaleza – mais tarde convertido em herói pelo galeguismo. É a “doma y castración” da Galiza,170 que doravante passará por um processo ainda mais intenso de inclusão dentro do projeto de construção do Estado absolutista espanhol, acompanhado por uma concomitante decadência cultural (com exceção da arquitetura, que ainda viveria um momento de ouro). É também

(...) o final da velha nobreza laica medieval (...), que agora deve incorporar-se nas empresas da monarquia. Não perde totalmente as suas prevalências territoriais e rentistas estabelecidas na Galiza, mas deixa de ter esse protagonismo que, no meio de revoltas e litígios por vezes enredados, alcançara nos tempos baixo-medievais.171

Como instrumento do nascente absolutismo espanhol, assiste-se a uma nova configuração administrativa, com o desenho das atuais províncias, e ao surgimento de novas instituições de governo, como a Real Audiéncia, em que o Capitão Geral, frequentemente um não-galego, exerce as funções de presidente, e a Junta del Reino de Galicia, uma espécie de inócuo parlamento.

Depois do período de esplendor, esta perda da autonomia, junto a um processo de castelhanização das estruturas e das elites, leva a Galiza a um prolongado e melancólico crepúsculo, no qual as lembranças das glórias passadas vão aos poucos se obnubilando na memória coletiva e o sol, declinante, vai tingindo de um dourado velho as fachadas, agora barrocas, das igrejas. Todavia, a arte, na arquitetura e na escultura, ainda experimentaria um momento de opulência, justamente nesse período do barroco, que na Galiza se inicia no século XVII e se estende até o século seguinte, com prolongamentos, no âmbito rural, durante boa parte do século XIX. Como no românico, o centro de irradiação da nova sensibilidade artística é a cidade de Santiago, sobretudo a partir de sua catedral. Mas à diferença daquela época, agora os mestres são quase todos galegos, dos quais se destacam os arquitetos Domingos de Andrade (1639-1711) e Fernando de Casas (1670-1749). O primeiro é autor da impressionante escada helicoidal do convento de São Domingos de Bonaval, assim como da Torre do Relógio da catedral de Santiago; o segundo, por sua vez, erigiu a monumental fachada do Obradoiro, na mesma catedral.

170 SAAVEDRA, Pegerto. A “doma” do Reino de Galiza. Colóquio/Letras, Lisboa, n. 137-135, p. 41-50, jul./dez. 1995.

171 VILLARES, História da Galiza..., p. 78.

Entre os séculos XVI e XVIII, a população vê-se duplicada, tornando-se a Galiza um dos territórios mais densamente povoados da península. Como a produção agrária não avança no mesmo passo, uma intensa corrente migratória – o que seria uma das mais acentuadas características da Galiza nos séculos seguintes – começa se formar, primeiramente tendo como destino Castela e Portugal. A agricultura, acompanhada da pecuária, continua sendo o eixo do sistema econômico. Dando prosseguimento ao que se vinha assistindo no período anterior, os contratos forais e a aldeia, herdeira das antigas vilas, consolidam-se como a base da vida agrária. A pesca, por sua vez, começa a adquirir relevância em finais do século XVIII, com a vinda de comerciantes catalães, que introduzem novas técnicas pesqueiras e impulsionam a indústria de conservação. De todo modo, o baixo consumo interno impede o assentamento de núcleos industriais – e a malograda experiência da fábrica de Sargadelos, em Ribadeo, apenas exemplifica esta resistência à industrialização na Galiza.

No mais, a sociedade galega da época não se distingue em geral da sociedade do Antigo Regime. De um lado, a nobreza laica e eclesiática, recebedora de rendas agrárias, com seus privilégios, isenções e honrarias assegurados juridicamente; do outro, os camponeses, com cerca de 80% da população, segundo os censos do final do século XVIII, ligados aos primeiros pelos contratos forais; e de permeio, os que não estavam de forma direta vinculados à terra: os membros de uma pequena burguesia mercantil e os pescadores e artesões urbanos, agrupados em grêmios e confrarias. Porém, se por um lado o clero exerceu o maior domínio durante este período, foi a nobreza laica quem se beneficiou de um aumento da riqueza agrária – e dentro dela, um extrato intemediário, escassamente titulado, a fidalguia, seria o estamento principal dessa Galiza tardo-feudal.

Mas nem tudo era imobilidade e estagnação na Galiza da época. Os ventos do Iluminismo, soprados desde a França e a Inglaterra, alcançam também, ainda que mitigados, a Península Ibérica. Na Galiza, por sua vez, é criada uma série de academias e sociedades, com o objetivo de promover soluções para os problemas mais agudos nas áreas econômica e social, como a Real Academia de Agricultura (1765), as Sociedades Económicas de Amigos del País (1784) e o Real Consulado Marítimo de La Coruña (1785). Mas a maior novidade é que nesse processo um importante número de ilustrados vai descobrir que a Galiza é uma realidade com identidade e características próprias, o que os leva a procurarem respostas específicas para os desafios do país. Assim, pela primeira vez, é esboçado um discurso cultural e literário autóctones, a partir do qual será possível reenvindicar a dignidade da Galiza e de sua língua – o que de fato é feito por figuras como as do Padre Feijó (1676-1764), Padre Sobreira (1746-1805) e Padre Sarmiento (1695-1772).

As veleidades iluministas – afinal, o Século das Luzes só se manifestou na Galiza em parcos reflexos – não foram capazes, porém, de arrancar o território de sua letargia econômica. Não obstante as revoluções que sacudiram o continente no século XIX, com os seus abalos repercutidos na Espanha, as estruturas do Antigo Regime perdurariam arraigadas, ainda que aqui e ali enfraquecidas, até o começo do século XX: fidalgos, foros, rendas, uso comunitário da terra... Apesar disso, sinais do “novo que ainda não nasceu”, para citar Gramsci, não deixam de se fazer sentir nesse interregno, por meio principalmente de dois conjuntos de eventos: a guerra contra o invasor francês, em 1809, e as guerras carlistas, ao longo do século.172 No primeiro caso – quando ocorre na Galiza uma verdadeira mobilização popular, através da criação da Junta da Galiza, que se converte num governo de facto – sinaliza-se a primeira grande crise do Antigo Regime e o primeiro despertar da consciência política do povo galego, quando este de repente se dá conta de que, sem o auxílio das autoridades centrais, é ele mesmo quem deve organizar a defesa de seu território. No segundo caso, a derrota dos carlistas permite a implementação na Galiza de algumas medidas e práticas liberais, como a desamortização da terra, processo este, porém, cheio de vaivéns, que só se completaria no segundo decênio do século XX.173 A persistente herança do Antigo Regime, porém, é visível na hegemonia da fidalguia entre as classes sociais galegas:

A fidalguia, com uma árvore genealógica de proclamada antiguidade, é a expressão mais refinada desta sombra do Antigo Regime, que se estende pelo século XIX em diante. Havia perdido algumas de suas atribuições com a crise do Antigo Regime, mas conservava o essencial: o seu próprio nome, os seus paços com lugares ocupados por caseiros e administradores, e uma multidão de rendas cobradas em diversas partes, com os seus pagadores minuciosamente registrados em memoriais e livros de contas.174

Mas não é apenas a resiliência da fidalguia o indício das dificuldades da Galiza em entrar na modernidade. Na política outro aspecto atestaria este déficit com respeito às instituções liberais do século XIX: a presença do caciquismo, isto é, o conjunto de práticas clientelistas que unem determinadas lideranças políticas locais – os caciques – aos eleitores de sua área de influência.

172 Termo empregado para denominar as três violentas contendas ocorridas no século XIX entre os carlistas, partidários de Carlos de Bourbon, de orientação absolutista, e o governo de Isabel II, sua sobrinha, de índole liberal. A primeira se deu em 1833-1840, a segunda em 1846-1849, e a última em 1872-1876.

173 A desamortização consistiu em pôr no mercado, mediante leilão público, as terras e bens não produtivos em poder da nobreza, sobretudo a eclesiática. Na Galiza, boa parte desses bens, porém, passaram para as mãos de nobres a fidalgos, conservando-se dessa forma a estrutura da propriedade feudal.

174 VILLARES, História da Galiza..., p. 124.

Tanto os intelectuais da época como os historiadores posteriores consideraram o caciquismo (...) uma das características fundamentais do sistema político espanhol e encontraram nele as razões que fizeram fracassar a transição do liberalismo para a democracia no primeiro terço do século XX.175

Todavia, o maior sinal, e ao mesmo tempo sintoma, do atraso econômico e social da Galiza está na formação, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, de uma enorme diáspora galega. “O pobo galego é un pobo bíblico: todas as maldicións do antigo testamento semellan ter caído sobor dil [sobre ele], e singularmente a que dá o seu nome ao segundo libro [Êxodo].”176 O atraso das técnicas agrárias, aliado a uma tributação cumulativa e ao minifundismo consequente do sistema foral, mais a ausência de uma indústria e comércio consistentes, capazes de absorver a mão de obra excedente numa população em constante crescimento (embora com menos vigor que no século anterior), são os responsáveis pelas surpreendentes taxas do êxodo galego:

Durante mais de um século, o facto migratório formou parte das vivências dos galegos: numa população que quase não chegou a utrapassar os dois milhões de habitantes, 1.193.476 foram as pessoas que, de entre o número muito mais elevado dos que partiram, não regressaram à Galiza entre 1860-1970. Trata-se, pois, de uma migração massiva, quase organizada e regulada pelos próprios governos nalgumas ocasiões e dirigida fundamentalmente aos países americanos da periferia capitalista e de cultura ibérica (Cuba, Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela...).177

De qualquer forma, a emigração galega não pode ser desvinculada de um processo mais amplo que dominou a Europa no mesmo período – embora o que ressalta à vista, na Galiza, é a proporção e duração do mesmo. “Algunos (muy pocos) vuelven ricos. Otros, derrotados. Muchos no regresarán.”178 Terra de emigrantes (ainda que no final do século XX este fluxo tenha estancado), tal marca ficaria indelevelmente em sua experiência, como o refletem os versos de Rosalía de Castro:

175 LUZÓN, Javier Moreno. A historiografia sobre o caciquismo espanhol: balanço e novas perspectivas.Análise Social, Lisboa, vol. 41, n. 178, p. 9-29, 2006. Disponível em

<http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aso/n178/n178a01.pdf> Acesso em: 31 jan. 2011.

176 BEIRAS, Xosé Manuel. O atraso económico da Galiza. 3 ed. Santiago de Compostela: Laiovento, 1995. p.

39.

177 Ibid., p. 116.

178 FREIXAMES, Víctor Fernández et al. Galicia: una luz en el Atlántico. Vigo: Xerais, 2001. p. 249.

Éste vaise i aquél vaise, e todos, todos se van.

Galicia, sin homes quedas que te poidan traballar.

Tes, en cambio, orfos e orfas e campos de soledad,

e nais [mães] que non teñen fillos e fillos que que non tén pais.179

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 74-80)