Se a língua vernácula, difundida pelo capitalismo tipográfico, foi decisiva para o arranque de boa parte dos movimentos nacionais europeus, ela todavia não foi suficiente para levar a termo a equação uma língua/uma nação. Países herdeiros do absolutismo ou decorrentes de vitoriosas revoluções burguesas, como a França e Grã-Bretanha, há muito já haviam iniciado o processo de uniformização linguística. Além disso, muitas das línguas vernáculas foram absorvidas na órbita das novas línguas nacionais, desaparecendo ou tornando-se não mais do que pitorescas variações dialetais das mesmas, como por exemplo o alemão falado na Alsácia-Lorena. Todavia, muitas línguas ficaram a meio caminho, ou seja, nem se viram reduzidas a meros dialetos nem tiveram os territórios em que são faladas convertidos em Estados nacionais.
Para comprender o conflito entre as nações que vieram a constituir um Estado e os movimentos nacionais que (ainda) não lograram esse objetivo, muitos autores têm se servido da fórmula que opõe centro e periferia.114 A díade centro/periferia, proposta pela Teoria da Dependência, pretende explicar a distribuição assimétrica dos resultados do capitalismo mundial como uma consequência das grandes diferenças de desenvolvimento tecnológico, acumulação de capital e poder político entre as regiões do globo, em função sobretudo da divisão internacional do trabalho. Eis como Immanuel Wallerstein explica, de maneira didática, a dinâmica dessas relações:
A partir de qualquer diferencial real no mercado [mundial], por causa da escassez (temporária) de um processo de produção complexo ou por uma eventual escassez artificial criada manu militari, as mercadorias se deslocam através das regiões de tal modo que a região do artigo menos escasso vende seus bens para outra região a um preço que incorpore mais insumo real (custo) do que um bem de preço que se desloque na direção oposta. Parte do lucro total (ou do excedente) produzido numa área transfere-se então para outra. É a relação que se estabelece entre centro e periferia. Podemos chamar a área perdedora de “periferia” e a área ganhadora de
“centro”, nomes que na verdade refletem a estrutura geográfica dos fluxos econômicos.115
114Por exemplo: ROKKAN, Stein. Dimensions of state formation and nation-building: a possible paradigm for research of variations within Europe. In: TILLY, Charles (ed.). The formation of national states in Western Europe. Princeton: Princeton University Press, 1975. p. 562-600. SEILER, Daniel-Louis. Peripheral nationalism between pluralism and monism. International political science review, v. 10, n. 3, p. 191-207, 1989.
115 WALLERSTEIN, op. cit., p. 29-30.
Assim, o par centro/periferia explicitaria a desigual distribuição espacial das riquezas, podendo-se falar neste sentido de países centrais e países periféricos, com significado homólogo a de outros binômios assemelhados, como Norte/Sul, desenvolvimento/subdesenvolvimento, Primeiro Mundo/Terceiro Mundo.116 Todavia, é necessário levar em conta que, na realidade, essa divisão geopolítica é menos esquemática e muito mais matizada, com a existência de países semiperiférios e semicentrais entre uma ponta e outra, além do fato de que essa gradação é dinâmica e não estática, como o demonstram a recente emergência dos países agrupados sob o acrônimo de BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, revelando um deslocamento, ainda que sutil, do centro do sistema do Oeste para o Leste e do Norte para o Sul.117
Do mesmo modo, o nacionalismo pode também se manifestar em um ou outro desses polos ou assumir um ponto tenso e variável entre eles. Sob esta pespectiva, o nacionalismo dos Estados nacionais é central, ou tende a sê-lo, ao passo que nacionalismo das nações sem Estado é, ou tende a ser, periférico.118 Segundo Francisco Letamendía, esta polarização – o choque entre dois nacionalismos intra-estatais com pesos diferentes em termos de capital político – é de certo modo incontornável.
A socialización nacionalista, que ten por obxecto crear unha cultura política nacional, esixe converter a lealdade nacional en prevalente, asegurándose, sobre todo, para conseguir tal fin, o control estatal do sistema de ensino. (...) A construción estato-nacional pode ser rexeitada por sectores sociais determinados, ora porque prexudica os seus intereses, ora porque as diferencias étnicas impiden ou dificultan o seu acceso ao proceso de nacionalización, o que as fai vítimas da centralización e a alienación culturais. Dado que son raríssimos os Estados monoétnicos, este conflito é suscetíbel de activar movementos etnonacionais en case todo o mundo.119
116 Cf. SANTOS, Theotonio dos. A Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
117 Formulada inicialmente por Jim O´Neil, economista-chefe do banco Goldman Sachs, em 2001, o conceito dos BRIC’s cedo se consolidou como categoria de análise nos meios acadêmicos, econômicos e jornalísticos. Em 2006, o conceito deu lugar a um agrupamento propriamente dito, incorporado à política externa dos respectivos países. Em 2011 a África do Sul passou a fazer parte oficialmente do agrupamento, cuja sigla deixou de ser BRIC’s para se transformar em BRICS, com o S de South Africa.
118 Mas não necessariamente: “Nom é esse o caso de Euskal Herria [País Basco] e a Catalunha que nom fam parte da periferia em termos econômicos”. PAÇOS, Bernardo Valdês. A Constituiçom Europeia e nós.
Ourense: AGAL, 2005. p. 119.
119 LETAMENDÍA, Nacionalismos no mundo..., p. 10.
Os pares centro/periferia e direita/esquerda não podem ser automaticamente sobrepostos.120 Embora o centro normalmente se localize na órbita da direita política, nem sempre um nacionalismo periférico situa-se à esquerda, como foi o caso do movimento africâner na África do Sul, promotor do apartheid, ou, mais recentemente, o separatismo do Departamento de Santa Cruz, na Bolívia, fomentado por latifundiários e grandes empresários.
Todavia, tanto nestes como em casos semelhantes, podemos afirmar que são enclaves do centro intentando se desprender da periferia, o que se confirma pelo apoio que estes grupos não raro recebem das forças centrais. Em todo caso, fica sublinhado que nem todo movimento secessionista dentro de um Estado nacional é de caráter necessariamente periférico. Ademais, um nacionalismo periférico pode mudar de sinal ou vir a atuar como títere do centro. Se o nacionalismo da Géorgia é periférico em relação à Rússia pós-soviética, torna-se central com respeito à postura independentista da Abecásia e da Ossétia do Sul. Na verdade, muitas vezes é difícil precisar a natureza periférica ou central de um determinado movimento etnocultural, devido à complexidade de fatores envolvidos e aos interesses em jogo de atores externos.
Além disso, conforme Letamendía, há outros aspectos que influem nas características dos nacionalismos periféricos.
Os movementos nacidos na periferia varían segundo a natureza do centro contra o que reaxen, que pode ser un Estado-Nación, como é norma na Europa Ocidental, un Imperio, caso habitual na Europa Oriental, quer arcaico (os Imperios ruso, austrohúngaro, otomano), quer moderno (o Imperio soviético),121 ou ben pode tratarse dunha potencia colonial, contexto este no que xorden inicialmente os nacionalismos do Terceiro Mundo. Así mesmo, a dirección e intensidade dos nacionalismos periféricos variará segundo as tres dimensións do centro – política, económica e cultural – estean concentradas nun punto (como o están en Paris, capital de Francia), ou dispersas (en Italia, onde o centro político se encontra en Roma, o cultural na Toscana e o económico no Val do Po).122
120 Apesar do apelo feito por Giddens por uma superação da dicotomia direita-esquerda (GIDDENS, Anthony.
Para além da esquerda e da direita. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2005), continuamos julgando pertinente a distinção entre os dois conceitos, no que acompanhamos Bobbio, que localiza na postura diante do princípio da igualdade sócio-econômica o âmago da diferença entre os dois alinhamentos – a esquerda tendente a valorizar (e, portanto, a buscar meios de maximizar) o que conduz à igualdade de condições entre os seres humanos; a direita, por sua vez, objetivando naturalizar essas mesmas diferenças. Cf. BOBBIO, Norberto.
Direita e esquerda: razões e significados de uma razão política. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2001. Por outro lado, no aspecto cultural, enquanto a esquerda procura valorar a diversidade de expressões, a direita prefere sua homogeneização.
121 Agora sucedido pela Federação Russa: moderna ou arcaica?
122 LETAMENDÍA, op. cit., p. 10.
Além do mais, os movimentos etnonacionais da periferia costumam originar-se de duas matrizes. Por um lado, podem resultar da crise e da fragmentação das instâncias centrais, como as novas repúblicas da ex-Iuguslávia. Por outro, podem surgir como reação a um Estado nacional centralizador, como na Espanha oitocentista. Neste caso, assim como os movimentos sociais, com os quais mantém vínculos, possuem amiúde uma dupla vertente, a identitária e a instrumental-racional.
No primeiro caso, ainda segundo Letamendía, a identidade nacional é objeto de construção a cargo de uma elite cultural (filólogos, historiadores, literatos), a qual, servindo-se ao mesmo tempo de elementos do imaginário coletivo e de novos componentes ideológicos (a ideia de Estado-nação), opera uma reescritura da história, criando com isso um novo conjunto discursivo, uma narração nacional-identitária, com o qual é realçada a oposição eles/nós (conforme a tipologia de Miroslav Hroch, corresponderia à passagem da Fase A para a Fase B).
No segundo caso, a vertente instrumental-racional se manifesta num programa de reivindicações e nos meios pelos quais se pretende alcançá-las. Estas reivindicações, num primeiro momento, se restrigem a questões linguístico-culturais. Porém, “é o salto ás reivindicações político-territoriais, é decir, á reclamación das instituicións proxetadas para salvagardar as características étnicas, o que transforma un movemento etnocultural num movemento nacional”123 (aqui, estariámos em plena Fase B, segundo Hroch). É verdade que a forma concreta com que se revestem estas demandas políticas – que podem variar de uma maior autonomia à secessão completa – está condionada pelo
xogo dun conxunto de factores, entre os que hai que destacar a contigüidade do território étnico, a forza da súa identidade colectiva, a súa capacidade de resistencia ás actuacións contrarias do Estado, o seu grao de cohesión social, o seu nivel de organización política, así como o contexto internacional favorábel ou non aos seus fins.124
Estes fatores determinam também os instrumentos a serem empregados para a consecução de tais fins, os quais podem situar-se dentro dos marcos democráticos do Estado de direito (abaixo-assinados, panfletagens, manifestações de massa), nas margens do mesmo (invasão de prédios públicos, protestos violentos), ou além de seus limites legais (atentados, sequestros, luta armada). É claro que este arco de opções vai depender do espaço legal concedido pelo Estado central, espaço este cujas dimensões são condicionadas evidentemente
123 Ibid., p. 11.
124 Id.
pelas variáveis das forças políticas em jogo. Todavia, para Letamendía, a escolha da via armada pode resultar em perda das dimensões identitária e instrumental, por conta da radicalização da oposição nós/eles e do esgarçamento dos vínculos com a comunidade etnocultural da qual o núcleo armado pretendia ser a vanguarda.
As estruturas supranacionais – supraestatais como a União Europeia e o Mercosul, ou ideológico-culturais como o pan-eslavismo e a Ummah islâmica – mantêm uma “ambigua relación tanto cos centros estatais como coas súas periferias, reforzando ou debilitando uns e outras segundo os casos.”125 Assim, num jogo de pesos e contrapesos, teríamos, num nível supraestatal, um pan-nacionalismo, ou melhor, um supranacionalismo (europeísmo, latino-americanismo, iberismo); no nível estatal, os nacionalismos de Estado (lusitanismo, hispanismo, germanismo); e, finalmente, num nível infraestatal, os nacionalismos sem Estado (galeguismo, catalanismo, basquismo). Os supranacionalismos articulam-se acima e entre os centros; o nacionalismo estatal, como já foi dito, nos centros, muitas vezes em tensão entre si;
e os nacionalismos sub-estatais, também como já foi frisado, nas periferias etnoculturais. No entanto, assim como pode haver periferias “centrais”, ou afinadas com o centro (Liga do Norte na Itália, Santa Cruz na Bolívia), podem existir supranacionalismos “periféricos”, como o arabismo, ou que flutuam entre centro e periferia, conforme as posições dos agentes políticos, como o celtismo.
De toda forma, o europeísmo hodierno – hoje presentificado pela União Europeia – é um supranacionalismo central, articulado (em relação de subordinação) com o outro grande centro do mundo, os Estados Unidos da América. Todavia, não é por ser central que a sua relação com os nacionalismos periféricos seja necessariamente de dominação/marginalização, como o demonstra Letamendía:
A construción comunitaria na Europa Ocidental está erosionando a soberanía dos seus Estados membros por cima (desde as instancias comunitarias) e por baixo (facendo emerxer un novo actor no ámbito europeo, a Rexión). Mais este proceso é ambiguo a respecto dos nacionalismos periféricos. Os suxeitos formais da construción europea seguen a ser os Estados-Nacións. E aínda que a rexión económica (ou eurorrexión), con frecuencia transfronteiriza, fai abstracción dos limites dos Estados, a Rexión política que as instancias comunitarias teñen en conta segue sendo a definida como tal polo ordenamento territorial de cada Estado, polo que o seu espazo difire, con frecuencia, do território étnico defendido polos nacionalismos históricos.126
125 Ibid., p. 12.
126 Ibid., p. 13. A atual crise financeira, por seu turno, ameaça arrefecer ou fazer retroceder o processo de integração europeu. Ainda é cedo, porém, para dimensionar o alcance de seus efeitos.
De certa forma, o que ocorreu foi um deslocamento do centro, criando ou acentuando novas zonas periféricas.
Por outra banda, a Unión Europea xerou un novo centro, o eixo lotharinxio [lotaríngio, referente à Lotaríngia, reino da Europa ocidental decorrente da tripartição do Império Carolíngio] que enlaza o Sudeste inglés, a través da Europa rhenana, co Val do Po, centro este que periferiza e subdesenvolve os outros dous eixos, o Atlántico e o Mediterráneo, alén dos Estados, Rexións e territórios etnonacionais que se encontran neles, tanto máis canto máis alonxados estean do eixo centroeuropeo.127
Independente de um eventual deslocamento do centro e de uma nova ênfase dada a regiões transfronteiriças, a União Europeia não representou, pelo menos até agora, uma mudança institucional significativa no que diz respeito aos nacionalismos periféricos:
A Constituiçom Europeia, como todo o processo de construçom da UE até agora, nom é um texto neutro a respeito das naçons sem estado. Ignorando o facto nacional, admite a opressom nacional; negando as línguas das naçons sem estado, participa da uniformizaçom; e, afirmando no art. I-5 que a Uniom respeitará as funçons essenciais do Estado, nomeadamente as que se destinam a garantir a integridade territorial... tenta, evidentemente, fechar qualquer porta que poda levar à liberdade das naçons sem estado.128
De todo modo, a nova realidade supraestatal da União Europeia coloca em novas bases a relação entre os nacionalismos estatais e sub-estatais. Longe de superada, a díade centro/periferia continua pertinente, desde que matizada dentro de uma nova realidade em que se complexifica ainda mais o embate entre centro e periferia, assim como as dicotomias direita e esquerda, mundialização e localismo, Estado e nação, soberania e dependência, identidade e diferença, nós e eles. Mais do que nunca, centro e periferia estão disseminados, atomizados, pulverizados, mas não abolidos; interpenetrados, interseccionados, misturados, mas não confundidos; mudam de lugares, disfarces, máscaras, representações, mas não de função. Ainda não é avistável, salvo nas utopias altermundistas, o horizonte de sua superação.
127 Id.
128 PAÇOS, A Constituiçom Europeia e nós..., p. 115. O grifo é do autor.