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O REGIONALISMO

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 87-90)

Além do impulso que o Rexurdimento deu à (re)criação de uma literatura em vernáculo, igualmente importante foi o estímulo que proporcionou o trabalho de historiadores de índole romântica na recuperação/construção das raízes históricas da Galiza. Como vimos, os historiadores são peças fundamentais no processo de figuração da identidade nacional.

Juntos com filólogos e literatos, estão geralmente entre os primeiros que imaginaram a comunidade etnolinguística de que fazem parte como uma nacionalidade histórica. Afinal,

“todo movemento de reinvindicacíon nacionalista nado na Europa do século XIX necesita construír unha historia nacional como elemento cimentador do seu discurso, especialmente cando a comunidade de referencia non ten soberanía política estatal.”188

Na Galiza, o pioneiro desta historiografia reinvindicativa foi José Verea y Aguiar (1775-1843), em sua Historia de Galicia, de 1838, aliás o primeiro a introduzir, com intenções apologéticas, o celtismo como elemento diferenciador da Galiza. Seguem-no Martínez Padín (1823-1850) e Benitto Vicetto (1824-1878). Este último – com os sete volumes de sua Historia de Galicia, lançados entre 1865 e 1873, e autor também de romances históricos – é o maior representante deste romantismo de matizes populares, onde se fundem história e ficção não apenas no campo literário como também historiográfico. Para estes três historiadores, que não deixaram de pagar o seu óbolo às teorias vigentes na época, o núcleo da identidade galega está na raça, a qual, não obstante as vicissitudes históricas, teria se preservado pura, o que distinguiria os galegos, de origem ariana por conta da ascendência céltica, dos demais povos da península, quase todos em maior ou menor medida contaminados pelo sangue semítico-africano.

Mas seria a obra de Manuel Murguía (1833-1923), com os cinco tomos da sua incompleta Historia de Galicia, publicados entre 1865 e 1913, não apenas o coroamento desta

188 BERAMENDI, Justo G. A visión de Galicia na historiografía galeguista (1840-1940). p. 201.

Colóquio/Letras, Lisboa, n. 137-135, p. 201-204, jul./dez. 1995.

primeira historiografia galeguista como também aquela que assentaria as bases da construção da consciência nacional a partir da qual se aglutinarão as mais diferentes correntes do nacionalismo galego. Murguía não é somente o maior historiador galego de seu tempo, com sua sombra avançando sobre as gerações posteriores, mas também o primeiro teorizador sistemático do galeguismo, destacando-se nesse quesito os livros Los Precursores, de 1886, e El regionalismo gallego, de 1889. Como historiador, Murguía situa-se na transição entre o historicismo romântico e o positivismo:

Do primeiro conserva o pragmatismo galeguista, o gusto pela escrita literariamente emotiva e a consideración das lendas e tradicións populares como fontes históricas;

do segundo toma o princípio da xustificación do relato mediante documentos orixinais e a arela [desejo] por estar ó dia sobre “la marcha de las ciências históricas en Europa”.189

Na constituição da nacionalidade galega, Murguía não se distingue dos historiadores anteriores, ao fundá-la igualmente no celtismo. Mas, além da raça, ele acrescenta outros fatores nesta construção cultural, como a situação geográfica, os costumes, a consciência da galeguidade e a língua:

¡O noso idioma! O que falaron nosos pais e vamos esquencendo, o que falam os aldeãns e nos achamos a ponto de non entendelo; aquel en que cantaron reis e trobadores; o que, fillo maor da pátrea gallega, nola conservou e conserva coma un dom da providencia; o que aínda ten nos nosos labres [lábios] as dozuras eternas e acentos que van ó corazón; o que agora oídes coma se fose um himno relixioso; o hermoso, o nobre idioma que do outro lado dese río é léngoa oficial que serve a máis de vinte millóns de homes e ten unha literatura representada polos nomes gloriosos de Camoens e Vieira, de Garret e de Herculano; o gallego, en fin, que é o que nos dá dereito á enteira posesión da terra en que fomos nados, que nos di que, pois somos um povo distinto, debemos selo; que nos promete o porvir que procuramos, e nos dá a certeza de que ha de ser fecundo en bens pra nós todos.190

Com Murguía, ademais, o galeguismo dá um salto qualitativo, abandonando o provincialismo e entrando no estágio que seria conhecido como regionalismo. Convenciona-se estabelecer o ano de 1886, data do lançamento de Los Precursores, como o marco inicial dessa viragem. Nesta obra, o autor “reclamandose continuador do provincialismo, considera esa fase rematada, e coida necesario abrir unha nova na que o nivel de reinvindicación se

189 Ibid., p. 202.

190 MURGUÍA, Manuel, Discurso nos Xogos Florais de Tui (1891). In: MURGUÍA, Manuel et al. A prosa do Primeiro Renacimento: antoloxía. Vigo: ASPG, 1996, p.129-130. Este foi o primeiro discurso em galego de Murguía.

eleve ao afirmar a necesidade dunha política propia para Galicia (...).”191 Com efeito, o fracasso da Primeira República (1868-1874) provocara a reação centralista da Restauração, e é neste novo contexto que o regionalismo vai se articular, coincindindo no tempo com outros movimentos similares, como o regionalismo catalão e o nacionalismo basco. Engajado no projeto de descentralização do Estado, o regionalismo galego vai abarcar debaixo de seu arco três tendências nem sempre harmônicas. A primeira delas – e a menos influente – é a corrente federalista, liderada por Aureliano Pereira (1855-1906). De viés progressista, oriunda do republicanismo, levanta a bandeira de um pacto federativo entre as diversas comunidades nacionais da Espanha. A segunda, encabeçada por Alfredo Brañas (1959-1900), é a tradicionalista. De matriz católica, rejeita tanto o capitalismo liberal quanto o igualitarismo operário, revelando uma nostalgia do Antigo Regime. Para Brañas, autor do livro El regionalismo, de 1889, as estruturas sociais da Galiza são tão constituintes de sua identidade quanto sua história e sua língua. A terceira corrente, a liberal, representada por Murguía, é de longe a mais importante, a que melhor recolhe o legado do provincialismo e a que mais marcas deixará no desenvolvimento futuro do galeguismo. De toda forma, estas três tendências, federalista, tradicionalista e liberal, “coinciden en que Galicia é unha rexión ou nacionalidade que ten dereito a recuperar a súa identidade cultural e lingüística e, polo tanto, a unha autonomía que lle permita realizar este obxetivo.”192

Como no provincialismo, o regionalismo terá uma grande atuação na imprensa, não obstante a efemeridade da maioria de suas publicações. O grupo federalista conta com El Regional, publicado en Lugo e redigido quase exclusivamente por Aureliano Pereira. Os tradicionalistas dispõem do católico El Libredón, dirigido por Brañas em Santiago. E o La Región Gallega, também de Santiago, cujo diretor era Murguía, serviu aos herdeiros do provincialismo. Mas a grande novidade do regionalismo está na criação das primeiras organizações políticas exclusivamente galegas. Embora débeis e igualmente efêmeras, representam um avanço significativo em relação à etapa anterior.

A primeira delas, criada em Santiago, em 1891, foi a Asociacíon Rexionalista Galega. Sob a presidência de Murguía, contava também com a participação ativa de Brañas, que dominava o seu jornal, La patria gallega. Por conta das dissenções internas, a associação não foi além de 1893.

Com a mudança de Murguía para a Corunha, ocorre também um deslocamento do núcleo regionalista liberal para esta cidade, onde, em 1897, é fundada a Liga Gallega, também

191 QUINTEIRO, op. cit., p. 23.

192 Ibid., p. 27.

sob a presidência do historiador, e que tem como principal novidade a bandeira do reconhecimento do galego como língua oficial, em igualdade de condições com o castelhano.

Por sua vez, o setor tradicionalista, em Santiago, funda a homônima Liga Gallega, tendo Cabeza de León como presidente e Brañas como secretário. Contudo a morte precoce deste, em 1900, aos 41 anos, desestruturará por algum tempo esta corrente do galeguismo.

Entretanto, de certa forma, na virada do século, todas as tendências do regionalismo vão se encontrar esmorecidas, com poucas realizações, com exceção da fundação da Academia Galega, em 1906, mais uma vez sob a presidência do incansável Murguía, já então um ancião. A pasmaceira só seria quebrada em 1907, com a criação da Solidaridad Gallega, aliança eleitoral inspirada pelo êxito de sua homóloga Solidaritat Catalana. Nela confluem os regionalistas da Corunha, liderados por Murguía, um setor do republicanismo da mesma cidade, e alguns católicos da tendência tradicionalista, mas que logo abandonam a aliança ao perceberem o seu viés antiforal. Tendo como portavoz os jornais Galicia solidaria e A nosa terra, o ideário do movimento

(...) é unha mestura de anticaciquismo electoral, agrarismo antiforista, rexeneracionismo español e afirmacíon da personalidade de Galicia dentro do Estado unitário. Non é, pois, un movemento rexionalista, ainda que nel participen os rexionalistas, e nin sequera está baixo [sob] a hexemonía da corrente galeguista, mais vai provocar unha reactivación da mesma e animará aos seus membros a un activismo político que non desenvolveran con anteriodade.193

Porém, a vida da Solidaridad foi igualmente curta, por força não só do antagonismo das correntes internas como também do exíguo resultado nas eleições gerais. Dissolveu-se em 1912, junto com os seus periódicos, mas deixou como herança um legado de organização e combatividade que seria utilíssimo no movimento agrarista, o mais importante na Galiza no século XX, além das sementes do futuro nacionalismo stricto sensu.

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 87-90)