Este trabalho já começara, ainda que tateante, no Iluminismo, com as pesquisas filológicas dos supracitados Feijó, Sobreira e Sarmiento. Este último, inclusive, chegou a reinvidicar a necessidade da escolarização em galego e o domínio do mesmo para os estrangeiros – sobretudo religiosos – que viessem trabalhar na Galiza. O despertar de um sentimento (proto)nacional recebe também um estímulo na guerra contra as forças de ocupação francesas, no começo do século XIX, quando pela primeira vez é usado o galego em textos de propaganda contra o invasor. Mas é por volta de meados do século que este
sentimento, ainda informe e incipiente, adquire forma, como reação à revolução liberal que iniciara, no Estado espanhol, um processo de uniformização e homogeneização, tanto no campo político e econômico, através de uma administração centralizada com vistas à criação de um mercado “nacional”, quanto no campo cultural, por meio da obrigatoriedade da alfabetização em castelhano.
Esta tomada de consciência na década de 1840 parte de supostos muito simples, mas tem o mérito de inaugurar uma corrente ideológica e uma prática política que se prolongará até à actualidade. Corrente e prática que tende a definir-se na historiografia dos últimos anos como galeguismo, entendendo por tal a afirmação do carácter diferente da Galiza frente a outros povos e a luta para conservar a dar forma política a essa diferenciação.185
Ao primeiro estágio do galeguismo, que é comumente situado entre os anos de 1840 e 1885, é dado o nome de provincialismo. O termo deriva da reinvindicação da antiga unidade territorial do Reino da Galiza como uma única província. Com efeito, o novo regime liberal, com o objetivo de uma reorganização política e administrativa do Estado, decompõe os antigos reinos em províncias. Assim, em 1833, a Galiza é dividida em quatro territórios provinciais, sem nenhuma unidade superior que os aglutinasse.
O surgimento do provincialismo está ligado a um pequeno grupo de jovens – a chamada Geração de 1846 – composto em sua maioria por universitários e profissionais liberais. Seus integrantes, entre os quais se encontram Antolín Faraldo (1823-1853) e Romero Ortiz (1822-1884), desenvolvem suas atividades em tertúlias literárias, liceus e academias, especialmente a Academia Literária de Compostela. Mas é sobretudo na imprensa que se dá a sua militância, com periódicos cujos títulos já são significativos de sua índole combativa: El Porvenir, El Emancipador Gallego, La Centinela de Galicia. Por meio deles, defendem a singularidade da Galiza, exaltam os feitos de sua história e denunciam o opróbrio a que naquele momento se encontraria submetida. De maneira um tanto confusa, mesclam elementos que vão do romantismo ao liberalismo, passando pelo cristianismo social e pelo historicismo. Ainda que não concebam a Galiza como uma nação, foram os primeiros a estabelecer com clareza o conceito de unidade galega, referente este que serviria de base para a construção do galeguismo futuro.
No que respecta á lingua, aínda que reconhecida como elemento de indentificación cultural, non é empregada na escrita, agás [exceto] no caso das primeiras creacións poéticas (Pintos, Añón). O provincialismo da xeración de 1846 é un movemento
185 VILLARES, História da Galiza..., p. 151.
primordialmente político que fai fincapé na reinvindicação dos dereitos de cidadanía e na necesaria rexeneración moral.186
Este movimento “primordialmente político” teria, contudo, uma trágica consequência. A dois de abril de 1846, em Lugo, sob as ordens do coronel Miguel Solís, tem início um pronunciamiento progressista contra o governo autoritário do General Narvaez, que logo se espalha por diferentes cidades galegas, principalmente na costa. Todavia, fora da Galiza, o levante fracassa, adquirindo assim um caráter eminentemente local, que as lideranças provincialistas vão aproveitar para divulgar suas ideias e fazer suas reinvindicações. Uma Junta Superior do Governo de Galiza é formada, com sede em Compostela, presidida por Rodríguez Terrazo e Antolín Faraldo. No dia 15 de abril a Junta divulga um manifesto onde está contemplado muito do ideário provincialista:
Galicia, arrastrando hasta aquí una existencia oprobiosa, convertida en una verdadera colonia de la corte, va a levantarse de su humillacíón y abatimiento. (...) Esta Junta, amiga sincera del país, se consagrará constantemente a engrandecer el antiguo reino de Galicia, dando provechosa dirección a los numerosos elementos que atesora en su seno, levantando los cimientos de un porvenir de gloria.187
No dia 23 de abril têm início as batalhas entre as tropas de Madri e as de Solís.
Devido à grande superioridade das forças do governo central, os rebeldes, às portas de Compostela, são facilmente derrotados. A cidade é invadida e saqueada. Refugiado na igreja de São Martinho Pinário, ao final daquela mesma tarde o coronel se entrega. Três dias depois, após um julgamente sumaríssimo, Solís e doze de seus oficiais são fuzilados na vila corunhesa de Carral. Mais tarde o galeguismo os converteria nos “mártires de Carral”, símbolo da luta autonomista da Galiza, realizando homenagens massivas ao pé do monumento que seria levantado em 1904 no local.
O impacto da repressão que se segue ao desbaratamento do levante logra paralisar o provincialismo por algum tempo. Não por acaso, a geração que surge em seguida, ao mesmo tempo que tem consciência de sua dívida para com os precursores de 1846, assume uma feição mais de corrente de opinião do que de movimento organizado. Tendo como polo novamente uma instituição compostelana, o Liceo de la Juventud, concentram da mesma maneira o seu engajamento na imprensa, com a criação de uma quinzena de jornais saídos entre 1846 e 1868, alguns tão longevos e influentes como o La Oliva. Mas a novidade, aqui,
186 QUINTEIRO, Carlos Méixome. Castelao: unha história do nacionalismo galego. Vigo: Cumio, [2001?] p.
14.
187 Ibid., p. 15.
está no aparecimento, pela primeira vez na história, de periódicos redigidos totalmente em galego, como é o caso de O Tío Marcos da Portela (1876-1890). Esta “galeguização” da palavra impressa se insere num processo muito mais amplo de recuperação literária da língua galega, movimento este que é denominado Rexurdimento e faz parte de uma série de renascimentos culturais e literários que, por força do romantismo, brotaram em toda a Europa.