• Nenhum resultado encontrado

ENTRE AVANÇOS E RECUOS, ENFIM A MODERNIDADE

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 80-84)

Século das mudanças, das grandes revoluções – sociais, econômicas, tecnológicas – e das grandes hecatombes, o século XX finalmente arrancaria a Galiza das sombras do Antigo Regime. Nação até então de vocação quase exclusivamente agrária, é na área do regime de propriedade da terra que se dão as primeiras e mais decisivas transformações. E neste sentido, a redenção dos foros, pela importância que esses contratos haviam assumido desde a Baixa Idade Média, é o fato mais significativo. Ao longo do século XIX se intentara, sem resultado, sua solução. Mas agora, ainda que do ponto de vista legal o sistema foral tenha sido abolido somente em 1973, foi no primeiro terço do século que ocorreram a maior parte das redenções forais – as quais se deram por meio do pagamento de uma indenização ao perceptor das rendas por parte do foreiro. Além disso, durante todo o século, teve curso outro processo modernizador: a privatização das terras de uso comum – outro marco do fim de uma sociedade agrária tradicional.

Junto à modernização do campo, desde os finais do século XIX assistiu-se também a um importante impulso industrializador, principalmente na consolidação da indústria conserveira, ao que se soma, no século seguinte, um sólido desenvolvimento comercial e financeiro, motivados sobretudo pelas remessas enviadas pelos emigrados na América Latina.

Esta transformação da infraestrutura econômica nas primeiras décadas do século XX não deixará de ter efeitos na configuração da estrutura social:

Desaparece definitivamente a fidalguia e, em geral, a figura do recebedor de rendas agrário, para surgir com luz própria o campesinato proprietário, a burguesia comercial e industrial, a pequena burguesia urbana e, finalmente, um proletariado melhor definido e progressivamente livre de estruturas gremializadas.180

179 VIEIRA, Yara Frateschi (org.). Antologia de poesia galega. Campinas: UNICAMP, 1996. p. 48-46.

180 VILLARES, História da Galiza..., p. 141.

O setor industrial e de serviços, que no final do século XIX representava 5,9 e 8,1%

da população economicamente ativa, no começo da década de 1930 alcança, respectivamente, 14,9 e 20%.181 Estas alterações sociais não se processariam, evidentemente, sem reações e contrarreações. E para dar vazão a estes conflitos surgem sindicatos, organizações de trabalhadores e sociedades agrárias. Não é fácil precisar o ínicio do movimento operário na Galiza. Talvez tenha sido em Ferrol, no último terço do século XIX, sob os auspícios da Associação Internacional do Trabalho – a mesma que estaria por trás da primeira greve operária da história da Galiza, ocorrida na Corunha, em 1873. Depois dos primeiros embates, a classe trabalhadora se agrupa em duas grandes organizações, a União Geral dos Trabalhadores (UGT), de perfil socialista, com seus principais núcleos em Vigo e Ferrol, e a Confederação Nacional do Trabalho (CNT), de orientação anarquista, cujas atividades se concentrariam na Corunha. As lutas pela redução da jornada de trabalho, a melhora das condições laborais e a elevação do nível cultural dos trabalhadores são alguns dos objetivos do movimento operário galego, não obstante sua debilidade, patente até mesmo durante a II República (1931-1936).

O mesmo não se dá no campo, onde despontou um verdadeiro movimento de massas, o agrarismo, termo com que se denomina a organização dos camponeses em sociedades agrárias e sindicatos agrícolas. O movimento teve início em finais do século XIX, mas se dinamizou sobretudo a partir de 1907, quando do surgimento da Solidaridad Gallega. Em

“1923 chegaram-se a calcular 234 sociedades e 801 sindicatos em toda a Galiza.”182 Seus objetivos, além da renovação técnica do setor agrário, eram a luta contra o sistema foral e o caciquismo. Sua ideologia pode ser definida por uma espécie de catolicismo social, mas depois da chegada da República ocorre uma diversificação ideológica, abrindo um leque que vai do catolicismo ao comunismo, passando pelo galeguismo e pelo republicanismo.

Todavia, a irrupção da Guerra Civil viria decepar toda esta efervescência social, fazendo cair sobre a Galiza uma “longa noite de pedra”, para citar o título de um livro de Celso Emilio Ferreiro. A 19 de julho de 1936 chegam à Galiza as primeiras notícias, ainda desencontradas, do levante da guarnição militar do Marrocos – a qual, por sinal, estava sob o comando de um jovem general galego: Francisco Franco (1892-1975). Quando se conhece o caráter da sublevação, algumas organizações pedem armas para defender a República.

Entretanto, o levantamento, iniciado dia 20 nas principais capitais galegas, ocupando pontos estratégicos e detendo as autoridades fiéis à legalidade, logra um êxito fulminante:

181 FREIXAMES, Galicia..., p. 280.

182 VILLARES, História da Galiza..., p. 144.

Proclamado o estado de guerra, os soerguidos fixaron unha nova legalidade segundo a cal a lealdade ao goberno da República, proclamada por alcaldes, gobernadores civis e mesmo por algúns militares, como Azarola, foi alcumada de rebelión e suxeita á disciplina do código militar. (...) Dirixida por mandos militares intermedios (de capitáns a coronéis), a rebelión logra controlar a situación grazas á detención e posterior fusilamento dos principais mandos civís e militares, leais ao réxime republicano.183

Aos defensores da República ainda soltos não resta outra alternativa senão “escapar para os montes”, isto é, embrenhar-se pelo interior do país, vivendo clandestinamente. Estes

“fugidos” ou “escapados”, depois de algum tempo, começam a se organizar em pequenos grupos e a realizar, aqui e ali, ações armadas. Não obstante sua debilidade, esta guerra de guerrilhas se estenderá até bem depois do encerramento oficial do conflito, em abril de 1939, e mesmo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando, por conta da derrota do nazi-fascismo, reacendem-se por um momento as esperanças de queda do franquismo. Com efeito, somente em 1965 o último fugido, José Castro Veiga, o Piloto, seria morto na Galiza.

No entanto, para boa parte da oposição ao novo regime não houve outra saída a não ser se somar no exílio à já numerosa diáspora galega. Através das fronteiras com Portugal e França, uma leva massiva, sobretudo de intelectuais – o que em grande medida os diferenciava da emigração anterior –, ganharia as Américas, principalmente México, Uruguai e Argentina. Nesta última, Buenos Aires – aonde, entre tantos outros, radicou-se Castelao –, tornar-se-ia, durante a longa noite franquista, a capital cultural da Galiza “exterior”.

Todavia, o longo período ditatorial (1939-1975) não seria em todos os aspectos uniforme. Os primeiros vinte anos foram os tempos do isolamento político (sobretudo no imediato pós-guerra), do racionamento, do intervencionismo estatal na economia. A partir de 1959, contudo, depois de um momento de reaproximação com as potências ocidentais, inaugura-se um período de abertura econômica, preparando o caminho para o

“desenvolvimentismo” da década de 1960. Neste contexto é que se deve entender as transformações econômicas e sociais que transfigurariam definitivamente a fisionomia da Galiza. A primeira delas é o fim da agricultura tradicional, de subsistência, substituída agora por uma agricultura especializada, mecanizada, plenamente integrada na cadeia agro-industrial da Espanha e em seguida da União Europeia. Se nos anos cinquenta 70% da população economicamente ativa era rural, 20 pontos acima da média espanhola, no novo milênio esta porcentagem baixa para 20%.184 Sob o impacto deste enorme exôdo rural, a Galiza finalmente se urbaniza, com os excedentes da população agora se dirigindo

183 VILLARES, Historia da Galicia..., p. 417.

184 Ibid., p. 430.

principalmente para os países da Europa central, além da Catalunha e do País Basco. Além disso, a indústria se amplia e se diversifica, inclusive com a instalação de montadoras de automóveis, dotando a Galiza de uma estrutura industrial mínima. Por outro lado, o país se transforma numa potência pesqueira a nível mundial, correspondendo a metade do setor espanhol. E o setor de serviços, anteriormente atrofiado, depois da redemocratização finalmente deslancharia.

Ao mesmo tempo, na política, não obstante a permanência da índole autoritária do regime durante o período do tardofranquismo, novos sinais de resistência não deixariam de assomar. Na clandestinidade, partidos e sindicatos começam a se organizar. Ao longo da década de 1960 pipocam greves operárias e lutas campesinas, em que participam ativamente tanto o Partido Comunista quanto a recém-fundada União do Povo Galego (UPG). Em 1968, acompanhando as turbulências que abalam o mundo de um lado a outro, o movimento estudantil desperta na Galiza. Mas seria o ano de 1972 o ápice dessas manifestações contra a ditadura, com uma série de greves operárias e estudantis, seguidas de dura repressão.

Com a morte de Franco, em novembro de 1975, e a transição para uma monarquia parlamentar, a Espanha, e com ela a Galiza, entram finalmente na modernidade, ainda que trazendo, vincadas, as contradições de uma conturbada história de avanços e recuos. Com efeito, da periferia do capitalismo à consolidação da União Europeia, a trajetória da Galiza que adentra o século XXI não está livre de paradoxos, mesclando desenvolvimento e subalternidade, atraso e sofiticação. Mas o que há nesta Galiza moderna – plenamente incorporada ao capitalismo mundial, sede de empresas transnacionais como a Zara e a Pescanova –, do ancestral Reino da Galiza, terra de castros e de cantigas trovadorescas, de onde brotaram a sua cultura e a língua que hoje conhecemos como português?

5 O DESPERTAR DE UMA CONSCIÊNCIA

Não havia nações antes do século XVIII – pelo menos nações na acepção moderna.

Havia tribos, reinos dinásticos, cidades-Estado, repúblicas, mas não nações. Obviamente, a Galiza não existia como nação. Contudo, para que mais tarde ela pudesse ter sido imaginada como nação, é porque a partir de determinado momento alguns elementos protonacionais – língua, cultura, história, geografia –, distintivos de uma existência diferenciada da Galiza, passaram a ser acionados num processo de construção identitária, ainda que num primeiro estágio os agentes deste processo não tivessem plena consciência do que pretendiam nem aonde ele poderia chegar. Se estes elementos foram acionados é porque primeiramente eles foram encontrados, embora muito desse encontrar esteja imbuído de um inventar. Todavia, nenhuma invenção no âmbito cultural se produz inteiramente no vácuo. Não há creatio ex nihilo na cultura. Para ter ocorrido a inventio do corpo do Apóstolo, foi preciso, mais do que a descoberta de um túmulo, a veiculação de lendas a respeito, a necessidade política, a expectativa de um povo. Para a construção de uma Galiza celta, por exemplo, foram necessários, além da própria descoberta/invenção do povo celta e do uso que disto já se fazia no nacionalismo irlandês, alguns indícios da presença de tribos celtas no território galego. A partir disso Pondal pôde (re)criar o mito de Breogán, o grande referente mitólogico da Galiza.

Mas antes mesmo dos poetas do Rexurdimento [ressurgimento], movimento cultural de inspiração romântica de meados do século XIX, outros houve que, diante da particularidade que julgavam vislumbrar na Galiza, empreenderam pesquisas na busca de discriminar e descrever estes elementos diferenciais.

No documento OTTO LEOPOLDO WINCK (páginas 80-84)