A descoberta da tumba apóstólica aconteceu em princípios do século IX (813 é o ano mais provável), quando, conforme o Códice Calixtino, um eremita de nome Pelaio avistou, num bosque próximo a um antigo castro, estranhas luzes noturnas. Avisado do insólito acontecimento, Teodorico, bispo da diocese local, encontrou um túmulo que foi depois identificado com a chamada Arca Marmorica, a urna com os restos do apóstolo, o qual, segundo o que se contava, antes de seu martírio em Jerusalém, teria evangelizado na Espanha.
A notícia logo se propagou e Afonso II, rei da Galiza, mandou edificar um pequeno santuário, que foi ampliado no reinado de seu pai e consagrado em 893.
Independentemente da certeza ou não da presença dos restos do apóstolo no tal nicho, (...) o mais importante de sublinhar é a rapidez com que se difunde o culto jacobeu. É evidente que não se deve somente a razões religiosas ou de devoção, mas também a directamente políticas. A monarquia asturiana quer libertar-se, por um lado, da dependência da igreja toledana (...); por outro lado o culto a Santiago serve de aglutinante na luta contra o Islão e de factor de integração da minoria nobiliária no reino ásture.163
No entorno do templo, com as primeiras peregrinações e fundações monásticas, logo começou a se formar uma aglomeração urbana que em breve romperia com os moldes das pequenas cidades de seu tempo: Compostela, topônimo que poderia vir de Campus Stellae, ou
163 VILLARES, História da Galiza, p. 53.
seja, “campo de estrelas”, ou então, mais provavelmente, de Composita Tella, “terras bem ajeitadas”, eufemismo de cemitério, já que na região existira uma antiga necrópole romana.
Arrasada pelos mouros em 997, que só respeitaram a tumba apostólica, Compostela é reconstruída e amuralhada, transformando-se no século XII, como ponto final do Caminho de Santiago, num dos três maiores centros de peregrinação da cristandade, rivalizando com Roma e Jerusalém. Grande parte de seu esplendor medieval, todavia, é devido ao labor de seu primeiro arcebispo, Diego Gelmírez (1068-1140), o qual, por conta de suas relações com o papado e a poderosa ordem de Cluny, logrou obter para a diocese a dignidade episcopal.
Laborioso e enérgico, empreendeu consideráveis obras na catedral e na cidade; organizou uma frota para defender a costa galega das investidas normandas; sob seus cuidados, a escola catedralícia alcançou grande renome no continente, tornando-se Santiago num dos focos culturais do Ocidente. Figura polêmica, seus interesses políticos não raro o fizeram chocar-se com o seu antigo protegido, Afonso VII, a quem havia coroado rei da Galiza, e com a nobreza local e os burgueses compostelanos, os quais, em 1116 e 1136, protagonizaram formidáveis revoltas contra sua autoridade – na primeira das quais fora obrigado a fugir sobre os telhados de Compostela.
Mas não era apenas a cidade jacobeia que passava por momentos de fastígio. A Galiza participava, junto a toda Europa ocidental, de um estágio histórico de grande desenvolvimento cultural e econômico. Na Península, prosseguia a expansão cristã; restando por ser reconquistado, no século XIII, apenas o reino de Granada. Por outro lado, as vilas se consolidavam como estabelecimento rural; incrementava-se a produção agrária; muitos camponeses se libertavam da servidão mediante os contratos de foro164 ou migrando para as cidades, cuja população aumentava, urdindo-se em todo o território uma crescente, ainda que tênue, malha urbana. Com isso, aprofundavam-se os intercâmbios comerciais, tanto internamente, entre o campo e a cidade, quanto com o exterior, por via marítima, pelo Caminho de Santiago ou pelas antigas estradas romanas.
É pelo Caminho de Santiago, também, que a arte românica chega à Galiza: uma arte simples, sólida, sóbria, como os blocos de granito das igrejas que a exemplificam. Difundida primeiramente entre as classes dominantes, esta arte sobreviverá ao longo de muito tempo nas formas populares. Mas é a catedral compostelana – o maior monumento construído na Península na Idade Média – a realização mais completa do românico. A partir de 1075,
164 “O foro, que tanta duração iria ter na história da Galiza, nasce em finais do século XII e tem desde os seus princípios umas características bem demarcadas: supõe uma longa duração (quando não perpetuidade) e estipula o pagamento de uma renda (fixa ou porporcional, mas quase sempre em espécie), além de uma série de serviços de tipo vassálico.” Ibid., p. 61.
iniciou-se a construção de um nova e arrojada basílica (que nos séculos seguintes receberia contribuições do gótico e do barroco), a qual serviria durante muito tempo de modelo para inúmeras outras igrejas do interior. E é na catedral de Santiago, na chamada cripta velha, que se encontra um dos maiores tesouros da arte românica europeia: o Pórtico da Glória, um conjunto escultural de esplêndida beleza, obra do Mestre Mateus.
Não obstante a complexidade desta sociedade altamente hierarquizada, sua estrutura não é difícil de explanar. A base era composta por uma imensa maioria de camponeses, quase todos foreiros; em seguida, vinham os habitantes das cidades, desde humildes artesãos até cambistas e abastados mercadores; acima, finalmente, destacava-se a nobreza, um grupo social bastante reduzido, porém detentor do poder político e da riqueza fundiária, no topo do qual, todavia, situavam-se abades e bispos, a nobiliarquia eclesiástica, característica esta, aliás, que viria a ser bastante saliente na sociedade feudal galega.
No entanto, o esplendor medieval da Galiza não se manifestava apenas na arte e arquitetura românicas. Pelo mesmo Caminho de Santiago por onde chegavam as novidades do continente, apareciam também, entre peregrinos de todas as procedências, cada qual falando sua língua romance, trovadores do país de Oc, ao sul da França. O influxo provençal combinar-se-ia com uma tradição oral local e em breve floresceria a lírica trovadoresca galego-portuguesa, considerada por muitos a segunda mais importante da Idade Média depois da occitana. E não só: por algum tempo, o galego-português tornar-se-ia a língua lírica de todos os reinos cristãos da Península, à excessão da Catalunha, a ponto de o rei de Castela Afonso X, o Sábio (1221-1284), organizar todo um cancioneiro nesta língua, as Cantigas de Santa Maria. É este o momento de maior prestígio da Galiza, de sua língua e de sua cultura.165
No entanto, se havia uma unidade linguístico-cultural galego-portuguesa, a unidade política fora quebrada. Com efeito, desde a segunda metade do século XI, o reino galego havia se transformado num espaço de intensos embates políticos, afetando tanto o condado portucalense quanto a nobreza leonesa e castelhana. Com a morte de Fernando I, em 1065, o seu reino é dividido entre os herdeiros, cabendo a Galiza a Dom Garcia, o qual, todavia, é deposto seis anos depois. Com isso, a Galiza se converte praticamente numa província do reino leonês, governada por condes, embora gozando de significativa autonomia. Após a
165 A história da Galiza medieval, no entanto, sofreu um processo de obliteração por parte da historiografia oficial espanhola. Alusões ao Reino da Galiza nos cronistas árabes, por exemplo, são transmutadas, por historiadores espanhóis, em “Galicia y Asturias” ou mesmo “Reino de León”. Afonso III, denominado numa carta do papa João IX como Adefonsus Regi Gallaeciarum, tranforma-se, simplesmente, nas mãos do historiador Claudio Sánchez Albornoz, em “Alfonso III de Astúrias”. Cf. MURADO, Miguel-Anxo. Outra idea de Galicia. Barcelona: Debate, 2008.
morte de Garcia, em 1096, Afonso VI, rei de Leão, divide o território em dois condados. O primeiro, correspondendo à Galiza, é cedido a Raimundo de Borgonha, casado com Dona Urraca, filha de Afonso. O segundo, o condado portucalense, ao sul do rio Lima, cuja origem remonta ao século X, é cedido a Henrique de Borgonha, casado com Dona Teresa, irmã de Dona Urraca. Com a morte de Raimundo, porém, instaura-se uma profunda crise política, envolvendo toda a nobreza galega. Parte dela toma o partido de Dona Urraca, enquanto a outra, mais rebelde aos interesse leoneses, defende os direitos de Afonso Raimundes, filho de Dona Urraca, o qual, tendo sido coroado rei da Galiza, assume mais tarde os reinos de Castela e Leão como Afonso VII, Imperator totius Hispanie. Assim, o setor mais rebelde da nobreza galega é integrado na monarquia leonesa.
Ao mesmo tempo, Afonso Henriques, filho de Henrique de Borgonha, proclama-se o primeiro rei de Portugal, em 1128, depois da Batalha de São Mamede, usurpando os direitos de sua mãe, Dona Teresa. Em 1139, Afonso Henriques, após uma importante vitória sobre os mouros, na Batalha de Ourique, é aclamado soberano pelos nobres portugueses. Mais tarde, em 1143, a independência de Portugal é reconhecida por Afonso VII. Finalmente, em 1179, o papa Alexandre III ratifica a independência do Reino de Portugal e Afonso Henriques, agora Dom Afonso I, como o seu primeiro monarca. Assim, depois de séculos de uma história comum, estava selada definitivamente a separação entre a Gallaecia lucense e a Gallaecia bracarence.
A constituição do reino português obedece, portanto, a causas complexas que remetem para a própria diferença existente, pelo menos desde a época romana, entre a região bracarense e a lucense; e obedece também à incapacidade da nobreza galega para se constiuir em reino próprio desde os tempos iniciais da reconquista. Da expansão territorial para o sul e do desenvolvimento atlântico de Portugal encarregar-se-á este reino formado a partir da parte meridional da Gallaecia, enquanto que a Galiza lucense, mais virada para si mesma, inserida excentricamente na monarquia castelhana, mas vinculada à Europa através do cordão umbilical do Caminho de Santiago, será capaz, por seu lado, de desenvolver um conjunto de traços específicos que lhe permitirão conservar a sua identidade ao longo da história.166
A arte românica, a lírica trovadoresca, o Caminho de Santiago são três frutos desse zênite cultural galego. A eles há que se acrescentar ainda o Reino de Portugal, o primeiro Estado moderno da nova Europa, nascido das entranhas da Galiza. Como disse, com extremo lirismo, Otero Pedrayo:
166 Ibid., p. 67.
Traballar fermosos edificios de eternidade, cantar liricamente, camiñar polo pracer de inventar novos camiños; esa a definición de nosa terra. Pero cronologicamente românico hai outro síntoma de plenitude: o nacemento de Portugal. Unha dor de parto a un tempo melancólica e optimista coma a dor dunha nai [mãe] moza. Só un pobo na súa forte confianza puido enxendrar ese anhelo que se chama Portugal, anhelo dun más alá dos mares e un além da conciência ordinaria da cultura. (...) El cumpriu moitas das intencións case non esbozadas por Galicia (...).167
A estas palavras pode-se acrescentar ainda outras de Castelao, igualmente poéticas:
Imos supor que houbo dúas Galizas – a que se foi e a que se quedou, a que se axuntou a Castela e a que enxendrou a Portugal –; pero é indubidable que ambas as dúas tiñan un mesmo mecanismo sonoro, un mesmo xeito tonal e rítmico, unha mesma língoa, unha mesma arte e unha mesma cultura; en fin, unha mesma alma patria; e, polo tanto, a división de Galiza en dous Condados, que dispois se convertiron en Reinos diferentes, non autoriza a distinguir dúas modalidades creacionistas, según estas se produxesen nunha ou noutra beira do río Miño, pois a nación galega chegaba até o Douro, e todo canto se veu chamado “galaico-português” é realmente e unicamente “galego”.168
Se por um lado, Portugal ousou levantar ferro e singrar por novos mares, muitas vezes de costas para a Galiza, por outro ele levou sempre consigo um acento, uma peculiaridade, um jeito de olhar o mundo que nasceu justamente ali, no noroeste peninsular, ao tempo em que as duas Galizas, a Gallaecia lucense e a Gallaecia bracarense, formavam uma só comunidade de língua, cultura e destino. Mais tarde, no imaginário de muitos galeguistas, Portugal atuaria como um “referente positivo”,169 sendo visto não raro como a Galiza que deu certo, o filho que saiu de casa e conquistou o mundo.