• Nenhum resultado encontrado

Domingo, 18 de janeiro

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 40-45)

Kim abriu a gaveta e puxou a ficha de Harvey Arnold. Eram quase oito horas da manhã e as enfermeiras do turno da manhã estavam ocupadas redigindo os relatórios. Kim podia ficar à vontade na sala de enfermagem, apenas sob as vistas do vigia.

Leu as anotações das enfermeiras para saber o que tinha acontecido na véspera e na noite anterior. Teve que segurar um sorriso. Aparentemente, a Sra. Arnold estava incomodando as enfermeiras tanto quanto incomodavam a ele, mas a recuperação do Sr. Arnold estava se encaminhando bem. Essa impressão era confirmada pelos gráficos das funções vitais e pelos exames laboratoriais do dia anterior. Satisfeito, Kim guardou a ficha na gaveta e foi ver seu paciente.

O Sr. Arnold estava sentado na cama, tomando o café da manhã e assistindo à televisão.

Pensando consigo mesmo, Kim admirou-se do progresso que a cirurgia cardiovascular tinha atingido nos últimos vinte anos, como mostrava aquele paciente. Ali estava um homem de setenta anos que há menos de quarenta e oito horas encontrava-se gravemente doente e se submetera a uma cirurgia interna no coração. O órgão fora literalmente parado, cortado e separado e já era possível vê-lo relativamente alegre, praticamente livre de dores e aproveitando uma significativa melhora em sua qualidade de vida. Sentiu-se frustrado com a depreciação desse milagre pelo sistema econômico vigente.

– Como se sente, Sr. Arnold? – perguntou Kim.

– Muito bem – disse.

Ele limpou o queixo com o guardanapo. Quando estava sozinho, o Sr. Arnold era um homem agradável, mas quando a mulher estava junto, o ambiente fumegava.

Kim interrompeu o café de seu paciente apenas o tempo necessário para verificar sua roupa e o volume das fezes. Estava tudo normal.

– Tem certeza de que vou poder jogar golfe? – perguntou o Sr. Arnold.

– Sem dúvida – respondeu Kim. – Vai poder fazer tudo que quiser.

Depois de mais algumas brincadeiras, Kim saiu do quarto. Infelizmente, deu de cara com Gertrude Arnold entrando.

– Aí está o senhor, doutor. Fico feliz por encontrá-lo. Exijo uma enfermeira de plantão aqui o dia todo, ouviu?

– Qual é o problema? – perguntou Kim.

– O problema? Vou lhe dizer qual é o problema. As enfermeiras deste andar nunca estão disponíveis. Às vezes leva horas para aparecer alguém. Quando Harvey toca a campainha, elas demoram demais.

– Talvez saibam que o Sr. Arnold está em ótimo processo de recuperação – explicou Kim – e estão ocupadas com outros pacientes que não estão indo tão bem.

– Não venha o senhor agora com desculpas para mim. Quero uma enfermeira aqui o tempo todo.

– Vou chamar uma pessoa para resolver esse assunto – disse Kim.

Momentaneamente aliviada, a Sra. Arnold concordou.

– Não me deixe esperando muito tempo.

– Verei o que posso fazer – disse Kim.

Na sala de enfermagem, Kim pediu ao vigia que localizasse o administrador do AmeriCare e o chamasse para atender a Sra. Arnold. Kim não conseguiu esconder um risinho de satisfação enquanto aguardava o elevador. Adoraria ouvir a conversa entre os dois. A idéia de chatear os administradores do AmeriCare lhe dava um imenso prazer.

A porta do elevador se abriu e Kim teve que se espremer para entrar. Estava muito cheio para uma manhã de domingo. Kim ficou imprensado ao lado de um residente alto e magro, em seu típico jaleco branco. No bolso da camisa lia-se: DR. JOHN MARKHAM – PEDIATRA.

– Com licença – disse Kim. – Por acaso sabe se existe algum vírus entérico atacando crianças em idade escolar atualmente?

– Não que eu saiba – respondeu John. – Estamos tendo muito trabalho com uma gripe, mas com origem respiratória. Por que pergunta?

– Minha filha está com um desarranjo intestinal.

– Quais os sintomas?

– Começaram ontem pela manhã com cólicas. Depois, diarréia. Dei a ela um gastrintestinal.

– Ajudou?

– No início achei que sim. Mas ontem à noite os sintomas voltaram.

– Teve náuseas ou vômitos?

– Um pouco de náusea, mas sem vômito, ao menos por enquanto. Perdeu também o apetite.

–Febre?

– Não, nenhuma.

– Quem é o pediatra dela?

– Era George Turner. Depois da fusão, ele teve de sair da cidade.

– Eu me lembro do Dr. Turner – disse John. – Eu atendia no Samaritano. É um bom homem.

– Com certeza – disse Kim. – Está trabalhando em Boston, no Hospital da Criança.

– Para prejuízo nosso – comentou John. – Mas voltando à sua filha, sou capaz de apostar que ela teve uma intoxicação alimentar e não propriamente um vírus.

– Sério? Sempre associei intoxicação alimentar a efeitos fulminantes. Como o famoso estafilococo na salada de batatas do piquenique.

– Não necessariamente. Ela pode ocorrer de muitas formas. Mas enfim, pelo sintoma da diarréia aguda, a maior probabilidade é mesmo de uma intoxicação alimentar.

Estatisticamente, é a coisa mais provável. Para que tenha uma idéia, o Centro para Controle de Doenças estima que ocorram de duzentos a trezentos milhões de casos anuais.

O elevador parou, e John desembarcou.

– Espero que sua filha melhore – disse John, com a porta se fechando.

Kim sacudiu a cabeça. Virou-se para outro residente.

– Ouviu isso? Duzentos a trezentos milhões de vítimas de intoxicação alimentar anualmente! É uma loucura!

– Significa que todo mundo no país sofre em média uma por ano – comentou o

residente.

– Não é possível – disse uma enfermeira que deixava o serviço.

– Eu acho que é – opinou outro residente. – A maioria das pessoas atribui os sintomas a um mal–estar estomacal. Ora, sabemos que não existe essa coisa de mal-estar estomacal.

– É de estarrecer – disse Kim. – Faz você pensar duas vezes antes de sair para comer fora.

– Também não é difícil contrair uma intoxicação alimentar dentro de casa – disse uma mulher no fundo. – Na maioria das vezes, acontece por causa das sobras de comida, embora o manuseio impróprio do frango cru também seja uma das principais causas.

Kim balançou a cabeça. Sentia uma desagradável sensação de que todos no elevador sabiam mais sobre o assunto do que ele.

Chegando ao térreo, Kim saltou do elevador e deixou o hospital. Enquanto dirigia, não pôde parar de pensar em intoxicação alimentar. Ainda estava chocado com a idéia dos duzentos a trezentos milhões de casos anuais nos Estados Unidos. Se essa estatística fosse verdadeira, parecia-lhe inacreditável o fato de nunca ter lido nada a respeito em nenhuma revista médica.

Kim não conseguia tirar esses pensamentos da cabeça quando entrou em casa e atirou as chaves sobre a mesinha do hall. Pensou em navegar na Internet e procurar uma estatística sobre intoxicação alimentar, quando escutou o som da TV vindo da cozinha. Foi até a porta e entrou.

Ginger estava debruçada sobre a pia, lutando com o abridor de lata preso na parede.

Vestia uma roupa de ginástica que não deixava muito espaço para a imaginação. Tanto aos sábados quanto aos domingos, fazia religiosamente sua aeróbica. Becky estava prostrada no sofá da sala de estar, assistindo a desenhos animados. Estava com o cobertor enrolado até o pescoço. Parecia ligeiramente pálida em contraste com a lã verde-escura.

Tinham passado a noite anterior em casa por causa do estado de Becky. Ginger fez uma galinha, que a menina quase não tocou. Depois que Becky foi dormir, Ginger ficou para fazer companhia. Kim esperou que estivesse tudo em paz. Àquela hora, quando estava chegando das suas visitas, esperava encontrá-las ainda dormindo.

– Oi, meninas, cheguei!

Nenhuma das duas respondeu.

– Droga! – exclamou Ginger. – Essa coisa está um lixo.

– Qual o problema? – perguntou Kim, dando um passo em sua direção. Ela desistira do abridor e estava com as mãos na cintura. Parecia exasperada.

– Não consigo abrir essa lata – disse, mal-humorada.

– Eu abro – ofereceu-se Kim, tomando-lhe a lata das mãos. Antes porém verificou o rótulo. – O que é isso?

– Caldo de galinha, exatamente como diz aí – respondeu Ginger.

– O que vai fazer com isso às nove da manhã?

– É para Becky. Minha mãe sempre fazia isso para mim quando eu tinha dor de barriga.

– Eu já disse a ela que não estou com fome – gritou Becky.

– Minha mãe sabia das coisas – disse Ginger.

Kim largou a lata em cima da mesa e foi até a sala de estar. Curvou-se sobre o sofá e pôs a mão na testa de Becky. Ela mexeu a cabeça tentando manter o aparelho dentro de seu

campo de visão.

– Sente-se melhor? – perguntou Kim.

Ela parecia um pouco quente.

– Não. E também não quero comer nada. Faz a barriga doer mais.

– Ela precisa comer – disse Ginger. – Não jantou quase nada.

– Se o organismo dela está recusando, então é melhor deixar. – respondeu Kim.

– Mas ela vomitou tudo – prosseguiu Ginger.

– Foi mesmo, Becky? – O vômito era um novo sintoma.

– Só um pouco – admitiu.

– Não seria melhor chamar um médico? – perguntou Ginger.

– E o que você pensa que eu sou? – retrucou Kim, ofendido.

– Sabe o que quero dizer. Você é o melhor cirurgião cardíaco do mundo, mas não tem muita prática em lidar com barrigas de criança.

– Por que não vai lá em cima e me traz o termômetro?

– Onde?

– No banheiro maior, prateleira superior direita. – E perguntando para Becky: – E as cólicas?

– Continuam.

– Estão piores?

– Na mesma. Vão e vêm.

– E a diarréia?

– Precisamos falar disso? Tenho vergonha.

– Está bem, querida. Tenho certeza de que em poucas horas estará se sentindo bem novamente. Não quer mesmo comer alguma coisa agora?

– Não tenho fome.

– Tudo bem – disse Kim. – Quando quiser, é só pedir.

Já estava escuro quando Kim dobrou na rua de Tracy e estacionou em frente ao gramado. Desceu do carro e deu a volta para abrir a porta do passageiro. Becky estava enrolada no cobertor até a cabeça. Kim ajudou a menina a saltar do carro e subir a escada da varanda. Ela passara o dia todo deitada, assistindo à TV. Kim tocou a campainha e esperou.

Tracy abriu a porta e foi logo dizendo oi para a filha, mas calou-se espantada e franziu a testa.

– Por que o cobertor? – perguntou. Seus olhos dirigiram-se para Kim em busca de uma explicação e depois para Becky – Entrem!

Becky entrou e Kim a acompanhou. Tracy fechou a porta.

– O que aconteceu? – perguntou Tracy, levantando a ponta do cobertor do rosto de Becky. – Está pálida. Você está doente?

Minúsculas lágrimas se formaram no canto dos olhos de Becky. Tracy percebeu a angústia da filha e imediatamente a envolveu num abraço protetor. Abraçada à menina, lançou um olhar para Kim.

– Ela está um pouco enjoada – admitiu Kim, defensivamente.

Tracy segurou Becky pelos ombros para observá-la melhor. Becky esfregou os olhos.

– Você está muito pálida – disse Tracy. – O que está havendo?

– Apenas um ligeiro distúrbio gastrintestinal – opinou Kim. Provavelmente intoxicação alimentar. Pelo menos foi essa a opinião de um pediatra residente com quem conversei.

– Se é tão ligeiro, por que ela está tão pálida? – questionou Tracy pondo a mão na testa de Becky.

– Ela não tem febre – disse Kim. – Apenas cólicas e diarréia.

– Deu alguma coisa a ela?

– É claro. Tomou Pepto-Bismol e como pareceu não fazer efeito dei Imodium.

– Melhorou?

– Um pouco.

– Preciso ir ao banheiro– disse Becky.

– Está bem, querida – disse Tracy – use o de cima. Eu subo num instante.

Becky largou o cobertor e subiu correndo a escada.

Tracy virou-se para Kim. Tinha o rosto vermelho de indignação:

– Meu Deus, Kim! Menos de quarenta e oito horas com você, e já é o suficiente para ela voltar doente. O que fez com ela?

– Nada de incomum.

– Seria melhor não ter viajado – desabafou Tracy.

– Ora, vamos – disse Kim, começando a irritar-se – se ela contraiu algum vírus, pode muito bem ter acontecido antes do fim-de-semana, enquanto você ainda estava aqui.

– Pensei tê-lo ouvido dizer que foi intoxicação alimentar – disse Tracy.

– Foi só uma opinião de um pediatra residente.

– Ginger cozinhou alguma coisa no fim-de-semana?

– Na verdade, sim. Fez um frango delicioso ontem para jantar.

– Frango! – exclamou Tracy – É claro, só pode ter sido isto.

– Então, a culpa é da Ginger? – disse Kim com sarcasmo. – Você não gosta mesmo dela, não é?

– Nem gosto, nem desgosto. Hoje em dia ela não me diz nada. Mas é um fato que é jovem e sem dúvida inexperiente na cozinha. Quem conhece sabe que é preciso ter muito cuidado com frangos.

– Você acha que sabe tudo. Bem, para seu conhecimento, Becky não tocou no frango.

Além disso, ela não se sente bem desde a manhã de sábado. Isso significa que se foi vítima de intoxicação alimentar, então foi no Onion Ring da Prairie Highway, o lugar que seu novo namorado gosta de se gabar dizendo para Becky que é dele.

Tracy dirigiu-se para a porta.

– Boa noite, Kim – disse, rudemente.

– Outra coisa que tenho para lhe dizer – desabafou Kim – Não gosto que fique insinuando para Becky que sou algum tipo de bicho-papão por Encorajá-la a competir no campeonato nacional.

– Nunca aprovei essa sua obsessão – disse Tracy. – Quando Becky me explicou por que não queria disputar esse torneio, eu a apoiei. Disse também que você provavelmente tentaria convencê-la a mudar de idéia. Foi só isso.

Kim lançou um olhar colérico sobre a ex-mulher. Aquele ar superior de psicóloga que assumia toda vez que discutiam o deixava fora do sério, especialmente quando ela resolvia advertir a filha a respeito do que ele iria dizer a ela.

– Boa noite, Kim! – repetiu Tracy, com a porta ainda aberta.

Kim girou sobre os calcanhares e saiu sem olhar para trás.

6

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 40-45)