Kim dobrou a esquina de sua rua no velho Mercedes e diminuiu a marcha para cruzar o portão. Era uma grande construção em estilo Tudor, erguida no meio de um espaçoso terreno ajardinado, num elegante subúrbio da cidade. A casa já tivera seus tempos de esplendor, mas agora parecia abandonada. As folhas secas do outono cobriam o gramado como um tapete de entulho umedecido. As paredes descascavam e precisavam de uma pintura urgente. Algumas persianas estavam empenadas e no telhado umas poucas telhas tinham se soltado e ameaçavam despencar dentro da calha.
Eram nove horas de uma manhã de sábado fria e cinzenta, e a vizinhança parecia deserta. Não havia sinal de vida quando Kim cruzou o portão e parou em frente à garagem. Até o jornal do vizinho ainda estava na porta.
O interior da casa era o reflexo do exterior. Estava praticamente despojado de toda a mobília e dos objetos que Tracy decidira levar ao se mudar. Além disso, a casa não passava por uma faxina havia meses. A sala de estar, em particular, tinha uma aparência de salão de dança, contendo apenas uma cadeira, um pequeno carpete desbotado, uma mesa de canto com o telefone e um único abajur de pé.
Kim deixou as chaves numa prateleira do hall antes de atravessar a sala em direção à cozinha. Chamou pelo nome de Becky, mas ela não respondeu. Kim deu uma espiada na pia.
Nenhum prato sujo.
Tendo acordado pouco depois das cinco da manhã, como de costume, Kim já tinha ido ao hospital para fazer suas visitas. Àquela hora, já esperava encontrar Becky de pé e pronta para sair.
– Becky, sua dorminhoca, onde está você? – perguntou enquanto subia as escadas.
Assim que chegou ao segundo andar escutou a porta do quarto de Becky se abrindo.
Ela surgiu no corredor ainda de pijama. Estava de olheiras os olhos semicerrados e os cabelos mais pareciam um espanador de pó, de tão embaraçados.
– O que há com você? – perguntou Kim. – Pensei que estivesse com pressa de chegar à aula de patinação. Vamos embora.
– Não estou me sentindo bem – respondeu Becky, coçando os olhos com as costas da mão.
– Como assim? O que está sentindo?
– Estou com dor de barriga.
– Bem, não é nada. Tenho certeza. A dor vem e passa ou contínua?
– Vem e passa.
– Onde, exatamente, está doendo?
Becky fez alguns movimentos em círculo com a mão sobre o abdômen.
– Sente calafrio? – perguntou Kim, colocando a palma da mão sobre a testa da menina.
Becky sacudiu negativamente a cabeça.
– Humm, só um pouco de cólica – concluiu Kim. – Provavelmente é seu pobre estômago reclamando da porcaria que você comeu ontem à noite. Vá tomar um banho e se arrumar
enquanto preparo um café para você. E rápido; não quero sua mãe reclamando no meu ouvido que chegou atrasada na aula.
– Não tenho fome – disse Becky.
– O banho abrirá seu apetite. Vejo você lá embaixo.
Na cozinha, Kim pôs à mesa os cereais, o leite e o suco. Voltou ao pé da escada para chamar Becky, mas escutou o som inconfundível do chuveiro. Aproveitou o momento e ligou para Ginger.
– Está tudo tranqüilo no hospital – disse Kim, assim que ela atendeu. – Os três pós-operados estão reagindo bem. Só os Arnolds, principalmente Gertrude Arnold, é que têm me enchido a paciência.
– Fico feliz – disse Ginger num tom acre.
– O que há de errado dessa vez? – perguntou Kim. Ele tivera outro bate-boca com uma das enfermeiras no turno daquela manhã e só pensava agora em ter um dia tranqüilo.
– Bem, ontem à noite eu queria sair. Não acho justo.
– Vamos parar por aí! – cortou Kim. – Não quero mais voltar a esse assunto, por favor.
Estou cansado dessa besteira. Além do mais, Becky não acordou bem esta manhã.
– O que há com ela? – A preocupação de Ginger era sincera.
– Nada grave, só uma dor de estômago. – Kim ia contar os detalhes, mas ouviu Becky descendo a escada. – Ela está descendo. Encontre-nos no ringue do Sterling Place. Tchau!
Quando Becky entrou na cozinha, Kim já tinha pendurado o fone no gancho. Estava enrolada no roupão dele, que ficava tão grande que se arrastava pelo chão, com as mangas caindo até as batatas das pernas.
– Tem cereais, leite e suco à mesa – disse Kim. – Sente-se melhor?
Becky sacudiu a cabeça.
– O que vai comer?
– Nada – respondeu.
– Você precisa de alguma coisa. Que tal uma colherada de antiácido?
Becky fez uma careta de horror.
– Vou tomar um pouco de suco– sugeriu.
As lojas do Sterling Place Mall ainda estavam abrindo na hora em que eles atravessavam a alameda que dava no ringue. Kim não tinha voltado a tocar no assunto, mas estava certo de que Becky se sentia melhor. Ela acabou comendo um pouco dos cereais e, no carro, foi a mesma tagarela de sempre.
– Vai assistir à minha aula? – perguntou ela.
– Essa é a idéia – respondeu o pai. – Estou ansioso para ver esse seu giro triplo de que vem falando tanto.
Na borda do ringue, Kim entregou os patins que carregava para Becky. Um apito tocou, indicando o fim da aula da turma intermediária.
– Bem na hora – disse Kim.
Becky sentou-se para desamarrar o cadarço do tênis. Kim deu uma olhada ao redor nos outros pais. A maioria era de mães. Subitamente, seus olhos cruzaram com os de Kelly Anderson. Apesar da hora, parecia estar vindo de um salão de beleza para um desfile de moda. Ela sorriu. Kim olhou para o lado.
Uma menina com mais ou menos a mesma idade de Becky chegou deslizando e saiu do
ringue. Sentou-se ao lado de Becky e disse:
– Oi!
Becky respondeu do mesmo jeito.
– Ah, meu cirurgião cardíaco predileto!
Kim se virou e, para sua tristeza, deu de cara com Kelly.
– Já conhecia minha filha? – perguntou ela.
Kim sacudiu a cabeça.
– Caroline, cumprimente o Dr. Reggis.
Apesar de relutante para conversar, Kim cumprimentou a menina e apresentou Becky a Kelly.
– Que maravilhosa coincidência encontrá-lo novamente – disse Kelly, endireitando-se depois de se inclinar para cumprimentar Becky. – Vocês viram minha reportagem no jornal de ontem à noite, sobre os seis meses da fusão do hospital?
– Não! – respondeu Kim.
– Mas que pena, iria gostar. Ficou bastante tempo no ar e todo mundo acha que sua declaração sobre o “lucro líquido” roubou o espetáculo. Os telefones da emissora não param de tocar, o que o diretor adora.
– Por favor, me lembre de nunca mais falar com você.
– Calma aí, Dr. Reggis! – disse Kelly com a expressão brincalhona – assim, magoa meus sentimentos.
– Kim! – chamou uma voz do outro lado do ringue. – Kim, aqui!
Ginger tinha acabado de chegar e acenava com entusiasmo. Começou a vir na direção de Kim e Kelly. Era bem jovem, não mais que vinte e cinco anos. Tinha a leveza de uma fada, cabelos louros compridos e lisos, e pernas fatais. Fora do serviço, fazia questão de se vestir com um estilo casual e sexy muito pessoal. Naquela manhã vestia jeans apertados, um bustiê decotado expondo a barriga rija bem delineada. Usava uma faixa na testa e munhequeiras, evidência de sua paixão pela aeróbica. Calçava tênis especiais de corrida e estava sem casaco.
– Mas vejam só! – murmurou Kelly, observando Ginger aproximando-se. – O que temos aqui? Farejo uma manchete sensacionalista; o renomado cirurgião cardíaco e a professora de aeróbica.
– Ela é minha recepcionista – explicou Kim, numa tentativa de minimizar o confronto inevitável.
– Não duvidaria disso nem por um segundo. Mas olhe só aquele corpo. E que entusiasmo. Acho que, para ela, você é o máximo.
– Estou lhe dizendo que ela trabalha para mim – rebateu Kim asperamente.
– Ei, acredito em você. Por isso fiquei interessada. Meu clínico e meu oftalmologista também se divorciaram para casar com suas recepcionistas. Farejo uma história aqui. O que poderá ser isso? A típica crise da meia-idade no universo da medicina?
– Quero que fique longe dela– rosnou Kim.
– Ora vamos, Dr. Reggis. Vocês, cirurgiões cardíacos, se consideram os tais. Esse é o tipo de assunto que o público gosta, especialmente se ela tem a metade de sua idade.
Becky virou-se para Caroline e sussurrou:
– A gente se vê. Aí vem a namorada enxerida do meu pai. – Becky ficou de pé, entrou
no ringue e saiu deslizando em velocidade.
Ginger chegou perto de Kim e antes que ele desse conta, saudou-o com um vigoroso beijo no rosto.
– Sinto muito, querido – disse. – Sei que fui rude ao telefone esta manhã. Só estava com saudades.
– Humm! Nem tão profissional – comentou Kelly. – A prova do batom.
Kim esfregou o rosto com as costas da mão.
– Uau! – exclamou Ginger ao perceber a marca no rosto dele. – Deixe que eu limpo.
Antes que Kim tivesse tempo de esboçar outra reação, Ginger juntou os dedos e passou-os no rpassou-osto dele.
– Agora saiu! – comentou Kelly.
Ginger virou-se para Kelly e imediatamente reconheceu-a como celebridade local.
– Kelly Anderson! – disse, emocionada. – Que prazer! Adoro o seu jornal.
– Ora, obrigada. E você é?
– Ginger Powers.
– Prazer em conhecê-la, Ginger. Fique com um cartão meu. Talvez possamos conversar numa hora qualquer.
– Puxa, obrigada. – Ginger pegou o cartão, sorrindo de felicidade. – Adoraria bater um papo com você.
– Ótimo! Estou sempre editando alguma matéria ligada à saúde ou correndo atrás de opiniões de quem trabalha no ramo.
– Está me dizendo que gostaria de me entrevistar? – Perguntou Ginger. Estava surpresa e maravilhada.
– Por que não? – respondeu Kelly.
Ginger apontou para Kim.
– Você devia entrevistar a ele e não a mim. Kim sabe tudo sobre medicina.
– Parece que você tem uma profunda admiração pelo nosso bom doutor. Estou certa?
– Como se houvesse dúvida – respondeu Ginger, fingindo indignação. – É o melhor cirurgião cardíaco do mundo. E o mais bonito também. – Ginger tentou beliscar o rosto de Kim, mas dessa vez ele conseguiu evitá-la.
– Bem, acho que está na minha hora – disse Kelly – Caroline, vista o casaco e vamos.
Ginger, querida, não se esqueça de me ligar. Vamos conversar a sério. E, Kim, eu certamente compreendo por que escolheu Ginger como atendente e acompanhante.
Mãe e filha começaram a se distanciar. Kelly ajudava Caroline com os patins e a mochila. A menina estava um pouco atrapalhada vestindo o casaco.
– É mesmo simpática – disse Ginger, observando a figura de Kelly.
– É uma cascavel – disse Kim. – E eu não quero que você fale com ela.
– Por quê?
– Ela só me traz aborrecimento.
– Mas seria divertido – queixou-se Ginger.
– Ouça bem – fuzilou Kim. – Se eu souber que falou com ela, poderá considerar-se desempregada e fora de minha vida. Entendeu?
– Oh! – respondeu, de cara amarrada. – Mas como está rabugento! O que há de errado com você?
Becky, que fazia seus exercícios de aquecimento, apareceu no local onde Kim e Ginger estavam.
– Não posso fazer a aula – disse Becky, saindo do ringue. Sentando no banco, começou a desamarrar os patins apressadamente.
– Por que não? – perguntou Kim.
– A dor de barriga voltou – respondeu Becky. – Preciso ir ao banheiro urgente!