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Sexta-feira, 23 de janeiro

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 92-101)

Kim fez uma ligeira pausa para recuperar o fôlego. Deu uma olhada no relógio pendurado na parede azulejada da sala de cirurgia. Eram quase duas horas da tarde. Estava indo bem. Aquele era seu terceiro e último caso.

Kim examinou o fundo da incisão. O coração encontrava-se totalmente exposto. Estava no processo de colocar o paciente em bypass cardiopulmonar. Assim que concluísse, o coração poderia ser paralisado e aberto, para que fosse trocada a válvula danificada.

O estágio seguinte era particularmente crítico: a introdução da cânula de infusão arterial para aspergir as artérias coronárias. Através dessa cânula seria bombeada a solução para a cardioplegia, que provocaria aparada do coração com seu alto nível de potássio, reduzindo a temperatura e nutrindo-o durante a operação. A questão era manter a pressão arterial sob controle.

– Bisturi – disse Kim.

A enfermeira entregou-lhe na palma da mão o bisturi com a lâmina apropriada.

Kim introduziu o afiado instrumento na cavidade torácica e posicionou-o no sentido da aorta. A lâmina tremeu em sua mão; Kim pensou consigo mesmo se Tom teria percebido.

Pez um minúsculo corte na aorta e em seguida cobriu a incisão com a ponta do indicador esquerdo. Foi um movimento rápido para que a perda de sangue fosse mínima. Tom limpou o excesso.

– Cânula de infusão arterial– pediu Kim.

O instrumento foi colocado em sua mão. Introduziu-o na cavidade torácica e posicionou-o próximo ao dedo, de forma a obstruir a incisão na aorta. Moveu a ponta sob o dedo, pressionando-a para o interior da artéria pulsante. Por alguma estranha razão, a cânula não penetrou na parede arterial. O sangue arterial começou a jorrar.

Excepcionalmente, Kim entrou em pânico. Com o sangue inundando o ferimento, pressionou com demasiada força o instrumento e cortou a aorta, aumentando a abertura. Agora o corte era grande demais para encaixar na extremidade bulbosa da cânula. O sangue espirrou com força suficiente para salpicar a máscara de proteção facial de Kim.

Kim, agora, estava diante de uma emergência cirúrgica. Em vez de se deixar tomar pelo pânico, sua experiência falou mais alto. Recuperando rapidamente a compostura, levou a mão esquerda ate a incisão. Às cegas, seu dedo encontrou o buraco no vaso pulsante e ele o apertou, interrompendo parcialmente o sangramento. Tom rapidamente drenou sangue suficiente para dar a Kim uma visão parcial.

– Sutura! – vociferou Kim.

A agulha com um fio de seda negra foi colocada em sua mão. Habilmente, atravessou com a agulha a parede arterial. Fez isso algumas vezes e quando puxou a sutura o buraco se fechou.

Contida a hemorragia, Kim e Tom entreolharam-se por sobre o corpo do paciente. Tom fez um sinal com a cabeça e Kim concordou. Para surpresa da equipe, ambos dirigiram-se a um canto da sala. Mantiveram as mãos enluvadas e esterilizadas pressionadas contra o peito

coberto pelo gown esterilizado.

– Kim, deixe-me terminar essa última cirurgia – insinuo Tom em voz baixa. Era uma sugestão apenas para os ouvidos de Kim. – É uma forma de retribuir o que fez por mim há duas semanas, quando fiquei gripado. Lembra-se?

– Claro que lembro.

– Você está visivelmente exausto.

Era verdade: Kim estava morto de cansaço. Passara a maior parte da noite na sala de espera da UTI com Tracy. Quando as condições de Becky pareceram estabilizadas, Tracy conseguiu convencê-lo a tirar algumas horas de descanso num dos quartos de plantão dos residentes. Foi ela também quem o persuadiu a não desistir das cirurgias marcadas, argumentando que os pacientes precisavam dele. Ela insistiu que seria melhor manter-se ocupado, já que não havia nada a fazer por Becky além de esperar. Convenceu-o de que já estaria no hospital e, portanto, disponível em caso de necessidade.

– Como conseguíamos agüentar tudo isso quando éramos residentes? – lembrou-se Kim.

– Não dormíamos nunca.

– As virtudes da juventude – disse Tom. – A questão é que não somos mais jovens.

– E verdade – comentou, fazendo uma pausa. Entregar o caso a outra pessoa, mesmo alguém tão qualificado como Tom, não era uma decisão fácil para ele. – Está bem – disse, finalmente. – Você assume. Mas estarei de olho em você como um falcão.

– Não poderia esperar outra coisa – sorriu Tom. Conhecia Kim bem o suficiente para reconhecer seu senso de humor.

Os dois cirurgiões voltaram à mesa de operação. Dessa vez Tom se posicionou do lado direito do paciente.

– Muito bem, pessoal – disse Tom. – Vamos introduzir a cânula. Bisturi, por favor!

Com Tom na direção, a operação transcorreu tranqüilamente. Embora Kim estivesse do lado esquerdo do paciente, foi ele quem colocou a válvula em posição e fez as primeiras suturas. Tom cuidou do resto. Assim que o esterno foi fechado, Tom sugeriu que Kim encerrasse seu dia de trabalho.

– Não se importa?

– Claro que não. Vá logo ver como está Becky.

– Obrigado – disse Kim, tirando o avental e as luvas.

No instante em que abria a espessa porta da sala de cirurgia, Tom o avisou:

– Não se preocupe que eu e Jane cuidaremos dos relatórios pós-operatórios. E se precisar de alguma coisa, conte comigo.

– Eu agradeço – disse.

Kim deu uma passada rápida no vestiário e vestiu um jaleco comprido que abotoou sobre a roupa que usava. Estava ansioso para chegar à UTI e não queria Perder tempo trocando de roupa.

Kim visitara a unidade de tratamento intensivo antes e depois de cada cirurgia. Becky mostrara um leve sinal de recuperação e já se cogitava até na possibilidade da retirada do tubo respiratório. Kim não se deixou entusiasmar muito, sabendo que tinha sido colocado fazia menos de vinte e quatro horas.

Antes da primeira cirurgia tivera tempo de ligar uma vez mais para George e perguntou se ele tinha algum outro palpite para ajudar Becky. Infelizmente, não, exceto em relação à

plasmaférese, o que não recomendava.

Kim tinha lido sobre plasmaférese no caso da toxemia causada por E. coli O,57:H7 durante a pesquisa que fizera na biblioteca durante a operação de Becky. Consistia na reposição do plasma no paciente após ser centrifugado e as proteínas plasmáticas depletadas.

Infelizmente, era um tratamento controverso, considerado experimental e com grande risco de transmissão do HIV, visto que o novo plasma era proveniente de centenas de doadores diferentes.

A porta do elevador se abriu e Kim não gostou de descer com um alegre grupo de funcionários que voltava para casa após o fim do turno da manhã. Sabia que era uma atitude irracional de sua parte, mas não pôde deixar de se sentir incomodado pelo animado bate-papo entre eles.

Saiu do elevador e seguiu pelo corredor. Quanto mais se aproximava da UTI, mais nervoso ficava. Era quase como uma premonição.

Deu uma parada na entrada da sala de espera para ver se Tracy estava lá. Ela havia pensado em ir para casa tomar um banho e trocar de roupa. Kim a viu sentada numa cadeira próxima à janela. Quase no mesmo instante, ela percebeu sua chegada e se pôs de pé.

Lágrimas corriam por seu rosto.

– O que há de errado agora? – perguntou ele, resignado. – Alguma mudança?

Por um momento, Tracy não conseguiu dizer nada. A pergunta provocara-lhe outra ânsia de choro que lutou para conter.

– Ela piorou – disse, finalmente. – A Dra. Stevens falou sobre uma reação em cadeia que levaria a um colapso múltiplo dos órgãos vitais e outras coisas incompreensíveis para mim, mas disse que deveríamos nos preparar. Acho que queria dizer que Becky pode morrer!

– Becky não vai morrer! – gritou Kim com uma veemência que beirava a fúria. – O que aconteceu para ela sugerir um absurdo desses?!!

– Becky sofreu um ataque – disse Tracy. – Eles acham que está cega.

Kim cerrou os olhos com força. A idéia de sua filha de dez anos sofrendo um ataque era para ele uma imagem irreal. No entanto, tinha consciência de que sua trajetória clínica era desastrosa, e que atingir um ponto irreversível não era surpresa.

Deixando Tracy na sala de espera, Kim entrou na UTI. Como na tarde do dia anterior, um grupo de médicos estava espremido na sala de Becky. Kim entrou e deparou-se com um novo rosto, Dr. Sidney Hampton, neurologista.

– Dr. Reggis – chamou Claire.

Kim ignorou a pediatra. Abriu caminho até a cama e observou a filha. Era uma sombra esquálida de sua fisionomia habitual, presa a um emaranhado de fios e tubos, cercada por aparelhos. Telas de cristal líquido e monitores transmitiam informações em forma de leitura digital e cursores gráficos.

Os olhos de Becky estavam fechados. Sua pele estava azulada e translúcida.

– Becky, sou eu, o papai – sussurrou-lhe ao ouvido e observou seu rosto gelado. Ela não deu sinal de ter escutado.

– Infelizmente, ela está insensível – disse Claire.

Kim endireitou-se. Sua respiração era curta e rápida.

– Acredita que teve um ataque?

– Tudo indica que sim – disse Sidney.

Kim teve de se conter para não botar a culpa no mensageiro.

– O problema principal é que a toxina parece estar destruindo as plaquetas no mesmo instante em que entram na corrente sanguínea – disse Walter.

– É verdade – prosseguiu Sidney. – Não há meios de saber se foi uma hemorragia intracraniana ou uma embolia provocada pelas plaquetas.

– Ou uma combinação das duas – sugeriu Walter.

– É uma possibilidade – admitiu Sidney.

– De uma forma ou de outra – acrescentou Walter – a rápida destruição das plaquetas deve estar formando um lodo na micro circulação. Estamos diante daquele quadro de colapso múltiplo dos órgãos vitais que detestamos ver.

. – As funções renais e hepáticas estão definitivamente caindo. – disse Arthur. – A diálise peritoneal não está surtindo efeito.

Kim teve de esforçar-se para conter a raiva diante daquela dialética. Certamente, não estava sendo de nenhum benefício para sua filha. Procurou raciocinar e manter-se calmo.

– Se a diálise peritoneal não funciona – disse Kim, controlando a voz – talvez fosse melhor transferi-la para o Hospital Suburbano e colocá-la numa máquina de diálise.

– Essa hipótese está fora de questão – disse Claire. – Seu estado é demasiadamente crítico para ser transferida.

– Bem, parece-me que temos de fazer alguma coisa – disse Kim. Já não conseguia manter tanta calma.

– Estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance – disse Claire. – Estamos conseguindo manter suas funções renais e respiratórias e repondo as plaquetas.

– E quanto à plasmaférese? – perguntou Kim.

Claire olhou para Walter.

– O AmeriCare não autoriza – disse Walter.

– Foda-se o AmeriCare – estourou Kim. – Se houver algo que ajude, será feito.

– Espere um pouco, Dr. Reggis – disse Walter. O homem de cabelos grisalhos deu um passo à frente. Sentia-se obviamente constrangido em ter de tocar naquele assunto. – O AmeriCare é proprietário deste hospital. Não podemos simplesmente erguer o nariz diante de suas diretrizes. Plasmaférese é demasiadamente caro e experimental. Para os leigos, não tenho sequer permissão de mencionar esse nome.

– O que é preciso para se conseguir uma autorização? Eu pago do meu bolso, se for o caso.

– Vou ter de ligar para o Dr. Norman Shapiro – disse Walter. – É o presidente do conselho administrativo do AmeriCare.

– Ligue logo de uma vez! – rosnou Kim. – Imediatamente!

Walter olhou para Claire. Ela sacudiu os ombros.

– Suponho que uma ligação não fará mal – disse ela.

– Por mim, tudo bem – disse Walter, deixando a sala para usar o telefone.

– Dr. Reggis, plasmaférese é como um tiro no escuro – disse Claire. – Creio que seria correto de minha parte avisá-lo e à sua ex-esposa de que devem estar preparados para qualquer eventualidade.

O rosto de Kim enrubesceu. Não estava com a menor disposição de “preparar-se”

como Claire eufemisticamente sugerira. Ao contrário, desejava investir contra os responsáveis

pela situação lastimável de Becky e naquele momento os alvos mais próximos eram os médicos dentro daquela sala.

– O senhor me entende, não? – disse Claire, procurando ser amável.

Kim não respondeu. Num instante de lucidez, reconheceu o absurdo que era responsabilizar os médicos pela tragédia de Becky, principalmente sabendo de quem era a culpa.

Sem nada dizer, Kim virou as costas para Claire e deixou a UTI. Carregava com ele toda sua raiva, frustração e uma humilhante sensação de impotência. Atravessou o corredor com passo firme.

Tracy ainda se encontrava na sala de espera e percebeu imediatamente que ele estava transtornado. Quando passou direto sem lhe dirigir sequer um olhar, ela se levantou e correu atrás dele. Tinha medo do que poderia fazer.

– Kim, pare! Aonde vai? – Ela o puxou pela manga.

– Dar uma saída – disse, soltando-se dela.

– Aonde?

Tracy precisava correr para acompanhar seu passo decidido. Teve medo quando olhou em seu rosto. Por um instante ela esqueceu-se da própria dor.

– Tenho de fazer algo – disse ele. – Não posso simplesmente ficar sentado aqui de braços cruzados. Nesse exato momento não posso ajudar Becky, mas, por Deus, vou descobrir como ela ficou doente.

– Como irá fazer isso? Kim, você precisa se acalmar.

– Kathleen me disse que o problema do E. coli é geralmente provocado por carne moída.

– Todo mundo sabe disso.

– Acho que só eu não sabia. E lembra-se quando lhe disse na semana passada que tinha levado Becky ao Onion Ring da Prairie Highway? Ela comeu um hambúrguer que estava malpassado. Só pode ter sido lá que ela pegou a doença!

– Está me dizendo que vai agora para aquele Onion Ring? – perguntou Tracy, incrédula.

– Isso mesmo. Se foi lá que Becky ficou doente, é para lá que eu vou

– Neste momento, não importa onde Becky ficou doente. O fato é que ela está doente.

Podemos nos preocupar sobre como ou por que noutra hora.

– Pode não ser importante para você. Mas é para mim.

– Kim, você está fora de controle. – Tracy implorou, desesperada. – Só uma vez, não pode pensar em outra pessoa além de você?

– Que diabos está querendo dizer? – retrucou Kim, cada vez mais furioso.

– É uma coisa sua, não de Becky. Só tem a ver com você e esse seu ego de médico.

– Pro inferno com essa baboseira – grunhiu Kim. – Não estou com a menor disposição para ouvir esse seu lixo psicológico. Agora não!

– Não está ajudando ninguém descarregando desse jeito. É uma ameaça até para você mesmo. Se tem mesmo de ir, espere ao menos um pouco até se acalmar.

– Estou indo na esperança que isso me acalme. E quem sabe até me proporcione um mínimo de satisfação.

O elevador chegou, e Kim entrou.

– Você sequer tirou o jaleco – disse Tracy, ainda esperançosa de retardar sua saída,

para seu próprio benefício.

– Eu vou, e é agora – disse ele. – E ninguém vai conseguir me impedir.

Na velocidade em que chegou ao estacionamento do Onion Ring, Kim não conseguiu evitar que uma roda subisse no meio-fio. Sentiu um baque surdo, e o carro saiu de traseira.

Sem dar a menor importância, estacionou na primeira vaga que encontrou.

Depois de puxar o freio de mão e desligar a ignição, Kim ficou por alguns minutos dentro do carro observando a lanchonete pelo pára-brisa. Estava tão cheia como na semana anterior.

A viagem de carro tinha acalmado um pouco a sua raiva, mas não a determinação.

Pensou no que teria de fazer depois de entrar e só então desceu do carro. No interior, encontrou as filas para os caixas chegando quase até a porta. Sem a menor disposição para esperar, foi abrindo caminho, alheio às reclamações de alguns fregueses. Chegando ao balcão, Kim atraiu a atenção de uma das caixas, em cuja etiqueta de identificação lia-se: OI, SOU DEBBIE. Era uma adolescente de olhar indefinível, cabelos oxigenados e com acne no rosto.

Seus traços faciais pareciam petrificados numa expressão de absoluto tédio.

– Com licença – disse Kim, esforçando-se para manter a calma, embora seu estado de nervos fosse evidente. – Gostaria de fa1ar com o gerente.

– O senhor tem de esperar na fila para fazer o pedido – respondeu Debbie. Ela lançou um olhar de esguelha para Kim, mas mostrou-se inteiramente insensível ao seu estado alterado.

– Não quero pedir nada – disse Kim, pausada e vagarosamente. – Quero falar com o gerente.

– Ele está muito ocupado agora – disse Debbie. Ela voltou a atenção novamente para a primeira pessoa da fila e pediu que repetisse o pedido.

Kim bateu com a palma da mão sobre o balcão com toda a força que pôde, derrubando diversos porta-guardanapos no chão. O som foi como o de um tiro de revólver. No mesmo instante todo o local caiu em profundo silêncio, como uma imagem congelada de cinema. O rosto de Debbie ficou branco como a neve.

– Não quero ser obrigado a perguntar mais uma vez – disse Kim. – Quero o gerente aqui!

Um homem aproximou-se, vindo por trás da fileira de caixas registradoras. Usava o uniforme de duas cores do Onion Ring. Em sua etiqueta de identificação estava escrito: OI, EU SOU ROGER.

– Eu sou o gerente – disse, crispando o pescoço num cacoete nervoso. – Qual o problema?

– É minha filha – disse Kim. – Acontece que está em coma nesse momento, entre a vida e a morte, depois de ter comido um hambúrguer aqui na semana passada.

A voz de Kim ressoou por todo o restaurante. Os fregueses que comiam seus hambúrgueres olharam para os seus sanduíches, apreensivos.

– Sinto muito ouvir isso sobre sua filha – disse Roger. – Mas é totalmente impossível que ela tenha ficado doente aqui, muito menos por causa de nossos hambúrgueres.

– Esse foi o único lugar onde ela comeu carne moída. E está infectada por E. coli, que é transmitido pelo hambúrguer.

– Eu realmente sinto muito – disse Roger energicamente. – Mas nossos hambúrgueres

são todos feitos bem passados e seguimos regras rígidas de higiene. Somos inspecionados regularmente pelo Departamento de Saúde.

Da mesma forma abrupta como silenciou, o restaurante retomou o alto nível de decibéis. As conversas recomeçaram, como se ninguém tivesse nada a ver com o problema de Kim.

– O hambúrguer dela não estava bem cozido – disse Kim. – Era malpassado.

– Impossível – retrucou Roger, revolvendo os olhos.

– Eu mesmo vi. Estava rosado no meio. O que gostaria de saber…

– Não poderia estar rosado – interrompeu Roger, abanando as mãos. – Isso é totalmente fora de questão. Agora, se me der licença, preciso voltar ao trabalho.

Roger começou a se virar, mas Kim o puxou pela gola da camisa violentamente, empurrou o assustado gerente sobre o balcão e ficou com o rosto a poucos centímetros do dele. As faces de Roger foram ficando vermelhas. Kim apertava com tanta força que estava bloqueando o fluxo sanguíneo no pescoço dele.

– Um mínimo de remorso seria mais conveniente – grunhiu Kim. – Esteja certo de que não vou aceitar essa sua indiferença.

Roger soltou um gemido esganiçado enquanto lutava inutilmente para livrar o pescoço dos dedos crispados de Kim.

Bruscamente, Kim o puxou e o atirou ao chão. As caixas, os funcionários da cozinha e as pessoas que estavam nas filas emudeceram e ficaram olhando, imóveis com o choque.

Kim contornou o balcão, na intenção de falar diretamente com o cozinheiro.

Roger ergueu-se cambaleante e, vendo Kim dirigindo-se para a cozinha, tentou ainda confrontá-lo.

– Você não pode entrar aí – disse, em tom de animosidade. – Somente os empregados têm permissão…

Kim não lhe deu tempo de terminar. Simplesmente afastou-o com um safanão que o atirou outra vez sobre o balcão. Roger colidiu contra uma máquina de suco, que se espatifou sobre o piso de cerâmica. O líquido esparramou-se pelo chão. Os que estavam próximos pularam para trás. O silêncio fez-se novamente presente. Alguns fregueses levantaram-se afobados, levando sua comida com eles.

– Chame a polícia! – grunhiu Roger para a caixa mais próxima enquanto tentava estabanadamente pôr-se de pé.

Kim prosseguiu decidido por trás dos caixas para confrontar-se com o mirrado Paul.

Observou por um instante aquele rosto enrugado e a tatuagem no braço e se perguntou se aquele homem teria capacidade de cuidar da própria higiene pessoal.

Como todos na cozinha, Paul permanecia estático desde o momento em que Kim esmurrara o balcão. Alguns hambúrgueres a chapa à sua frente já começavam a queimar.

– Minha filha comeu um hambúrguer malpassado há uma semana mais ou menos, nessa mesma hora. Quero saber como isso pode ter acontecido.

– Minha filha comeu um hambúrguer malpassado há uma semana mais ou menos, nessa mesma hora. Quero saber como isso pode ter acontecido.

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 92-101)