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Sexta-feira, 16 de janeiro

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 24-35)

Quando Kim acabou de fazer suas visitas e de verificar as condições do Sr. Arnold na enfermaria, uma hora havia se passado. Partiu para a casa da ex-esposa no bairro universitário da cidade e, pisando fundo no acelerador do velho Mercedes de dez anos, fez o trajeto em tempo recorde. Mas já eram praticamente oito horas quando parou atrás de um Lamborghini amarelo estacionado bem diante do portão.

Kim saltou do carro e atravessou correndo o jardim da casa. Era uma construção modesta do início do século, com alguns toques góticos vitorianos, como as janelas de pontas arqueadas nos quartos do segundo andar. Kim saltou os degraus da varanda de dois em dois e tocou a campainha. Sua respiração exalava vapor no vento frio do inverno. Agitou os braços enquanto aguardava, para se manter aquecido. Ele estava sem casaco.

Tracy abriu a porta, pondo as mãos na cintura. Estava visivelmente irritada e ansiosa.

– Kim, são quase oito horas. Disse que chegaria no máximo … às seis – reclamou.

– Desculpe. Foi inevitável. A segunda cirurgia demorou mais do que o previsto. Houve uma complicação.

– Creio que já deveria ter me acostumado a isso – disse Tracy dando um passo atrás e gesticulando para Kim entrar. Ela fechou a porta atrás dele.

Kim dirigiu o olhar para a sala de estar e viu um sujeito vestido com despojada elegância, de seus quarenta e poucos anos, usando jaqueta de camurça com franjas e botas de couro. Estava sentado no sofá com um drinque numa das mãos e um chapéu de caubói na outra.

– Se eu soubesse que você ia demorar tanto, teria preparado alguma coisa para Becky comer. Ela está morrendo de fome.

– Isso é fácil de remediar – disse Kim. – Combinamos jantar fora.

– Gostaria que tivesse dado ao menos um telefonema.

– Estava na cirurgia e só saí depois das cinco e meia. Não é como se estivesse jogando golfe.

– Eu sei – disse Tracy com ar resignado. – É tudo muito nobre. O problema é que foi você quem escolheu a hora, não eu. É uma questão de consideração. A cada segundo ela achava que você estava chegando. Ainda bem que não vamos embarcar num vôo comercial.

– Vôo? – espantou-se Kim. – Para onde você vai?

– Aspen – respondeu Tracy. – Becky tem o número do telefone onde podem me encontrar.

– Aspen só por dois dias?

– Acho que é hora de me divertir um pouco nessa vida, se é que conhece algum tipo de diversão fora de sua cirurgia.

– Bem, já que estamos nesse clima de gracinhas sarcásticas – disse Kim – obrigado por me mandar Kelly Anderson ao centro cirúrgico. Foi uma surpresa extremamente agradável!

– Eu não a mandei.

– Ela disse que sim.

– Só disse a ela que você podia estar na cirurgia.

– Ora, é a mesma coisa.

Por sobre o ombro de Kim, Tracy notou seu convidado levantar-se. Percebendo seu constrangimento diante de seu bate-boca com o ex-marido, Tracy fez um gesto para Kim entrar na sala.

– Chega dessa conversa fiada – disse ela. – Kim, gostaria que conhecesse um amigo meu, Carl Stahl.

Os dois apertaram as mãos e entreolharam-se cautelosamente.

– Vocês dois fiquem à vontade – sugeriu Tracy. – Vou dar uma subida para ver se Becky está levando tudo o que precisa. Depois poderemos tomar nossos rumos.

Kim observou-a desaparecer no alto da escada. Só então voltou a olhar para o aparente namorado de Tracy. Era uma situação constrangedora e Kim não podia deixar de sentir um certo ciúme, mas pelo menos Carl tinha muitos centímetros a menos que ele e seu cabelo já estava notadamente ralo. Por outro lado, o homem estava bem bronzeado, apesar de ser inverno. Parecia também conservar uma forma física razoável.

– Posso servir-lhe um drinque? – sugeriu Carl, apontando uma garrafa de uísque.

– Creio que sim, obrigado. – Kim não tinha o costume de beber, embora nos últimos seis meses um coquetel noturno tivesse se tornado freqüente.

Carl largou o chapéu de caubói e dirigiu-se ao barzinho. Kim percebeu que ele queria dar ares de proprietário.

– Assisti àquela entrevista sua com Kelly Anderson no mês passado – disse Carl, enquanto despejava vários cubos de gelo no copo.

– É uma pena – respondeu Kim. – Gostaria que as pessoas a tivessem perdido.

Carl serviu uma dose generosa e entregou o copo a Kim. Sentou-se novamente no sofá do lado do chapéu, enquanto Kim escolhia uma poltrona.

– Você tem todo o direito de estar zangado – disse Carl com ar condescendente. – Não foi justo. Os noticiários da TV têm essa característica irritante de desvirtuar os fatos.

– É triste, mas é verdade – concordou Kim, sorvendo prazerosamente um gole da bebida.

– De minha parte, achei o fim da picada – disse Carl. – Vocês merecem cada centavo que ganham. Pessoalmente, sinto um grande respeito por vocês, médicos.

– Obrigado – respondeu Kim. – É muito animador.

– Sério. Na verdade, cheguei a cursar dois semestres de medicina.

– É mesmo? E o que aconteceu? Não gostou?

– A medicina não gostou de mim – respondeu Carl, soltando uma risada que terminou com um ronco peculiar. – Começou a me exigir demais e passou a atrapalhar minha vida social. – Soltou outra risada como se acabasse de contar uma piada.

Kim começou a se perguntar o que Tracy teria visto naquele sujeito.

– O que você faz? – perguntou ele, para manter a conversa.

Além disso, estava mesmo interessado. Considerando a vizinhança de classe média, o Lamborghini amarelo em frente ao portão só podia ser de Carl. E Tracy mencionara um vôo não comercial. Isto era ainda mais preocupante.

– Sou o diretor-presidente da Foodsmart – disse Carl. – Estou certo de que já ouviu falar de nós.

– Creio que não – respondeu Kim.

– É uma grande empresa agropecuária. Na verdade, uma das maiores do estado.

– Atacado ou varejo? – perguntou Kim, embora não conhecesse nada no ramo de negócios.

– Os dois. Trabalhamos principalmente com exportação de grãos e carne, mas também somos os acionistas majoritários da cadeia de lanchonetes Onion Ring.

– Essa eu conheço. Tenho até algumas ações.

– Escolheu bem.

Inclinando-se e olhando a sala com uma expressão furtiva como se houvesse algum espião, Carl sussurrou:

– Compre mais ações da Onion Ring. A companhia está abrindo filiais no mercado nacional. É informação confidencial. E não conte a ninguém onde ficou sabendo.

– Obrigado – disse Kim, depois acrescentou com sarcasmo. – Estou mesmo procurando onde aplicar meus extraordinários rendimentos.

– Você ainda vai me agradecer – acrescentou Carl, insensível ao descaso de Kim. – As ações vão para as nuvens. Em um ano a Onion Ring estará competindo com o McDonald’s, o Burger Kit e o Wendy’s.

– Tracy disse que vão para Aspen num avião particular disse Kim, mudando de assunto.

– Que aparelho você pilota?

– Eu? – espantou-se Carl. – Eu não piloto, Deus me livre! Seria o último a entrar num avião comigo por trás dos controles.

Carl deu outra risada em seu estilo peculiar. Kim teve vontade de saber se o sujeito roncava durante o sono.

– Tenho um novo Lear Jet – prosseguiu Carl. – Bem, tecnicamente é da Foodsmart, para efeito da receita pública federal. De qualquer forma, como sabe, para uma aeronave desse porte, o Ministério da Aeronáutica exige dois pilotos qualificados.

– É claro – concordou Kim, como se tivesse grande familiaridade com o assunto.

Só não queria se passar por idiota e deixar transparecer a indignação que sentia de um comerciante que só sabia embaralhar papéis poder ser tão pretensioso, enquanto ele, trabalhando mais de doze horas por dia salvando vidas, tinha dificuldade para manter rodando seu Mercedes de dez anos de uso.

Os passos na escada anunciaram a chegada de Becky. Trazia uma sacola e seus patins pendurados no ombro. Deixou tudo sobre uma cadeira no hall e correu para a sala.

Kim não via Becky desde o domingo, quando tinham passado juntos um dia agradável, patinando no parque. Becky pulou para cima de Kim num abraço, agarrando-o pelo pescoço e quase o derrubando sobre a poltrona. Com o rosto colado ao dela, Kim sentiu que seus cabelos morenos ainda estavam úmidos depois do banho recente. O perfume do xampu fazia com que ela cheirasse como um pomar de macieiras maduras.

Sem soltá-lo, Becky o fitou nos olhos com severa expressão de reprovação.

– Está atrasado, papai.

As atribulações do dia desvaneceram na presença de sua querida e precoce filha de dez anos, irradiando graça, jovialidade e energia. Sua pele era macia e sedosa, os olhos grandes e expressivos.

– Sinto muito, meu amor – disse Kim. – Sei que está com fome.

– Estou morta de fome. Mas veja! – Becky virou a cabeça de um lado para o outro. –

Gostou dos meus novos brincos de diamante? Não são lindos? Carl me deu de presente.

– Bobagem – disse Carl, modesto. – Só um presentinho. Natal atrasado e também para agradecer por me emprestar sua mãe no fim-de-semana.

Kim engoliu em seco. Tinha sido pego de surpresa.

– Muito comovente – conseguiu dizer.

Becky desceu do colo do pai e foi até o hall pegar suas coisas e tirar o casaco do armário da entrada. Kim foi atrás dela na direção da porta.

– Só quero que vá para a cama na hora certa, mocinha – disse Tracy. – Combinado?

Tem uma gripe atacando.

– Mas, mãe…! – reclamou Becky.

– Estou falando sério. Não quero que perca a escola.

– Fica tranqüila, mãe – disse Becky. – Divirta-se e não fique nervosa sobre…

– Será um ótimo fim-de-semana – interrompeu Tracy, antes que a filha dissesse algo embaraçoso. – E ficará ainda melhor se eu não precisar me preocupar com você. Está levando o número, do telefone que eu lhe dei?

– Sim, estou – respondeu, aborrecida. Então, alegrando-se completou: – Esquie o Big Burn por mim.

– Okay, eu prometo – disse Tracy, pegando o casaco das mãos da filha. – Quero que o vista agora.

– Mas nós vamos de carro – reclamou Becky.

– Não interessa – prosseguiu Tracy, ajudando a filha a vestir o casaco.

Becky correu até Carl, que estava de pé na entrada da sala de estar. Deu-lhe um abraço apertado e cochichou em seu ouvido:

– Ela está muito nervosa, mas passa logo. E obrigada pelos brincos, eu adorei!

– Não precisa agradecer, Becky – respondeu Carl, embaraçado.

Becky correu até Tracy e deu-lhe mais um abraço rápido e forte antes de atravessar correndo a porta aberta por Kim. Saltou os degraus da varanda e acenou para Kim se apressar.

Ele teve que correr atrás dela.

– Telefone se acontecer alguma coisa – berrou Tracy da varanda.

Os dois acenaram antes de entrar no carro.

– Ela é tão chata! – comentou Becky.

Kim deu a partida e Becky apontou para a frente.

– É um Lamborghini. Pertence a Carl e é demais! – disse ela.

– Tenho certeza que sim – respondeu Kim, querendo dar a impressão de que não estava ligando.

– Devia comprar um, papai. – Ela virou o rosto para olhar o carro enquanto partiam.

– Vamos falar de comida – disse Kim. – Estava pensando em pegar a Ginger. Achei que podíamos ir os três ao Chez Jean.

– Não quero jantar com a Ginger – respondeu Becky contrariada.

Kim tamborilou com os dedos no volante. O dia estressante no hospital mais o encontro com Carl abalara-lhe os nervos. Desejou ter tempo para jogar tênis. Precisava de algum tipo de exercício para poder descarregar. A última coisa que queria era um conflito entre Becky e Ginger.

– Becky – começou Kim. – Já falamos sobre isso antes. Ginger gosta da sua companhia.

– Só quero ficar com você, não com sua recepcionista – exclamou Becky.

– Mas você vai estar comigo. Estaremos todos juntos e Ginger não é apenas minha recepcionista.

– Também não quero comer naquele restaurante velho e abafado – disse Becky, comovida. – Odeio aquele lugar.

– Está bem, está bem – disse Kim, lutando para manter o controle. – Que tal irmos ao Onion Ring da Prairie Highway, só você e eu? É perto daqui.

– Maravilha! – Becky revigorou–se e, apesar do cinto de segurança, conseguiu arrumar um jeito de se virar e dar um beijo no rosto do pai.

Kim se espantava com a habilidade que a filha tinha de manipulá-lo. Sentia-se melhor agora que ela retomara sua vitalidade normal, mas depois de alguns quilômetros a conversa de Becky voltou a atormentá-lo novamente.

– Sinceramente – disse Kim – não entendo por que você tem essa implicância com Ginger.

– Porque foi ela quem separou você da mamãe – respondeu Becky.

– Meu Deus! – exclamou Kim. – É isso o que sua mãe disse?

– Não. Ela diz que isso é só uma parte. Mas eu acho que foi culpa da Ginger. Você e mamãe nunca discutiam antes dela aparecer.

Kim voltou a tamborilar no volante. Apesar do que Becky dizia, Tracy só podia estar pondo coisas na cabeça dela.

Ao dobrar no estacionamento do Onion Ring, Kim lançou um rápido olhar para Becky.

Seu rosto brilhava sob o letreiro luminoso da lanchonete. Ela sorria, sonhando com seu hambúrguer.

– O motivo do meu divórcio com sua mãe é muito complicado – começou Kim – e Ginger teve muito pouco a ver com isso.

– Cuidado! – gritou Becky.

Kim olhou para a frente e viu a silhueta de um garoto passando de skate ao lado do pára-lama direito. Kim freou e jogou o volante para a esquerda. O carro deu uma guinada e derrapou, chocando-se contra a traseira de outro veículo estacionado. Ouviram o inconfundível estilhaço de vidro.

– Você bateu com o carro – gritou Becky, como se estivesse fazendo uma pergunta.

– Eu sei que bati com o carro! – berrou Kim de volta.

– Não foi culpa minha – respondeu Becky, indignada. – Não grite comigo!

O garoto do skate deu uma parada para ver o estrago. Depois de uns segundos passou diante da janela do carro, olhou para a cara de Kim e disse irreverente:

– Babaca!

Kim fechou os olhos por um instante, procurando recuperar o controle.

– Desculpe – disse para Becky. – Claro que não foi culpa sua. Eu devia ficar mais atento. E certamente não deveria ter gritado com você

– O que vamos fazer agora? – Becky olhava irrequieta ao redor temendo ser vista por algum colega da escola.

– Vou ver o tamanho do prejuízo.

Abriu a porta e desceu do carro. Voltou depois de uns segundos e pediu a Becky que lhe passasse um bloco e dentro do porta-luvas.

– O que foi que quebrou?

– Nosso farol dianteiro e a lanterna traseira dele. Vou deixar um bilhete.

Assim que pôs os pés no restaurante, Becky já tinha esquecido por completo o acidente.

Como em todas as noites de sexta-feira, o Orion Ring fervilhava, em sua maioria de adolescentes desfilando ridículas coleções de roupas grandes demais para eles e penteados punk. Mas havia também um bom número de famílias com crianças pequenas e até bebês. O barulho era considerável devido à excitação das crianças e à competição entre aparelhos de som portáteis.

As Lanchonetes Onion Ring eram particularmente populares entre as crianças porque elas podiam preparar seus próprios hambúrgueres de gourmet com uma mistura radical de temperos. Podiam também fazer seus próprios sundaes usando uma infinidade de coberturas.

– Não é um lugar maneiríssimo? – comentou Becky ao entrar com o pai numa das filas.

– Simplesmente demais – brincou Kim. – Especialmente com essa suave música clássica de fundo.

– Ah, pai! – gemeu Becky, revirando os olhos.

– Já veio aqui com Carl alguma vez?

– Claro. Ele nos trouxe umas duas vezes. Foi legal! Ele é dono do lugar.

– Não é bem assim – disse Kim, com certa dose de satisfação – na verdade o Onion Ring é uma empresa de capital privado. Sabe o que isso quer dizer?

– Mais ou menos – respondeu Becky.

– Significa que um monte de gente é dona de ações. Até eu tenho ações do Onion Ring, portanto também sou um dos donos.

– É, mas quando vim aqui com Carl não tivemos de esperar na fila.

Kim respirou fundo e expirou lentamente.

– Vamos mudar de assunto. Já pensou melhor sobre o campeonato nacional? Fiquei sabendo que o dia de encerramento das inscrições está chegando.

– Não quero participar – respondeu Becky, sem hesitar.

– Não mesmo? – argumentou Kim. – Mas por quê? Você é tão boa. E venceu com tanta facilidade o estadual do ano passado…

– Gosto de patinar. Não quero estragar isso.

– Mas poderia ser a melhor.

– Não quero ser a melhor em competições.

– Sinceramente, Becky, estou decepcionado. Eu ficaria orgulhoso de você.

– Mamãe disse que você diria algo assim.

– Ah, mas que ótimo! – exclamou Kim. – Sua mãe psiquiatra sabe-tudo.

– Disse também que eu deveria fazer o que achasse melhor.

Os dois chegaram ao caixa. Por trás da máquina registradora, um rapaz de expressão entediada olhou para os dois e perguntou o que queriam.

Becky grudou os olhos no menu preso ao vidro do caixa. Apertou os lábios e espetou o dedo no rosto.

– Humm, não sei o que vou querer.

– Coma um hambúrguer – disse Kim. – Não é de que mais gosta?

– Está bem. Quero um hambúrguer, batata frita e milk shake de baunilha.

– Normal ou especial? – perguntou o caixa com a voz cansada.

– Normal.

– E o senhor?

– Espere, deixe-me ver – Kim também consultou o menu. – sopa do dia e uma salada, eu acho. Com chá gelado.

– São sete e noventa – disse o caixa.

Kim pagou e o rapaz lhe entregou o recibo com uma senha.

– Seu número é vinte e sete.

Kim e Becky deixaram a área de pedidos. Demorou um pouco, mas eles acabaram achando lugares vazios em uma das mesas perto da janela. Becky se sentou, mas Kim deu a ela o pedido e disse que precisava ir ao banheiro Becky balançou a cabeça inexpressivamente;

observava com atenção um menino bonitinho de sua escola que estava sentado à mesa ao lado.

Foi um verdadeiro sacrifício para Kim atravessar o restaurante até o corredor que dava para os banheiros. Havia dois telefones, mas estavam ambos cercados por um enxame de garotas adolescentes. E atrás de cada um deles, uma fila. Kim enfiou a mão no bolso do casaco e tirou seu celular. Encostou-se à parede e levou o aparelho ao ouvido.

– Ginger, sou eu – disse.

– Onde diabos está você? – esbravejou Ginger. – Esqueceu que nossa reserva no Chez Jean era para as sete e meia?

– Não podemos ir. Fui obrigado a mudar os planos. Becky e eu estamos fazendo um lanche no Onion Ring da Prairie Highway.

Ginger não respondeu.

– Alô? – disse Kim. – Ainda está aí?

– Sim, ainda estou aqui.

– Ouviu o que eu disse?

– É claro que ouvi. Eu não comi nada e estou aqui esperando. Você não ligou, e além do mais, prometeu que iríamos jantar no Chez Jean esta noite.

– Escute – prosseguiu Kim, novamente alterado – não piore ainda mais as coisas para mim, você também. Não posso satisfazer a todos. Atrasei-me para apanhar Becky e ela estava morta de fome.

– Isso é muito tocante. Você e sua filhinha curtindo um belo jantarzinho juntos.

– Você está me irritando, Ginger!

– E como acha que eu me sinto? Durante um ano a desculpa era sua esposa. Agora vai ser sua filha.

– Já chega, Ginger! Não vou ficar discutindo. Becky e eu estamos aqui comendo e depois passaremos aí para te apanhar.

– Talvez me encontre, talvez não. Estou ficando cansada de estar sempre em segundo plano.

– Então está certo, você é quem sabe.

Kim desligou e enfiou de volta o aparelho no bolso do casaco. Rangeu os dentes e praguejou em voz baixa. Nada parecia dar certo naquela noite.

Os olhos de Kim foram involuntariamente atraídos pelo rosto de uma adolescente que aguardava na fila de um dos telefones. Usava um batom vermelho tão escuro que parecia marrom, dando a impressão de alguém que sucumbira aos elementos na face norte do monte Everest.

A garota percebeu Kim olhando para ela. Parou de ruminar o chiclete e mostrou a língua para ele. Kim tomou um susto e desencostou da parede, indo para o banheiro molhar o rosto e lavar as mãos.

O grau de atividade na cozinha e área de serviço do Onion Ring era relativo ao número de fregueses no restaurante, um pandemônio controlado. Roger Polo, o gerente que normalmente dobrava nas sextas e sábados, os dias de maior movimento na semana, era um homem nervoso de seus trinta e tantos anos que cobrava muito de si mesmo e de todo o pessoal.

Quando o restaurante enchia como naquele momento em que Kim e Becky esperavam seus pedidos, Roger trabalhava na fila da caixa. Era ele quem pedia os hambúrgueres com fritas para Paul, o cozinheiro; ou a sopa com salada para Júlia, e as bebidas para Claudia.

Quando o restaurante enchia como naquele momento em que Kim e Becky esperavam seus pedidos, Roger trabalhava na fila da caixa. Era ele quem pedia os hambúrgueres com fritas para Paul, o cozinheiro; ou a sopa com salada para Júlia, e as bebidas para Claudia.

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 24-35)