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Segunda-feira, 19 de janeiro

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 45-60)

O despertador ficava programado para tocar às cinco e quinze da manhã, mas raramente era utilizado. Kim geralmente acordava alguns minutos antes do alarme e travava o pino da campainha antes de perturbar a paz da madrugada. Habituara-se a levantar bem cedo desde seu primeiro ano como residente de cirurgia. Ele ergueu-se da cama quente no escuro e deu uma corridinha até o banheiro, completamente nu.

Seguindo sua rotina diária, que não exigia raciocínio, Kim abriu a pesada porta de vidro do boxe e abriu a torneira até o fim. Kim e Tracy sempre preferiram o banho de chuveiro ao de banheira. Aquele tinha sido o único cômodo da casa a sofrer algum tipo de reforma depois da compra, há dez anos. Tinham retirado a banheira e montado no local um amplo boxe de três metros de comprimento por um e oitenta de largura. As paredes internas eram de mármore. A porta de vidro temperado com um centímetro de espessura tinha braçadeiras de metal montadas verticalmente, de forma que pareciam atravessar o vidro. Para Kim, uma extravagância digna das melhores revistas especializadas.

Seu café da manhã foi um donut com café com leite que comprou em uma loja da Dunkin’ Donuts perto de sua casa. Comia enquanto dirigia na escuridão da manhã. Também aproveitava aqueles momentos para escutar fitas de atualidades médicas. Às seis já estava no consultório, gravando relatórios dos pacientes e assinando cheques para as despesas gerais.

Às seis e quarenta e cinco dava aula no hospital para os residentes da cirurgia torácica e fazia questão de visitar seus próprios pacientes. Às sete e meia estava no salão de conferência para a inevitável reunião diária. Naquela manhã os assuntos abordados foram as credenciais hospitalares e a concessão de privilégios.

Após a reunião administrativa, que acabou se prolongando mais que o esperado, Kim reuniu-se com outros colegas da cirurgia torácica cuja pesquisa ele supervisionava e da qual participava. Nessa reunião apresentou um caso de tripla reposição de válvulas.

Por volta das dez, estava de volta ao consultório, porém atrasado, como de costume.

Logo descobriu que Ginger marcara duas emergências, uma para as nove e meia e outra para as nove e quarenta e cinco. Cheryl Constantine, a enfermeira, já tinha conduzido os pacientes para as duas saletas de exame.

A manhã transcorreu com os pacientes se sucedendo ininterruptamente. Na hora do almoço, comeu um sanduíche que Ginger pediu por telefone, enquanto verificava exames e chapas de raios X. Encontrou tempo também para responder a um colega em Salt Lake City, sobre outro paciente que se submeteria a uma tripla reposição de válvulas.

A tarde não foi diferente, com a sala de espera repleta de pacientes com hora marcada e algumas emergências que Ginger conseguira encaixar entre uma consulta e outra. Às quatro, Kim teve de ir ao hospital resolver um caso não muito grave com um de seus internos. Já que estava lá, aproveitou para uma rápida visita a seus pacientes internados.

De volta ao consultório, procurou em vão recuperar o tempo. Muitas horas e muitos pacientes depois, parou um pouco para tomar fôlego antes de entrar no que chamava sua sala de exames “A”. Apanhou a ficha do paciente e ficou feliz de ver que seria um exame

pós-operatório de rotina, ou seja, rápido. O paciente se chamava Phil Norton e quando Kim entrou no cubículo, Phil já estava obsequiosamente sentado sobre a cama de exame, sem camisa.

– Meus parabéns, Sr. Norton – disse Kim, depois de ler a ficha. – O seu teste de esforço físico está normal agora.

– Graças a Deus! – disse Phil.

E graças aos avanços da cirurgia moderna, refletiu Kim. Ele se inclinou e examinou a marca da incisão no centro do peito de Phil. Kim apalpou a estria estufada de tecido com a ponta dos dedos. Pelo toque podia ter uma avaliação perfeita das condições internas do paciente.

– E a cicatrização parece excelente – acrescentou Kim, dando um passo para trás. – Bem, no que me diz respeito, já pode começar a treinar para a maratona de Boston.

– Não creio que esteja em meus planos – respondeu Phil, sorridente. – Mas na primavera com certeza estarei firme no golfe.

Kim deu um tapinha no ombro do cliente e apertou-lhe a mão.

– Divirta-se – disse – mas não se esqueça de seguir à risca seu novo estilo de vida.

– Não se preocupe. Vi tudo o que me deu para ler em casa e vou fazer tudo direitinho.

Para começar, cigarros nunca mais.

– E lembre-se: dieta e exercícios.

– Não se preocupe. Não quero passar por isso de novo.

– Ora, até que não foi tão mal assim– brincou Kim.

– Não, mas foi aterrorizante.

Kim deu mais um tapinha nas costas de Phil, fez uma anotação rápida em sua ficha e deixou a saleta. Atravessou o corredor para atender na sala “B”, mas não havia nenhuma ficha pendurada na porta.

– O Sr. Norton foi o último paciente – disse Cheryl, às suas costas.

Kim deu meia-volta e sorriu para sua enfermeira. Passou a mão cansada pelo cabelo revolto.

– Bom. Que horas são?

– Já passa das sete.

– Obrigado por ficar até mais tarde.

– Não foi nada.

– Espero que esse atraso crônico não lhe cause problemas em casa.

– Problema nenhum. Estou ficando acostumada, e meu marido também. Agora ele sabe que precisa ir buscar meu filho na creche.

Kim foi para sua sala. Afundou na poltrona e observou a pilha de recados que ainda tinha de responder antes de voltar para casa. Esfregou os olhos. Estava exausto e com os nervos à flor da pele. Como de costume, as tensões do dia tinham acumulado. Ele adoraria jogar tênis e por um instante pensou em parar no clube antes de ir para casa. Poderia ao menos correr um pouco na esteira rolante.

O rosto de Ginger apareceu no vão da porta.

– Tracy acaba de ligar – disse, com uma voz cortante.

– O que queria? – perguntou Kim.

– Não quis dizer. Só pediu para você ligar.

– Por que está aborrecida?

Ginger respirou fundo e pôs a mão na cintura.

– Ela é seca e mal-educada. Eu procuro ser gentil, mas não adianta. Até perguntei como Becky estava passando.

– E o que ela disse?

– Só para você ligar.

– Está bem, obrigado – disse ele, pegando imediatamente o telefone.

– Já estou indo para a aula de aeróbica – avisou Ginger.

Com um aceno, Kim deu a entender que tinha escutado.

– Ligue-me mais tarde– disse ela.

Kim assentiu com a cabeça. Ginger saiu e fechou a porta atrás de si. No instante seguinte, Tracy atendeu.

– O que há? – foi logo perguntando Kim.

– Becky piorou – respondeu Tracy.

– Como assim?

– Ela está chorando de dor e evacuando sangue.

– De que cor?

– Pelo amor de Deus, o que quer dizer com “que cor”?

– Vermelho vivo ou escuro?

– Verde amarelado– respondeu Tracy, exasperada.

– Estou falando sério – disse Kim. – Vermelho vivo ou escuro, quase marrom?

– Vermelho vivo – respondeu Tracy.

– Quanto?

– Como vou saber? – disse Tracy, irritada. – É sangue, é vermelho. E mete medo. Isso é suficiente para você?

– Não é tão incomum uma hemorragia leve na diarréia – disse Kim.

– Não estou gostando.

– O que pretende fazer?

– E você pergunta a mim? – questionou Tracy, incrédula. – você o médico, não eu!

– Talvez seja melhor ligar para George Turner em Boston – disse Kim.

– E o que ele vai fazer a dois mil quilômetros de distância? Quero que ela seja examinada; quero que ela seja examinada agora!

– Está bem, está bem. Acalme-se!

Kim respirou fundo para coordenar os pensamentos. Além de George, não tinha nenhum outro colega pediatra a quem recorrer. Pensou em falar com algum residente, mas ficou em dúvida. Parecia exagero incomodar alguém à noite só por causa de uma diarréia leve com dois dias de duração, mesmo apresentando um pouco de sangue vermelho vivo.

– Faça o seguinte – decidiu Kim. – Encontre-me no pronto-socorro do Centro Médico Universitário.

– Quando?

– Em quanto tempo acha que pode chegar lá?

– Meia hora, talvez.

– Eu a vejo lá.

Apenas dez minutos o separavam do hospital, agora que o transito tinha diminuído. Kim aproveitou os vinte minutos seguintes para responder ao maior número possível de

telefonemas. Tracy ainda não tinha aparecido quando ele chegou ao pronto-socorro. Preferiu esperar na recepção. Enquanto isso, diversas ambulâncias subiram a plataforma da portaria, abrindo passagem com o som agudo das sirenes. Com rapidez e agilidade, os enfermeiros desembarcaram dois pacientes em estado crítico. Um deles desceu entubado. Kim ficou observando-os até desaparecerem no fundo de um corredor e relembrou com nostalgia seus dias de residência. Kim tinha trabalhado duro e se consagrado como um dos melhores residentes na história do hospital. Fora uma época de idealismos e em muitos aspectos bem mais gratificante que a atual.

Kim já estava com o celular na mão quando viu a caminhonete de Tracy procurando vaga no estacionamento. Correu até o carro e ajudou Becky a saltar. Ela lhe dirigiu um pálido sorriso.

– Você está bem, querida?

– A barriga dói muito – respondeu Becky.

– Já vamos dar um jeito nisso – disse. Ele olhou para Tracy, que tinha descido e dado a volta no carro. Parecia tão irritada quanto na noite anterior.

Kim seguiu na frente e ajudou Becky a subir os seis degraus até a portaria. Passaram pela porta giratória e entraram.

Como todo pronto-socorro de uma grande cidade do Meio-Oeste, a unidade parecia uma estação rodoviária em dia de feriado. O atendimento nas noites de segunda-feira parecia multiplicar-se por causa dos excessos do fim-de-semana.

Amparando Becky, Kim abriu caminho por entre a multidão, passou direto pelo balcão da recepção e atravessou a sala de espera lotada. Quando passava pelo núcleo de enfermagem, uma mulher enorme, com um físico descomunal, interceptou-lhe o caminho. Sua massa corporal bloqueava completamente a passagem de Kim. Na tarja de sua blusa estava escrito: MOLLY MCFADDEN. Era alta o suficiente para encarar Kim, olho no olho.

– Desculpe – disse Molly. – Não pode entrar aqui sozinho. Precisa preencher a ficha na recepção.

Kim tentou forçar a passagem, mas ela não arredou pé.

– Com licença – disse Kim. – Sou o Dr. Reggis. Trabalho aqui e minha filha precisa ser examinada.

Molly soltou uma risada curta.

– Não me interessa se você é o Papa João não sei das quantas. – Ela pigarreou e continuou: – Todo mundo, eu disse, todo mundo, tem de pegar a ficha na recepção, a menos que chegue na maca.

Kim estava tão abismado que perdeu a fala por um instante. Não podia acreditar que estivesse ali sendo publicamente desafiado, ouvindo desaforos de uma enfermeira. Ficou olhando incrédulo os ameaçadores olhos azuis daquela mulher. Ela parecia mais uma lutadora de sumô vestida de branco. Se já tinha ouvido o nome de Kim como membro da equipe do hospital, não demonstrou o menor sinal.

– Quanto mais rápido preencher sua ficha, doutor, mais rápido sua filha será atendida.

– Ouviu bem o que eu disse? Sou o cirurgião-chefe da cardiologia.

– Não sou surda, doutor – respondeu Molly. – A questão é: o senhor me ouviu?

Kim fuzilou-a com o olhar, mas a mulher não se intimidou.

Tracy sentiu o peso do impasse. Conhecendo bem o temperamento de seu ex-marido,

tomou a frente para contornar a situação.

– Vamos, querida – disse para Becky, tomando-a pela mão. – Vamos fazer como manda o regulamento e preencher sua ficha.

Tracy levou Becky de volta pelo mesmo caminho. Kim lançou outro olhar raivoso para Molly, deu as costas e saiu atrás das duas. Juntos, entraram na fila de registro. Kim continuava indignado.

– Vou dar queixa daquela mulher – rosnou. – Ela vai pagar pela insolência. Desgraçada!

Não posso acreditar.

– Só está fazendo o trabalho dela – comentou Tracy, aliviada com o fim do incidente.

– É mesmo? – retrucou Kim. – Ainda quer defendê-la?

– Acalme-se! Está apenas cumprindo ordens. Você acha que é ela quem faz o regulamento?

Kim sacudiu a cabeça. A fila avançou um pouco. Naquele momento só havia uma funcionária no balcão. Seu trabalho era o de preencher as fichas com os dados pessoais do paciente, incluindo o seguro de cobertura quando o paciente não pertencia ao plano de saúde do AmeriCare.

Subitamente, o rosto de Becky contorceu-se num espasmo de dor. Apertando as mãos contra a barriga, começou a choramingar.

– O que está sentindo? – perguntou Kim.

– O que você acha?– disse Tracy. – São cólicas.

Becky começou a transpirar e empalidecer. Olhou para a mãe como a pedir por socorro.

– Vai passar como das outras vezes, querida – disse Tracy. Afagou Becky e enxugou o suor do seu rosto. – Quer se sentar?

Becky balançou a cabeça.

– Guarde nosso lugar – pediu Tracy a Kim.

Kim ficou observando Tracy acompanhar Becky até uma das cadeiras pré-moldadas de plástico encostadas à parede. Kim percebeu que Tracy dizia qualquer coisa a Becky e ela balançava a cabeça. A cor foi voltando ao rosto de Becky. Alguns minutos depois Tracy voltou à fila.

– Como ela está? – perguntou Kim.

– Sente-se melhor agora. – Tracy reparou que a fila quase não tinha avançado. – Não há nenhuma alternativa para essa demora?

– É noite de segunda–feira. Uma noite difícil em qualquer pronto-socorro.

– Sinto falta do Dr. Turner – disse ela, depois de exalar um suspiro.

Kim fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ergueu-se na ponta dos pés para ver o que estava acontecendo, mas não viu nada.

– Isso é ridículo! – exclamou. – Volto já!

Com os dentes trincados, Kim foi se espremendo entre as pessoas para chegar até o balcão. Logo compreendeu por que a fila não andava. Um sujeito bêbado, com o paletó sujo e amarrotado, estava encontrando certa dificuldade para preencher sua ficha. Seus cartões de crédito tinham caído da carteira e sumido no chão. Estava com um corte feio na parte de trás da cabeça.

– Olá! – gritou Kim, procurando chamar a atenção da recepcionista. Era uma garota afro-americana de seus vinte e poucos anos. – Sou o Dr. Kim Reggis, da cardiologia. Estou

com…

– Perdão – disse a recepcionista, interrompendo Kim. – Só posso atender uma pessoa de cada vez.

– Escute! – ordenou Kim. – Sou da equipe deste hospital e…

– Não importa. O serviço aqui é o mesmo para todos. Quem chega antes é atendido primeiro. É a norma de rotina para qualquer emergência.

– Rotina de emergência? – perguntou Kim.

Aquilo era uma tolice ridícula. O ímpeto de argumentar com aquela funcionária cedeu ante a frustrante sensação que sentia quando era obrigado a conversar com algum representante de seguradora ou plano de saúde. Antes de dar alta a um paciente. Esse aspecto tinha se tornado um dos piores problemas da medicina moderna.

– Por favor, aguarde no fim da fila – disse a recepcionista. – Se me deixar resolver a situação dessa gente logo, poderei atender o senhor em menos tempo também. – Dizendo isso, voltou-se para o bêbado. Nesse meio tempo, ele tinha conseguido juntar todos os documentos espalhados.

Era óbvio que seria pura perda de tempo tentar dialogar com aquela mulher. Ela talvez sequer soubesse o significado da palavra equipe. Frustrado, humilhado e irritado, Kim voltou para onde estava Tracy.

– Não sei como empregam essa gente – reclamou Kim. – São uns autômatos.

– Estou impressionada em ver a dimensão do seu prestígio neste hospital.

– Seu sarcasmo não ajuda em nada. Tudo isso é conseqüência da fusão. Não me conhecem aqui. Para dizer a verdade, acho que jamais estive nesse pronto-socorro.

– Se ouvisse as queixas de Becky no fim-de-semana, provavelmente não estaríamos aqui agora.

– Eu ouvi – defendeu-se Kim.

– Sim, é claro. Dando a ela um comprimidinho para dor de barriga. Muito eficiente!

Mas, sabe de uma coisa? Não fico surpresa. Jamais levou a sério algum problema de Becky. E nem meu, já que estamos tocando no assunto.

– Não é verdade! – respondeu Kim, ressentido.

– É sim. Somente a esposa de um cirurgião cardíaco pode compreender. Para você, qualquer sintoma que não exija um transplante imediato do coração é exagero ou fingimento.

– Você me agride, assim.

– Você também me agride.

– Está certo, doutora sabe-tudo. O que faria então se estivesse no meu lugar?

– Teria encontrado alguém para cuidar de Becky. Um de seus muitos colegas. Você deve ter mil amigos médicos, não custa nada pedir.

– Espere um instante! – disse Kim, lutando para não perder o controle. – Becky só teve uma diarréia e um pouco de cólica. Era fim-de-semana. Não iria incomodar um colega por causa disso.

– Mamãe! – chamou Becky. Ela aproximara-se por trás dos dois. – Preciso ir ao banheiro!

Tracy se virou e a preocupação com a filha arrefeceu imediatamente sua raiva. Passou o braço ao redor do ombro dela.

– Claro, querida, desculpe. Vamos procurar um banheiro.

– Esperem – disse Kim. – Vamos aproveitar para coletar uma amostra de fezes.

– Deve estar brincando – disse Tracy. – Ela precisa ir logo.

– Agüente firme, Becky. Volto num minuto.

Kim desapareceu pelas dependências internas do pronto-socorro. Sem Becky e Tracy, não teve dificuldade para passar e não viu sinal da troglodita Molly McFadden.

A sala de emergência era subdividida em cubículos separados por cortinas de pano, uma ala de ortopedia com alguns quartos individuais equipados com máquinas de última geração, outras saletas de exame destinadas principalmente aos casos psiquiátricos.

Como na sala de espera, o local era caótico. Todas as salas de ortopedia estavam ocupadas, e dezenas de plantonistas, residentes enfermeiros, enfermeiras e residentes circulavam desordenadamente.

Ao entrar, Kim procurou alguém que conhecesse. Infelizmente não viu nenhum rosto conhecido. Dirigiu-se a um dos ordenanças e perguntou:

– Com licença, preciso de um frasco de coleta.

O enfermeiro o fitou de cima a baixo.

– Quem é você?

– Dr. Reggis – disse Kim.

– Tem seu cartão de identificação?

Kim mostrou-lhe o cartão.

– Certo – disse o enfermeiro. – Volto já.

Kim observou o homem desaparecer por trás de uma porta, aparentemente um almoxarifado.

– Olha a frente! – disse uma voz vinda de trás.

Kim virou-se ainda a tempo de se desviar de uma unidade móvel de raios X, com as carretilhas rangendo, empurrada por um técnico. Logo depois o enfermeiro reapareceu.

Entregou dois sacos plásticos a Kim, com dois recipientes.

– Obrigado – disse Kim.

– De nada – respondeu o enfermeiro.

Quando voltou, a fila estava quase no mesmo lugar. Becky tinha os olhos fechados. Em seu rosto corriam lágrimas.

Kim entregou um dos sacos plásticos a Tracy.

– Mais cólicas? – perguntou.

– É claro, seu imbecil – disse Tracy. Agarrou a mão da filha e saiu na direção do banheiro.

Kim ficou guardando o lugar na fila e avançou mais um passo. A funcionária agora era outra. Aparentemente, a primeira tinha saído para um intervalo. Às nove e quinze, o saguão do pronto-socorro estava transbordando. As cadeiras pré-moldadas de plástico estavam todas ocupadas. As pessoas encostavam-se às paredes ou sentavam-se no chão. Quase ninguém conversava. Num dos cantos uma televisão suspensa no teto transmitia a CNN. Um choro de criança cobria a voz do locutor. Lá fora começava a chover e uma atmosfera úmida envolveu o ambiente.

Kim, Tracy e Becky já tinham encontrado espaço para se sentar juntos e ali ficaram, à exceção de Becky, que precisou ir por diversas vezes ao banheiro. Kim segurava o frasco de coleta. Apesar dos pigmentos de sangue citados por Tracy, a coloração do material coletado

agora era marrom, claro e uniforme. Becky estava deplorável e mortificada. Tracy, exasperada. Kim, fervilhando de indignação.

– Não posso acreditar nisso – disse Kim. – Eu realmente não posso acreditar! A todo instante acho que vamos ser chamados, mas nunca somos! – Consultou o relógio. – Faz uma hora e meia que estamos aqui.

– Bem-vindo ao mundo real – disse Tracy.

– Isso é o que Kelly Anderson devia ter mostrado na reportagem sobre a fusão – disse Kim. – É um absurdo. O AmeriCare fechou o pronto-socorro do Samaritano para cortar despesas e forçar a vinda de todos para cá. Com a única finalidade de aumentar os lucros.

– E as inconveniências – acrescentou Tracy.

– E verdade. O AmeriCare está definitivamente decidido a desencorajar o atendimento emergencial.

– Não vejo melhor forma.

– É inconcebível que ninguém me reconheça – rosnou Kim. – É incrível. Diabos, sou o cirurgião mais conhecido da cardiologia!

– Não há nada que possa fazer? Becky está péssima.

Kim ergueu-se da cadeira.

– Muito bem, vou tentar.

– Mas não brigue – advertiu Tracy. – Só vai piorar as coisas.

– Não pode ficar pior do que já está.

Kim dirigiu-se à recepcionista da enfermaria. Dera apenas alguns passos quando o som de uma sirene de ambulância reverberou pela porta de vaivém à sua esquerda. No momento

Kim dirigiu-se à recepcionista da enfermaria. Dera apenas alguns passos quando o som de uma sirene de ambulância reverberou pela porta de vaivém à sua esquerda. No momento

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 45-60)