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DOUGLASS NORTH E A TEORIA DA BASE DE EXPORTAÇÃO

2 ABORDAGENS TEÓRICAS DA ECONOMIA REGIONAL

3. ABORDAGENS TEÓRICAS BASEADAS EM FATORES AGLOMERATIVOS E POLARIZADORES

3.4 DOUGLASS NORTH E A TEORIA DA BASE DE EXPORTAÇÃO

North (1977a), apesar de não ter sido o pioneiro a discutir a teoria da base exportadora, tem esta fortemente associada a seu nome. Sua teoria da base de exportação, de acordo com Schwartzman (1977), busca explicar e apontar as mais fortes regiões candidatas ao crescimento e os fatores que determinam o ritmo desse crescimento. A teoria está dividida em duas partes principais:

a) Que fatores levam uma região a exportar – assumem papel de destaque a estrutura da demanda nacional e internacional, a distribuição dos recursos naturais pelas regiões do país e os princípios da teoria da localização. A capacidade de integração destas regiões com o mercado externo depende de sua localização, quando comparada à de outras áreas quanto a insumos e mercados e a existência do recurso natural em quantidade e qualidade desejáveis.

b) Análise de quais as regiões que, uma vez integradas ao mercado externo, estão aptas a tomar parte num processo de crescimento duradouro e autossustentado – neste caso, assumem papel de destaque a capacidade de difusão da base para outros setores da economia e a possibilidade da região manter uma fatia do mercado externo que seja, no mínimo, constante.

Sobre este último item reside uma ligação entre a teoria da base de exportação e a abordagem de Hirschman: a difusão da base será função das características tecnológicas do produto de exportação, que por sua vez determinará a força dos linkage effects. Já a manutenção dos mercados ou o domínio de novos será função das condições internas da região, principalmente de sua capacidade competitiva, que será baseada pela qualidade de seus recursos humanos e materiais ou a capacidade de atraí-los de outras regiões, bem como do nível tecnológico e da possibilidade de transportar-se o produto de exportação com custos razoavelmente baixos.

Além destas considerações iniciais, Schwartzman (1977) aponta que a teoria da base de exportação é desenvolvida paralelamente a outras duas abordagens. Primeiramente, a teoria da base econômica, que buscava determinar, com base em trabalhos de geógrafos e planejadores urbanos, a necessidade de novas residências, o crescimento populacional e outras projeções ao nível das cidades. O objetivo disso era encontrar relação entre a fonte de crescimento das cidades e as atividades básicas (de exportação), que alavancariam o crescimento das outras atividades, como aparece em Lane (1977).

A segunda abordagem é a teoria do desenvolvimento regional com base no produto primário, que atribui, também, papel central para as exportações, sumarizada em Watkins (1977). Elaborada por historiadores econômicos com vistas a dar suporte ao estudo do desenvolvimento das regiões do Canadá no século XIX, limitou-se, praticamente, às condições daquele país, não se constituindo, portanto, a um modelo formal e geral de desenvolvimento regional.

No entanto, o ponto de partida de North é a refutação da ideia de que o desenvolvimento regional ocorra em etapas (ou estágios) subsequentes, posição defendida por Hoover e Fisher (1977). North (1977a, p. 293-94) os resume:

1 – O primeiro estágio da história econômica da maioria das regiões é uma fase de economia de subsistência, auto-suficiente, na qual existe pouco investimento no comércio.

[...]

2 – À medida que ocorrem melhorias nos transportes, a região passa a desenvolver algum comércio e especialização local.

[...]

3 – Com o aumento do comércio inter-regional a região tende a se deslocar através de uma sucessão de culturas agrícolas, que vão da pecuária extensiva à produção de cereais, à fruticultura, à produção de laticínios e à horticultura.

4 – Por causa do crescimento da população e dos rendimentos decrescentes da agricultura e das outras indústrias extrativas, a região é forçada a se industrializar.

[...]

5 – Atinge-se o estágio final do desenvolvimento regional quando a região se especializa em atividades terciárias, produzindo para exportação.

North argumenta que esta sequência poderia ser aplicada à Europa, mas não aos Estados Unidos, seu país natal, e isso, segundo ele, seria explicado pelo fato do seu país ter passado por colonização característica de empreendimento capitalista. Para explicar este fenômeno, North discorre sobre a história do crescimento e do povoamento das regiões

norte-americanas, que foram determinados pela dinâmica do mercado mundial, resultando em algo diferente daquilo mostrado na teoria do desenvolvimento regional de então, pois não teria sido um aumento gradual dos mercados.

Assim, segundo ele, estes estágios não seriam capazes de fornecer indicações sobre as causas do crescimento das regiões, bem como de suas mudanças, sobretudo pela grande ênfase dada à necessidade de industrialização e aos obstáculos encontrados para desencadeá-la. Usou como exemplo algumas regiões norte-americanas, como o Pacífico Noroeste, que não apresentam nenhuma semelhança com a teoria do crescimento econômico regional baseado em estágios. Ao contrário, todo o desenvolvimento desta região baseou-se na sua capacidade de produzir artigos exportáveis (trigo, farinha e madeira). As outras atividades do setor secundário e do terciário atendiam as necessidades de consumo local. Então, todo o desenvolvimento da região dependeu desde o início de sua capacidade de produzir artigos exportáveis.

Estaria nisto a chave para o crescimento regional: a atividade de exportação baseada em fatores locacionais específicos. Essas atividades capazes de promover o crescimento das regiões que as abrigam são chamadas de base exportadora, podendo ser primárias, secundárias ou terciárias. Desta forma, a base de exportação induziria o aparecimento de polos de distribuição e cidades, que dariam suporte a atividades de processamento industrial e serviços associados ao produto exportável. Como coloca North (1977a, p. 298),

muitas regiões pioneiras dos Estados Unidos desenvolveram-se, a princípio, em torno de um ou dois produtos exportáveis e só diversificaram sua base de exportação depois que ocorreu a redução dos custos de transporte”.

Para North, o esgotamento do setor primário não seria o responsável pela diversificação setorial regional, mas sim o sucesso das atividades de base. Isso o leva a afirmar que a industrialização não dá garantias de que haverá continuidade do processo de desenvolvimento, já que ela seria o resultado do sucesso da base exportadora. Assim, a industrialização pesada não seria essencial para a continuidade do processo de desenvolvimento econômico e a dinâmica econômica regional poderia continuar baseada na exportação de produtos agrícolas. O sucesso destas exportações seria o responsável pelo surgimento de atividades secundárias e terciárias direcionadas para a região, como consequência das vantagens locacionais de indústrias voltadas para matérias-primas e do aumento da renda regional proveniente dos seus produtos de exportação – bens de consumo local, serviços para as atividades exportadoras, etc.

Poderia haver, entretanto, dificuldades no desenvolvimento de indústrias inadequadas para a região, conhecidas como ‘indústrias sem raízes’. Para North, considerar uma região como industrializada dependeria da constituição da sua base de exportação, exigindo que a produção industrial fosse formada, principalmente, por bens de consumo finais ou intermediários e não necessariamente por bens manufaturados sofisticados.

No entanto, conforme aponta o autor, a análise dos produtos primários acabou sendo o ponto de partida da compreensão do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Na terminologia proposta por North, produtos primários seriam os principais artigos produzidos na região, e não se refere somente, como de costume, à indústria extrativa e agropecuária, pois o seu conceito de produtos de exportação inclui, também, produtos do setor secundário e terciário, razão pela qual o autor usa a expressão ‘produtos (ou serviços) de exportação’ para se referir aos itens individuais e a expressão ‘base de exportação’ para designar o conjunto dos produtos de exportação de uma região.

Em trabalho posterior, North (1977c) revê a sua análise, passando a questionar a exportação de produtos agrícolas como a forma desejável de se alcançar o desenvolvimento regional. Neste trabalho, ele argumenta que, se a atividade agrícola for baseada em grandes propriedades, haverá poucos efeitos positivos sobre a região. Isto porque a demanda concentrada levaria à produção de bens de subsistência para os mais pobres, ao mesmo tempo em que os mais ricos importariam bens de luxo. Assim, a produção industrial seria restrita e o crescimento regional seria estancado pelo surgimento de retornos decrescentes na atividade principal (MONASTERIO; CAVALCANTE, 2011).

Mas, sobre os argumentos do trabalho pioneiro de North, Richardson (1981, p. 326) aponta que “o crescimento de uma região depende do crescimento de suas indústrias de exportação, implicando, com isso, é claro, que a expansão da demanda externa à região é o elemento crítico determinante inicial do crescimento dentro da região”. Richardson, então, supõe que todas as atividades econômicas não votadas para a exportação seriam induzidas pela expansão ou declínio das indústrias de exportação.

Sumariamente, Lima e Simões (2009, p. 22) expõem que:

A base de exportação desempenhava assim papel fundamental na conformação da economia de uma região e em seus níveis de renda absoluta e per capita e, consequentemente, na determinação da quantidade de atividades locais, secundárias e terciárias, que se desenvolveriam, bem como sobre a dinâmica da indústria subsidiária, a distribuição da população, o padrão de urbanização, as

características da força de trabalho, as atitudes sociais e políticas e o crescimento dos centros nodais, de tal forma que seu crescimento estava intimamente vinculado ao sucesso de suas exportações.

Deste modo, o fator preponderante do crescimento das regiões seria o sucesso da sua base de exportações, e as razões de seu crescimento, declínio e mudanças seriam, conforme Lima e Simões (2009), alterações:

a) Na demanda externa à região (devido a oscilações no nível de renda ou nas preferências dos consumidores);

b) Nos custos dos fatores de produção (terra e trabalho);

c) Na disponibilidade de recursos naturais e/ou matérias-primas;

d) No sistema de transportes;

e) Na tecnologia;

f) Na ação governamental (benefícios sociais); e

g) Na origem do capital (inicialmente é externo, mas à medida que a região se torna lucrativa uma parte passa a ser reinvestida em sua expansão).

Considerando a irregularidade dos fatores listados acima, bem como a evolução da renda e da população local, North sinaliza que o crescimento de uma região tende a ser desigual. A despeito disso, North espera que as regiões – entendidas como áreas que tenham como coesão unificadora, além das semelhanças físicas e geográficas, o seu desenvolvimento em torno de uma base de exportação comum – tenham as suas diferenças amenizadas com o seu amadurecimento no longo prazo, com base na maior diversificação e equalização da renda, e dispersão da produção: “Portanto, podemos esperar que as diferenças entre as regiões sejam menos marcantes, que a indústria secundária se torne mais igualizada e, certamente, em termos econômicos, que o regionalismo tenda a desaparecer” (NORTH, 1977a , p. 310)

Em resumo, quanto ao desenvolvimento regional, o conceito de base econômica definiria as atividades básicas como aquelas que produzem bens e serviços para consumo não local, isto é, são atividades que vendem seus produtos para não residentes, sob a forma de exportação intermunicipal, inter-regional ou internacional (SANTOS et al., 2004, p. 58):

Esse conceito é extremamente útil para a compreensão de questões chave do desenvolvimento. [...] o crescimento econômico de uma região está associado a fontes de demanda primária que não restringem a capacidade de gasto dos residentes ou do governo regional. Assim, o conceito original de base econômica

definido como as atividades de exportação de uma região vai direto ao ponto, pois a principal fonte de demanda autônoma e que não restringe a capacidade de gasto da região são as exportações. Esse conceito traz implícito que as exportações são o que sustentam a renda de uma região. Base econômica está analogamente associada à ideia de sustentação da renda e do crescimento da mesma. A princípio, sem exportações a renda de uma região tenderia a cair continuamente até a pobreza absoluta.

Ainda segundo Santos et al. (2004), a base econômica poderia ser sustentável ou não sustentável. Esse último caso incluiria setores que crescem consumindo reservas de liquidez e capacidade de financiamento da região, não contribuindo, porém, para o aumento da competitividade da região ou de sua capacidade de atrair investimentos em setores de exportáveis ou em investimentos sem retorno. A base econômica sustentável, por outro lado, conjugaria setores:

a) Exportadores;

b) Que atraem investimentos exportáveis;

c) Que atraem investimentos em infraestrutura;

d) Que recebem investimentos em serviços anteriormente não existentes e que aumentam a competitividade da região ou sua capacidade de atração de novos investimentos; e

e) Que recebem investimentos externos não retornáveis para a origem.