CAPÍTULO 3 – A RELATIVIZAÇÃO DO DOGMA DA NULIDADE DA LE
3.2 Breves comentários sobre a positivação da técnica de modulação
3.2.3. Aspectos de direito material
3.2.3.1 A expressão “razões de segurança jurídica”
3.2.3.1.2 Duas dimensões conceituais (estática e dinâmica)
Da análise das noções e conceitos exemplificativamente apresentados no tópico anterior, percebe-se claramente a existência de certo consenso discursivo a atrelar a segurança jurídica aos ideais de estabilidade e de previsibilidade do Direito311.
307 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica: entre permanência, mudança e realização no Direito Tributário. São
Paulo: Malheiros, 2011, p. 682.
308 Segundo Humberto Ávila, “Cognoscibilidade significa um estado de coisas em que os cidadãos possuem, em
elevada medida, a capacidade de compreensão, material e intelectual, de estruturas argumentativas reconstrutivas de normas gerais e individuais, materiais e procedimentais, minimamente efetivas, por meio de sua acessibilidade, abrangência, clareza, determinabilidade e excutoriedade”. ÁVILA, op. cit., p. 683.
309 Para Ávila, “Confiabilidade significa o estado ideal em que o cidadão pode saber quais são as mudanças que
podem ser feitas e quais as que não podem ser realizadas, evitando, dessa forma, que os seus direitos sejam
frustrados. Essa confiabilidade só existe se o cidadão puder ver assegurados, hoje, os efeitos que lhe foram garantidos pelo Direito ontem, o que depende da existência de um estado de intangibilidade de situações passadas, de durabilidade do ordenamento jurídico e de irretroatividade de normas presentes”. ÁVILA, op. cit., p. 683.
310 Por seu turno, no pensamento do autor em estudo, “Calculabilidade significa o estado ideal em que o cidadão
pode saber como e quando as mudanças podem ser feitas, impedindo que aquele seja surpreendido. Essa calculabilidade só existe se o cidadão puder controlar, hoje, os efeitos que lhe serão atribuídos pelo Direito amanhã [...]”. ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica: entre permanência, mudança e realização no Direito Tributário. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 683.
Sobre o tema, embora aparentemente circunscrito ao âmbito mais restrito da aplicação jurisdicional do Direito, registra Humberto Theodoro Júnior haver “dois sentidos, segundo certos autores, a serem distinguidos no conceito de segurança jurídica: a) a segurança que deriva da previsibilidade das decisões que serão adotadas pelos órgãos que terão de aplicar as disposições normativas; e b) a segurança que se traduz na estabilidade das relações jurídicas definitivas”312.
Em nosso entendimento, as ideias de estabilidade e de previsibilidade, além de se constituírem na chave conceitual da segurança jurídica, tornam manifesta a incidência do valor em estudo em duas dimensões distintas: a estática e a dinâmica.
No sentido exposto, ao analisar especificamente o significado da expressão razões de segurança jurídica prevista no art. 27 da Lei no 9.868, de 1999, conclui didaticamente Ana Paula Ávila que o “valor representado pela segurança jurídica envolve, pelo menos, duas dimensões: de um lado, a certeza quanto à norma que regula os atos sociais; e, de outro, a
expectativa ou confiança quanto à situação do indivíduo na sociedade”313.
A autora em destaque aparentemente relaciona as dimensões estática e dinâmica da segurança jurídica com as formas temporais ex ante e ex post. Segundo explicita, a segurança jurídica ex ante diz respeito aos mecanismos que possibilitam a cognição e a interpretação do Direito por parte dos cidadãos, enquanto a segurança jurídica ex post condiz com o predicado da ordem jurídica de possibilitar instrumentos que garantam a estabilidade dos mecanismos tendentes à cognição e interpretação do Direito, reconhecendo uma pauta comportamental dos cidadãos diante do caso concreto.
Em que pese não se referir nominalmente às dimensões estática e dinâmica, Helmut Coing manifesta, em suas lições, ao menos um aspecto estático (perenidade, inviolabilidade do Direito, excluindo-se do arbítrio o quanto determinado legalmente, o que é inegavelmente uma manifestação de certeza do fenômeno jurídico) e outro dinâmico (confiança no Direito) da segurança jurídica, ao expor que o Direito “deve perdurar; deve-se confiar nisto. Pode-se contar com uma amplitude permanente, a que exclui a modificação. A pessoa pode organizar-se com base nisto, ela pode construir sua vida na proteção desta ordem”314.
do Estado de Direito. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p. 115. Comungando deste entendimento, apenas
a título exemplificativo: ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica: entre permanência, mudança e realização no Direito Tributário. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 191-192.
312 THEODORO JÚNIOR, Humberto. A onda reformista do direito positivo e suas implicações com o princípio
da segurança jurídica. Revista autônoma de direito privado, n. 2, p. 199-230, jan./mar. 2007, p. 102.
313 ÁVILA, Ana Paula Oliveira. A modulação de efeitos temporais pelo STF no controle de constitucionalidade: ponderação e regras de argumentação para a interpretação conforme a Constituição do
artigo 27 da Lei no 9.868/99. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2009, p. 147-148.
314 COING, Helmut. Elementos fundamentais da filosofia do direito. Porto alegre: Sergio Antonio Fabris,
Por seu turno, Jorge Amaury Maia Nunes traz ao debate o entendimento da francesa Anne-Laure Valembois, a qual também concebe uma dimensão estática da segurança jurídica, identificada com a máxima da certeza do Direito, implicando o conhecimento do fenônemo jurídico e a previsibilidade das consequências dele advindas, bem como uma dimensão dinâmica, a qual “implica a estabilidade e a previsibilidade do próprio Direito, aqui incluído o princípio da proteção da confiança legítima e seu símile, a teoria dos atos próprios, fundada no apotegma: venire contra factum proprium non potest”315.
A visão da segurança jurídica em duas dimensões é compartilhada por Humberto Ávila, para quem a dimensão estática deste princípio estaria imbricada com a questão de se conhecer o direito. A cognoscibilidade seria, então, o termômetro desta dimensão da segurança jurídica, medindo as qualidades que o Direito deve possuir para ser considerado seguro, servindo de instrumento de orientação aos cidadãos316.
Na esfera do Direito legislado, seriam exemplos de regras garantidoras da cognoscibilidade e, portanto, da feição estática da segurança jurídica, os preceitos reguladores do nascimento da obrigação tributária, como o princípio da legalidade e da reserva de lei complementar para algumas matérias específicas317.
Por outro lado, a dimensão dinâmica da segurança jurídica “refere-se ao problema da ação no tempo e prescreve quais são os ideais que devem ser garantidos para que o Direito possa ‘assegurar’ direitos ao cidadão e, com isso, possa servir-lhe de instrumento de
proteção”318.
As ideias centrais da dimensão dinâmica da segurança jurídica, em Ávila, seriam a confiabilidade e a calculabilidade, critérios que visam a mensurar a percepção dos cidadãos acerca da permanência no tempo da base normativa fornecida pelo Direito, com vistas a que possam planejar suas vidas e atividades econômicas com um mínimo de avaliação prospectiva das consequências jurídicas futuras319.
Ainda na seara do Direito Tributário, Ávila cita como exemplos de normas a garantir a confiabilidade e a calculabilidade, respectivamente, a que proíbe a modificação de critérios jurídicos na aplicação da legislação tributária e a clássica regra da anterioridade, as quais, em conjunto, permitem que o contribuinte possa antever minimamente em que quadro normativo é cobrado no presente e poderá ser onerado pelo exercício futuro da imposição exacional por parte do Estado320.
315 NUNES, Jorge Amaury Maia. Segurança jurídica e súmula vinculante. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 84-85. 316 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica: entre permanência, mudança e realização no Direito Tributário. São
Paulo: Malheiros, 2011, p. 682.
317 Ibid., p. 683. 318 Ibid., p. 682. 319 Ibid., p. 61. 320 Ibid., p. 684.
Pode-se arrematar, em breve síntese, que a noção de previsibilidade condiz com a qualidade do Direito de ser cognoscível pelos cidadãos, o qual poderá identificar a norma aplicável a suas relações intersubjetivas com tanto mais clareza quanto seja o grau de segurança jurídica observável na sociedade a que pertença. A verificação proposta se situa na dimensão estática da segurança jurídica.
Por outra banda, verificar-se-á a estabilidade no âmbito da dinamicidade do agir temporal, aspecto no qual a segurança jurídica se volta à proteção da confiança, à salvaguarda das situações consolidadas e à consequente sensibilidade, ou não, dos cidadãos de que o Direito conhecido é apto a garantir certo grau de avaliação para o futuro das consequências jurídicas que poderão advir em decorrência de suas condutas, com vistas a planificar suas atuações em sociedade. Condiz a dimensão dinâmica, portanto, não somente com a passagem do passado ao presente, como também do presente ao futuro.