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CAPÍTULO 2 – A POSSIBILIDADE DE MITIGAÇÃO DO DOGMA DA

2.2 Os efeitos temporais da decisão positiva de inconstitucionalidade originária

2.2.1 A sede constitucional da invalidação retro-operante das decisões positivas de

Ao tratar da fiscalização abstrata sucessiva, a Lei Maior de Portugal estabelece o efeito invalidatório como a principal consequência do decreto de inconstitucionalidade, pelo que se torna clara a eleição pelo legislador constitucional lusitano da tese da eliminação retro- operante do ato normativo acoimado de inconstitucional para este especial tipo de controle179. Neste diapasão, dispõe o art. 282, no 1, da Constituição Portuguesa que a “declaração de inconstitucionalidade [...] com força obrigatória geral produz efeitos desde a entrada em vigor da norma declarada inconstitucional [...] e determina a repristinação das normas que ela, eventualmente, haja revogado”180.

177 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra:

Edições Almedina, 2003, p. 1009.

178 Ibid., p. 1010. 179 Ibid., p. 1012.

180 PORTUGAL. Constituição da República portuguesa. Disponível em: <http://www.parlamento.pt/

A partir da previsão constitucional suso-aludida, a doutrina portuguesa esclarece serem dois os efeitos típicos observáveis nas decisões de acolhimento181 de inconstitucionalidades originárias proferidas no âmbito do controle abstrato sucessivo de constitucionalidade: i) a “nulidade ‘ipso jure’ da mesma norma, produzindo efeitos ex tunc, ou seja, desde a entrada em vigor da norma declarada inconstitucional”182 e ii) a “repristinação do direito revogado pela norma inconstitucional”183. Interessa aos fins do presente trabalho mais o primeiro aspecto salientado.

Registre-se ser este o regime vigente para a hipótese de inconstitucionalidade originária, não sendo aplicável, contudo, à denominada inconstitucionalidade superveniente, situação na qual uma nova norma com status constitucional conflita com normas infraconstitucionais anteriores. Para estes casos, o art. 282, no 2, da Constituição lusitana estabelece “um regime misto ou intermediário entre a eficácia ex tunc absoluta e a eficácia ex

nunc”184, no qual a declaração só produz efeitos desde a entrada em vigor da norma constitucional posterior.

Assim, a doutrina majoritária portuguesa compreende que, ordinariamente, como efeito da invalidação, foi adotada pela Constituição portuguesa a denominada teoria da nulidade185, a qual preconiza a eficácia retroativa da declaração de inconstitucionalidade, significando isto que a invalidação retrotrairá ao momento da entrada em vigor do ato normativo acoimado de inconstitucional e não apenas a partir do momento da declaração, proibindo-se, igualmente, a aplicação das normas reputadas inconstitucionais a situações ou relações jurídicas desenvolvidas à sombra de sua eficácia e que ainda não tenham se perfectibilizado186.

As implicações da nulidade, no âmbito da fiscalização abstrata sucessiva lusitana, são sintetizadas por Carlos Blanco de Morais:

181 Consoante observa Carlos Blanco de Morais, “As decisões de acolhimento são aquelas que julgam procedente

a pretensão contida no pedido, no sentido da inconstitucionalidade ou ilegalidade da norma sindicada”. MORAIS, Carlos Blanco de. Justiça constitucional: o direito do contencioso constitucional. Tomo II. Coimbra: Coimbra Editora, 2005, p. 182.

182 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra:

Edições Almedina, 2003, p. 1013. Neste sentido: MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. Tomo II. 3. ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1991, p. 488.

183 MORAIS, op. cit., p. 183. 184 CANOTILHO, op. cit., p. 1013.

185 Neste sentido, conclui Carlos Blanco de Morais que “o desvalor da invalidade das normas declaradas

inconstitucionais ou ilegais com força obrigatória geral é reprimido no sistema português com a sanção da nulidade”. MORAIS, op. cit., p. 194.

186 CANOTILHO, op. cit., p. 1013. Também neste sentido: MEDEIROS, Rui. A decisão de inconstitucionalidade: os autores, o conteúdo e os efeitos da decisão de inconstitucionalidade da lei. Lisboa:

i) A expulsão da norma inconstitucional do ordenamento, com a consequente

impossibilidade de revivescência;

ii) A cessão imediata de efeitos futuros, a partir do momento de publicação da

decisão de invalidade (Ac. no 143/2002, de 9-4), decorrendo dessa cessação

imperativa, uma regra proibitiva da sua aplicação pelos poderes públicos e privados;

iii) A regra da eliminação de todos efeitos passados que não tenham transitado em

julgado, ressalvadas as situações previstas nos nos 2, 3 e 4 do art. 282187. Não restam dúvidas de que o legislador constituinte português acabou por positivar a visão doutrinária a qual, por conceber a Constituição como fundamento de validade das normas objeto de fiscalização de constitucionalidade, preconiza o dever de a Lei Fundamental “prevalecer incondicionalmente desde o momento em que esta é emitida ou em que ocorre a contradição ou desconformidade, e não apenas desde o instante em que a contradição é reconhecida”188.

Não obstante, a própria Constituição portuguesa abre exceções à regra da invalidação retro-operante ao ressalvar desta fórmula geral, por exemplo, em seu art. 282, no 3189, a intangibilidade dos casos julgados. Tal ressalva opera de maneira autônoma e automática, afigurando-se despiciendo que haja uma declaração explícita e em cada caso por parte do Tribunal190.

Jorge Miranda observa que a exceção do caso julgado, “garante, pois, a autoridade própria dos tribunais como órgãos de soberania aos quais compete <<administrar a justiça em nome do povo>> (art. 205, no 1), assegurando a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimindo a violação da legalidade democrática e dirimindo os conflitos de interesses públicos e privados (art. 205, no 2)”191.

Não obstante, ressalta o Mestre de Lisboa que a ultima ratio desta regra de exceção constitucionalmente prevista não seria o princípio da separação de poderes, mas sim a exigência do princípio material da segurança jurídica192.

187 MORAIS, Carlos Blanco de. Justiça Constitucional: o direito do contencioso constitucional. Tomo II.

Coimbra: Coimbra Editora, 2005, p. 196.

188 MIRANDA, Jorge. Manual de direito constitucional. Tomo II. 3. ed. Coimbra: Coimbra Editora, 1991, p.

489. Esposando semelhante conclusão: MEDEIROS, Rui. A decisão de inconstitucionalidade: os autores, o conteúdo e os efeitos da decisão de inconstitucionalidade da lei. Lisboa: Universidade Católica Editora, 1999, p. 538.

189 “CRP. Art. 282. [...] 3. Ficam ressalvados os casos julgados, salvo decisão em contrário do Tribunal

Constitucional quando a norma respeitar a matéria penal, disciplinar ou de ilícito de mera ordenação social e for de conteúdo menos favorável ao arguido”. PORTUGAL. Constituição da República portuguesa. Disponível em: <http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx>. Acesso em: 8 mar. 2013.

190 ALMEIDA, Luis Nunes de. Tribunal Constitucional de Portugal: a justiça constitucional no quadro das

funções do Estado. In: VII Conferência dos Tribunais Constitucionais Europeus. Lisboa: Tribunal Constitucional, p. 109-146 pt. 3, 1987, p. 138.

191 MIRANDA, op. cit., p. 493. 192 Ibid., p. 494.

O legislador constitucional, todavia, houve por bem excepcionar a própria regra excepcional da intangibilidade do “caso julgado”, ao enunciar a possibilidade de o Tribunal Constitucional proferir decisões que não se enquadrem nesta ressalva quando a norma objeto da fiscalização respeitar a matéria penal, disciplinar ou de ilícito de mera ordenação social e for de conteúdo menos favorável ao arguído (art. 282, no 3, in fine, da CRP)193.

A exceção em estudo encontra-se em consonância com a norma inserta no art. 29, no 4, da Constituição Portuguesa, nos termos da qual ninguém pode sofrer pena ou medida de segurança mais grave do que a prevista no momento da correspondente conduta ou da verificação dos respectivos pressupostos, devendo, outrossim, ser aplicada de maneira retroativa as leis penais de conteúdo mais favorável ao arguido194.

Podemos concluir este tópico observando a existência de um entendimento prevalecente na doutrina lusitana, no sentido de se conceber a denominada nulidade com efeitos retroativos como uma sanção-regra imposta pelo sistema constitucional português195, a qual, todavia, é passível de ser excepcionada em hipóteses inclusive previstas na própria Constituição.

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