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O PROCESSO CIVIL NO CONTEXTO DA CRISE DO PODER JUDICIÁRIO NO BRASIL

S EÇÃO 1: R EPERCUSSÃO GERAL

A regulamentação da repercussão geral teve por base o projeto de lei n.º 6.648, proposto pelo Deputado Odair Cunha, do PT-MG, que enfatizou o papel de Corte Constitucional do Supremo Tribunal Federal e não um Tribunal de terceira ou quarta instância para apreciação de questões já decididas por outros Tribunais.

Em sua proposta, acentuou o Deputado “ser inegável que o STF vive atualmente a maior crise de sua história, abarrotado de processos de relevância duvidosa, capazes tão somente de postergar, obliterar ou impedir a prestação da jurisdição constitucional que a sociedade e as instituições brasileiras entendem devida e rotineiramente por essa clamam e esperam.”

Nesse sentido, apontou que a proposta permitirá que o Supremo Tribunal Federal possa “selecionar” as suas causas, “de modo a se impedir o julgamento de recursos cuja irrelevância constitucional, sob os aspectos

econômico, político, social ou jurídico, seja manifesta. Afastaremos, pois, os recursos extraordinários que apenas refletirem o espírito de emulação e de inconformismo das partes. Faremos, pois, que o STF deixe de ser um Tribunal de terceira ou quarta instância para apreciação de questões já decididas por outros tribunais. Alteraremos o seu perfil, alçando-o à condição de corte constitucional, cuja jurisdição será desvinculada do caso concreto, ainda que continue a ser um órgão do Poder Judiciário.” 97

Assim, regulamentando o §3º do art. 102 da Constituição Federal, com a redação dada pela emenda constitucional n.º 45/2004, a lei n.º 11.418, de 19 de dezembro de 2006, prosseguindo com o escopo da reforma do Poder Judiciário, de uma justiça mais célere e efetiva, acrescentou ao Código de Processo Civil os arts. 543-A e 543-B. O caput do art. 543-A destaca que o recurso extraordinário não será conhecido se a matéria constitucional nele tratada não oferecer repercussão geral.98

A repercussão geral deverá ser demonstrada como preliminar do recurso e a sua análise será feita se a matéria tratada no recurso extraordinário apresentar questões relevantes do “ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa”, segundo dispõe o §1º do art. 543-A do Código de Processo Civil. A análise poderá será feita por uma das Turmas do Supremo Tribunal Federal, caso quatro Ministros, no

97

<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=314951> Acesso em 2.7.2011.

98

O Plenário do STF estabeleceu no julgamento da questão de ordem no agravo de instrumento n.º 664.567 que “(...) a exigência da demonstração formal e fundamentada no recurso extraordinário da repercussão geral das questões constitucionais discutidas só incide quando a intimação do acórdão recorrido tenha ocorrido a partir de 3.5.2007, data da publicação da Emenda Regimental n.º 21, de 30 de abril de 2007” (AI 664.567-QO, Plenário, rel. Ministro Sepúlveda Pertence, DJ de 6.9.2007).

mínimo, decidam pela existência da repercussão geral. Nesses casos, dispensa-se a remessa do recurso extraordinário para o plenário do Tribunal.99

Ademais, conforme art. 543-B do Código de Processo Civil, quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica controvérsia, o Tribunal de origem poderá selecionar um ou mais recursos representativos da controvérsia e encaminhá-los ao Supremo Tribunal Federal, sobrestando os demais recursos até o pronunciamento em definitivo do Tribunal. Negada a repercussão geral, os recursos sobrestados serão considerados automaticamente não admitidos, segundo previsão do §2º do art. 543-B do CPC.100

Caso julgado o mérito do recurso extraordinário, os recursos sobrestados serão apreciados pelos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, Tribunais Regionais Federais, Turmas de Uniformização ou Turmas Recursais dos Juizados Especiais, que poderão declará-los prejudicados ou mesmo fazerem a retratação. Caso mantida a decisão e admitido o recurso, o STF poderá cassar ou reformar, liminarmente, o acórdão contrário à orientação firmada, conforme dispõe o §4º do art. 543-B do CPC.

99

“Art. 543-A (...) § 4o Se a Turma decidir pela existência da repercussão geral por, no mínimo,

4 (quatro) votos, ficará dispensada a remessa do recurso ao Plenário”. E ainda. Caso o

STF entenda pela ausência de repercussão geral, a decisão valerá para todos os recursos sobre “matéria idêntica” (§5º) e o Relator do recurso poderá admitir, na análise da repercussão geral, a manifestação de terceiros interessados (§6º), na linha disposta no Regimento Interno do STF.

100

Em decisão no ARE 724.406, o Presidente do STF decidiu monocraticamente um agravo em recurso extraordinário em um processo que não tinha o recurso extraordinário. Explica-se. O caso chegou pela via do processo eletrônico no STF por equívoco. Não bastasse a remessa ao Supremo, a Presidência da Corte decide monocraticamente que, pela ausência de repercussão geral, o recurso extraordinário estaria prejudicado (DJe 4.2.2013). Inconformado, o Estado de Pernambuco interpõe agravo regimental apontando equívoco do sistema eletrônico, eis que “não há recurso extraordinário interposto nos presentes Autos!” Ou seja, houve decisão da Presidência do STF pela inexistência de repercussão geral em processo que não tinha sequer a peça do recurso extraordinário, mesmo porque, nem de recurso extraordinário se tratava o caso. Após, quase, um ano é proferida decisão

monocrática reconhecendo-se “a inexistência de recurso a ser apreciado” pelo Tribunal.

Registre-se não se tratar de amostra factível para eventuais críticas numéricas ou de volume processual. Todavia, difícil justificar uma decisão por ausência de repercussão geral em processo que nem sequer tem a peça do recurso extraordinário. (ARE 724.406, Estado de Pernambuco vs. Damocles Virgilio Leite do Amaral, rel. Min. Presidente, DJe 27.11.2013).

A repercussão geral, de acordo com a formalidade da lei, se entende como a questão que ultrapassa os limites subjetivos da causa, ou seja, transcende os interesses das partes. Esse conceito, segundo parte da doutrina do direito processual, é vago ou indeterminado, não sendo facilmente identificável no mundo empírico. Está-se diante de uma atividade interpretativa.

Para Teresa Arruda Alvim Wambier, o termo repercussão geral é vago ou indeterminado. É um “signo linguístico, cujo referencial semântico não se enxerga com nitidez”. Teresa Alvim entende que a expressão repercussão geral não é facilmente “identificável no mundo empírico”, pois “o contrário de um conceito ou de uma expressão vaga ou indeterminada é uma expressão ou um conceito preciso”. Não se deve, todavia, segundo Teresa Alvim, “ter a impressão de que o fato de este conceito ter sido incluído, seja na Constituição, seja na lei que disciplina esta figura possa ensejar o exercício do poder discricionário por parte do poder judiciário”.101

Esse debate tem raiz na chamada “crise do Supremo” surgida em razão do acúmulo de processos na Corte no início da década de 60. Com o agravamento dessa crise, diversos mecanismos foram criados com o objetivo de se conter a multiplicação do número de processos, como acentua José Carlos Moreira Alves. Na ocasião, advertiu o Ministro aposentado do Supremo que uma série de providências legais e regimentais deveria ser tomada pela Corte em razão do volume de recursos que a ela subiam. A ideia do fortalecimento das teses em detrimento das demandas individualizadas é revelada na preocupação do Ministro de, num único julgamento, solver a questão da constitucionalidade, ou não, das normas de modo a estancar “no nascedouro, a fonte de recursos extraordinários que lhe seriam interpostos se a declaração de inconstitucionalidade se tivesse de fazer em cada caso concreto”.

Essa passagem revela a preocupação de Moreira Alves:

101

“A Lei 3.396 de 1958 exigiu que o despacho de admissão do recurso extraordinário fosse motivado, à semelhança do que já ocorria com o que não o admitia; a Emenda Regimental, de 28 de agosto de 1963, criou a súmula como instrumento de trabalho para facilitar a fundamentação dos julgados; a Emenda Constitucional 16/65 outorgou ao Supremo Tribunal Federal competência para julgar representações de inconstitucionalidade de lei e atos normativos, estaduais e federais, com a finalidade – que vem expressa na exposição de motivos do projeto dessa Emenda – de lhe permitir, num único julgamento, solver a questão da constitucionalidade, ou não, dessas normas, o que estancaria, no nascedouro, a fonte de recursos extraordinários que lhe seriam interpostos se a declaração de inconstitucionalidade se tivesse de fazer em cada caso concreto; a Emenda Constitucional 1/69 admitiu restrições ao cabimento do recurso extraordinário quando interposto com fundamento nas letras a e d do inciso III de seu artigo 119”.102

Os Tribunais “estão abarrotados de recursos” e isso os leva, segundo Teresa Arruda Alvim, “compreensivelmente, a adotar medidas extremas para diminuir a sua carga de trabalho”. Para a autora, quando a adoção dessas medidas extremas “passa a se traduzir no rigor excessivo e às vezes até indevido no que diz respeito à verificação da presença dos requisitos formais, relativos à admissibilidade dos recursos”, passa-se a querer os “sistemas de filtro, que acabem levando a uma efetiva diminuição da carga de trabalho nos Tribunais, mas cujos critérios sejam legítimos”. Esse é o caso da repercussão geral, conforme Teresa Alvim.103

Osmar Mendes Paixão Côrtes aponta a estrutura do sistema de recorribilidade de natureza extraordinária como uma das razões da crise das Cortes Superiores. Segundo Paixão, “estruturais são as que acompanham a recorribilidade extraordinária desde a sua origem”. Com inspiração no writ of

error, criado para corrigir erros de julgamento relacionados à legislação federal

no direito norte-americano, o recurso extraordinário foi incorporado na primeira

102

Supremo Tribunal Federal em face da nova Constituição – Questões e perspectivas. Arquivos

do Ministério da Justiça, Brasília, jun.- set. 1989.

103

Constituição Republicana, em 1891.104

Ocorre, como observa Osmar Paixão, que, nos Estados Unidos, a competência legislativa dos Estados, na divisão federativa, “é muito maior do que no Brasil, onde grande parte das matérias é de competência federal”. Por essa razão, a consequência natural é que grande parte das questões levadas ao Poder Judiciário, passa pela análise da legislação federal, chegando, assim, “quase que a maioria dos casos à apreciação das Cortes Superiores (encarregadas de apreciar alegações de ofensa às legislações constitucional e infraconstitucional)”.105

Os dados estatísticos106

do Supremo Tribunal Federal identificam claramente uma redução relevante dos processos distribuídos107

:

104

Nesse sentido, em que pese não ser objeto da tese tratar do recurso extraordinário, por todos, CÔRTES, Osmar Mendes Paixão Côrtes. Recurso Extraordinário: origem e desenvolvimento no direito brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 2005. No capítulo III, o autor destaca com profundidade a origem e o desenvolvimento em todas as Constituições, especialmente na Carta de 1988.

105

CÔRTES, Recursos para os tribunais superiores: recurso extraordinário, recurso especial, embargos de divergência e agravos, pág. 18.

106

Para atualização dos dados estatísticos do Supremo Tribunal Federal, conferir: <<http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/sobreStfConhecaStfRelatorio/anexo/relatorio2013.p df>>. Acesso em 28.12.2014.

107

Cf. interessante estudo de Fábio Portela Lopes de Almeida apontando que a repercussão geral não cumpriu ainda sua proposta e que o atual sistema é menos eficiente que o

anterior. “Todavia, até aqui a repercussão geral não cumpriu sua proposta. Pelo contrário,

o sistema de processamento dos Recursos Extraordinários, ao final de 2012, era 41% mais ineficiente do que no modelo processual anterior. As conclusões do I Relatório “Supremo em Números” não são exatas, pois não levaram em conta várias questões que, na verdade, têm resultado em maior morosidade na tramitação dos Recursos Extraordinários. Isolar a análise no âmbito do Supremo Tribunal Federal, esquecendo-se do impacto sobre os demais órgãos do Poder Judiciário, apenas confere legitimidade a mecanismos que têm causado uma piora nos indicadores de celeridade e eficiência. Isso não significa dizer que o instituto da repercussão geral carece de utilidade, mas que é necessário reformá-lo de modo que possa, enfim, atingir sua finalidade. Essas reformas não podem, contudo, partir apenas de considerações teórico-processuais — que, como se demonstrou, levaram à construção de um sistema pouco funcional. É preciso adotar uma leitura institucional que examine as distorções do atual sistema e auxilie na elaboração de alternativas que efetivamente solucionem o problema.” Cf. ALMEIDA, Fábio Portela Lopes de. Quando a busca pela eficiência paralisa o Judiciário. In: <http://www.conjur.com.br/2013-jan-

28/fabio-portela-quando-busca-eficiencia-paralisa-poder-judiciario>. Acesso em

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