CAPITULO 1. CANCRO COLORECTAL
1.9. Tratamento
1.9.3. Quimioterapia
1.9.3.1. Efeitos adversos da quimioterapia
A incidência e toxicidade da quimioterapia está relacionada com a sua dosagem, programa de administração, mecanismo específico de acção, bem como a existência de outras doenças concomitantes e o uso de medidas específicas para prevenir ou diminuir essas mesmas toxicidades (Camp-Sorrell, 2000).
Os medicamentos antineoplásicos usados para o tratamento do cancro do cólon são, de modo geral, bem tolerados, sendo a queda completa do cabelo e as náuseas severas incomuns (Hawthorn, 2000). Contudo, e de um modo geral, a alopécia é dos efeitos adversos mais observados, sendo que a queda do cabelo se inicia 1 a 2 semanas após um único tratamento, atingindo o pico máximo 1 a 2 meses mais tarde (Wilkes, 2001). A mesma autora refere ainda que o grau e a duração da queda dependem da dose de medicamento administrado e do tempo de exposição ao mesmo. Outro dos factores que influenciam a probabilidade e severidade da alopécia é o programa de administração do tratamento. A titulo de exemplo pode referir-se que uma dose baixa, administrada semanalmente, provoca menos queda de cabelo que doses elevadas de 3 em 3 semanas ou uma administração em perfusão contínua, prolongada.
A depressão da medula óssea é um dos efeitos adversos mais preocupantes, tendo em conta que a mesma tem funções muito importantes no organismo humano. Esta complicação torna o doente susceptível a infecções. Wilkes (2001) refere que a infecção ocorre frequentemente durante todo o percurso da doença neoplásica, constituindo uma complicação bastante grave, sendo a causa de morte mais comum em doentes com cancro.
Torna-se assim de extrema importância a elucidação do doente face à necessidade de se proteger, no sentido de evitar ao máximo o contacto com pessoas com sintomatologia de determinadas doenças, nomeadamente infecções respiratórias. Contudo, não pode levar-se esta preocupação ao extremo de reduzir ou eliminar os contactos sociais, tendo em conta que o suporte social e o convívio são de extrema importância, para manter um estado de espírito positivo. A anemia induzida pela quimioterapia é rara tendo em conta que a medula óssea começa a repor os glóbulos vermelhos antes dos seus níveis baixarem drasticamente (Camp-Sorrell, 2000).
A anemia pode ainda ocorrer como consequência da depressão da medula óssea. No entanto, o seu aparecimento verifica-se raramente numa fase inicial do tratamento, tendo em conta que a semivida das células vermelhas é superior à das restantes células hemáticas. Existem, contudo, alguns citostáticos que provocam anemia em qualquer altura, como é o caso da cisplatina (Wilkes, 2001).
As náuseas e vómitos constituem um desafio constante para o doente e para os profissionais de saúde.
As náuseas apresentam diversas formas, variando desde a forma mais aguda, cuja aparição se verifica imediatamente após a administração da medicação; subaguda, ocorrendo 6 a 8 horas após a administração da medicação; atrasada, a qual ocorre 2 a 3 dias após a administração da terapêutica; e antecipatória, como resposta condicionada a anteriores experiências de náuseas e vómitos, após tratamentos quimioterápicos (Decker-Baumann et al., 1999).
Relativamente a esta classificação de náuseas e vómitos Camp-Sorreell (2000) refere que as náuseas e vómitos agudos ocorrem desde poucos minutos até 1 a 2 horas após o tratamento, cessando, em média, após 24 horas do seu inicio; as náuseas e vómitos atrasados persistem ou surgem 24 horas após a administração da quimioterapia e as náuseas e vómitos antecipatórios surgem em cerca de 25% dos doentes e geralmente 12 horas antes do tratamento, como resultado de uma reacção antecipatória condicionada.
Nicholas (1982) refere que as náuseas e vómitos antecipatórios ocorrem, de um modo geral, após o 3º ou 4º ciclos de tratamento e podem afectar em média 33% dos doentes.
O grau de gravidade das náuseas e dos vómitos está relacionado com o tipo de medicamento, com a dose, frequência e método de administração, sendo o risco maior em doentes submetidos a terapêutica endovenosa do que em
doentes cuja medicação é administrada por via oral; sendo o risco também mais elevado em administração terapêutica por bólus do que em perfusão continua (Wilkes, 2001).
O mesmo autor refere ainda que o atraso da excreção do medicamento pode, de igual modo, influenciar o grau de gravidade e a duração da emese, surgindo neste caso a forma retardada das náuseas e vómitos.
As náuseas e vómitos diminuem significativamente a qualidade de vida do doente com cancro, sendo uma das principais causas de morbilidade física e psicológica. A figura 1.2 evidencia os principais problemas relacionados com as náuseas e vómitos provocados pela quimioterapia.
A diarreia é considerada, na maior parte da literatura encontrada, o efeito adverso mais comum, relativamente aos citostáticos de eleição para o cancro do cólon, podendo ser mais grave quando em situações de terapia de modalidade combinada (quimioterapia associada a radioterapia).
A sua ocorrência conduz, de modo geral, a um estado acentuado de debilidade física, pois o aumento do peristaltismo diminui a absorção dos nutrientes, água e electrólitos. A debilidade ocorre devido à combinação de vários factores, incluindo um desequilíbrio entre a absorção e a excreção verificadas no intestino delgado (Camp-Sorrell, 2000).
Figura 1.2. Principais problemas relacionados com as náuseas e os vómitos provocados pela terapêutica quimioterápica.
Fonte: Wilkes, J. (2001). Potencial Toxicities and Nursing Management. IN: Barton- Burke, M. et al. Cancer Chemoterapy. A Nursing Process Approach. Third Edition, Massachusetts, Jones and Bartlett Publishers.
Náuseas e Vómitos
Desequilíbrio electrolíticoDeficit do volume de fluidos Hiponatrémia Desidratação
Função renal deteriorada
Alteração do conforto Intolerância à actividade Deficiente auto- cuidado Défice em diversas actividades Distúrbios do padrão de sono Distress Psicológico Ansiedade Náuseas e vómitos antecipatórios Coping inefectivo Impotência Não conformidade com o tratamento
Lesão relacionada com o trauma da mucosa gastrointestinal Hemorragia Úlceras Esofágicas (Síndrome de Mallory- Weiss)
A diarreia é ainda apontada como um dos efeitos colaterais mais comuns e potencialmente severos do uso do 5-fluorouracil, precedendo, na maioria dos casos, a depressão severa da medula óssea, o que conduz à obrigatoriedade de suspensão da medicação (Wilkes, 2001).
Decker-Baumann e colaboradores (1999) salientam que a gravidade e duração da diarreia dependem do agente quimioterápico, dose administrada, pico terapêutico e frequência de administração.
De um modo geral, a diarreia pode ser controlada através de alterações dietéticas. Contudo, por vezes é necessário recorrer ao uso de medicamentos específicos. Em casos mais severos o internamento torna-se necessário, como forma de restaurar o equilíbrio hidroelectrolitico e permitir efectuar uma pausa alimentar, necessária para o restabelecimento da mucosa intestinal.
A obstipação é referida como um sintoma pouco frequente mas bastante limitativo. Os factores de risco que contribuem para a obstipação incluem os analgésicos narcóticos, diminuição da actividade física, dieta baixa em fibras, diminuição da ingestão de líquidos e permanência na cama (Camp-Sorrell, 2000).
A inflamação das mucosas é outro dos efeitos adversos observado durante o tratamento quimioterápico. É provocada pela destruição de células epiteliais do tracto gastrointestinal. As mais comuns são a esofagite e a proctite. Pode também haver estomatite. Esta inflamação pode ser grave predispondo a infecções (Wilkes, 2001).
Ainda relativamente à inflamação das mucosas, Camp-Sorrell (2000) salienta que quando detectada tardiamente ou ignorada, pode evoluir para ulceração bastante dolorosa, hemorragia e infecção secundária.
Uma das principais causas da infecção oral é a Cândida Albicans, sendo este fungo responsável por mais de um terço das infecções orais, em doentes a receber quimioterapia para tumores sólidos (Decker-Baumann et al., 1999).
Para prevenir o seu aparecimento é imprescindível a manutenção de uma boa higiene oral, assim como prevenir lesões nas mucosas.
Apesar da gravidade dos efeitos adversos da quimioterapia, Molassiotis (2004) refere que não é só a toxicidade e a tolerância do tratamento escolhido que constituem problema para os doentes; as alterações da imagem corporal e o
funcionamento sexual constituem um enorme problema para muitos doentes, bem como os problemas relativos à sua capacidade para realizar as tarefas diárias, o impacto do tratamento a nível psicossocial e ainda os problemas cognitivos relacionados mais directamente com a quimioterapia.