Seção VI — O TRATADO EM VIGOR
42. Efeitos sobre terceiros
modificarem situações jurídicas objetivas, produzem sobre toda a comunidade internacional o mero efeito da exortação ao reco nhecimento. Outros, expressivamente, repercutem sobre tercei ros não como normas jurídicas, mas como fatos. Menos comuns são as hipóteses em que o tratado realmente opera como norma sobre terceiros determinados, quer no sentido de conferirlhes direitos, quer no sentido de obrigálos.
a) Efeito difuso: as situações jurídicas objetivas. Se um
acordo de permuta territorial entre os Estados A e B modifica o curso da linha limítrofe que os separa, esta nova situação jurí dica objetiva se impõe, indiscriminadamente, aos restantes Es tados, ainda que para o só efeito de se inteirarem do que vem a ser, desse momento em diante, a correta cartografia da região. De modo também difuso, porém menos abstrato — em razão dos interesses que suscita —, opera sobre terceiros em geral o
tratado com que W e Z, Estados condôminos de águas interiores fluviais ou lacustres, entendem de abrilas à livre navegação civil de todas as bandeiras. Efeitos difusos de tal gênero, pode produzilos sobre a inteira comunidade das nações até mesmo um ato unilateral legítimo. Por mais forte razão, não há como recusar aos tratados semelhante virtude.
Lembrando, porém, que no direito privado se encontra a origem da ideia das situações objetivas oponíveis a terceiros, Reuter adverte que, naquela ordem, essa oponibilidade é absoluta porque o contrato gerador de tal situação é verificado e
garantido por uma autoridade comum, a do Estado48. O quadro é diverso na ordem
internacional, não centralizada, onde a soberania dos atores permite a cada um deles o eventual não reconhecimento da situação que se pretende jurídica e objeti va. Afinal, a mais notável dentre as características da soberania do Estado é a prerrogativa de negar ou pôr em dúvida a estatalidade de seus pares, sem que qual quer poder supranacional lhe imponha, a respeito, uma definição irrecusável.
b) Efeito aparente: a cláusula de nação mais favorecida.
Este é o caso em que determinado terceiro sofre consequências diretas de um tratado — geralmente bilateral — por força do disposto em tratado anterior, que o vincule a uma das partes. Tal perspectiva não se esgota no domínio da cláusula de nação mais favorecida, cuja habitual evocação decorre de seu valor didático, a título de exemplo.
Os Estados A e B celebram em 1975 um tratado de comércio em que se con cedem favores mútuos, cada um deles prometendo gravar os produtos originários do outro com uma alíquota privilegiada do imposto de importação. Fica estabele cido que, se no futuro um deles vier a tributar com alíquota ainda mais baixa os produtos de outra nação qualquer, o copactuante de agora terá direito imediato a igual benefício. Isto é, em linhas rudimentares, a cláusula de nação mais favoreci da. Em 1980, B e C concluem tratado de igual gênero, cujo teor permite saber que
os produtos de C terão, quando importados por B, tratamento tarifário mais brando que o garantido, cinco anos antes, aos produtos de A. Dizse então que este último, com direitos de nação mais favorecida, recolhe diretamente os efeitos benéficos do tratado BC, em que ele próprio não é parte. Recolheos, porém, pela virtude da quele tratado anterior, em que se inscrevera a cláusula. Resulta claro, assim, que o pacto ulterior não produz efeito sobre terceiro como norma jurídica, mas como simples fato. Significando a concessão de favor maior a outra potência, este tratado opera como o fatocondição antes previsto no acordo que abrigou a cláusula de nação mais favorecida; sendo esta última, pois, a norma jurídica que efetivamente garante benefício ao suposto terceiro Estado — na realidade um terceiro em relação ao tratadofato, mas uma parte no tratadonorma.
c) Previsão convencional de direitos para terceiros. A Con
venção de Viena estipula, no art. 36, que mesmo a criação de direitos para um terceiro reclama o consentimento deste, mas lembra que o silêncio faz presumir aquiescência. O dispositivo, deste modo, compreende desde a estipulação em favor de outrem — inspirada no direito privado e compatível com o direito das gentes — até a abertura dos tratados multilaterais à adesão.
Esta abertura é, sem dúvida, a criação, para terceiros, do direito de aderir ao pacto, cujo exercício os retira daquela condição para transformálos em partes. E o horizonte numérico dos terceiros varia desde a totalidade dos Estados existentes — caso das grandes convenções sobre comunicações, direito humanitário, e outros temas — até a estrita singularidade — caso da Carta da ODECA, que esteve, desde sua entrada em vigor em 1951, aberta à adesão da república do Panamá. Em todos esses casos, o efeito jurídico sobre terceiros consiste na realidade da prer rogativa que se lhes abre, e independe de que efetivamente exercitem o direito conferido.
d) Previsão convencional de obrigações para terceiros. O
sistema de garantia. Se se pretende que um Estado resulte obri
gado por um acordo internacional de que não é parte, está natu ralmente pressuposto o seu consentimento, em molde mais se guro que o da hipótese precedente. Da Convenção de Viena:
“Art. 35. Tratados que criam obrigações para terceiros Estados. Uma obriga ção surge para um terceiro Estado, de uma disposição de um tratado, se as partes no tratado têm a intenção de criar a obrigação por meio dessa disposição, e o ter ceiro Estado aceita expressamente por escrito essa obrigação”.
Parece árduo conceber em abstrato semelhante quadro. Se o consentimento que aí se impõe é expresso e escrito, não se definiria melhor o suposto terceiro como uma parte no tratado, distinta das demais por motivo puramente procedimental? O exemplo tirado do sistema de garantia ilustra, entretanto, a si tuação a que se refere o dispositivo de Viena. E há outros exem plos aventáveis. Quando, no desfecho de uma negociação cole tiva, certo Estado aceita expressamente o encargo de depositário, e por qualquer motivo acaba não ratificando, ele próprio, o tra tado em causa, vêloemos na exata condição de terceiro obri gado, prevista pelo art. 35.
A Convenção de Viena não menciona o sistema de garantia, limitandose, em matéria de obrigação para terceiro, à norma genérica do art. 35. Aquele sistema fora precocemente descrito na Convenção da Havana sobre tratados (1928), cujo art. 13 dispõe:
“A execução do tratado pode, por cláusula expressa ou em virtude de convê nio especial, ser posta, no todo ou em parte, sob a garantia de um ou mais Estados. O Estadogarante não poderá intervir na execução do tratado, senão em virtude de requerimento de uma das partes interessadas e quando se realizarem as condições sob as quais foi estipulada a intervenção, e ao fazêlo, só lhe será lícito empregar meios autorizados pelo direito internacional e sem outras exigências de maior al cance do que as do próprio Estado garantido”.
A qualidade do Estadogarante vem a ser, justamente, a de um terceiro para quem o tratado cria obrigações, que ele expressamente aceita, preservando, no entanto, sua perfeita distinção dos Estadospartes. Tal a situação de Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos no tratado bilateral que Equador e Peru firmaram no Rio de Janeiro, em 1942, a propósito de suas pendências territoriais.