Seção I — ENTENDIMENTO DO FENÔMENO CONVENCIONAL
16. Procedimento
procedimento adotado para sua conclusão. Mais que a medida cronológica desse processo — um dado falacioso —, interessa nos a questão de saber se, dentro dele, é possível detectar duas
fases de expressão do consentimento das partes, este entendido
como prenunciativo na primeira, a da assinatura, e como defi nitivo na segunda, a da ratificação, ou se, num quadro unifásico,
o consentimento definitivo se exprime na assinatura, desde logo criadas as condições para a vigência do tratado.
Esta é, pois, aquela mesma chave classificatória que os publicistas franceses adotam para distinguir os tratados em sentido estrito dos acordos em forma sim
plificada15. E nada mais razoável, quanto aos primeiros, que a referência ao sentido
estrito. A história do direito das gentes demonstra — e o veremos na hora oportuna — que o processo solene ou formal, com duplo momento de expressão do ânimo das partes, é aquele que se encontra na origem da experiência convencional entre as nações, sendo o outro o resultado de uma prática bem mais recente.
O mais importante tópico a ser aclarado, neste passo, diz respeito à pretensa identidade entre os acordos de procedimento breve — hábeis, pois, para viger desde a assinatura, sem neces sidade de ratificação — e os acordos executivos, assim chamados sob a inspiração da prática convencional norteamericana.
Acordo executivo é expressão criada nos Estados Unidos
para designar aquele tratado que se conclui sob a autoridade do chefe do poder Executivo, independentemente do parecer e
consentimento do Senado. Ora, o critério que nos orienta neste
tópico de classificação tem a ver com a natureza, mais ou menos complexa, do procedimento convencional — ou, caso se prefira, com a necessidade ou desnecessidade de ratificação. Não se volta este critério, absolutamente, para o problema de saber quais os poderes internos envolvidos na formação da vontade dos Estados pactuantes — a melhor dizer, de cada um dos Estados pactuantes. Um tratado em forma simples, concluído e posto em imediato vigor pela assinatura das partes no instrumento único, ou por troca de notas, não se confundirá com um acordo execu tivo se os governos pactuantes estiverem agindo com apoio em aprovação parlamentar tópica, expressa pelo Legislativo ao tempo mesmo da negociação ou antes. Ao reverso, é desengana
damente executivo o tratado solene, de procedimento longo, em que o intervalo entre a assinatura e a ratificação de cada parte se vê preencher não com a consulta ao respectivo parlamento — acaso desnecessária, segundo seu sistema constitucional —, mas com estudos e reflexões confinados no puro âmbito governa mental.
Percebese, além disso, que a extensão do procedimento é fator objetivo: cabe aí considerar o tratado em si mesmo, e apurar as circunstâncias de sua conclusão, as condições de sua entrada em vigor. A seu turno, a distinção entre o tratado exe cutivo e seu natural modelo contrastante — qual seja o tratado abonado pelo par lamento — traz a marca da subjetividade: para bem operála, não se levará em conta qualquer característica do próprio tratado, mas a maneira de agir de cada uma das partes pactuantes, em atenção às normas do seu direito interno que distribuem competência para o comprometimento exterior. Consequência dessa subjetividade é que um mesmo tratado pode ter caráter executivo para algumas das partes e não para outras, o que se dá com mais assiduidade no plano bilateral. Assim, o Acordo
militar BrasilEstados Unidos, de 15 de março de 195216, foi um acordo executivo
apenas do ponto de vista norteamericano, havendo motivado no Brasil a necessá ria consulta ao Congresso, preliminar à ratificação. O art. XII desse tratado dispu nha sobre sua entrada em vigor, marcandoa para a data em que o governo brasi
leiro notificasse ao governo dos Estados Unidos sua ratificação.
À luz do critério classificatório de que ora nos ocupamos, essa desigualdade na postura das partes não perturba a noção de que o tratado assim concluído é, objetivamente, um tratado de procedimento longo. A assinatura, no desfecho da negociação, não teve a virtude de fazêlo firme em definitivo — embora, sob a ótica singular de uma das partes, isso fosse juridicamente possível, e talvez dese jável. Só a ratificação, apesar de unilateral, pôde propiciar, nos termos do tratado, sua entrada em vigor.
É fundamental que jamais se identifique a realidade cientí fica com a mera probabilidade estatística. Feita essa advertência, cumpre reconhecer que o procedimento breve tem servido, com frequência infinitamente maior, à conclusão de tratados bilate
rais, e de importância limitada, que à celebração de pactos
coletivos sobre os interesses mais eminentes da comunidade das nações. A prática geral e, com particular uniformidade, a práti ca brasileira põem à mostra duas outras características do pro cedimento breve. Ele convive melhor com o sistema da troca de notas que com a lavratura do tratado em instrumento único. De outro lado, sua simplicidade não costuma oferecer lugar à par ticipação do chefe de Estado. Pelo poder Executivo, exprimindo o consentimento nacional, fala e assina, via de regra, o ministro das relações exteriores. Em síntese, e desde que evitemos o erro de ver na reunião desses elementos autônomos um dogma de fé, será possível descrever, por oposição ao tratado em sentido es trito, um modelo de tratado em forma simples, da mais alta in cidência na prática internacional contemporânea: aquele acordo
bilateral, sobre matéria de importância limitada, que se conclui
mediante procedimento breve, sob a forma da troca de notas, envolvendo apenas o ramo executivo do poder público das par tes, e sem intervenção formal dos chefes de Estado.
17. Natureza das normas. A distinção entre tratados contratu