Seção V — ENTRADA EM VIGOR
38. Registro e publicidade
cláusulas secretas no acervo convencional, quando não por tratados secretos na sua inteireza. Com a era das organizações internacionais sobrevém, em 1919, a proibição desse gênero de diplomacia. Mandava o Pacto da Sociedade das Nações que todo compromisso internacional que um Estadomembro viesse a concluir fosse por ele imediatamente registrado na secretaria da organização, que o faria publicar. E acrescentava: “Nenhum desses tratados ou compromissos internacionais será obrigatório antes de ter sido registrado”45.
Mais que a abolição da diplomacia secreta, o sistema de registro e publici dade inaugurado pela Sociedade das Nações trazia consigo o mérito de dar a expressão escrita do direito das gentes ao conhecimento geral, como sucede com o acervo legislativo de todo Estado. Pretendiase, pois, que o direito internacional escrito passasse a ser tão acessível — a qualquer interessado — quanto as leis nacionais. Desse modo, tratados de comércio ou de aliança militar entre os Esta dos X e Y não seriam menos conhecidos do governo de W, ou dos pesquisadores universitários de Z, que dos próprios pactuantes. Sobre os tratados recairia, com o tempo, a presunção de notoriedade que, numa ordem jurídica estatal, vale para todo texto legislativo.
a) O sistema da Sociedade das Nações. A obrigação de
registrar pesava sobre todo Estado membro da SDN, ainda quan do pactuasse com Estados estranhos à organização. A Secretaria aceitou, não obstante, o registro proposto em casos avulsos por Estados não membros, como a Alemanha e os Estados Unidos da América. Pouquíssimos tratados bilaterais tendo como parte uma organização internacional figuram na coleção da SDN. Mesmo os acordos de sede entre a Sociedade e a Confederação Suíça, e entre a Corte Permanente de Justiça Internacional e os Países Baixos, não fizeram objeto de registro e, por isso, não foram publicados na coleção.
Compreendendo os vinte e cinco anos de sua existência legal, a Sociedade das Nações publicou duzentos e cinco volumes, com um total de quatro mil, oito centos e trinta e quatro tratados da mais variada dimensão e natureza.
O art. 18 do Pacto da SDN não pretendeu alcançar senão os tratados que se concluíssem a partir de quando fundada a Socie dade. A omissão, no dizer do mesmo artigo, tornava não obri
gatório o compromisso. Essa linguagem causou algum debate,
afastandose porém, desde logo, a ideia da nulidade do compro misso: era inconcebível o sacrifício da norma pacta sunt servan
da como instrumento de sanção da inobservância de regra menor. Prevaleceu em doutrina, e na escassa jurisprudência pertinente, a tese da inoponibilidade relativa do tratado não registrado: seria ele válido entre as partes, além de objetivamente sadio no que concerne a terceiros em geral, ou perante órgãos de arbitra gem e outros foros. Não poderia, contudo, ser invocado ante os órgãos da SDN ou ante a Corte da Haia.
b) O sistema das Nações Unidas. Quanto à consequência
da omissão de registro, a Carta da ONU viria a ser mais explí cita que o Pacto de sua antecessora. Dispõe o art. 102 do texto de São Francisco:
“1. Todo tratado e todo acordo internacional, concluídos por qualquer mem bro das Nações Unidas depois da entrada em vigor da presente Carta, deverão, dentro do mais breve prazo possível, ser registrados e publicados pela Secretaria. 2. Nenhuma parte em qualquer tratado ou acordo internacional que não tenha sido registrado de conformidade com as disposições do parágrafo 1 deste artigo poderá invocar tal tratado ou acordo perante qualquer órgão das Nações Unidas”.
A exemplo do secretáriogeral da SDN, o das Nações Unidas se abstém de todo desempenho censório, observando, não obs tante, o regulamento do art. 102, adotado pela Assembleia Geral em 1946 e emendado em ocasiões ulteriores. Esse regulamento, que amplia com desenvoltura a dimensão normativa do artigo em
causa, estatui o registro ex officio — pelo secretáriogeral — do tratado em que a ONU ou qualquer de suas instituições especia lizadas figure como parte ou como depositário. Diz também que a obrigação de registrar desaparece para as demais partes quando o tenha feito uma delas; e veda o registro antecipado de todo compromisso que não haja ainda entrado em vigor.
Ao final de 2004 a coletânea das Nações Unidas ultrapassa 2.100 volumes e o número de tratados ali publicados chega perto de 50.000. Sobrevive de todo modo no espírito dos estudiosos a dúvida quanto à real abolição da diplomacia secreta, quanto ao êxito da intenção que conduziu originalmente os redatores do Pacto da Sociedade das Nações, em 1919, a inovar o direito das gentes com a disciplina do registro e da publicidade. É certo que não são poucos os casos contemporâneos de omissão de registro: devemse eles, porém, não à burla do dispositivo em exame, mas à pretendida insignificância — muitas vezes à natureza ancilar — de bom número de avenças internacionais, no juízo dos Estados pactuantes.
É possível que ainda neste momento concluamse acordos internacionais secretos, no plano bilateral, e sob o molde “executivo” — já que o envolvimento congressional não parece conviver bem com sigilos antijurídicos. Mas é certíssimo que, em tais casos, a exemplo do que ocorre com o gentlemen’s agreement, o tra tado secreto tem sua operatividade condicionada à permanência dos dignitários celebrantes no poder. E, por óbvio, à honradez que se lhes possa creditar, abstraída a lembrança de que afrontaram, com a tratativa secreta, uma norma de direito in ternacional expressa e notória, e provavelmente também alguns dispositivos de relevo no direito público interno de cada um.
c) Registros regionais e especializados. Com o sistema de
registro e publicidade das Nações Unidas, de irrestrita amplitu de, coexistem sistemas menores, ora em organizações regionais que pretendem registrar todos os compromissos que envolvem seus membros, ora em organizações especializadas, onde se vê dar a registro determinados acordos, ratione materiae.
O Pacto da Liga dos Estados Árabes (1945) determinou o registro na Secre taria da organização, no Cairo, de todos os compromissos — incluindose os do passado, desde que ainda vigentes — de seus Estadosmembros. A OEA mantém
um perfeito sistema de registro e divulgação dos tratados interamericanos, não exigindo, porém, que seus membros tomem qualquer providência em tal sentido. No âmbito dos registros especializados em razão da matéria destacamse o da OIT, o da OACI e o da AIEA.