Seção IV — EXPRESSÃO DO CONSENTIMENTO
36. Vícios do consentimento
cuidamos não só dos fenômenos que, em mais de um ramo do direito, se denominam vícios do consentimento, mas também da irregularidade deste quando formalizado em afronta a nor mas de direito público interno, tocantes à competência para consentir.
a) Consentimento viciado pela desobediência ao direito
público interno. Este tema não tem que ver com a impostura ou
com o abuso ou desvio de autoridade praticado por negociadores,
nem com qualquer contexto em que se desentendam certo go verno e seus agentes, mas com o ilícito praticado pelo poder
Executivo quando externa, no plano do direito internacional, um
consentimento a que não se encontra constitucionalmente habi litado. Convém recordar, de início, que raras são as hipóteses de irregularidade flagrante. Quando um governo se entende auto rizado a pactuar sem consulta ao respectivo parlamento, terá em seu prol no mínimo um acervo de precedentes ou algum apoio doutrinário, afora o caso em que espere recolher simplesmente o benefício da dúvida. Se incontroversa, porém, sua incompe tência para o ato internacional já consumado, e se fluente da lei funda mental a disciplina da matéria, dificilmente o princípio
pacta sunt servanda servirá para fazer convalidar, na ordem
interna, semelhante afronta ao primado da constituição.
Poucas luzes oferece a respeito a jurisprudência brasileira. Não há notícia de que se tenha diretamente arguido no Supremo Tribunal Federal a inconstituciona lidade de tratado à conta da falta de aprovação parlamentar. Por falta de legitimi dade ativa, o Supremo não pôde conhecer de um mandado de segurança impetrado em 2002 por alguns parlamentares que denunciavam a não submissão ao Congres so de um acordo entre o Brasil e os Estados Unidos da América sobre o uso da base de lançamento de foguetes de Alcântara (MS 23.914). Entretanto, por mais de uma vez aquela corte, ao garantir no âmbito espacial desta soberania a fiel aplicação de tratados internacionais, deixou claro que, aprovados pelo Congresso, e depois
promulgados, integramse eles na ordem jurídica local44.
A Convenção de Viena consagra a essa questão o seu art. 46:
“Disposições de direito interno sobre competência para concluir tratados. 1. Um Estado não poderá invocar o fato de que seu consentimento em obrigarse por um tratado foi expresso em violação de uma disposição de seu direito interno sobre competência para concluir tratados, a não ser que essa violação seja mani festa e diga respeito a uma regra de seu direito interno de importância fundamen tal. 2. Uma violação será manifesta caso seja objetivamente evidente, para qualquer Estado que proceder, na matéria, de conformidade com a prática normal e de boafé”.
Regra de importância fundamental é, em princípio, a que se exprime na lei maior de todo Estado que possua constituição escrita. Em parte alguma se pretende rá atribuir importância desse nível a regras — expressas em leis ordinárias, resoluções, ou o que mais seja — pertinentes ao estrito procedimento, como as que têm a ver, por exemplo, com prazos ou turnos de votação parlamentar. Entendese manifesta, por outro lado, a violação dessa regra eminente, quando perceptível ao copactuante que proceda nos termos do uso comum e da ética. Parece claro, no texto de Viena, o propósito de reduzir ao mínimo a invocabilidade internacional da afronta ao direito interno, só deixando que valha tal argumento contra o copactuante, e no sentido de dar por nulo o vínculo, quando o procedimento daquele faça duvidar, em certa me dida, de seu conhecimento rudimentar da prática corrente, ou de sua boafé.
b) Erro, dolo, corrupção e coação sobre o negociador. O
erro é a hipótese menos rara na prática. Cuidase, é óbvio, do
erro de fato. O erro de direito, que não socorre o indivíduo em
direito interno, menos valeria, como ensina Rousseau, aos Es tados, presumidamente habilitados a avaliar as consequên cias jurídicas de seus próprios atos. E o erro de maior incidência tem dito respeito a questões cartográficas em tratados de limites. A coação sobre o negociador é algo de que o passado oferece exemplos surpreendentes, à vista da estatura hierárquica da ví tima: o Papa Pascoal II, a quem Henrique V do Sacro Império manteve preso por dois meses para forçar a conclusão de uma concordata, em 1111; e Francisco I de França, cativo de Carlos V em Madri até que pactuasse, em 14 de junho de 1526, ceden do a Borgonha à coroa hispânica.
A Convenção de Viena procura distinguir o nulo do simplesmente anulável, embora sua linguagem seja por vezes ambígua. Ela dá aos vícios do consentimen to uma disciplina onde se vê que a coação sobre o negociador merece tratamento mais severo que o dolo e a própria corrupção, estes dois fenômenos abrindo — como o erro — a possibilidade de arguição pelo Estado prejudicado, enquanto, no caso do primeiro, o texto induz a ideia da nulidade pleno jure.
c) Coação sobre o Estado. Tal como a coação sobre o ne
ternacional importa nulidade absoluta, nos termos do art. 52 da Convenção de Viena:
“Coação de um Estado pela ameaça ou emprego da força. É nulo um tratado cuja conclusão foi obtida pela ameaça ou o emprego da força em violação dos princípios de direito internacional incorporados na Carta das Nações Unidas”.
Mediante coação sobre o Estado celebraramse, entre outros pactos: os de 1773 e de 1793 (ÁustriaPolôniaPrússiaRússia), sobre a partilha do território polonês, ratificados mediante ocupa ção militar de Varsóvia e violência contra o parlamento; o de 16 de setembro de 1915 (EUAHaiti), sobre o controle financeiro do Haiti pelos Estados Unidos, firmado também num quadro de ocupação militar; o de março de 1939 (AlemanhaTchecoslová quia), submetendo a segunda à soberania da primeira, firmado mediante ameaça do bombardeio de Praga. Toda a doutrina de expressão alemã — incluindo Verdross e Meurer — entendeu nulo o Tratado de Versalhes, de 28 de junho de 1919, imposto à Alemanha pelos vencedores da primeira grande guerra. Entretan to, a crítica que se pode fazer ao chamado “ditado de Versalhes” é endereçável, por igual fundamento, à generalidade dos tratados de paz. O cenário pressuposto por semelhantes pactos é o da mesa em que, finda a guerra, defrontamse vencedores e vencidos, não havendo como encontrar nestes últimos a liberdade convencional de que dispõem os primeiros.
É certo, porém, que a negação da validade dos tratados de paz poderia con duzir, por progressiva analogia, também ao repúdio dos “tratados desiguais”, assim chamados — sobretudo pela extinta escola soviética — os que se firmam entre Estados de tal maneira distantes na escala do poder, que um deles deveria presumir se inerme, abúlico e dependente em face do outro. Mas este caminho nos condu ziria, se nele coerentemente prosseguíssemos, ao descrédito de um número inava liável de tratados do passado e do presente. Nas relações internacionais — como, de resto, nas relações humanas — todo interesse conducente ao ato convencional
é fruto de uma necessidade, e, em última análise, de alguma forma de pressão. O penoso quadro característico da negociação dos tratados de paz é uma consequên cia inevitável da guerra, e se a ordenação jurídica da sociedade internacional não conseguiu ainda evitar esta, não há como prevenir seus efeitos negativos sobre o ideal do livre consentimento. O que, pois, resulta nulificado pelo dispositivo de Viena é o pacto obtido por ameaça ou emprego de força, e não mais que isto.