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2. A CRÔNICA – UM GÊNERO MULTIFACETADO

2.6 Análise das crônicas trabalhadas em classe

2.6.1 Análise prévia da professora

2.6.1.4 Em defesa das nádegas

A crônica que segue apresenta também a possibilidade de estabelecer relações entre o gênero notícia de jornal e o gênero crônica: quanto ao conteúdo temático, quanto à presença de alguns elementos dispostos em ambos os textos, que os aproximam e os distanciam, além das referências a escritores e movimentos de setores da sociedade. O intertexto está presente: na referência à notícia, a Manuel Bandeira e na forma de organização que remete à receita ou a outro similar, como estatuto, código ou instruções de uso.

Outro elemento relevante para o ensino e que deve ser considerado é o humor construído por meio da sequência injuntiva que impregna toda a crônica. Além desses aspectos deve ser ressaltada a presença do texto não verbal que chama a atenção do leitor e antecipa os sentidos do texto verbal.

Em defesa das nádegas

Para inchar estádios, CBF manda encolher bumbum. Confederação conclui que o padrão internacional é demais para o conforto do torcedor; orienta federações a cortar espaço e dar só 45 cm para “bunda no chão” nas arquibancadas. Folha Esporte, 26. set. 2004.

Durante muito tempo, a expressão "bundão" foi considerada depreciativa no Brasil. Agora sabemos que representará também um transtorno. Num país que sempre valorizou as cadeiras (ao menos nas mulheres) o espaço para assento foi reduzido, ao menos nas arquibancadas dos estádios, lugar antes popular e democrático. Pergunta: o que fazer? Aqui vão algumas sugestões: 1. Proteste. Proteste, e de forma organizada. Recrute seus amigos

bundudos e forme com eles o MDNG, o Movimento de Defesa das Nádegas Grandes. Denunciem o preconceito, característico de uma certa cultura. Lembrem que, para os hotentotes, por exemplo, nádegas opulentas são sinal de saúde. Criem um lema do tipo “As nádegas exigem seu espaço”. Formem piquetes, como na Argentina. Enfim, lutem.

2. Compre dois ingressos, em vez de um. Se você não tem disposição para

a briga e se seu orçamento permite, arranje espaço adicional. Isto vai lhe valer olhares de inveja e ressentimento, mas você pode ignorá-los: concentre-se na partida.

3. Arranje um amigo magrinho. O que sobrar de espaço para ele você

4. Assista ao jogo na posição “plantando bananeira”. Isto pode ser um

pouco difícil no começo, mas a verdade é que, na arquibancada, as mãos ocupam muito menos lugar do que as nádegas. Além disto, assistir à partida de cabeça para baixo proporciona uma visão original – aquela visão que os técnicos brasileiros procuram tão afanosamente.

5. Tente sentar usando só uma nádega. Isto pode ser mais fácil na ponta da

arquibancada, mas nos outros lugares, desde que você fique semi- reclinado, não é de todo impossível. A coluna vertebral vai sofrer, mas resistência ao sofrimento faz parte do kit de sobrevivência do torcedor brasileiro.

6. Faça uma lipoaspiração das nádegas. Não há dúvida de que este

procedimento ganhará grande impulso no futuro próximo. É possível prever até a instalação de miniclínicas nos próprios estádios, prontas para atuar em caráter de urgência.

7. Assista aos jogos em casa. Lá, como Bandeira em Pasárgada, você é

amigo do rei, isto se você não for o próprio rei. Lá, você poderá dizer: “Terei as nádegas que quero/no assento que escolherei.

O escritor Moacyr Scliar escreve às segundas-feiras, nesta coluna, um texto de ficção baseada em matérias publicadas no jornal. Segunda-feira,4 de outubro de 2004 COTIDIANO Folha de S.Paulo

O texto inicia com a inserção do fato noticioso: “Para inchar estádios, CBF manda encolher bumbum” – fato apresentado de forma sugestiva e irônica. O vocabulário empregado reflete as escolhas do cronista: quanto ao léxico, quanto aos tipos de segmento, quanto à variante linguística usada - formal e informal; à organização sintática e diálogo entre gêneros e textos. No caso desta crônica, a organização reflete a intenção do cronista de se aproximar do leitor e chamar sua atenção.

A crônica foi organizada como se fosse um conjunto de regras ou mandamentos para o comportamento dos “gordinhos” nos estádios. Essa organização é feita por meio de uma enumeração em que a ironia se apresenta todo o tempo - a voz do cronista entra em conflito com a voz do opositor.

Em função desse tipo de organização, as sequências são injuntivas, justificando-se assim o uso do imperativo, sugerindo instrução, ordem ou conselho. A progressão da crônica segue a seguinte orientação de ações:

1.ª Protestar: fazer passeatas, movimentos.

O cronista usa também siglas que fazem referência a sindicatos, movimentos de entidades que “lutam” por melhores condições de trabalho, de vida. A combinação é irônica, procurando, de certa forma, ridicularizar essas ações, pois o cronista tem conhecimento de que serão ações inúteis.

2.ª Desigualdade social: a sugestão da compra de dois ingressos deixa evidente as diferenças econômicas e sociais.

3.ª O hábito de levar vantagem sobre o outro: explora-se a condição do outro – situação de desvantagem em que o outro se encontra.

4.ª Proposta absurda: tentativa de ridicularizar algumas tentativas de conduzir as partidas, fazendo uso de “técnicas” não tradicionais.

5.ª Ironia ao sofrimento do torcedor.

6.ª Ironia à comercialização e ao marketing-oportunismo. 7.ª Solução sensata para a situação que se apresenta..

As sugestões dadas revelam o raciocínio do cronista e seu processo criativo. Destaca-se também nesse processo o dialogismo. A interlocução está presente, inicialmente, por meio da convocação do leitor e da pergunta que lhe é dirigida - respondida prontamente pelo cronista.

Durante muito tempo, a expressão "bundão" foi considerada depreciativa no Brasil. Agora sabemos que representará também um transtorno. Num país que sempre valorizou as cadeiras (ao menos nas mulheres) o espaço para assento foi reduzido, ao menos nas arquibancadas dos estádios, lugar antes popular e democrático. Pergunta: o que fazer? Aqui vão algumas sugestões:

A crônica “Em defesa das nádegas” obedece, portanto, a uma organização diversa das anteriores quanto às sequências usadas.

Quanto ao conteúdo do texto, ele é abordado em um mundo discursivo conjunto, próximo ao da interação social, pois há marcas no texto que evidenciam a presença do produtor do texto e de seu interlocutor, dada a presença de perguntas e de sequências injuntivas: “Num país que sempre valorizou as cadeiras (ao menos nas mulheres) o espaço para assento foi reduzido, ao menos nas arquibancadas dos estádios, lugar antes popular e democrático. Pergunta: o que fazer? Aqui vão algumas sugestões: 1. Proteste. Proteste, e de forma organizada (...)”

São nove parágrafos que apresentam sequências explicativas e injuntivas, relacionadas ao eixo do expor, caracterizando-se assim o discurso misto, com predomínio do discurso interativo, dada a intenção do produtor do texto e dos tipos de sequências usadas.

A caracterização da arquitetura textual, proposta por Bronckart, se diferencia da proposta de classificação de Dolz e Schneuwly (2004). Estes relacionam as sequências injuntivas aos gêneros do prescrever - adequados a situações em que se deseja instruir. Essa classificação parte de um critério comunicativo, tem, portanto, relação com os domínios sociais de comunicação e das capacidades de linguagem dominantes.

Diferentemente, Bronckart (1999) privilegia o folhado textual, os tipos de discurso e de sequências usadas associadas ao contexto de produção e sujeitos envolvidos. No caso dessa crônica, no folhado, predominam sequências injuntivas, destinadas a fazer agir. Esse tipo de organização é pouco comum, numa crônica. Normalmente, a sequência injuntiva é encontrada em textos prescritivos4, os quais apresentam a função de regular comportamentos ou descrever ações. No caso da crônica em questão, sugere medidas a serem tomadas pelos interlocutores, possivelmente os torcedores e frequentadores usuais de estádios de futebol.

Três parágrafos da crônica fazem referência a assuntos polêmicos: redução do assento X gordura (excesso de peso) e modismo das cirurgias plásticas:

3. Arranje um amigo magrinho. O que sobrar de espaço para ele você

ocupa.

5. Tente sentar usando só uma nádega. Isto pode ser mais fácil na ponta da

arquibancada, mas nos outros lugares, desde que você fique semi- reclinado, não é de todo impossível. A coluna vertebral vai sofrer, mas resistência ao sofrimento faz parte do kit de sobrevivência do torcedor brasileiro.

6. Faça uma lipoaspiração das nádegas. Não há dúvida de que este

procedimento ganhará grande impulso no futuro próximo. É possível prever até a instalação de miniclínicas nos próprios estádios, prontas para atuar em caráter de urgência.

A organização é criativa: há um jogo de linguagem construído por meio da combinação de sequência injuntiva + sequência explicativo-argumentativa que proporciona reflexão e riso, pois o comentário colocado na sequência é crítico e divertido. Duas vozes confrontam-se nessas sequências: a do cronista e a voz social que representa os interesses e valores da época.

Como estratégia usada para finalizar o texto, o autor acrescenta novo item à enumeração. É introduzida a referência final que fecha o conjunto.

O cronista introduz na crônica, o poeta Manuel Bandeira de forma bastante sugestiva e enfática. Ele apresenta uma solução divertida, crítica e “contundente”, pois vai de encontro à medida da CBF:em vez de ir ao estádio, o torcedor pode ficar no conforto de sua casa, não se submetendo à falta de espaço nas arquibancadas e aos preços abusivos cobrados.

A referência visual às “nádegas” e o emprego da palavra no lugar do termo “mulher”, permitem ao leitor recuperar o trocadilho: nádegas X mulher; no assento X

na cama. Fica assim evidente o paralelismo construído. Observe os termos grifados

e sublinhados:

7. Assista aos jogos em casa. Lá, como Bandeira em Pasárgada, você é amigo do rei, isto se você não for o próprio rei. Lá, você poderá dizer: “Terei as nádegas que quero/no assento que escolherei.”

Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei

No conjunto, a crônica revela a intenção do produtor: criticar, comentar, divertir o leitor e convocá-lo à ação.