Embora a linha de análise alicerçada nas ações bélicas pareça bastante semelhante com a anterior - dos “meios de luta violenta” –, sua diferença é substancial. Aqui a reflexão se coloca em outro patamar. Vai para além dos meios de luta, concebendo-se, como parte de seu discurso explicativo, aspectos de um marco de análise muito mais amplo e contextual, tais como o território, as temporalidades, os objetivos de luta, as estratégias, os atores etc. Seu maior diferencial está em visualizar a existência de duas ou mais partes — sujeitos — que estão em rivalidade, em combate, e, nessa condição, a preexistência de um conflito que leva a esse tipo de ações bélicas, nas quais há manifestações de violência.
Cumpre notar que aqui não se excluem os meios de luta nem obviamente seu caráter violento; a diferença está em adquirirem outro sentido (e peso) dentro de um contexto de análise maior. Esse contexto de análise mais amplo é o da guerra, uma categoria que permite pensar não só nas formas de confrontação utilizadas, mas também nos conteúdos, nas causalidades, e, em especial, nos atores envolvidos. Segundo Karl Von Clausewitz, um dos mais destacados teóricos modernos desse campo, a guerra constitui “un acto de fuerza que se lleva a cabo para obligar al adversario a acatar nuestra voluntad [...], esa fuerza para confrontarse a la fuerza recurre a las creaciones del arte y de la ciencia [...], esa fuerza constituye el medio para imponer nuestra voluntad al enemigo, ese es el objetivo” (1999: 29-30).
Trata-se, então, da confrontação entre dois (ou mais) bandos que lutam para impor sua vontade ao outro, num contexto de luta de interesses que se chocam e recorrem à força como meio para conseguir seus objetivos. Além disso, caracteriza-se como uma atividade de caráter social que se vale de campos sociais e humanos como a arte e a ciência. Isso é importante porque comumente tende-se a considerar, sob posições “sentimentalistas”, que o uso da força em sua máxima proporção não está acompanhado de racionalidade. A racionalidade está presente, só que nesse caso é definida levando-se em conta a capacidade de resistência e de ofensiva do inimigo, o que pode ocasionar ou não à adoção de medidas extremas.
Nessa direção, Clausewitz enfatiza que é preciso compreender a guerra transcendendo seu próprio marco, isto é, como um fim em si e para si, e dimensioná-la como um meio que necessita, antes de tudo, de um objetivo político. Essa é a sua causa original, e “será la medida tanto para el propósito a alcanzar mediante la acción militar como para los esfuerzos
necesarios para cumplir con este propósito”. Dito de outro modo, isso seria aceitar a natureza política da guerra, uma vez que, além de entendê-la como um produto de determinadas circunstâncias políticas, ela mesma constitui um ato político e, nessa medida, “una continuación de la actividad política, una realización de ésta por otros medios” (CLAUSEWITZ,1999: 37-47).
Por conseguinte, a violência, apesar de cumprir um papel crucial, não seria seu motor inicial, pois ela é expressão de um conflito, um recurso acionado em determinadas contradições políticas (que também incluem fatores de ordem econômica, social e cultural) que se tornam, para os atores implicados, insolúveis.
Ora, nesse contexto de confrontação surgem formas específicas de condução da guerra, entre elas, a guerrilha, que para a presente pesquisa tem um significado central. A noção de guerrilha como técnica de combate faz referência a uma luta armada levada a cabo por pequenos grupos, constituídos de maneira irregular, sem estrita obediência às normas estabelecidas nas convenções internacionais, com uma alta mobilidade e com grande capacidade de atacar de surpresa.
Contudo, essa noção é limitada por causa dos aspectos de caráter técnico, quando o sentido histórico do guerrilheiro — ou partisiano em sua antiga acepção — tem interessantes implicações conceituais. Pois, apesar de ter havido, através da história, fenômenos que poderiam ser classificados como “guerrilheiros”, a noção a que essa categoria alude, tal como hoje se conhece, surgiu no contexto da guerra de guerrilhas que o povo espanhol levou a cabo, durante os anos de 1808 e 1813, contra as tropas napoleônicas. Nesse período, pela primeira vez, um povo lutou contra um exército moderno, regular, bem organizado, valendo-se, para isso, de técnicas irregulares tais como: o fator surpresa, o conhecimento do terreno, a clandestinidade e o apoio de redes sociais locais.
Desde então, começou a se desenvolver uma nova doutrina da guerra e da política, cuja singularidade reside no fato segundo o qual homens comuns do povo — não os que pertenciam à nobreza ou à casta militar que já haviam combatido (e sido derrotada) no exército regular espanhol — atreveram-se a lutar de forma irregular contra um exército regular moderno. Arriscaram-se a combater desde suas localidades e frente a todas as limitações, em defesa de uma “grande causa”, a “pátria”, conforme expressa Carl Schmitt: “En España el guerrilheiro — un pobre diablo, un primer caso típico de carne de cañón
irregular en las controversias políticas mundiales — se atrevió a librar una guerra sin esperanzas” (SCHMITT, 1984: 3).
Esse evento proporcionou a abertura de uma teoria do “guerrilheiro moderno” que se fundamenta em vários elementos. Em primeiro lugar, seu caráter irregular, isto é, que não faz parte dos exércitos regulares dos modernos Estados Nacionais. Em segundo lugar, algo essencial que marca a diferença com outros combatentes ou formas de organização armada (que também recorrem a essa forma de confrontação, a guerrilha) é seu intenso compromisso político, o qual, assim como afirma Schmitt, é especialmente forte nas lutas de caráter revolucionário, implicando, inclusive, “su integración total” (SCHMITT, 1984: 7). Em terceiro lugar, certas técnicas de combate relacionadas com à agilidade, à rapidez, às mudanças de ataque e retirada, com extrema mobilidade. E, por último, o que se denomina como seu caráter telúrico, isto é, o vínculo especial que mantêm com o solo, com a população autóctone e com as características geográficas especiais dos países de que são oriundos — montanha, floresta, selva ou deserto (SCHMITT, 1984: 9).
Com respeito a essa última característica, Schmitt (1984) já advertia, nos anos 60 do século passado, que era preciso considerar — para o futuro — certa tendência de mudança do caráter telúrico do guerrilheiro devido ao incremento da tecnologia, à industrialização, e à crescente urbanização que podia levar à paulatina desvinculação desses combatentes de sua terra nativa. Este é o caso das modernas guerrilhas urbanas, ou das redes internacionais que agem para a consecução de certos objetivos estratégicos. Não obstante, é de observar que ainda prevalecem guerrilhas que se ajustam muito bem ao modelo aqui descrito, como é o caso das guerrilhas colombianas do ELN e das FARC.
Com respeito a esta última característica, Schmitt (1984) já advertia, nos anos 60 do século passado, que era preciso considerar — para o futuro — certa tendência de mudança do caráter telúrico do guerrilheiro devido ao incremento da tecnologia, à industrialização, e à crescente urbanização que podia levar ao paulatino desarraigo desses combatentes com sua terra nativa. Esse é o caso das modernas guerrilhas urbanas, ou das redes internacionais que agem sob certos objetivos estratégicos. Não obstante, é de se observar que ainda prevalecem guerrilhas que se ajustam muito bem ao modelo anteriormente descrito, como é o caso das guerrilhas colombianas do ELN e das FARC.
Claro que um traço fundamental, além dos apontados acima, é o fato de que, desde os primeiros desenvolvimentos conceituais da noção de “luta guerrilheira” — nos planos
insurrecionais da Prússia (1808-1813) —, esta tenha sido considerada como ― “una cuestión eminentemente política de caracter directamente revolucionaria, relacionada con ideas tales como el pueblo en armas, insurrección, guerra revolucionaria resistencia y subversión frente al orden constituido” (HAHLWEG, [1808/13]; apud SCHMITT, 1984: 22) ―. Essas idéias preliminares foram posteriormente retomadas pelos adeptos da teoria revolucionária que delas se apropriaram, em particular, por Lênin. Com o teórico russo, o conceito de “guerrilha” adquiriu uma clara inflexão revolucionária. Argumentava ele que a violência e as guerras eram inevitáveis e, indicava, nessa direção, que a guerra de guerrilhas era um componente necessário do processo revolucionário geral, mas não o único nem o fundamental. Pois, segundo sua concepção, as guerrilhas cumpriam o mesmo papel que outros meios de luta legais ou ilegais, violentos ou pacíficos, regulares ou irregulares, aos que se devia recorrer segundo as circunstâncias. O objetivo era a revolução comunista em todos os países do mundo e aquilo que lhe servisse era justo e bom (LÊNIN, 1905).
Mas o que realmente favoreceu uma nova visão dessa noção foi o sentido dado ao inimigo. Como se sabe, toda guerra se baseia na valoração do inimigo. Com o surgimento da modalidade de guerra de guerrilhas, questionou-se o inimigo convencional da guerra mitigada e substituiu-se pelo conceito do inimigo “verdadeiro”, que recorre a meios violentos de toda ordem, inclusive o terror, na busca do aniquilamento do contrário. Assim, o sentido da luta e sua legitimidade estaria situado no nível de inimizade existente. Essa noção de “inimigo verdadeiro,” introduzida com a prática guerrilheira, é radicalizada na perspectiva de Lênin, que a leva ao terreno do “inimigo absoluto” que deve ser aniquilado através da guerra revolucionária (SCHMITT, 1984).
Esse enfoque conceitual sobre a guerra de guerrilhas é então difundido pelo movimento revolucionário internacional, em particular, pelos partidos comunistas fundados nos diferentes países. Essa foi também a via de divulgação que se propagou pela América Latina. Um evento cumpriu um decisivo papel na divulgação e na acolhida que esse enfoque teve entre diversos setores da esquerda militante: o triunfo da Revolução Cubana no ano de 1959, por meio da modalidade de guerra de guerrilhas.
Esse evento não só gerou um modelo empírico que devia ser seguido e imitado, mas também uma interpretação conceitual de como devia ser feito e de como a revolução devia ser orientada. E, nesse sentido, a vida e obra do legendário guerrilheiro Ernesto Che Guevara teve um papel fundamental. Por essa razão, cabe mencionar o texto Guerra de Guerrilhas (1972),
escrito pelo líder guerrilheiro, que se converteu numa obra de citação obrigatória e, mais que isso, num tipo de “manual procedimental” que serviu de guia (bíblia) às diversas iniciativas revolucionárias surgidas à época. Nesse texto, Guevara reitera os princípios da “guerra de guerrilhas” e enfatiza três elementos principais: primeiro, que as forças populares podem ganhar uma guerra contra o exército regular; segundo, que nem sempre é preciso esperar a que existam todas as condições para a revolução porque o foco insurrecional pode criá-las; e terceiro, que na América subdesenvolvida o terreno da luta armada deve ser fundamentalmente o campo (GUEVARA, 1972: 27).
Este é, em síntese, o marco conceitual e político no qual se enquadra a perspectiva de “guerra de guerrilhas”, que servirá de guia para a presente pesquisa, em especial, para caracterizar os componentes de tipo bélico e sócio-históricos que nela estão presentes. Todavia, como defenderei mais adiante, considero também necessário recorrer a outros conceitos para compreender e aprofundar outras dimensões sociais, que no contexto de confrontação estudado entram em jogo.
Caracterização da guerra na Colômbia
A caracterização do conflito vivido na Colômbia envolve muitas controvérsias, não só no terreno da política, mas também na academia. Pois, este é um assunto que contém questões não só formais, mas aspectos de vital importância, tais como a própria natureza do conflito e, portanto, as formas de afrontá-lo (RAMIREZ, 2002; PIZARRO, 2002; POSADA, 2001). O tipo de qualificativo que se escolha trará consigo sensíveis repercussões políticas, assim como nos assinala Eduardo Posada: “Interesa, en primer lugar, al mismo camino escogido domésticamente para lograr la paz […] en segundo lugar, a las relaciones formales entre el país y el mundo exterior. La aplicación del derecho internacional ha estado tradicionalmente determinada por la forma como se clasifique el conflicto” (POSADA, 2001: 3).
O propósito da presente reflexão não é o aprofundamento em torno das repercussões de tipo sociopolítico, mas das implicações de tipo conceitual que se originam dessa polêmica e que se relacionam diretamente com meu objeto de estudo. Pois, de acordo com a caracterização que se faça do conflito, também se assumirá uma determinada posição frente aos GAR, que condiciona a forma de vê-los, de situá-los social e simbolicamente e de estabelecer parâmetros de interação com o restante dos atores sociais. Nessa direção, retomarei as
principais perspectivas desse debate, tentando discernir sobre as possibilidades explicativas que estas fornecem e sua pertinência para a presente análise.
Novamente, aparece aqui a tendência dominante no contexto acadêmico colombiano de enfatizar, em qualquer situação relacionada ao conflito, a perspectiva da “violência”. O problema dessa visão situa-se, como já foi assinalado, no fato de o conceito de violência ser bastante ambíguo, ao mesmo tempo em que tende a ser usado de maneira indiscriminada para designar qualquer situação em que haja o uso da força e/ou da agressão. Então, como ocorre com freqüência com esse tipo de categorias — demasiado amplas — com base nas quais se tenta falar de tudo e se termina não explicando nada, da mesma forma, a singularidade do conflito colombiano termina sendo ofuscada no marco dessa categoria ambivalente.
No fundo, voltamos ao mesmo debate sobre a limitação que impõe assumir os meios como um todo. Certamente há o uso da violência, mas em que contexto? De que tipo de conflito se está falando? Antes de entrar em pormenores, é importante ter claro o contexto político mundial, assim como a forma em que são encarados os distintos conflitos locais e globais. A esse respeito, é preciso lembrar que nas últimas quatro décadas houve dois momentos bem diferenciados. O primeiro, circunscrito à lógica da guerra fria e à bipolaridade — entre os modelos do capitalismo e do socialismo —, que deram origem às lutas anticoloniais, de liberação nacional e cujo conteúdo era concebido como revolucionário na modalidade de guerra insurrecional e de guerra de guerrilhas. O segundo momento, o da pós-guerra fria – com a queda do muro de Berlim, dos estados socialistas da Europa Oriental e a desintegração da antiga União Soviética –, caracteriza-se pela unipolaridade, a globalização, e quando os conflitos passam a ser vistos como “novas guerras” e sob a noção do terrorismo (PIZARRO, 2002: 166).
Nessa perspectiva, a concepção do caráter do conflito colombiano tem mudado ostensivamente. Assim, no decorrer das décadas de 1960 a 1980, período em que surgiram e se consolidaram os dois principais grupos revolucionários, o ELN e as FARC, o conflito colombiano foi qualificado como uma insurreição revolucionária de tipo “comunista”, sob a modalidade de guerra de guerrilhas. Embora, desde os anos 1990 esse modelo explicativo perdeu força, começaram a surgir novos olhares. E quais são eles? Em que se fundamentam?
Como sublinha Eduardo Pizarro (2004), queira-se ou não, a visão do conflito colombiano vai estar condicionada ao clima internacional posterior ao 11 de setembro, para além da
pertinência ou não da caracterização deste como uma “guerra contra o terrorismo”. Esse tipo de leitura vai-se reforçar com a inclusão das FARC e do ELN na lista de organizações terroristas tanto por parte dos Estados Unidos quanto da União Européia. De fato, um dos enfoques que tem ganhado mais força nos últimos tempos é o que se centra nas ações terroristas e que se denomina a “guerra contra o terrorismo”, uma guerra de caráter mundial que tem sido empreendida contra todas aquelas organizações políticas e/o militares apontadas como <terroristas>. Na Colômbia tais posições começam a ser defendidas sob o seguinte argumento: que os GAR foram, em sua origem, organizações orientadas por ideais políticos, ou “con raíces históricas de índole ideológica”, mas, na atualidade, há uma crescente conversão para o terrorismo, assim como afirma Rangel: “lo que más diferencia la guerrilla de hoy de su pasado ancestral es el uso permanente y sistemático de una arma inedita contra la población: el terror masivo. Y esto parece haberla pervertido irremediavelmente” (RANGEL, 1999: 6).
Vários dos mais destacados analistas dessa problemática apontam para essa nova caracterização dos GAR, e, em conseqüência, para uma mudança na concepção da natureza do confronto, pois “ya no se trataría, predominantemente, de una lucha contraguerrillera, sino de una guerra contra redes clandestinas” (PIZARRO, 2002: 178). Apesar dessa tendência ser explícita, num texto posterior Pizarro alerta para o cuidado que se deve ter com a noção de “guerra contra o terrorismo”, porque essa posição “asimila de manera superficial a los grupos guerrilleros con las redes terroristas de otras naciones”. Não parece ser muito nítida a posição a seguir, pois o próprio autor afirma não se encontrar em condições de propor um conceito alternativo e sintético diante desse fenômeno (PIZARRO, 2004: 80).
Outro olhar de muita relevância nos meios políticos, sociais e acadêmicos, é aquele que vê nos fatores de ordem econômica a causa principal da permanência e continuidade do conflito colombiano. É um enfoque que pode ser caracterizado como “economicista”, à medida que sustenta a explicação do fenômeno da guerra no peso decisivo da variável econômica, nesse caso, das economias “ilegais”, sobretudo do narcotráfico. Entre os mais notáveis expoentes dessa posição se encontra Richani Nazih38 (2003), que defende a teoria dos “sistemas de guerra”, que se configura com base em três condições chaves: (a) o fracasso das instituições para mediar ou dar solução aos conflitos; (b) o nível de êxito dos opositores para adaptar-se
38 Pesquisador norte-americano que realizou diversos estudos em território colombiano durante o período de
1994-1998, valendo-se de técnicas de pesquisas mistas: entrevistas estruturadas, num total de 200, muitas outras de caráter informal, além da revisão de fontes primárias (RICHANI, 2003).
ao conflito mediante o estabelecimento de uma “política econômica positiva”, e que fazem da guerra a melhor opção; e (c), equilíbrio entre os atores do conflito que resulta num “impasse cômodo”. Logo após fazer uma análise das principais guerrilhas colombianas (FARC e ELN), o autor conclui que:
[…] el Estado permitió a la guerrilla lograr una economía política positiva, dotándola de unos activos políticos, militares y económicos lo suficientemente importantes como para motivar una búsqueda por mantener el status quo en lugar de una victoria definitiva o un arreglo negociado (NAZIH, 2003: 108).
Isso significa dizer, então, que, para as guerrilhas, é mais cômodo, e inclusive desejável, manter-se em estado de guerra, e, se formos um pouco mais longe nessa análise, poderíamos afirmar que os GAR na Colômbia terminaram trocando os fins de luta política pela comodidade dos meios alcançados. Em outros termos, nessa perspectiva é mais rentável continuar na guerra e essa seria a principal razão de sua permanência histórica (pelo menos na última fase econômica de êxito). Essa postura “economicista” levou tanto os acadêmicos quanto os “tomadores de decisões” a assumirem que a guerra na Colômbia tinha se “despolitizado”, e, nesse encadeamento discursivo dominante, propor “menos economía, menos política, y a menos política, más espacio para la solución puramente militar” (GUTIERREZ, 2007: 17).
Essa tem sido também uma das principais e mais recorrentes argumentações utilizadas pelo governo norte-americano, ao integrar e/ou misturar o conflito insurgente com o conflito antidrogas, que eles definem como “guerra ambígua”. Isso lhes outorga uma poderosa arma estratégica em momentos políticos chaves como o ocorrido na fase de discussão e aprovação do chamado “Plan Colombia”39, quando defenderam a “convergencia necesaria entre la lucha antinarcóticos y la lucha contrainsurgente en Colombia” (PIZARRO, 2004: 175).
Estudos posteriores como os de Francisco Gutierrez (2007), Gonzalo Sánchez (2006; 2007) e Eduardo Pizarro (2004), advertem sobre as limitações desse enfoque analítico, sublinhando que as drogas na Colômbia cumprem, por exemplo, o mesmo papel que os “diamantes de
39 O Plano Colômbia, denominado “Plan para la paz, la prosperidad y el fortalecimiento del Estado”, foi
aprovado pelo governo norte-americano, em 13 de julho de 2003, como uma estratégia integral para enfrentar o problema do narcotráfico e instituir assim “[...] los pilares democráticos de la sociedad colombiana”, cujo custo ascendia a US$ 7.558 milhões de dólares, dos quais US$ 3.500 deviam proceder da “ajuda internacional” (ESTRADA, 2001). Entre as mais importantes críticas a esse plano está a observação de que é uma estratégia fundamentalmente militar, nacional e internacional, compreendida dentro de “una amplia estratégia de